segunda-feira, 5 de junho de 2023

Dádiva e dívida...


_Tua mãe disse que, se tivesse desconfiado que era para político, 
nuncamente jamais do mundo em nenhum tempo 
na vida te teria posto na escola,*






Vai à cozinha devolver a chávena. Encontra sua sogra, Dona Alice, a chorar acidamente diante de uma cepa de cebola para a canja, faz-lhe a piada habitual, como vai Alice no País das Buganvílias?, ela, De saúde, graças a Deus, passa, vai lavar a xícara no alguidar ao lado, despede-se e sai. O cheiro do refogado acompanha-o, lembra-lhe os perfumes das casinhas onde morou com a mãe em Cabo Verde, o lírio do vaso do quintal, os coentros apolejados sobre o xerém, a erva-cidreira mascada à boquinha da tarde, o funcho pisado no almofariz de pedra, a hortelã vaporizando ao lume, o manjericão raspado pelas cortinas das janelas, o orégão e o alecrim em borbulhas de cozimento, o zimbro e evolar-se do litro, as folhas de louro penduradas no espeto, a manjerona doida no travesseiro, a arruda queimada com aguardente, o eucalipto para afugentar as bruxas, o tomilho ardido para curar o peito fechado, a alfazema em unguento sobre a ferida da canela, a erva-príncipe elegante e fresca na mureta do pote; ah, o jasmim, o rosmaninho, a salsa, o poejo, a noz-mocada, o alho, e o café, outra vez o café, que teima na língua como amargor de último dia. Saudade desalmada de tudo isso, e a triste sensação de que ele, Amílcar, é para sua mãe o filho que ela tem e quase não tem, teve e nunca teve, ou coisa assim, delicada de explicar, uma mistura de dádiva e dívida, ou talvez aquilo que em África se designa por parir para servir o mundo. Afinal, ele, Homem Grande, nunca deu à mãe a vida melhor que tantas vezes pronunciou à luz do candeeiro sobre a juntoura, nas suas humildes casas de uma porta e uma janela.

 Pgs 59/60



Com o tempo, de tanto passar a ferro, Mãe Iva adquiriu umas cãibras que lhe deixavam o corpo como ouriceiro atiçado, e ele, Amílcar, catorzeanino ainda, acordava nas madrugadas para esfregar-lhe cânfora e óleo de purga nas costas, porque suas mãos pequenas e macias acalmavam, dizia-lhe a mãe. Depois da terapia ele, Amílcar, estendia-se noctâmbulo a contemplar a imagem de Santo António a dançar na flâmula do candeeiro por entre as fraldas da cortina; filosofava  com a moringa transpirada  em cima da janela; hauria o cravinho-da-índia que vinha da tigela de comida para o dia seguinte; arpejava à distância as tiras das cadeiras de mogno da casa de jantar; alucinava-se com o torresmo e o peixe frito nas montras da vitrine; catava o som aleatório dos insectos voadores; divertia-se com a rênquea de garrafas vazias e seus pescoços elegantes em cima da mesinha; ria do pote bojudo feito um bispo no canto da sala; distraía-se a destrinçar os vestidos das gémeas nos cabides; e vogava madrugada adentro, consoante a ondulação da chama a fritar os bichos de luz em cima da banquinha da cabeceira. Amanhecia.

Pg 70



E lembra o dia que Mãe Iva apareceu na Achada Falcão, sem aviso nem licença, para resgatar suas crias do pai e da madrasta. Juvenal nem sabia que Mãe Iva tinha deixado a Guiné, e ficou empedrado na porta a olhar a pessoa desconhecida que roçava as crianças num anúncio de temporal...

pg 60

A casinha de Ponta Belém, na cidade da Praia, para onde foram morar, era como um agasalho de pedra. Chegaram à noite, lembra, vencidos de oitenta quilómetros e sete horas de mulas. Mãe Iva sentou-se com as gualdrapas da saia arrepanhadas entre as pernas, mandou as crianças acomodarem-se no chão, não tinha móveis, penintenciou-se pela demora em vir ao encontro de seus filhos, percalços, e assegurou:

_Podem crer que, deusadiante, só a morte nos separará...

Pg 61

Era Setembro, lembra, Mãe Iva cozeu o bolo de mandioca, fincou-lhe em cima uma vela de Igreja, confeccionou uma pucarinha de água de açúcar, chamou os amiguinhos e as amiguinhas recentes da cidade, e fez a um dos filhos a sua primeira festa de aniversário. Foi para ele, Amílcar: dez anos de vida. Nunca mais se esquece. Em Outubro, Mãe Iva vendeu e colocou em penhor todos os seus valores, de brincos a roupa de cama, costurou um par de uniformes, remendou umas meias furadas, levou à forma os sapatos e, numa manhã cacimbada de cânticos de pássaros, acordou seus dois rapazitos, Ivo e Amílcar, lavou-os e levou-os para a primeira chamada à escolinha da cidade, rogando-lhes pelo caminho: "Estudem, especialmente tu, Amílcar, para não perderes acesso ao liceu, lembra-te que é até os treze anos". Ele, Amílcar, obediente e compromissado, cursou em três anos os quatro requeridos e terminou a quarta classe da instrução primária com a idade de doze anos, dez meses e dezassete dias. Mãe Iva ficou tão enaltecida que deu aos dois rapazes dois meses inteiros e o mundo inteiro para brincarem...

Pg 62



Um dia, nada te faltará, mamãe...

Mãe Iva só lhe devolveu a resposta trinta e seis anos depois, por intermédio de um amigo, que lhe fora levar de presente do filho uma notícia e um rosário. *

Pg 63


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Mário Lúcio Sousa: A última Lua de Homem Grande. 


Livro que estou a ler.

Direi mais dele à medida que for avançando nas páginas.

Sugiro que saboreiem estes pequenos textos, para já...

Portanto, é um post em construção :)


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Boa semana, amigos.

Abraços

Olinda


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*esse foi o recado que um amigo, a quem recentemente ele, Homem Grande, pediu para levar à Dona Iva uma encomenda a Bissau, lhe transmitiu, na verdade, trinta e seis anos depois do primeiro dia da escola e da promessa de que, um dia, nada à sua mãe faltaria. Pg 67



sexta-feira, 2 de junho de 2023

o chef de cozinha




Disposto o material em cima bancada: panelas, facas...ingredientes

- O que vamos fazer? - pergunto-lhe

- Carne e arroz...

- É carne estufada? - eu, curiosa

- Carne estufada...Corto?

- Sim, corta.

Com a agilidade de um grande chef de culinária agarra a faca e corta, corta...

Uma pequena hesitação e pergunta-me: E agora?

- Agora tens de cortar a cebola e refogá-la, não é?

- Corto a cebola, ponho na panela, azeite e... ponho a carne.

- Sim...e um pouco de sal

- E tomate. Vou cortar tomate...

A mesma habilidade e rapidez...corta, corta

- Agora é o arroz - informa-me. Água, arroooz... (com esmero)



Ouve-se o ruído de tudo a frigir e a ferver. O nosso chef aguarda um bom bocado com ar de entendido. E eu na expectativa...

- Já está...

- Ok - anuí

- Agora, a sobremesa. Salada de fruta...

- Ah, e o que é que vais pôr na salada?

- Melão, morangos, pêssegos... (E corta, corta com a mesma agilidade e perícia)

- Não pões mais nada?

- Huuumm... uvas, sumo de laranja. Ajuda-me!

Cortei laranjas e pus-me a fazer o sumo que deitei no recipiente.

- Agora pratos! E facas e garfos! E guardanapos!

Chef exigente. Queria tudo feito com rapidez...e eu lá tive de providenciar tudo num instante.

Às tantas deve ter pensado que precisava de algum ruído para além do do fogão e dos tachos em actividade. E disse-me: 

- Vou ligar a televisão...

Eu, distraída, contrapus: Sabes que não se liga a televisão do quarto quando já estamos para dormir...

- Ahahaha!!! A Vovó esqueceu-se, é tudo a fingir...

Acto contínuo passa-me o "comando", incentivando-me: 

- Liga, liga a televisão...


E o menino de 3 anos, acabadinhos de fazer, perdido de riso,
mostra-me a magia do "faz-de-conta".





Bom fim de semana, meus amigos.

Abraços

Olinda


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Imagens - pixabay


quinta-feira, 1 de junho de 2023

Os meninos da pandemia

Todos nós vivemos os dias tormentosos da pandemia em que apenas os animais saíam à rua, conquistando-a definitivamente. Dias em que os passarinhos chilreavam nas cidades, livres do barulho que dantes reinava. Em contrapartida, os meninos em idade escolar foram confinados entre quatro paredes, tendo-lhes sido retirado o direito de correr, saltar e brincar em espaços abertos. Jardins e parques definhavam, privados dos seus risos e gritos de alegria de viver. Sem falar nas escolas e recreios que ficaram no mais triste abandono.

A acrescer a estes, temos os outros, cuja gestação terminaria nesse ano de 2020 e nos seguintes, enquanto durou a pandemia. Presos em casa, no ventre das suas mães, veriam a luz do dia em hospitais sobre-lotados, médicos e enfermeiros com aspecto de extraterrestres, e restrições sem fim. Os pais no maior stress, de máscara, durante três anos, a calcorrear centros de saúde e hospitais para o controlo pós-nascimento e sempre que surgisse algum problema com os pequenos infantes.

O que me preocupa, entre outras coisas, é a forma e a vontade de avaliar o que se passou pela cabeça destes meninos em idade pré-escolar e escolar. E também a visão do mundo destes bebés que passaram os seus primeiros tempos isolados. Assim, ocorre-me esta questão:

Em que medida o medo e a insegurança que pairavam no ar, e que tolhiam tudo e todos, os terão afectado em termos de comportamentos futuros?

Sendo a Pandemia um problema de saúde global, também é de toda a conveniência que este assunto seja encarado globalmente.

Por cá, façamos o que deve ser feito.





QUE TODAS AS CRIANÇAS TENHAM UMA 
VIDA FELIZ!

E tenhamos em conta, 
hoje e sempre, a




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Imagem: Pixabay

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Da calma e do silêncio






Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

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Telepatia


LARA Li



Boa semana, meus amigos.

Abraços
Olinda


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Poema: daqui
em "Poemas da recordação e outros movimentos". 
Nandyala, 2008.

Ver post aqui, no Xaile de Seda, sobre Conceição Evaristo

sexta-feira, 26 de maio de 2023

POVO

Nação pequena que foi maior do que os deuses em geral o permitem, Portugal precisa dessa espécie de delírio manso, desse sonho acordado que, às vezes, se assemelha ao dos videntes (Voyants no sentido de Rimbaud) e, outras, à pura inconsciência, para estar à altura de si mesmo. Poucos povos serão como o nosso tão intimamente quixotescos, quer dizer, tão indistintamente Quixote e Sancho.

Quando se sonharam sonhos maiores do que nós, mesmo a parte de Sancho que nos enraíza na realidade está sempre pronta a tomar os moinhos por gigantes. A nossa última aventura quixotesca tirou-nos a venda dos olhos, e a nossa imagem é hoje mais serena e mais harmoniosa que noutras épocas de desvairo o pôde ser. Mas não nos muda os sonhos.


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Ano do Centenário de Eduardo Lourenço (de Faria), que foi um professor e filósofo português. Recebeu diversos prémios e condecorações, incluindo o Prémio Camões em 1996. Tem uma biblioteca com o seu nome na Guarda.

O Centro de Estudos Ibéricos criou em sua homenagem o Prémio Eduardo Lourenço, atribuído desde 2005 e destinado a agraciar personalidades ou instituições com intervenção relevante no âmbito da cultura, da cidadania e da cooperação ibéricas.

Grande Pensador, ele próprio disse que não sabia fazer mais nada do que pensar. No texto acima mostra alguma compreensão por com este povo que sonhou sonhos maiores do que o seu tamanho. Porém, em "O Labirinto da Saudade", é bastante contundente nas suas apreciações sobre a mentalidade portuguesa, em geral.



AMÁLIA RODRIGUES
e a sua voz de 
ouro

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Ainda sobre o: “Manual de Estudo da Língua Cabo-verdiana e Projecto de Gramática para o Ensino do Kriol a Estrangeiros”





Na sequência das minhas intervenções através do Xaile de Seda para a divulgação do livro de Manuel R. Melo Santos,

“Manual de Estudo da Língua Cabo-verdiana e Projecto de Gramática para o Ensino do Kriol a Estrangeiros”

trago a notícia televisiva do lançamento do mesmo, com uma pequena entrevista ao autor que se expressa em crioulo, na variante de São Vicente (Cabo Verde).


Agora, tempo para ouvir um pouco da bela música cabo-verdiana, a Morna, na voz quente de 

LURA



Trazê-me so um cartinha


Como sabemos, a "Morna" foi classificada como Património Cultural Imaterial da Humanidade, em 2019, pela UNESCO.


Tenham uma boa semana, meus amigos.

Abraços
Olinda


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Veja os posts anteriores, sobre o tema:

 

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Clarinho, clarinho...

Um dia, os babilónios levantaram-se do chão, roubaram o fogo dos deuses e gravaram na pedra: - nenhum poder sobre a Terra é superior ao império da Lei...

E, entre eles, nomearam um Conselho de Sábios, para que assim vele...

Hammurabi, o legislador, não se conforma e proclama - Babilónicos, a lei sou eu!...

Obsequioso, o Conselho de Sábios: Grande Hammurabi, teu poder é imenso e sábia a tua lei desde que se conforme com a Lei maior que nós velamos...

E devolve uma, duas, três vezes as leis de Hammurabi. Que agreste barafusta, investindo: aclarem vossas decisões - quando não, serão todos escrutinados!...

E culpa o Conselho de Sábios pelo afundamento do barco...

000

E um velho, cego e dando-se ares de profeta, murmura: clarinho, clarinho que até um cego vê!... E exorta: Babilónicos, não queiram ser escravos, nem bestas - o Povo é quem mais ordena!...

Manuel Veiga, in"Notícias de Babilónia e outras Metáforas"- pg 16


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Que livro é este? Publicado em 2015, ele é composto de textos de crítica político-social nos quais se reconhecem os intervenientes por estarmos a viver, na altura, a realidade neles descrita.

Entre os referidos textos, aparecem estas sátiras, tomando Babilónia, os babilónios e Hammurabi como protagonistas. A cereja no topo do bolo é uma entidade diferente em cada situação que, no fim, profere as suas exortações ou sentenças.

Duro e sem contemplações temos nesta obra um Manuel Veiga
versátil, analisando um dos momentos mais difíceis
 da nossa História, dos últimos tempos.




Presentemente, se não temos crises, inventamo-las. E assim passamos os dias em discussões estéreis, no diz-que-diz, em recriminações, em posturas deprimentes de personalidades institucionais que deviam estar a trabalhar para o bem comum.

Bom fim de semana, meus amigos.

Abraços.

Olinda 


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Imagem:
"Os Jardins Suspensos da Babilónia"...
nunca foram encontradas evidências arqueológicas 
irrefutáveis de sua existência.Daqui


segunda-feira, 15 de maio de 2023

A Concha





A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

  (1901-1978)

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, foi um poeta, romancista, cronista, académico e intelectual açoriano que se destacou como autor de Mau Tempo no Canal, e professor da Faculdade de Letras, da Universidade de Lisboa.


Tenham boa semana, meus amigos.
Abraços
Olinda






Oferta da querida amiga 

Gracita




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Poema: daqui

(Poesia, 1935-1940)

Paisagem da Ilha Terceira

sábado, 13 de maio de 2023

AVE-MARIA

 

À minha Mãe


Ave Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada
Ouvi a prece tirada
No meu peito de amargura!

Vós que sois cheia de graça,
Escutai minha oração,
Conduzi-me pela mão
Por esta vida que passa!

O Senhor, que é vosso filho
Que seja sempre connosco,
Assim como é convosco
Eternamente o seu brilho!

Bendita sois vós, Maria,
Entre as mulheres da terra;
A vossa alma só encerra
Doce imagem de alegria!

Mais radiante do que a luz
E bendito, oh Santa Mãe,
É o fruto que provém
Do vosso ventre, Jesus!

Gloriosa Santa Maria,
Vós que sois a Mãe de Deus
E que morais lá nos céus,
Velai por mim cada dia!

Rogai por nós, pecadores,
Ao vosso filho, Jesus,
Que por nós morreu na cruz
E que sofreu tantas dores!

Orai, agora, oh Mãe qu'rida
E (quando quiser a sorte)
Na hora da nossa morte,
Quando nos fugir a vida!

---

Ave Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada,
Ouvi a prece tirada
No meu peito de amargura.


7-4-1902
(Data provável em que este poema foi escrito)

in Poesia do Eu
pgs. 457 a 459



Estamos perante uma paráfrase de F. Pessoa
daquela oração que bem conhecemos: 
Ave-Maria*,
e dedica-a à sua Mãe, como se lê acima.



AVE-MARIA

Schubert

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No dia 14/5 festeja-se o "Dia das Mães" no Brasil.

Associo-me, nesse dia, aos amigos 

brasileiros que visitam este Xaile.

Abraços

Olinda



Da amiga Rosélia 



Da amiga Fê




Da amiga Gracita


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Obra essencial de Fernando Pessoa:
Poesia do Eu
Ed. Richard Zenith

*Nota: Diz-se que, sendo Maria vocativo, a expressão devia ser escrita assim:
"Ave, Maria!",  isto é,  com uma virgula em vez de hífen.


terça-feira, 9 de maio de 2023

Ala dos Namorados

 


Ala dos Namorados


SOLTA-SE O BEIJO

Espreito por uma porta encostadaSigo as pegadas de luzPeço ao gato "xiu" para não me denunciar
Toca o relógio sem cucoDá horas à cusquice das vizinhas e euConfesso às paredes de quem gostoElas conhecem-te bem
Aconchego-me nesta cumplicidadeDeixo-me ir nos trilhos traçadosPela saudade de te encontrarAinda onde te deixei
Trago-te o beijo prometidoSei o teu cheiro mergulho no teu tocarAbraças a guitarra e voas para além da lua
Amarro o beijo que se quer soltarEspero que me sintas para me entregarA cadeira, as costas, o cabelo e a cigarrilhaA dança do teu ombro...
E nesse instante em que o silêncioÉ o bater do coraçãoFecha-se a portaPára o relógioAs vizinhas recolhemTu olhas-me...
Tu olhas-me...
Trago-te o beijo prometidoSei o teu cheiro, mergulho no teu tocarAbraças a guitarra e voas para além da lua
Amarro o beijo que se quer soltarEspero que me sintas para me entregarA cadeira, as costas, o cabelo e a cigarrilhaA dança do teu ombro...
E, nesse instante em que o silêncioÉ o bater do coraçãoFecha-se a portaPára o relógioAs vizinhas recolhem
Solta-se o beijo, o gato mia...
Tu olhas-me...
Solta-se o beijo, o gato mia...
Uma Festa! 
E a ajudar, a Catarina Furtado (letra) e a Sara Tavares (voz)

Talentosos todos!

João Gil, Manuel Paulo e João Monge. Mais tarde, José Moz Carrapa. A banda, criada em 1992, descobre Nuno Guerreiro num espectáculo de Carlos Paredes.

Aqui estão eles num dos seus melhores momentos. O seu nome, Ala dos Namorados, remete-nos para a História Pátria, mais precisamente para a Batalha de Aljubarrota (1385). 



Com o exército dividido em alas, a dos Namorados era composta pelos combatentes mais jovens. Sabemos que a táctica do quadrado, idealizada por D. Nuno Álvares Pereira e posta em prática naquela batalha, dita a vitória sobre os castelhanos, debelando a crise de 1383-1385. E a Dinastia de Avis com o seu primeiro rei, D.João I, aclamado nas Cortes de Coimbra, dura até 1580. A partir dessa data também sabemos o que se seguiria, ou seja, a saga dos Filipes por sessenta anos.

Na actualidade brincamos às crises, como baratas tontas.

Boa semana, meus amigos.

Abraços

Olinda



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"Solta-se o Beijo"
Música: João Gil
Letra: Catarina Furtado
Vozes: Sara Tavares e Nuno Guerreiro

Imagem: Painel de azulejos pintado por Jorge Colaço (1922) representando um episódio da batalha de Aljubarrota. No Pavilhão Carlos LopesLisboaPortugal.


domingo, 7 de maio de 2023

Cantiga de Maio

 




Ó mãe, regressa a mim. Embala-me no tempo em que os teus lábios rebentavam de ternura. Ó mãe, ó minha mãe, ó rio de água pura, correndo pelas veias. Pelo vento.

Ó mãe, que és mãe de Deus, que és mãe de mim e mãe de Antero e de Camões, e mãe de quem lhe faltam as palavras como se faltasse o ar. E são assim uma espécie de filhos de ninguém. Abre o teu ventre, mãe. Acorda. Vem parir-me. E vem sofrer a minha dor uma vez mais. Morrer de amor por mim. Vem impedir-me o medo. Ensinar-me a amar a luz dos animais. 

Ó mãe, ó minha mãe. Ó pátria. Ó minha pena. Que me pariste, assim, temperamental. Mãe de Ulisses, de Guevara e mãe de Helena. E mãe da minha dor universal. 

Joaquim Pessoa 
   (1948-2023)
in 'Ano Comum' 

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Este poema já tinha sido publicado por mim, aqui, no Xaile de Seda, em 2018. Tal como então dedico-o a Todas as Mães, praticamente com as mesmas palavras que escrevi nessa altura:

Este autor, sempre a maravilhar-me com os seus textos, os seus poemas, as suas emoções. Palavras que vão direitinhas ao coração dirigidas à sua Mãe, à minha Mãe, às vossas Mães, a todas as Mães e, quem sabe, à Mãe-Pátria, à Mãe-Universo.




Cantiga do Maio : Carlos Paredes
Vozes: Natália Casanova, Nuno Guerreiro
Viola: Fernando Alvim
Acordeão e órgão: Manuel Paulo
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FELIZ DIA DA MÃE




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Imagem: Pixabay

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Senhora vá de si, soberba e altiva*

 



Vozes-Mulheres

A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.

A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
O eco da vida-liberdade.



Hoje, dia de homenagem à Língua Portuguesa, trago uma representante da Literatura Brasileira tendo em conta que o Brasil é o pais que maior contributo dá à manutenção do idioma, pelo número de falantes que apresenta. 

O Português é ali Língua Oficial, o mesmo acontecendo nas cinco ex-colónias africanas - Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe. Não nos esqueçamos de Timor-Leste. E também da Guiné Equatorial, com as nuances que lhe conhecemos.

Sendo a Língua Portuguesa uma língua viva, desde a época dos Descobrimentos ela viajou pelos cinco continentes e, como resultado, foi adquirindo vários termos desses espaços podendo-se dizer que existem tantas variantes quantos os países que a têm como língua oficial.

Conceição Evaristo é uma linguista e escritora brasileira.
É uma das mais influentes literatas do movimento pós-modernista no Brasil, escrevendo nos gêneros da poesia, romance, conto e ensaio. Como pesquisadora-docente, seus trabalhos focavam na literatura comparada. daqui

Este poema não só foca um dos momentos mais tristes do passado esclavagista como também se centra no papel da Mulher, em especial a mulher escrava. E Vem até ao presente...



Velha Infância
Maria Monte_Os Tribalistas


*NOTA
O título - Um dos versos do poema-carta do poeta renascentista português António Ferreira, em defesa da Língua Portuguesa.


Tenham um dia agradável, meus amigos.

Abraços 
Olinda


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Poema - daqui

quarta-feira, 3 de maio de 2023

O Reino das Casuarinas

 



Imaginemos um reino que põe a tónica na primazia da microeconomia familiar sobre a macroeconomia no processo do crescimento e do desenvolvimento humano, que cria o conceito de Ministérios afectivos, isto é, de proximidade com os mais pobres.

Imaginemos um reino onde os partidos políticos não têm assento. Um reino com uma monarquia constitucional, que detém um território, um espaço sem tecto, com os símbolos próprios como a bandeira, em que a escrita é abolida, privilegiando a forma oral de transmissão de ideias.

Um reino cuja Constituição é elaborada sob a forma de provérbios, que prevê eleições, nomeadamente a de um primeiro-ministro. Os seus elementos detêm uma amnésia auto-adquirida, tendo todos frequentado o mesmo hospital psiquiátrico.

Um reino em que a utopia tem lugar. Eu quase que acreditava que teria futuro. Mas há um pormenor que fez com que caísse pela base. Um dos seus fundadores tinha optado por não utilizar a fala.

Eis uma forma quase redutora de apresentar "O Reino das Casuarinas", reconheço. Mas há mais, muito mais. Trata-se da Angola pós-independente, na qual surge uma geração de escritores a que se chamou a "Geração de 80". Geração que não vê a realização das suas expectativas da forma como as idealizava.

José Luís Mendonça é o autor. Nascido em 1955 na província do Kuanza-Norte, Golungo-Alto, Angola, oferece-nos neste livro a análise das suas preocupações sociais e políticas através do protagonista Nkuku. Mas também vai buscar ao personagem Primitivo algumas das suas mais profundas ideias.

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Anjo da Guarda

Yola Semedo



Tenham uma óptima semana, amigos.
Olinda



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Leia, se lhe interessar:
Imagem: Daqui

domingo, 30 de abril de 2023

Eis o Livro



Não há muito tempo escrevi o prefácio para a edição de um Livro dedicado ao Crioulo de São Vicente, Cabo Verde, da autoria de Manuel R. Melo Santos.

É um Livro composto de duas partes, a que o autor deu o título de "Manual de Estudo da Língua Caboverdiana e Projeto de Gramática Caboverdiana para o Ensino do "Kriol" a Estrangeiros".


Sendo destinado a Estrangeiros, são na verdade 3 livros, especificamente,

"Kriol/Português (Barlavento-variante São Vicente)"

"Kriol/Francês (Barlavento-variante São Vicente)"

"Kriol/Inglês (Barlavento-variante São Vicente)"


O lançamento deste Livro será efectuado no próximo dia 4 de Maio, pelas 18.30, no Centro Cultural do Mindelo, pelo que apresento o Convite a quem puder estar presente e quiser embarcar nesta aventura.



A apresentação estará a cargo da Doutora Dora Oriana Pires - Docente universitária; foi Vice-Reitora da UNI/CV em São Vicente; Doutora em Ciências Linguísticas, especialidade em ensino da língua materna – FLUO, Santiago de Cuba. Atualmente é Deputada Nacional pela bancada do partido UCID e Presidente da Assembleia Municipal – em São Vicente. Acabou de lançar, em Santo Antão, a sua obra: “O CABOVERDIANO, LÍNGUA MATERNA DA REPÚBLICA DE CABO VERDE, E SUA INTRODUÇÃO NAS ESCOLAS DO PAÍS”, e já havia feito o mesmo, neste espaço, a 18 de outubro de 2022;

Coadjuvada pelas Professoras aposentadas do ensino secundário:

Lóide Rocha – Licenciada em Estudos Cabo-verdianos e Portugueses – pela UNI/CV – Pólo do Mindelo. Professora de Língua Portuguesa. • 

Filomena Lima – Mestre em História – Relações Internacionais e Cooperação, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto – Portugal. Professora de História e Cultura Caboverdiana.

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Muitos Parabéns a Manuel R. Melo Santos por este seu trabalho e votos do maior sucesso.

Olinda


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