quarta-feira, 1 de abril de 2020

O aconchego do sofá, do pijama...

...e não só. Do roupão, do robe, das pantufas com peúgas a meio das canelas e duma batinha de trazer por casa por cima do pijama, no nosso caso, mulheres... É o que mais apetece nestes dias caseiros, forçados. Que coisa mais apetecível do que acordar de manhã e, com os pés um pouco a arrastar, caminhar para a casa de banho, depois agarrar numa caneca de café e bocejando sentarmo-nos no sofá? E assim por diante pelo dia fora, pois que não há nada para fazer, a rotina foi subvertida, fazer o quê?

Seres gregários, sentimo-nos algo perdidos. Mas também temos aquela capacidade imensa de adaptação, para o bem e para o mal, diga-se. E como temos um cérebro que também se adapta na mesma medida, vamos fazê-lo funcionar para o nosso bem e o daqueles que nos rodeiam. 

De repente demos conta de que o âmago da sociedade transferiu-se para a nossa casa. Já existia, mas dividia-se entre o nosso espaço familiar e outro mais alargado, lá fora. Agora, temos de gerir uma micro-estrutura, assoberbante devido às suas características e circunstâncias. E para que não vá tudo por água abaixo há que tomar medidas, definir algumas regras




Assim, teremos de fazer valer a vida do dia-a-dia como um tempo de amor e partilhas. Há sempre muitas tarefas a realizar. Tomemo-las em nossas mãos e façamo-las parecer leves com a participação de todos. Desde as lides domésticas às refeições à mesa, às lições aos mais pequenos, e entretê-los, ao tempo de lazer, leitura, jogos, tudo tem de ser levado em consideração, com o objectivo comum de que é para o bem todos.  

A ideia é todos cuidarmos uns dos outros sem gritos ou imposições. E mais, estejamos apresentáveis, sempre, embora com roupas confortáveis.

Só assim a nossa cabeça continuará a responder às exigências que se nos colocam e às quais teremos de responder responsavelmente. Porque poderemos ter de enfrentar mais dificuldades. E, quando isto terminar, a nossa sanidade mental é que nos salvará. E o nosso estado físico que também deve ser exercitado.

Sei, são coisas simples que todos já estarão a fazer. Contudo, esta é uma das formas de, também eu, continuar activa. Entre outras coisas, botando palavras aqui no computador e, consequentemente, no Xaile de Seda
Il faut cultiver notre jardin.

Aproveito para inserir, abaixo, um pequeno texto sobre a importância de bem dormir, condição essencial para ter pensamentos claros, firmes e luminosos:

O sono como condição de saúde

Eu presto homenagem à saúde como a primeira musa, e ao sono como condição de saúde. O sono beneficia-nos principalmente pela saúde que propicia; e também ocasionalmente pelos sonhos, em cuja confusa trama uma lição divina por vezes se infiltra. A vida dá-se em breves ciclos ou períodos; depressa nos cansamos, mas rapidamente nos relançamos. Um homem encontra-se exaurido pelo trabalho, faminto, prostrado; ele mal é capaz de erguer a mão para salvar a sua vida; já nem pensa. Ele afunda-se no sono profundo e desperta com renovada juventude, cheio de esperança, coragem, pródigo em recursos e pronto para ousadas aventuras. «O sono é como a morte, e depois dele o mundo parece começar de novo. Pensamentos claros surgem firmes e luminosos, como estátuas sob o sol. Refrescada por fontes supra-sensíveis, a alma escala a mais clara visão» [William Allingham].

Ralph Waldo Emerson, in "Inspiration"



E Pedro Barroso, aqui, num Medley




Canções eternas de autores inesquecíveis. 
Oiçam-nas e digam-me se não vale a pena...

"Tu sozinho não és nada, juntos temos o mundo na mão"
António Macedo



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Texto: citador
Imagem: daqui

domingo, 29 de março de 2020

Plano Marshall nos nossos dias? A União Europeia que se apresente...

Do descalabro da II Guerra Mundial, 1939-1945, saiu uma Europa trôpega, empobrecida, desiludida. A loucura que a atingira durante esses anos quase que a ia destruindo. A sua reconstrução foi obra de homens de valor que ultrapassaram todos os obstáculos para a efectivar. Aos poucos as pessoas foram levantando a cabeça, tanta mágoa calada no fundo dos corações. 

Um desses actos foi o Plano Marshall proveniente dos Estados Unidos da América que, com um Plano Económico, promoveu a recuperação dos países atingidos e que sofreram perdas com essa guerra, num aporte de 18 bilhões de dólares aos europeus, utilizados para a reconstrução de edificações e indústrias, importação de alimentos e mercadorias industrializadas, bem como no financiamento da agricultura.




O Plano Marshall vigorou de 1947 a 1951, sendo os principais beneficiários a Inglaterra, a Itália, a França e os próprios Estados Unidos que conseguiram criar as instituições de fortalecimento da internacionalização dos capitais na segunda metade do século XX. Também do lado dos EUA houve o desideratum político de conter a URSS e o avanço do poder dos partidos comunistas. Desse período nasceu a guerra fria, de má memória.

Hoje estamos envolvidos numa outra guerra. Temos um inimigo que ataca sem aviso e com armas para as quais ainda não temos qualquer réplica. Ouve-se falar, neste contexto, da aplicação de um plano similar ao Plano Marshall quando esta luta terminar. Mas se a História serve de alguma coisa, é bom que se comece a pensar já na forma de controlar esta outra calamidade que estamos a viver.

Com as pessoas fechadas em casa, as fábricas a laborar a meio gás ou fechadas, o desemprego já a lavrar insidiosamente, trabalhadores em regime de férias forçadas, lay-off em vigor, sem falar das próprias Instituições que vêem as suas receitas em queda livre e com o Estado a ter de prestar assistência em todos os níveis da sociedade, a união dos países da União Europeia, e não só, terá de se fazer presente. E não vale cada um ficar a olhar para o seu próprio umbigo, porque isto terá de ser um por todos e todos por um. Não há escapatória.

Relembremos os episódios que a humanidade teve de vencer. De como quase soçobrara e de como se reerguera. Que os exemplos do passado nos sirvam para analisar o presente e projectar o futuro que todos os dias nos desafia. 

Chamemos os historiadores, especialistas dessa análise tão necessária. Que façam parte da linha da frente, numa interdisciplinaridade desejável e sumamente indispensável. 

Trabalhemos todos para a defesa e manutenção do mundo que conhecemos.




Boa semana, meus amigos.

Abraços.

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sábado, 28 de março de 2020

Eneias e Dido

Mal tinha falado quando de súbito a nuvem que os envolvia se rasga e se dissipa na extensão do éter. Eneias surgiu resplandecente de uma clara luz, com os traços e a majestade de um deus: pois a própria mãe, com o seu sopro divino, dera ao filho uma cabeleira magnifica e o esplendor corado da juventude, e enchera os seus olhos de uma luminosa beleza. Tal o encanto que emprestam ao marfim as mãos do artista, ou o que a prata ou a pedra de Paro recebem do ouro amarelo.

Então ele dirige a palavra à rainha, diante da multidão espantada da sua presença imprevista, diz-lhe: «Ei-lo, aquele que buscas, o troiano Eneias, arrancado às ondas da Líbia. Ó tu, que és a única a apiedar-te das desgraças indizíveis  de Tróia, tu que abres a tua cidade e a tua morada aos restos do furor do Dánaos, extenuados por todos os reveses sofridos sobre a terra e sobre o mar, e destituídos de tudo o que há no mundo, não, não está na nossa mão, Dido, reconhecer dignamente os teus benefícios, nem tão-pouco na mão do que resta da nação dardânia, dispersa sobre a vasta terra. Que os deuses, se existem favoráveis à piedade, se a justiça e o amor do bem têm algures a sua paga, te proporcionem as riquezas de que és digna. Que séculos afortunados te viram nascer? Que pais ilustres deram à luz uma princesa como tu? Enquanto os rios correrem para o mar, enquanto as sombras das florestas cobrirem os flancos das montanhas, enquanto o céu alimentar as constelações, a tua glória, o teu nome e os teus louvores permanecerão sem cessar entre nós, seja aonde for que o destino me chame.» Tendo dito, ele estende a mão direita a Ilioneu, seu amigo, a esquerda a Seresto, em seguida aos outros, ao valente Gias, ao valente Cloanto.

A ENEIDA, Virgílio, - pgs 25/26





Do Século I a.C convoco Virgílio com a sua obra A Eneida, para preencher as minhas horas de ócio. Que o ócio não é coisa pouca. Em sua defesa diz-se que se trata de momentos de criação e reflexão. Uma forma de estar. Postura filosófica. E é com este espírito filosófico que deveremos percorrer os livros das nossas estantes à procura deste ou daquele que, em dado momento, poderá levar-nos a viajar para tempos outros.
E connosco as personagens, apresentadas num ritmo poético e grandiloquente no qual entrevemos intrigas, batalhas, heróis, deuses. Mitologia pródiga que disponibiliza um deus para cada circunstância.

Bem precisados estamos agora... 



Bom fim-de-semana, amigos.

Abraços

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Imagem: Eneias abandonando Dido - net

quarta-feira, 25 de março de 2020

Sentimentos e emoções em tempos de ... confinamento


Que é amar senão inventar-se a gente noutros gostos e vontades? Perder o sentimento de existir e ser com delícia a condição de outro, com seus erros que nos convencem mais do que a perfeição?

Agustina Bessa-Luís






Um destes dias ouvi alguém, na rádio, discorrer sobre reciclagem de sentimentos.  Não ouvi toda a exposição pelo que não a sei reproduzir na íntegra. No essencial percebi a mensagem. A necessidade de revermos a nossa postura perante a vida e o nosso relacionamento com o outro. A pressa com que vivemos o dia-a-dia, a sobrevalorização de pequenas coisas que nos assoberbam, deixando para depois o mais importante e, acima de tudo, a reflexão necessária.

Estamos a viver em espaços confinados, todos juntos vinte e quatro sobre vinte e quatro horas e há que encarar isso no seu aspecto mais positivo. Sabemos que o confinamento pode levar-nos a situações de nervosismo, falta de paciência, um certo egoísmo em relação àqueles que nos rodeiam. Isso não quer dizer que, também, sentimentos de compreensão e harmonia não estejam nos nossos corações. Mas o nosso lado lunar aborda-nos, especialmente, em momentos de provação.

Por uma associação de ideias, tem-me visitado nos últimos dias o título de um livro de Gabriel García Marquez, O amor nos tempos de cólera. Nunca o li, não sei se o tema trata de cólera-doença, se de cólera-sentimento ou emoção. Seja qual for a sua vertente penso que se ajusta ao momento que atravessamos. Qualquer que seja a circunstância, cataclismo ou pandemia, o amor e a tolerância terão de sobreviver para que nós próprios possamos passar à fase seguinte. É um desafio que se nos coloca a nível físico e psicológico, que não dá tempo para nos prepararmos e sopesar os prós e os contras. O importante é que temos grande capacidade de adaptação e, ainda mais, de renovação e de inovação. Em ocasiões difíceis e de carência somos capazes de arranjar soluções, de dar um salto qualitativo, para a frente.

Temos notícias de laboratórios por todo o mundo a trabalhar afincadamente à procura de uma vacina que contenha este vírus; Contactos e mais contactos de conhecidos e desconhecidos no sentido de se providenciarem máscaras, luvas, ventiladores. Empresas que voltam a sua atenção para o fabrico desse material de suporte indispensável. Voluntários preocupados com os idosos, batendo-lhes à porta para saberem das suas necessidades. Pessoas oferecendo a profissionais de saúde kits de sobrevivência, num sinal de solidariedade e de muita ternura. Esses profissionais, médicos, enfermeiros, auxiliares, são os mais isolados e sacrificados de todos, sem poderem voltar para as famílias, enquanto durar a pandemia, sujeitos mais do que ninguém, ao contágio.

E que dizer das formiguinhas laboriosas que velam para que possamos ter água, luz, comida? Basta um telefonema e vêm a casa trazer-nos o necessário, dos supermercados, dos restaurantes. E as farmácias que continuam... E as transportadoras que nos trazem tudo e mais alguma coisa e, dentre elas, os imprescindíveis camionistas que atravessam fronteiras, e os padeiros...e o nosso lixo que é recolhido, nem sabemos a que horas. Tudo gente que corre grande risco, mas que continua porque a vida não pode parar.





Dos nossos sofás lamentamos o espaço exíguo, as limitações, a caminhada que não fazíamos mas agora apetecível, a ida ao café, ao restaurante, enfim ... aproveitemos este tempo para que seja um tempo de reflexão. 

O apelo é: "Fique em casa". E os sem-abrigo?

Boa quarta-feira, meus amigos.

Abraços.


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Projecto Radar

Imagem: aqui 

Citação de Agustina Bessa-Luis - Citador

segunda-feira, 23 de março de 2020

A Mesma Centelha


Somos o verso e o reverso do mesmo acto da Criação. 
Somos a outra face da mesma partícula original, dizes-me. 




Predestinados estamos desde o princípio dos tempos, quando tudo era informe e indefinido. Quando o universo ainda se moldava, as águas tudo envolviam e o magma se separava. Dois pontos luminosos na crista de ondas espumosas, hesitantes, antes do eclodir de seres unicelulares.

Iniciámos assim o percurso, separados embora. Nós, as duas partes que se completariam. De culturas milenares absorvemos a semente, a flor e o fruto. Dos passos do Homem registámos os triunfos e as quedas. Passámos por fomes e guerras, fomos heróis e anti-heróis, reis e mendigos. Defendemos causas perdidas e perdemo-nos em espessas brumas. 

Eis-nos aqui, perplexos. No olhar o reconhecimento de que o momento é de reunião, atraídos pela mágica poção que embriaga os dias passados, presentes e futuros. Tão puros como no primeiro instante. No gesto naïf a pureza de cristal de um tempo ainda não vivido.

Como num sonho anuncia-se um mundo povoado 
de todas as possibilidades e circunstâncias, livre de amarras. 
O fim desta caminhada de séculos. 
Ou o princípio de tudo.  

Dizes: 
Sempre te procurei, sempre te esperei. 
És aquela que me completa.

E digo

Somos as duas partes da mesma centelha. 





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Imagem: daqui