domingo, 13 de fevereiro de 2011

ENGANO DA ALMA, LEDO E CEGO

Dª Maria, senhora de 64 anos, contou-me que as memórias que tem de algumas passagens de Os Lusíadas remontam à sua infância, ainda antes de ir para a escola. Lembra-se que o seu tio Victor (tio por afinidade) professor da instrução primária vinha todos os anos acompanhar os alunos para o exame da 4ª classe. Naquele tempo e lugar não havia diversão nenhuma a não ser ouvir e contar histórias e a brincadeira em correrias ao pé de casa. Pois o tio Victor era um bom contador de histórias. Naquelas noites quentes de Verão, ela e os irmãos bebiam as palavras dele quando falava com paixão de Luís de Camões e d'Os Lusíadas: a viagem de Vasco da Gama, os amores de D.Pedro e Dª Inês de Castro, a ilhas dos amores.E essa paixão acompanhou-a e fê-la licenciar-se em História. Desses tempos de meninice ainda recorda algumas estrofes como a que se segue: 


*Estavas linda Inês, posta em sosssego,
 De teus anos colhendo doce fruito
 Naquele engano da alma, ledo e cego,
 Que a Fortuna não deixa durar muito,
 Nos saudosos campos do Mondego,
 De teus fermosos olhos nunca enxuito,
 Aos montes insinando e às ervinhas
 O nome que no peito escrito tinhas.

Na expressão engano da alma, ledo e cego Camões dá-nos mais uma definição do amor e que no que se refere a Pedro e Inês um amor trágico que ultrapassou todos os limites com a morte dela ordenada por D.Afonso IV. D.Pedro na sua vingança também foi assolador. Este caso faz-me lembrar outros amores com fim trágico, com o seu quê já lendário,  como os de Tristão e Isolda, Romeu e Julieta.

Nesta quinzena em que tanto se fala de amor ou na melhor forma de presentear o ente querido no dia dos namorados, talvez devêssemos pensar um pouco nos casos de violência doméstica que se têm multiplicado e na maneira de ultrapassar isso através da tolerância e compreensão.

*Estrofe 120-Canto III
  Os Lusíadas-Luís de Camões

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