segunda-feira, 9 de julho de 2018

Procuro-te

Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer 
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu, 
o ar onde a respiração é doce, 
um pássaro no bosque 
com a forma de um grito de alegria. 

Oh, a carícia da terra, 
a juventude suspensa, 
a fugidia voz da água entre o azul 
do prado e de um corpo estendido.


Procuro-te: fruto ou nuvem ou música. 
Chamo por ti, e o teu nome ilumina 
as coisas mais simples: 
o pão e a água, 
a cama e a mesa, 
os pequenos e dóceis animais, 
onde também quero que chegue 
o meu canto e a manhã de maio. 

Um pássaro e um navio são a mesma coisa 
quando te procuro de rosto cravado na luz. 
Eu sei que há diferenças, 
mas não quando se ama, 
não quando apertamos contra o peito 
uma flor ávida de orvalho. 

Ter só dedos e dentes é muito triste: 
dedos para amortalhar crianças, 
dentes para roer a solidão, 
enquanto o verão pinta de azul o céu 
e o mar é devassado pelas estrelas. 

Porém eu procuro-te. 
Antes que a morte se aproxime, procuro-te. 
Nas ruas, nos barcos, na cama, 
com amor, com ódio, ao sol, à chuva, 
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te. 

in "As Palavras Interditas"

Encontrei, há dias, Eugénio de Andrade no blog Raraavisinterris. Lembrei-me que há já algum tempo que ele não visita o meu Xaile de Seda. Fui à procura de poemas seus e, claro, a dificuldade esteve na escolha. Acabei por optar por este: "Procuro-te". 

Há sempre algo que procuramos na vida e penso que as palavras deste magnífico Poeta traduzem na perfeição o que nos faz avançar estrada fora, aos mais profundos recantos ou dentro de nós próprios: a procura do sentido da Vida.

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Poema:  Citador
Imagem: Pixabay  

sábado, 30 de junho de 2018

Oh, Vida, sê bela!


Alberto de Lacerda - o poeta expatriado

O exílio é isto e nada mais
Na sua forma mais perfeita: 
Hoje na terra de meus pais
Somente a luz não é suspeita.

aqui


NÓS

Falei 

Cantei 
Cantei demais 

Arrisquei quebrar 
O arco-íris 

Mas até em estilhaço 
Continuaria 
O encantamento


Alberto de Lacerda, in 'Átrio' 


Como é Belo Seu Rosto Matutino

Como é belo seu rosto matutino 

Sua plácida sombra quando anda 

Lembra florestas e lembra o mar 
O mar o sol a pique sobre o mar 

Não tive amigo assim na minha infância 
Não é isso que busco quando o vejo 
Alheio como a brisa 
Não busco nada 
Sei apenas que passa quando passa 
Seu rosto matutino 
Um som de queda de água 
Uma promessa inumana 
Uma ilha uma ilha 
Que só vento habita 
E os pássaros azuis 


Alberto de Lacerda, 

in 'Exílio' 




Alberto de Lacerda viveu quase sempre no estrangeiro e foi esquecido. Porém, nunca se esqueceu de Portugal. Pelo contrário, levou a nossa cultura para junto de gente que, de Portugal, nada sabia. Esse é um dos problemas que se apresenta no que respeita à tarefa de divulgar a vida e obra do poeta Alberto de Lacerda (1928-2007). É preciso ir encontrá-lo, situá-lo no seu tempo e dar-lhe o contexto de uma vida vivida e celebrada por outros.


Palavras iniciais da introdução à exposição, da Biblioteca Nacional, dedicada à obra de Alberto de Lacerda, em Outubro de 2017, com o título "Oh, Vida, sê bela!".

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ALBERTO DE LACERDA: toda a luz e solidão do mundo.

LABAREDA - publicado agora, em Junho 
Diz-se aqui que este livro quer resgatá-lo para as novas gerações e estimular a curiosidade para uma poética e uma vida invulgares.

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Imagens: net
Poemas: Citador


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Amália/Paião. Calendário escolar. D. António Marto

Ouvi há dias, na Rádio, "O senhor extraterrestre", da autoria do saudoso Carlos Paião, e gostei muito de ouvir Amália nesse registo brincalhão e crítico. 




Naquela altura era o bacalhau que faltava e não seria de admirar se solicitássemos uma cunha a um extraterrestre para o obter. Hoje não nos falta quase nada. Os supermercados estão cheios de tudo, os stands de automóveis com automóveis para todas as bolsas, as lojas do zé povo e as de luxo com roupas e acessórios para todos os gostos. Não nos podemos queixar a não ser de falta de dinheiro, para alguns. Com a ilusão de bonança que nos envolve, esquecendo-nos que vivemos praticamente de empréstimos, lá vamos nós perdendo tempo com o diz-que-disse.

O que me parece preocupante mas não irresolúvel é o que eu li e ouvi sobre o calendário escolar para o ano lectivo 2018/2019: o terceiro período vai ter apenas mês e meio, de modo que o aluno que tiver azar nos períodos antecedentes dificilmente conseguirá recuperar a tempo para passar de ano. E porquê essa discrepância? Sabemos que o calendário escolar é feito em função do calendário religioso católico. Assim, sendo a Páscoa uma festa móvel esta condiciona a vida escolar. Enfim. Somos ou não somos um Estado laico? Bem, até compreendo. Somos um país maioritariamente católico, temos a Concordata e os feriados... que não são de desdenhar. E as outras religiões existentes em Portugal o que dizem a isso?




Como católica que sou, registo com interesse que D. António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, foi nomeado Cardeal. Mais uma hipótese que se desenha no sentido de virmos a ter outro Papa português. O primeiro e último foi Pedro Hispano que tomou o nome de João XXII, coroado em 20 de Setembro de 1276. Um pontificado muito curto: A 14 de maio de 1277, o edifício ruiu quando o papa se encontrava sozinho no seu interior. Pedro Hispano veio a morrer alguns dias mais tarde devido à gravidade dos ferimentos sofridos e encontra-se sepultado na catedral de Viterbo.

Desejo-vos uma boa semana.

Abraço.

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Imagem: Net

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Influenciadores. Facilitadores.

As palavras ao longo dos tempos vão tomando novas significações. Nada que nos admire. Mas mesmo assim há algumas que me fazem pensar ao tomar conhecimento da sua contextualização. É o que acontece com influenciador/influenciadora. 
No avanço tecnológico em que estamos a viver é já uma profissão. Logo, melhor será dizer Influenciador/Influenciadora digital ou formadores de opiniões digitais.

















Não há muito tempo, três meses se tanto, tinha a televisão sintonizada em determinado canal onde decorria uma entrevista a dois rapazes, talvez adolescentes ou na casa dos vinte. Aí ouvi pela primeira vez a palavra com esse significado. Então, um deles respondendo à pergunta de como é que a coisa funcionava respondia que postavam fotos no Instagram e outras redes sociais envergando roupas e acessórios de que gostavam. Também iam às escolas e passeavam por ali, ou seja, desfilavam à vista dos colegas. Depois, com as visualizações ganhavam uma boa maquia, mercê de alguns contratos com as marcas.

Sabemos, lendo e ouvindo por aí, que figuras como alguns bloggers, youtubers etc. ganham a vida, ou quase, fazendo publicidade a produtos diversos ou gerando os seus próprios conteúdos, uma comercialização muito interessante que fala bem dos tempos que vivemos. O tradicional sistema de trocas está longe do que era ou talvez não. O que se faz agora não será mais do que trocas com suportes diferentes, cada dia mais versáteis e sofisticados.

Vimos há poucos dias uma rapariga de 16 anos ganhar um globo de ouro pela sua actividade na internet, na área da música. É uma visibilidade outra, não há dúvida. Andar pela vida a singrar passo a passo já era. Os meios agora são outros. Também reconheço que é preciso talento e saber fazer.

Influenciada, talvez, com a informação que já levava sobre os influenciadores vi logo naqueles dias um livro, na Fnac, com um título que me chamou a atenção: Os Facilitadores. Pareceu-me quase a mesma coisa. Aproximando-me mais, dei conta de que era um nome (ou substantivo) proveniente de facilitar. De vez em quando, cá em casa, dizem-me a rir que sou uma facilitadora, mesmo antes de saber que essa palavra existia no contexto actual. Muitas vezes até concordo. Será uma qualidade ou um defeito? Dependerá da natureza daquilo que facilitamos, não é? 








Voltando ao livro vi-lhe o autor, a capa e a contra-capa e fotografei-os com a minha falta de jeito proverbial, com um resultado muito pouco legível/visível. Sempre tenho dito que quando eu for grande quero ser como a UJM, blogger que eu sigo, ou como a minha filha. São autênticas artistas da fotografia. Mas, apesar da má qualidade das fotos, consigo distinguir que o autor se chama GUSTAVO SAMPAIO e que o tema versa sobre um grupo profissional que, com a sua acção, facilita a vida a Empresas privadas e também ao Estado nos mais variados serviços tais como: 

Ajustes directos, contratos swap, PPP (nos sectores da saúde, educação, águas, resíduos, vias rodoviárias e ferroviárias, etc.), privatizações de empresas públicas, concessões e subconcessões, contratos de exploração a meio século, auto-estradas com portagens virtuais, rendas excessivas no sector energético, mais-valias decorrentes da venda de gás natural não partilhadas com os consumidores, aumentos das taxas nos aeroportos nacionais, direitos adquiridos sobre pontes e aeroportos que ainda não foram construídos, indemnizações devidas por causa de projectos adiados, ou mudanças de sede fiscal para ... aqui

Uma investigação e tanto, como tudo na vida, passível de contraditório se for caso disso.

Mas, quis saber mais sobre o assunto, isto é, acerca dos Facilitadores. Descobri que é uma realidade que só eu desconhecia, pelos vistos, ou então terei já lidado com isso, mas através de uma outra designação ou com outro alcance. Segundo o que li, aqui, são pessoas geradoras de ideias inovadoras e de soluções criativas de problemas. Muitas são as competências dos Facilitadores. Até há formação específica para esse desempenho.

               Como dizia a minha avó: Vivendo e aprendendo.

                      E agora sim, despeço-me. Até daqui a oito dias

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1ªimagem: daqui
2ª imagem: daqui

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A Mulher mais bonita do Mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram flores novas na terra do jardim, quero dizer que estás bonita. 



entro na casa, entro no quarto, abro o armário, 
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio 
de ouro. 


entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como 
se tocasse a pele do teu pescoço. 
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. 

estás tão bonita hoje. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

estás dentro de algo que está dentro de todas as 
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever 
a beleza.

 
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, 
estás tão bonita é aquilo que quero dizer. 

José Luís Peixoto
in "A Casa, a Escuridão"

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Meus amigos:

Vou ausentar-me por uns dias. Vou à terra da minha mãe que também é a minha. Dedico-lhe estas palavras de José Luís Peixoto, com a devida adaptação a esta minha intenção.

Fiquem bem.

Abraço. 


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Poema: Citador
Imagem: Pixabay 

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Mar ê morada di sodadi


Para um ilhéu o Mar tinha duas funções: por um lado ligava as terras e as pessoas, por outro separava-as. Então, entre o ir e voltar a saudade se instalava. Houve tempo em que o elo entre os povos residia no Mar. Através dele as gentes se descobriam e transportavam as riquezas e os sonhos. Presentemente, a tónica torna a colocar-se nessa poderosa área líquida do nosso planeta. Com a poluição atentamos contra a vida de outros seres vivos. O lixo que produzimos afecta o nosso bem-estar e, com o nosso descaso, também mata os habitantes marinhos. Adoptar outros comportamentos de consumo é preciso. Talvez não seja tarde, ainda.  



BANA - o bom gigante.

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Passei o dia ouvindo o que o mar dizia

Eu hontem passei o dia 
Ouvindo o que o mar dizia. 

Chorámos, rimos, cantámos. 

Fallou-me do seu destino, 
Do seu fado... 

Depois, para se alegrar, 
Ergueu-se, e bailando, e rindo, 
Poz-se a cantar 
Um canto molhádo e lindo. 

O seu halito perfuma, 
E o seu perfume faz mal! 

Deserto de aguas sem fim. 

Ó sepultura da minha raça 
Quando me guardas a mim?... 

Elle afastou-se calado; 
Eu afastei-me mais triste, 
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia 
De rôxo as aguas tingia. 

«Voz do mar, mysteriosa; 
Voz do amôr e da verdade! 
- Ó voz moribunda e dôce 
Da minha grande Saudade! 
Voz amarga de quem fica, 
Trémula voz de quem parte...» 
. . . . . . . . . . . . . . . . 

E os poetas a cantar 
São echos da voz do mar! 

 in 'Canções' 

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Video : Youtube
Poema: Citador

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Do direito ao amor e à compreensão*


Menino

No colo da mãe 
a criança vai e vem 
vem e vai 
balança. 
Nos olhos do pai 
nos olhos da mãe 
vem e vai 
vai e vem 
a esperança.



Ao sonhado 
futuro 
sorri a mãe 
sorri o pai. 
Maravilhado 
o rosto puro 
da criança 
vai e vem 
vem e vai 
balança.

De seio a seio 
a criança 
em seu vogar 
ao meio 
do colo-berço 
balança. 
Balança 
como o rimar 
de um verso 
de esperança. 

Depois quando 
com o tempo 
a criança 
vem crescendo 
vai a esperança 
minguando. 
E ao acabar-se de vez 
fica a exacta medida 
da vida 
de um português. 


Criança 
portuguesa 
da esperança 
na vida 
faz certeza 
conseguida. 
Só nossa vontade 
alcança 
da esperança 
humana realidade. 

in "Poemas para Adriano"

*Título de um post que fiz em tempos sobre a Criança e que apareceu hoje em pesquisa no blog: AQUI
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Poema : do Citador
Imagens: daqui

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Memórias de um Espírito*

Um homem que morre de repente sem tempo para arrumar os seus assuntos. O seu espírito continua a pairar dentro de casa e vê com espanto todas as expressões dos preparativos para as suas próprias exéquias e o comportamento dos familiares, dos amigos, das antigas namoradas. Cada uma das pessoas que chega para apresentar condolências traz-lhe um mundo de recordações e, claro, o falecido na sua forma etérea, tece as suas considerações e confidencia ao leitor as variadas experiências que teve em vida. O leitor (ou seja, eu) sorri agradado perante a ironia, a crítica velada dos costumes e...a brejeirice.



Mas, "As Memórias de um Espírito" não foi o primeiro livro que li de Germano de Almeida. O primeiro contacto estabelecido com ele foi através de "Estórias de dentro de casa". Seguiram-se outros: "O Testamento do Sr Napumoceno da Silva Araújo", "Os dois irmãos", "O Mar na Lajinha". E o interessante é que são livros que me foram oferecidos por familiares e amigos, tendo tomado, desta forma, conhecimento da pujança da obra deste excelente e carismático escritor cabo-verdiano.

Isto, para assinalar, aqui, que o Prémio Camões deste ano lhe foi atribuído e devo dizer que o mesmo não poderia estar em melhores mãos, na minha óptica. Germano de Almeida não só prestigia a Língua Portuguesa como também lhe introduz palavras, termos, expressões de sabor crioulo que a enriquecem enormemente. Sei dar o devido valor a esse facto porquanto conheço como falante a dinâmica dessa língua, designada crioulo cabo-verdiano, especialmente na vertente das ilhas do Barlavento.

Insiro, a propósito, este pequeno apontamento sobre o assunto: 

Apesar da pequenez territorial, a situação de insularidade fez com que cada uma das nove ilhas desenvolvesse uma forma própria de falar crioulo. Cada uma dessas nove formas é justificadamente um dialecto diferente, mas os académicos em Cabo Verde costumam chamá-las de «variantes», que é o termo que passaremos a empregar neste artigo.
Essas variantes podem ser agrupadas em duas grandes variedades. A Sul temos a dos crioulos de Sotavento que engloba as variantes de Brava, Fogo, Crioulo de Santiago e Maio. A Norte temos a dos crioulos de Barlavento que engloba as variantes de Boa Vista, Sal, São Nicolau, São Vicente e Santo Antão. Aqui

Os linguistas têm muito trabalho pela frente, no sentido de conciliar todas as variantes e fazer nascer regras gramaticais para que o crioulo cabo-verdiano venha a ser representado uniformemente, tanto em termos fonéticos como ortográficos.

E PARABÉNS A GERMANO DE ALMEIDA. 

VENHAM MAIS LIVROS!

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Ouçamos a LURA, uma força da natureza, em NA Ri Na:




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* Escolhi esse título para o post devido à preferência que tenho pelo livro:"As Memórias de um Espírito".

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Maternidade - inseguranças dos primeiros tempos; depressão pós-parto

Há quem diga com um sorriso  algo divertido: as crianças não vêm com livro de instruções. Nada mais verdadeiro, pois não poucas vezes nós, pais, somos confrontados com situações difíceis que têm de ser resolvidas no momento sem que saibamos ao certo que caminho seguir. No caso dos recém-nascidos, esses, têm exigências a que nem todas as puérperas sabem responder e mesmo fazendo uma ideia, na prática é mais difícil.

A fralda parece ter mais pontas do que as necessárias, os pezinhos multiplicam-se, é o bebé que não pega no peito, mas também não aceita o biberon. Chora, não dorme. Recorre-se ao pediatra que não lhe encontra doença, felizmente. Ouvem-se os conselhos com olhos esgazeados de cansaço, de noites mal dormidas.

Desde sempre foram pedidos ou exigidos sacrifícios à mulher na sua qualidade de mãe esquecendo-se muitas vezes que cada mulher é um caso, com as idiossincrasias próprias de cada ser. Inseguranças que se manifestam nesses momentos de maior fragilidade fazem com que cada uma reaja de forma particular aos estímulos.


  

Só quem já teve um filho é que sabe como são difíceis os primeiros tempos em casa com um bebé. Por maior que seja a felicidade de finalmente termos o nosso filho nos braços, nada é como nos filmes.

Passagem extraída de um artigo muito interessante intitulado, Os 7 mitos da maternidade, da revista Pais, deste mês, em que algumas mulheres relatam as suas dificuldades e experiências dos primeiros tempos, lutando com a novidade, a noção de responsabilidade pela vida de um pequeno ser, as noites sem dormir, o choro por vezes incessante e o amor que nem sempre é automático, como afirma uma das entrevistadas. E lê-se a dado passo: é preciso que as mulheres saibam isso. 

E estou de acordo, pois muitas mulheres nem mencionam, normalmente, essas dificuldades com receio de serem mal interpretadas. Tornou-se um quase tabu.

O artigo não fala de um mal que ataca algumas mulheres. Trata-se de algo muito grave, de foro patológico, e que não caberia no espírito do tema abordado na revista:

é a depressão pós-parto, uma doença de que nem todos se apercebem e a sociedade não dá a devida importância. Um sofrimento atroz para a mulher e que poderá ter consequências muito graves. Para o bem das mulheres acometidas dessa depressão necessário se torna conhecer os sintomas e não esquecê-la. E, também, para o bem dos bebés.





A depressão pós-parto (DPP) é um quadro clínico que pode surgir nas mulheres na fase puerperal, normalmente nas quatro semanas após o parto e se caracteriza pela presença de um conjunto de sintomas que prejudicam a relação mãe-bebé. Atinge entre 10 a 20 % das mulheres quando iniciam a relação com os seus filhos recém-nascidos, podendo começar na primeira semana após o parto e durar até 2 anos e apresentam choro, irritabilidade, cansaço e abatimento.  Leia mais aqui
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Nota: Este é o post que se me extraviou com o problema no computador, conforme referi há dois posts através. Reescrevi-o dentro do possível.  

Imagens: daqui

sábado, 19 de maio de 2018

andam gastas e inúteis as palavras

andam gastas e inúteis as palavras. andam acesas as "interioridades" e parcas as sedas e raras as casas da generosidade e enigmáticas as douradas vaidades. temporariamente frágil como uma grinalda em fim de tempo ou um anjo orgânico sucedem-se as línguas as águas o turvo o rubro dos contrários e o negro da fadiga. os olhos mutantes e o coração de um cello impaciente revoltam-se na cauda bífida da mais pobre geometria do casulo das abelhas. o dizer lamentativo é uma dor expulsável e uma faca como chicote. andam gastas as mãos de tanta colheita em vão._______lucidíssimo o vário dizer que amanhã não estaremos cá para cerzir o mapa da lucidez. a consciência é uma clara face a banhar-se no lago dos bárbaros.

(texto publicado pela autora, em 16/05/2018)

Isabel Mendes Ferreira - in Palavra




Anda a lucidez arredada dos nossos dias. Parece que as boas palavras já perderam o sentido. É bom que o silêncio se imponha, se levante e requeira para as almas ansiosas que pululam por aí uns minutos de reflexão.

Vamos pensar todos juntos. Há situações que não têm solução, isto é, aquelas que não dependem de nós e sabemos bem quais são (por exemplo: a morte, doenças incuráveis...). Mas a gestão do nosso quotidiano, das nossas querenças ou malquerenças, preferências por isto ou por aquilo são coisas a que podemos dar o rumo que quisermos. 

A tendência para reacções acerbas pode ser condicionada e, estando nós de posse de todas as nossas faculdades mentais, isso é possível.

Bom fim-de-semana.

Abraço

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Imagem: daqui