sábado, 19 de maio de 2018

andam gastas e inúteis as palavras

andam gastas e inúteis as palavras. andam acesas as "interioridades" e parcas as sedas e raras as casas da generosidade e enigmáticas as douradas vaidades. temporariamente frágil como uma grinalda em fim de tempo ou um anjo orgânico sucedem-se as línguas as águas o turvo o rubro dos contrários e o negro da fadiga. os olhos mutantes e o coração de um cello impaciente revoltam-se na cauda bífida da mais pobre geometria do casulo das abelhas. o dizer lamentativo é uma dor expulsável e uma faca como chicote. andam gastas as mãos de tanta colheita em vão._______lucidíssimo o vário dizer que amanhã não estaremos cá para cerzir o mapa da lucidez. a consciência é uma clara face a banhar-se no lago dos bárbaros.

(texto publicado pela autora, em 16/05/2018)

Isabel Mendes Ferreira - in Palavra




Anda a lucidez arredada dos nossos dias. Parece que as boas palavras já perderam o sentido. É bom que o silêncio se imponha, se levante e requeira para as almas ansiosas que pululam por aí uns minutos de reflexão.

Vamos pensar todos juntos. Há situações que não têm solução, isto é, aquelas que não dependem de nós e sabemos bem quais são (por exemplo: a morte, doenças incuráveis...). Mas a gestão do nosso quotidiano, das nossas querenças ou malquerenças, preferências por isto ou por aquilo são coisas a que podemos dar o rumo que quisermos. 

A tendência para reacções acerbas pode ser condicionada e, estando nós de posse de todas as nossas faculdades mentais, isso é possível.

Bom fim-de-semana.

Abraço

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Imagem: daqui


sexta-feira, 11 de maio de 2018

os lugares são estáveis?

Habituei-me a pensar no meu marido não como quem pensa numa pessoa mas como quem pensa num lugar. Os lugares são estáveis. Estão lá para sempre. Lulu era a minha cidade natal, a casa dos meus pais, as paisagens da minha infância, um sólido cais de pedra, um porto de abrigo capaz de me proteger das tempestades. Pensando melhor, também os lugares morrem, também eles nos podem trair. Foi o que aconteceu à minha cidade. Em todo o caso eu pensava em Lulu como quem pensa num lugar estável. Faça um pequeno esforço de imaginação. Pense num lugar estável. O Kilimanjaro parece-lhe um lugar estável? Pois eu pensava em Lulu com o mesmo sentimento de segurança, de perenidade, com que você pensa no Kilimanjaro.



Interessante, não é? Esse sentimento de segurança, de perenidade. É refrescante essa confiança e pertença. 
A questão aqui é saber se, realmente, tudo permanece imutável: na vida, no ambiente, no nosso planeta.

E, será que esses dois continuarão juntos?

Deixo-vos este exercício, 

enquanto procuro recuperar o texto que queria publicar há dois dias, relacionado com o post anterior. Talvez seja melhor escrever outro se o PC não entrar, de novo, em colapso.  

Abraço e até breve.

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13/05

Pois bem, queridos amigos

A vida é assim. Tudo vai tomando novas aparências. Lugares que pareciam enormes na nossa infância quando lá voltamos, em adultos, já não parecem os mesmos. Encolheram. Foi essa a sensação quando voltei à minha aldeia depois de alguns anos. As pessoas não são as mesmas. Os cantos e recantos também não. 

Tudo é passível de mudança, para o bem ou para o mal. Até o Kilimanjaro, referido no texto, o ponto mais alto de África, o das neves eternas, já não é o que era. Com as alterações climáticas corre o risco de perder a sua coroa brilhante. 

Mas, ouçamos mais algumas palavras da personagem sobre a sua relação com o marido:

Nos últimos anos, é verdade, fomo-nos afastando um do outro. Afastando é uma maneira de dizer, pois estamos sempre juntos, acho mesmo que o que nos afastou foi esse excesso de proximidade.

...Cansámo-nos um do outro...
    

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José Eduardo Agualusa - Barroco Tropical, excerto, pg 124
Imagem: Kilimanjaro (Net)


domingo, 6 de maio de 2018

ÀS MÃES


Diz-me coisas bunitas, sussurradas ao ouvido.




Sim, é isso.

Dedico esta linda canção de Sara Tavares a todas as mães e, já agora, a mim própria.

Mas, voltarei a este post ou com um outro para dizer mais algumas palavras sobre estas criaturas que também são criadoras de vida.

Abraço.

sábado, 5 de maio de 2018

Respirar o amor, aspirando liberdade

O dia, hoje, convida à dança, aos cantares, à celebração da música, da natureza e do amor. Há lá coisa melhor para o coração do que o amor...e a liberdade! Isso, para referir também que este mês é dedicado a esse órgão essencial e um pouco misterioso por aquilo que costumamos atribuir-lhe, considerando-o autónomo na parte que diz respeito aos sentimentos e às nossas sensibilidades.

Já sabemos que ele, o coração, como máquina que é e embora perfeita ou por isso mesmo, agradece muitíssimo o exercício físico e a alimentação cuidada. 



Em relação ao exercício físico não vale dizermos que não temos tempo, pois em cima da nossa cama, por dez minutos diários, podemos fazer alongamentos e mexer as pernas e os braços. Também podemos fazer isso no chão em cima duma esteira ou toalha. E no nosso sofá! Enquanto vemos a novela, a série, o debate ou o que seja, podemos mexer os pés, as mãos, esticar as pernas, enfim, um sem número de movimentos que beneficiam o nosso corpo em geral. Sendo mais aventureiros, também a caminhada não será despicienda, antes pelo contrário. 

Quanto à alimentação todos sabemos do que se trata. Legumes, legumes e mais legumes, feitos das mais variadas maneiras entre elas saladas e sopas. E fruta, fruta e mais fruta. 

Li aquiLembre-se que uma alimentação equilibrada deve ser constituída maioritariamente por hidratos de carbono (até 65% do total de calorias ingeridas) e por quantidades menores de gordura e proteínas (cada uma não deve ultrapassar os 35% do total calórico diário).

Como em tudo, o importante é haver bom senso. Não iremos ao ponto de andar a pesar aquilo que comemos e calcular percentagens, mas sabendo o que sabemos lá chegaremos, conseguindo manter um peso ideal para que o nosso coração possa funcionar como merece.

Da minha lavra recomendo a dança. E quando? Sempre que possamos. Por mim andava na rua a dançar. Penso que há ou vai haver, por aí, um programa qualquer que convida a isso, não vos posso dizer de que se trata porque não tomei nota. Mas, não interessa. Podemos adoptá-la como parte dos nossos exercícios, em casa.

Dancemos, então, com Daniela Mercury:



Temperatura, hoje, a convidar a uma ida à praia ou a fazer um pique-nique. Isso ou outra actividade ao ar livre.

É só escolher. Desejo-vos um bom sábado.


Abraço.

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Volto a este post para dizer que provei um pouco do remédio que vos receitei.
O lusco-fusco apanhou-nos ainda na praia e, aí, porque não comer alguma coisa e apreciar a noite amena e o ruído apaziguador das ondas?










Fotos nossas.

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imagem daqui

terça-feira, 1 de maio de 2018

É preciso avisar...

É preciso avisar toda a gente
dar notícia informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir

É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha

É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta

É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores
É preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores


João Apolinário
  (1924-1988)

Poeta e jornalista.
Combateu o fascismo tanto em sua terra natal, quanto em seus anos de exílio no Brasil. Colaborou em inúmeras publicações importantes nos dois países. É, no entanto, mais conhecido por seus poemas, musicados pelo filho João Ricardo e apresentados pelo conjunto Secos e Molhados. aqui




Desejo a todos um bom 1º de Maio.

Abraço.

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Poema: daqui

Video: Youtube

sábado, 28 de abril de 2018

A mão que a seu amigo hesita em dar-se

Perguntaste se eu amo o meu amigo? 
como rompendo um demorado açude 
na tua voz quis hausto que transmude 
todo o cristal dos ímpetos consigo 

Neste meu choro enevoado abrigo 
pôs-me a palavra o peito em alaúde 
que uma doce pergunta tua ajude 
no sim furtivo que eu levei comigo 

Mas a meu lábio lento em confessar-se 
um mestre inda melhor o cunharia 
A mão que a seu amigo hesita em dar-se 

ele a tomou o que mais firme a guia 
para que ao coração secreto amando 
ao mundo todo em rimas o vá dando. 

Walter Benjamin,

in "Sonetos" 

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Marinha Portuguesa resgatou este mês mais de 100 migrantes no Mediterrâneo

Na madrugada de domingo, 22 de abril, a fragata da Marinha Portuguesa ‘D. Francisco de Almeida’, resgatou no mediterrâneo central uma embarcação com 79 migrantes tunisinos que tentavam alcançar a ilha Sicília, Itália.
Os mesmos militares portugueses já haviam salvado na passada terça-feira, 17 de abril, 49 migrantes líbios junto à ilha de Lampedusa, informa a Marinha Portuguesa num comunicado.
“A embarcação, que se encontrava sobrelotada, afundou-se pouco tempo depois de todos os migrantes terem sido retirados para a fragata portuguesa”, lê-se no comunicado.
Os migrantes eram todos do sexo masculino, entre os quais 15 menores, e foram entregues às autoridades italianas no porto de Pozallo. Mais






Espanto-me. Ainda há migrantes no Mediterrâneo, em barquinhos sobrelotados arriscando a vida? É notícia que já não abre telejornais nem preenche primeiras páginas de jornais. Com efeito, do fluxo migratório dos martirizados do norte de África já não se fala, nem da tragédia latente no Mediterrâneo. 

Parece estar já esquecida a procissão dos sobreviventes pelos gelados campos de concentração ou acolhimento. E a Itália com o ónus de uma situação cuja responsabilidade caberia à União Europeia. Mas, talvez haja aí um acordo entre as partes (?). Não sei, quem sabe se não é ignorância minha e está tudo resolvido.

De louvar a acção da Marinha Portuguesa. Depreendo que esteja inserida numa  política europeia, concertada entre todos, não? Mas, de qualquer maneira, sabe bem ver essa mão que se estende aos desamparados da sorte.

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Poema: Citador
Tradução: Vasco Graça Moura
Imagem: daqui

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Dos Direitos da Mulher e da Cidadã

Os jovens do baby boom, a explosão demográfica que se seguiu à segunda grande guerra, são os velhos de hoje*. Passaram por grandes mudanças culturais e sociais. Foram eles que, no nosso caso, andaram na guerra colonial e que, também, fizeram acontecer a Revolução de Abril. A eles devemos o dia que hoje vivemos, com a possibilidade de nos expressarmos livremente e de tomarmos decisões importantes para as nossas vidas. Contudo, há que ter em conta que a nossa liberdade termina onde começa a liberdade do outro. Isto já é quase um lugar-comum, muitas vezes só de boca, como diz o povo.

Hoje, pretendo apenas referir a situação da Mulher neste mundo que consideramos livre. Há uma violência contra ela que não abranda, chegando a extremos irreversíveis. E enquanto não lançarmos campanhas de mudança de mentalidade não vamos lá com decretos. Há uma falha civilizacional que persiste e não tem sido por falta de referências e de entrega em relação a pessoas que até com a própria vida têm tentado ao longo da História fazer valer princípios que deveriam ser ingénitos.  




Dito isto, chego ao que aqui me traz hoje. Neste dia de comemorações, Dia da Liberdade, assinalo uma voz que emerge do Sec. XVIII. Uma voz de mulher que em plena Revolução Francesa, 1789, pugna pelos direitos da Mulher. Nada de admirar, dir-se-á. Não se trata da revolução que nos conduz à divisa Liberté, Égalite, Fraternité? Com efeito, uma revolução que, logo nos primeiros dias, produzira a Declaração tida como das mais inspiradoras no que aos direitos do homem diz respeito. Mas é precisamente nesse aspecto que falha: deixa de fora a Mulher que continuava sem direito ao voto, de acesso a instituições públicas, liberdade profissional, sem direitos de propriedade, entre outros. 

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, tantas vezes citada e louvada, é, assim,  posta em causa por Olympe de Gouges, nascida Marie Gouze. Sobre o modelo da referida Declaração produzira uma outra a que dera o nome de Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, de 1791, dirigida à Rainha, Maria Antonieta, com o objectivo de que fosse aceite e aprovada pela Convenção Nacional, com as alterações devidas, frisando que a "Mulher nasce livre e permanece igual ao homem em direitos".

Olympe de Gouges fora ostracizada, guilhotinada e esquecida pela gerações seguintes até que em 1986 a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, 1791, foi publicada por Benoîte Groult e:

Em 6 de março de 2004, em Paris, uma praça foi denominada como Place Olympe de Gouges. (...)Em 2007, a candidata presidencial francesa, Ségolène Royal expressou o desejo de que os restos mortais de Gouges fossem movidos para o Panteão. No entanto, seus restos, como os das outras vítimas do regime de terror, foram perdidos através do sepultamento em covas comuns.


HOJE E SEMPRE, HONREMOS OS NOSSOS MORTOS E SEJAMOS DIGNOS DO SEU LEGADO.

ABRAÇO.

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Veja este post, de 29/04/2018, do blog Entre as Brumas da Memórias:




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*em grande parte.

Leia:
A declaração e contrato social

Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã

Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Os "Poka Pokani"

Ultimamente tenho ouvido rádio enquanto faço outras coisas. Então, há dois ou três dias ouvi uma entrevista a Margarida Botelho, que eu não conhecia. Apanhei a conversa um pouco pela rama, mas fiquei a saber que ela é uma escritora que viaja pelo mundo, nomeadamente por países lusófonos*, colhendo experiências para os seus livros infanto-juvenis, interagindo com crianças dessas paragens. O alimento para as suas histórias vem dos desenhos e actividades dos pequenos colaboradores, integrados no seu ambiente. 

São ENCONTROS cuja história vem de trás, de 2010/2011. Ora, leiam isto:

“Durante 9 meses viajei por Moçambique com uma mochila cheia de livros em branco, que foram pouco a pouco ganhando letras e imagens. Na altura, desenhei um projecto de literacia comunitária com base na ideia de que a experiência de construir um livro (literalmente) com a nossa história de vida fornece-nos mais ferramentas para entendermos quem somos e o mundo que nos rodeia. Em algumas situações limite ajuda a sobreviver: treinando competências que podem ser determinantes no desenvolvimento social e económico de comunidades vulneráveis” (...) Entretanto o projeto ENCONTROS, dinamizado por Margarida Botelho e Mário Rainha Campos deu origem a uma coleção de livros de nome POKA POKANI. Os ENCONTROS já aconteceram em Moçambique, em Goa, na Amazónia brasileira, em Timor-leste e em Cabo Verde.





Dessa colecção constam já estes livros, com títulos e conceitos muito interessantes:  Eva/Eva, de Moçambique; Yara/Yara, da Amazónia; Lia/Lya, de Timor.

De entre eles, pego em Lia/Lya, e transcrevo parte da explicação que nós é dada, vislumbrando um pouco desse universo, simultaneamente, mental e físico:

Em julho e agosto de 2013, Margarida Botelho e Mário Rainha Campos viajaram até Atecru, uma pequena e ainda isolada aldeia piscatória situada na costa norte da ilha de Ataúro, em Timor-Leste. É um lugar de extrema beleza natural e equilíbrio ambiental, em que os habitantes pescam através do mergulho em apneia. Dentro e fora do mar, Margarida e Mário, acompanharam o dia-a-dia de crianças mergulhadoras e das suas famílias, ao mesmo tempo que desenvolviam o projeto ENCONTROS, que permitiu a ambos os lados descobrirem surpreendentes mundos novos.

O livro LIA/LYA, refletindo a visão do ENCONTROS, nasceu a partir das vivências dos dois arte-educadores junto da comunidade de Atecru. O livro sugere aos leitores uma viagem para a reflexão através da comparação. Lya é uma menina mergulhadora que vive no Sudeste Asiático, num dos países mais jovens do mundo, chamado Timor-Leste. Lia é outra menina, que vive na EUROPA, em PORTUGAL. Ambas iniciam, em lados opostos do livro, uma viagem para o encontro!

Por último, mas com a certeza de que voltarei a este tema, referirei o último Encontro desta dupla-maravilha, que se deu em Cabo Verde, ilha do Fogo:

Em chão das caldeiras na ilha do FOGO, o estímulo visual era constante pois tudo dialogava dicotomicamente com o negro da lava recente, como é o exemplo das folhas viçosas das vinhas de lava.


A comunidade de Chã das Caldeiras da ilha do Fogo depois da última erupção reclamou a existência de uma escola como quem exige um serviço de primeira necessidade. Como o espaço da garagem transformada em sala de aula era extremamente pequeno e com pouca luz, quando chegou a altura de pintar os diários de vida, as crianças correram para o muro do campo da bola. No muro de lava todos se surpreenderam com o poder de um pincel e da cor em forma de tinta. Foram momentos deliciosamente caóticos e felizes! Sábi, sábi Dja Fogo!

Dja Fogo e, anteriormente, Dja Braba! Para quando o livro? 

Bom, muito bom. Excelente esse trabalho levado a cabo com tanto interesse e dedicação. Obrigada, Margarida Botelho e Mário Rainha Campos.

Hoje, Dia do Livro, nada melhor do que acompanhar-vos nessas viagens maravilhosas.

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Imagens e excertos:
Margarida Botelho.com 

*Nota sobre Goa: Não é um país de expressão lusófona mas, por lá ficaram muitas palavras e experiências lusas.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

"trinta e seis meses"

Françoise d'Aubigné,* Madame de Maintenon, esposa morganática de Luís XIV, teve uma infância não muito feliz, pobre mesmo, com o pai na prisão onde ela própria teria nascido, vivendo de favor em casa de uns tios e, inclusivamente, num convento. Num desses períodos, entretanto, o pai saiu da prisão e aventureiro como ele era resolve emigrar para Guadalupe com a família, em 1644, sem posses, tendo a mulher que recorrer a um prestamista para poderem ter lugar no navio (ela, os pais e dois irmãos). O excerto que se segue é uma das passagens da narrativa sobre a viagem:




  
Os passageiros livres como nós, não eram, todavia, os que mais sofriam instalados à maruja na entrecoberta, dormíamos em cima de esteiras,(...); tínhamos toda a liberdade de subir à coberta e de andar por onde quiséssemos, desde que isso não perturbasse a manobra.
Não era o caso dos pobres contratados, que naquele navio eram cerca de duzentos: operários ou camponeses sem crédito, que a miséria em França obrigava a ir procurar o pão na colónia, não podiam custear a passagem e comprometiam-se, antes de partir, a servir sem remuneração três anos um passador que lhes pagava o preço da viagem. Por causa do tempo que estes desgraçados alienavam voluntariamente a sua liberdade e se faziam escravos, chamavam-lhes "trinta e seis meses": estes desgraçados viajavam encerrados nos porões, sem ar, sem roupas suficientes, sem água doce para se manterem decentemente limpos; infestados de piolhos, deitados a monte entre o lodo e os detritos, pegavam uns aos outros as mais variadas doenças cujo cheiro e infecção subiam até à entrecoberta. Estas incomodidades eram tais que morreram de febres, durante a viagem, mais de cinquenta destes infelizes, ou seja, quase um por dia, cujos corpos os marinheiros lançavam ao mar depois de terem disparado o canhão.

Desse passado, do longínquo Século XVII, vêm-nos estes ecos migratórios, de pessoas que, para fugirem à miséria, empenham a sua própria liberdade ainda que por tempo determinado ("trinta e seis meses") nada garantindo, contudo, que ficariam livres depois de pagarem o que deviam. Situações similares verificam-se no presente, de gente enganada com promessas de trabalho fora dos seus países de origem, espoliada dos seus documentos até pagarem o empréstimo. Mas essa liberdade poderá nunca ser reconquistada, continuando esses engajadores a controlar toda a sua vida.

Ainda hoje ouvi e li que neste nosso Portugal o tráfico de seres humanos está fora de controlo. Um crime silenciado - disse a pessoa entrevistada, nas notícias das 13h, da Sic.

Outra triste sensação que este texto me traz é a forma como aquelas pessoas são empilhadas nos barcos, sem piedade. Esse facto lembra-me os barcos de negreiros cuja carga iria abastecer as plantações das colónias detidas pelo chamado mundo ocidental. Uma migração forçada em que a exploração do homem pelo homem conheceu momentos arrepiantes.


Mas, continuamos impávidos e serenos sem nada aprender, ou quase nada, com a História. 


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.Ver um interessante artigo intitulado: Escravos, no Andanças Medievais, de Cristina Torrão.


.O excerto acima é da obra:

A Alameda do Rei, de Françoise Chandernagor - pg 35

*Leia também este excerto, um retrato, uma espécie de resumo, já no final deste livro cuja autora percorre a vida de Françoise d'Aubigné através das suas cartas e outros documentos da época - página 460

Toda a minha vida tive frio. Há crianças que os pais votam à Virgem ou a qualquer outro santo no dia do nascimento; a mim votaram-me ao frio num dia de Novembro numa cela sem lareira da prisão de Niort, e esse patrono nunca mais me deixou. Seguiu-me até Mursay, naquele pequeno quarto que nunca aqueciam para não me habituarem a confortos acima da minha condição; juntou-se-me em La Rochelle, naquele Outono chuvoso em que eu andava descalça pelas ruas para conseguir um pouco de pão; envolveu-me numa tarde de Inverno enquanto confiavam à terra o caixão do meu irmão; seduziu-me em Paris quando, calçando sapatos furados, me esforçava por manter-me entre os grandes sem escorregar; desposou-me em Versalhes enquanto o vento se engolfava pelas janelas do meu quarto abertas de par em par. (...)
  

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Testamento para o dia claro






Quando do fundo da noite vier o eco da última palavra submissa
         E a patina do tempo cobrir a moldura do herói derradeiro,

         Quando o fumo do último ovo de cianeto
         Se dissipar na atmosfera de gases rarefeitos
         E a chama da vela da esperança
         Se acender em sol na madrugada do novo dia

         Quando só restar na franja da memória
         Lapidada pelo buril dos tempos ácidos
         A estria da amargura inconseqüente
         E a palavra da boca dos profetas
         Não ricochetear no muro do concreto
         Da negrura sem fundo de um poço submerso

         Sejais vós ao menos infância renovada da minha vida
         A colher uma a uma as pétalas dispersas
         Da grinalda dos sonhos interditos.
          
          ARNALDO FRANÇA

Arnaldo Carlos de Vasconcelos França nasceu na cidade da Praia, Cabo Verde, em 1925. Graduado em Ciências Sociais e Políticas pela Universidade Técnica de Lisboa.

Queira ler mais sobre este autor, aqui, no Xaile de Seda.



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Poema:Do site de António Miranda
e Blog Esquina do Tempo de Brito-Semedo
Imagem: daqui