terça-feira, 4 de agosto de 2020

Sóya

Há-de nascer de novo o micondó —
belo, imperfeito, no centro do quintal.
À meia-noite, quando as bruxas
povoarem okás milenários
e o kukuku piar pela última vez
na junção dos caminhos.

Sobre as cinzas, contra o vento
bailarão ao amanhecer
ervas e fetos e uma flor de sangue.

Rebentos de milho hão-de nutrir
as gengivas dos velhos
e não mais sonharão as crianças
com gatos pretos e águas turvas
porque a força do marapião
terá voltado para confrontar o mal.

Lianas abraçarão na curva do rio
a insónia dos mortos
quando a primeira mulher
lavar as tranças no leito ressuscitado.

Reabitaremos a casa, nossa intacta morada
.

CONCEIÇÃO LIMA
in: A dolorosa raiz do micondó




Conceição Lima nasceu em 1961 na ilha de São Tomé, em São Tomé e Príncipe, país africano de língua portuguesa que se tornou independente de Portugal em 1975, após 500 anos de colonização. Ela cresceu em meio às lutas políticas pela independência de seu país. Formada pelo King’s College de Londres, Conceição é jornalista e trabalha para a BBC.  aqui

E mais:

Estreou com a colectânea de poemas O útero da casa publicado em Lisboa pela Editora Caminho em 2004. Dois anos depois publicou, também na Caminho, A dolorosa raiz do micondó. O micondó, ou imbondeiro, é uma árvore considerada sagrada por muitos povos africanos. Espécie de baobá, é conhecida como árvore da vida, devido à sua longevidade, que chega a seis mil anos. Portanto, em muitas comunidades, as gerações passam e as árvores sagradas permanecem, assistindo a tudo. É por isso que no poema “Sóya” (lenda) Conceição Lima escreve: “Há-de nascer de novo o micondó — / belo, imperfeito, no centro do quintal”. A árvore é uma referência ― quase certeza ― de futuro e de esperança. (...)



Boa semana, meus amigos.



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Sóya - Lenda, conto, fábula


quarta-feira, 29 de julho de 2020

Rumores da História

Para que serve a História? Pergunta feita mais do que uma vez aqui neste espaço, acabando quase sempre por não encontrar uma resposta que se enquadre na espuma do tempo que temos vindo a atravessar. Diz-se que precisamos conhecer o passado para avaliarmos o presente e prepararmos o futuro. 

Mas, na realidade, não é o que constatamos. À História como disciplina e matéria de investigação não tem sido dada a importância devida. Depois admiramo-nos da ignorância que lavra não só em relação à nossa própria história como no que se refere à história mundial.




Sabemos que ela, a História, servia, essencialmente, para cantar os feitos individuais dos heróis, ou seja, centrada em personalidades, acabando por ser uma crónica de acontecimentos, une histoire événémentielle

A partir do movimento historiográfico de L'École des Annales, fundada por Lucien Febvre e Marc Bloch em 1929, verifica-se a tendência para se ir mais além, focando-se na substituição do tempo breve pelos processos de longa duração com o objectivo de tornar inteligíveis a civilização e as mentalidades. 

Fernand Braudel continua essa visão, preponderante nos anos 1960 e 1970, e Jacques Le Goff conduz a terceira geração dos Annales, que ficou conhecida como a Nova História, segundo a qual toda a actividade humana é considerada história, rompendo assim com a compartimentação das Ciências Sociais (História, Sociologia, Psicologia, Economia, Geografia humana e assim por diante) e privilegiando os métodos pluridisciplinares.

Nisso deveria centrar-se o estudo e a análise da pegada humana. E são tantos e tão variados os temas que compõem o percurso da humanidade. Um deles, que parece incluir todos os outros, é a tendência de dominação de uns povos em relação a outros. Dominação concretizada através de invasões, guerras, espoliações, tanto no plano económico como no do roubo da identidade e dignidade. E esta problemática conhece o seu maior alcance quando se fala da escravatura.  Se queremos entender essa questão deveremos ser estudiosos e interessados. Há que ir buscar a sua génese ao princípio de tudo, desde que o mundo é mundo. 

Muitas das obras monumentais que continuamos a admirar, fazendo turismo, é fruto de trabalho escravo. Lembram-se das pirâmides? E isto é apenas um dos muitos casos. Povos aculturados, dominados nas suas tradições, como por exemplo, homens cultos da antiga Grécia levados para servirem de preceptores a filhos dos grandes de Roma, ficando em situação de menoridade. E Reis africanos que, muito embora praticassem a escravatura entre rivais, foram depois levados a participar numa emboscada de proporções inimagináveis: a escravatura, em grande escala, de povos africanos conduzindo à sua dispersão por vários pontos do globo, muitos desconhecendo ainda o continente donde partiram os seus avós. 

De nada vale andarmos por aí a destruir estátuas e a eliminar este ou aquele filme, livro, pintura, de listas elaboradas em dado momento, cometendo em muitos casos erros de avaliação. Uma das maiores lições que deveremos ir buscar ao passado é a vontade de não repetir erros cometidos em contextos diferentes daquele em vivemos. 

Atentemos nisto: há muitas formas de escravatura que enfermam o presente. Continuamos a ser escravos de nós mesmos, dos nossos preconceitos e, muitos de nós, senhores daqueles a quem dizemos amar; a violência doméstica é sinal disso. Há também crimes de ódio recalcado, racismo latente e muitas vezes expressado de forma assustadora, como vimos há poucos dias neste Portugal de brandos costumes. 

Além do mais, existe: a prepotência das autoridades e regimes que dificultam o acesso à justiça; o tráfico de seres humanos de forma mais ou menos encapotada, para realização de trabalhos vários, com anulação da identidade, bem como para exploração sexual. 

Há tanto, tanto por que lutar e reclamar. Façamo-lo de forma séria e assertiva de modo a que nos entendam. Procuremos compreender e assinalar momentos do passado que tenham repercussão no presente. Para isso a História tem um papel relevante, devendo ser colocada no lugar que lhe é devido, para o nosso bem, na Educação, no quotidiano. 

E lembremo-nos de que há especialistas na matéria: os historiadores. Esses deveriam ser chamados sempre que a nossa sanidade é posta à prova. 

Boa quarta-feira, meus amigos.

Saúde.



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imagem: daqui
Ver, se interessar:
École des Annales
Escravatura

sábado, 25 de julho de 2020

Vi-te



Na transparência da luz, numa tarde cálida de Verão, vinhas no teu cavalo branco atravessando a planície dourada salpicada de pontos verdes. De entre as cortinas, da maciez de sedas e cetins soube que eras tu. Adivinhei o teu perfil, o teu porte belo e sobranceiro. Ali fiquei cega pela claridade que emanava da tua figura. A espera tornou-se eterna na reverberação solar. Soube então que eras o desejado, apenas ilusão e miragem. 

Não era 
manhã de nevoeiro...

E ao longe o mar...



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imagem: net
Nota: a foto que inseri inicialmente não se via.
Agradeço à Cidália e à São por me avisarem.
beijo

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Rainha do Fado


Hoje, Centenário do nascimento de Amália. 


Não podia deixar de assinalar o dia, embora repetindo aquilo que todos nós sabemos. Redundante, dir-me-ão... mas deixá-lo.

Amália da Piedade Rebordão Rodrigues, 1920/1999, foi uma cantora, actriz e fadista portuguesa, geralmente aclamada como a voz de Portugal e uma das mais brilhantes cantoras do século XX.

Tornou-se conhecida como a Rainha do Fado e, por consequência, devido ao simbolismo que este género musical tem na cultura portuguesa, foi considerada por muitos como uma das suas melhores embaixadoras no mundo.


Marcante contribuição sua para a história do Fado, foi a novidade que introduziu de cantar poemas de grandes autores portugueses consagrados, depois de musicados, de que é exemplo a lírica de Luís de Camões ou as cantigas e trovas de D. Dinis.(Lembremo-nos de Alain Oulman).  Teve ainda ao serviço da sua voz a pena de alguns dos maiores poetas e letristas seus contemporâneos, como David Mourão Ferreira, Pedro Homem de Mello, José Carlos Ary dos Santos, Alexandre O'Neill ou Manuel Alegre. aqui

De tantas e tão belas canções e fados maravilhosos, imaginem, escolho o senhor extra-terrestre...



É que gosto mesmo de ouvi-la neste registo.

Boa quinta-feira, meus amigos.


domingo, 19 de julho de 2020

O único impossível

Mordaças...A um poeta?
Loucura!

E por que não,
Fechar na mão uma estrela.
O Universo num dedal?

Era mais fácil
Engolir o mar
Extinguir o brilho aos astros

Mordaças a um poeta?
Absurdo!

E por que não
Parar o vento
Travar todo o movimento?

Era mais fácil deslocar montanhas com uma flor
Desviar cursos de água com um sorriso

Mordaças!
A um poeta?
Não me façam rir!...

Experimentem primeiro
Deixar de respirar
Ou rimar...mordaças
Com liberdade

Ovídio Martins


Este é o homem das palavras excessivas e emotivas, como vimos em "Não vou para Pasárgada" e "Os flagelados do vento leste", aqui publicados anteriormente. 

Nasceu em São Vicente, Cabo Verde, em 17 de Setembro de 1928. Poeta, jornalista, co-fundador do Suplemento Cultural (1958, São Vicente). O seu envolvimento em actividades de promoção da independência valeram-lhe a pena de prisão e o exílio nos Países Baixos. 

Em Ilha a ilha. Dor a dor, post deste Xaile de Seda, tive a oportunidade de falar sobre o seu posicionamento face ao evasionismo, no que diz respeito aos poetas cabo-verdianos da geração claridosa.




Ovídio Martins dedica o poema "O único impossível", a Baltasar Lopes da Silva, também poeta e publicado neste blog, por diversas vezes.


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Poema: "O único impossível", in No reino do Caliban