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domingo, 18 de janeiro de 2026

O desassossego do Mar




Poema do Mar

O drama do Mar,
O desassossego do Mar,
    sempre
    sempre
    dentro de nós!

O Mar!
cercando
prendendo as nossas Ilhas,
desgastando as rochas das nossas Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
roncando nas areias das nossas praias,
batendo a sua voz de encontro aos montes,
baloiçando os barquinhos de pau que vão por estas costas...

O Mar!
pondo rezas nos lábios,
deixando nos olhos dos que ficaram
a nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós nas estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra!

O Mar!
a esperança na carta de longe
que talvez não chegue mais!...

O Mar!
saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,
histórias da baleia que uma vez virou a canoa...
de bebedeiras, de rixas, de mulheres, nos portos estrangeiros...

O Mar! 
dentro de nós todos,
no canto da Morna,
no corpo das raparigas morenas,
nas coxas ágeis das pretas,
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!

   Este convite de toda a hora
   que o Mar nos faz para a evasão!
   Este desespero de querer partir
   e ter que ficar!

Jorge Barbosa

(Ambiente, 1941)


Jorge Vera-Cruz Barbosa ( 1902 -1971) foi um escritor cabo–verdiano.
Colaborou em várias revistas e jornais portugueses e cabo–verdianos e ainda na revista luso-brasileira Atlântico.. Com a publicação do seu primeiro livro, Arquipélago em 1935 foi um marco para o nascimento da poesia cabo-verdiana...
ver mais 





BANA

Mar é morada de sodade




Bom domingo, amigos.

Abraços

Olinda




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imagem: pixabay
Ver Claridade
Jorge Barbosa - características essenciais - aqui


sábado, 10 de janeiro de 2026

O Cais e a Cidade Velha

 


POSTAL


deste lado da ilha
o cais e a cidade velha
datam de muito tempo,
mas a cidade é um poema
não cresceu. é sempre a mesma.
todos os dias igual:

o mesmo outeiro da cruz
desterro, fontes e fortes
igrejas, lendas, sobrados
estreitas ruas, mirantes
portões, sacadas de ferro
poetas, becos, telhados
serestas, maledicência
saveiros, pregões de rua
cantaria, mal-amados
rios (chão, templo e canteiros)
de peixe e palafitados)
ladeiras, moças bonitas
recato e amor nas janelas
casarões azulejados.

cidade em traje a rigor
vestida à colonial
meu mundo, meu porta-jóias
meu bem, meu cartão postal.

brisa de maré vazante
sem similar no país.
quietude pousada na água
caminhos feitos de história.

gente vem ver São Luís!




Manuel dos Santos Lopes (1907-2005) foi um ficcionista, poeta e ensaísta e um dos fundadores da moderna literatura cabo-verdiana que, com Baltasar Lopes da Silva e Jorge Barbosa, foi responsável pela criação da revista Claridade.
ver mais aqui





Assol Garcia - 
Rapsódia de Mornas



Bom fim de semana, amigos.

Abraços

Olinda


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Cidade Velha - aqui
imagem - pixabay
Ver aqui - Manuel Lopes

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Triste, por te deixar, de manhãzinha

 




PARTINDO

Triste, por te deixar, de manhãzinha

Desci ao porto. E logo, asas ao vento,

Fomos singrando, sob um céu cinzento,

Como, num ar de chuva, uma andorinha.


Olhos na Ilha eu vi, amiga minha,

A pouco e pouco, num decrescimento,

Fugir o Lar, perder-se num momento

A montanha em que o nosso amor se aninha.


Nada pergunto; nem quero saber

Aonde vou: se voltarei sequer;

Quanto, em ventura ou lágrimas, me espera


Apenas sei, ó minha Primavera,

Que tu me ficas lagrimosa e triste.

E que sem ti a Luz já não existe.




Eugénio de Paula Tavares nasceu na Ilha Brava, Cabo Verde, a 18 de Outubro de 1867, filho de Eugénia Roiz Nozolini Tavares e de Francisco de Paula Tavares.
Escreve o Poeta sobre a sua Ilha:
"Descoberta num dia 24 de Junho, chamaram-na a Ilha de São João. Depois, a natureza selvática da sua orografia, o bravio dos seus vales emaranhados de vegetação hostil, e o abandono que foi relegada durante muitos anos e ainda depois de habitada, deram-lhe o nome de BRAVA. 




A.Travadinha - Flor Formosa
execução
Ensemble Conductus


Bom dia de Reis, meus amigos.
Abraços
Olinda

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imagem - pixabay

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Contraste








A minha alma trema em tuas mãos
debruçada na varanda desta tarde

Silêncio da cor em teus contornos
o adeus do mar dentro de mim

Para além do ilhéu dos pássaros da ilha
o sol morre aos poucos devagar

A minha alma treme em tuas mãos
debruçada na varanda desta tarde

Vejo os barcos ao longe na baía
as lanchas negras dos trabalhadores
a torre da capitania ao lusco-fusco

Lentamente uma a uma na cidade
vão acendendo as luzes da cidade

Na fábrica de bolacha do Matos
na padaria do Jonas depois

Só no cemitério ao lado é tudo escuro...

Branqueiam ainda as campas dos mortos
e os nomes vou ler à hora do sol
mas agora fazem medo à minha infância

Em casa dos meus vizinhos perto
nh´ugénia de Sena e nhã Nê Grande
acenderam os candeeiros de petróleo

(Cambambe, 1969)




Yolanda Morazzo (São Vicente16 de dezembro de 1927 - Lisboa27 de janeiro de 2009) foi uma escritora e poetisa Caboverdiana de língua portuguesa. 
Ver mais aqui






MAR AZUL
Cesária Évora e Marisa Monte


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Imagem:pixabay
Poema: daqui

sexta-feira, 5 de julho de 2024

A Última Lua de Homem Grande

 Onde é que eu estou?,

pergunta à Lua.

O simples pronunciar já lhe dói impiedosamente. Está coberto de uma coagulação arrefecida e pastosa, sente uma pérola de suor a escorrer-lhe sob a gola direita, e seu fígado late como um vulcãozinho de estimação. A custo golfa um soluço de dor, tosse partindo todas as costelas, tendões e músculos, e resmunga com dificuldade:

_Deram-me um tiro

Pg 181





Ele, Amílcar, Homem Grande, como lhe chamavam, sabe que depois da sua morte persistiria a pergunta sem resposta cabal:

Quem matou Amílcar Cabral?

E Mãe Iva, no funeral, apenas o espírito. Não o corpo.
Pariu um filho para servir o mundo.

Líder do Partido denominado PAIGC, para a independência da Guiné e Cabo Verde não chegou a tomar o gosto a essa liberdade. Depois da sua morte a Guiné declarou unilateralmente a independência e Cabo Verde ascendeu a ela depois da Revolução de Abril de 1974, mais precisamente no dia 5 de Julho de 1975. Portanto, há 49 anos e lá festeja-se esta data.

Político, agrónomo, teórico marxista, chamado de "fazedor de utopias", mas também poeta.

Eis um dos seus poemas:


Quem é que não se lembra
Daquele grito que parecia trovão?!
– É que ontem
Soltei meu grito de revolta.
Meu grito de revolta ecoou pelos vales mais 
longínquos da Terra,
Atravessou os mares e os oceanos,
Transpôs os Himalaias de todo o Mundo,
Não respeitou fronteiras
E fez vibrar meu peito…

Meu grito de revolta fez vibrar os peitos de 
todos os Homens,
Confraternizou todos os Homens
E transformou a Vida…

… Ah! O meu grito de revolta que percorreu 
o Mundo,
Que não transpôs o Mundo,
O Mundo que sou eu!

Ah! O meu grito de revolta que feneceu 
lá longe,
Muito longe,
Na minha garganta!

Na garganta de todos os Homens





Cabo Verde - Mornas

Cerca de 19 minutos de música belíssima. 
Compositor: o grande B.Léza, Francisco Xavier da Cruz.

***

NOTA:

No dia 25 de Maio passado comemorou-se o Dia de África.
Durante o mês de Julho trarei alguns temas relacionados com 
o continente africano, como referi ainda no mês de Maio,
antes de ir de férias.

Abraços
Olinda

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"A última Lua de Homem Grande"
de Mário Lúcio Sousa.

Poema - “Emergência da poesia em Amílcar Cabral” (30 poemas)..
 [recolhidos e organizados por Oswaldo Osório]. Colecção Dragoeiro. 
Praia: Edição Grafedito, 1983. daqui


quarta-feira, 10 de abril de 2024

A minha Poesia sou eu





… Não, Poesia:
Não te escondas nas grutas de meu ser,
não fujas à Vida.

Quebra as grades invisíveis da minha prisão,
abre de par em par as portas do meu ser
— sai…

Sai para a luta (a vida é luta)
os homens lá fora chamam por ti,
e tu, Poesia és também um Homem.

Ama as Poesias de todo o Mundo,
— ama os Homens
Solta teus poemas para todas as raças,
para todas as coisas.
Confunde-te comigo…

Vai, Poesia:
Toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida.

A minha Poesia sou eu.


Amílcar Cabral,
in “Seara Nova”. 1946.




Amílcar Cabral, o homem que preconizava o diálogo. No poema cantado, abaixo, de António Gedeão ouve-se "mesmo morto hei-de passar". E passou. Não com a Concórdia que ele queria... 

Mesmo assim abriu os braços para acolher a Humanidade, 
transmitindo-lhe o que considerava um bem precioso:
a noção de liberdade.





Adriano Correia de Oliveira
"Fala do Homem Nascido"

(Poema: de António Gedeão
Música: José Niza)


***


Amílcar Lopes da Costa Cabral, (Bafatá, Guiné Portuguesa, actual Guiné-Bissau, 12 de setembro de 1924 — Conacri, 20 de janeiro de 1973) foi um político, agrónomo e teórico marxista da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. aqui



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Poema publicado aqui, no Xaile de Seda

sexta-feira, 29 de março de 2024

Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável, ó homens





E então subimos aquele grande rio

e as portas do Ródão, chamadas. Era em abril,

dois dias depois da neve

e da cidade dos nevões, na serra.

E olhámos para os penhascos da beira-rio,

as oliveiras, o xisto, a cevada

as ervas de termo e as colinas.

E, junto da via férrea, os homens do país

miravam-nos como se fôssemos nós

e não eles os mortos desta terra,

homens do medo e do tempo da discórdia

que trazem para o cimo das estradas

a malícia que vai apodrecendo

seus pés neste mundo e em terras de outrem.

Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável, ó homens,

perdidos que estais, hoje como ontem,

entre a casa e o limiar?

E evocámos, mais uma vez, esse provérbio sessouto.

E, na verdade, porque regressaremos,

após tantos anos, a este tema?

Será que a morte nos ensinou

a olhar para o homem com pavoroso êxtase?

JOÃO VÁRIO


Excerto de :
"Exemplo Relativo", 1968


***


Poeta denso e intenso, de difícil interpretação. Muito se tem falado dele mas não o suficiente porquanto é tido como pouco lido. Fala muito da morte, diz-se, e há quem diga que com razão. Quando pela primeira vez publiquei um excerto de um dos seus "exemplos", limitei-me a interrogá-lo, propondo percorrer o caminho por ele percorrido para o compreender. Mas para isso seria necessário ter o seu engenho e arte...


Ele é João Manuel Varela, de seu nome, mas também João Vário, Timóteo Tio Tiofe e Geuzim Té Didial. Foi um escritor, neurocientista, cientista e 
professor cabo-verdiano.

Estudou medicina nas universidades de Coimbra e de Lisboa e doutorou-se na universidade de Antuérpia, na Bélgica, onde foi investigador e professor de neuropatologia e neurobiologia. Ao jubilar-se, regressou à sua Mindelo natal.

Estreou-se com o livro “Horas sem carne” (1958), depois renegado. Participou em “Êxodo-fascículo de poesia” (Coimbra, 1961) e publicou “Exemplo geral” (1966) e “Exemplo relativo” (1968). Seguir-se-iam outros “exemplos” e a reunião na obra monumental “Exemplos- Livros 1-9” (2000).


***


TITINA




Noite de Mindelo - B.Léza




Bom fim-de-semana, meus amigos.
Abraços
Olinda



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João Vário, aqui, no Xaile de Seda

Leiam:

João Vário- Todo o homem é Babel aqui (a questão da heteronímia)

Antologia do Esquecimento - "Exemplos" - aqui

sábado, 30 de setembro de 2023

"Terra nhanhida, senhor! infeliz, desgraçada... - disse nha Venância

A Orlanda:
a quem, ao longo destes últimos anos,
no trato diário, fui surripiando,
às vezes traiçoeiramente,
muita da matéria desta narrativa,
quem sabe se impossibilitando-a
de um dia torná-lo sua...





   Empurrados do interior, os povos buscavam o litoral na esperança de um mandioquinha, de um caldinho de peixe, de um cana para chupar, ou de folhas verdes para mastigar. Qualquer coisa que lhes desse, ao menos, a ilusão de alimento. Mas nas povoações da beira-mar, mesmo nas terras maiores, os haveres tinham sido também arrasados pelos ventos da miséria. Nem a sopa da Assistência evitava que no alvor da madrugada a carroça da Câmara levasse os que haviam tombado, de noite, na rua, inteiriçados, frios. Nem a sopa da Assistência o evitava, bem se pode dizer: as bocas famintas, senhor eram às dezenas de milhar.

   De ponta a ponta, um pesadelo perpassava pelas aldeias e casalejos galgando pela amarelidão da terra nua e requeimada.

   Dondê quelas bananeiras verdinhas de cachos pendidos em arco ao rés do chão? Dondê queles pés de papaia carregadinhos, e quelas batatas-doces e quele feijão, e quele mandioca, quele nhame, e quele milho crescendo na achada, dando a fartura da gente e dos animais? Ervas, rebentos, raízes, tudo sumido na voragem da sede e do calor.

   Lá no interior, casas intactas só as de gente rica ou remediada, e nem sempre. Tantas sem janelas, sem tecto, sem portas, ficaram abandonadas na paisagem descarnada.

   A maldição varrera a ilha. A maldição da estiagem. Da fome. Os sobreviventes dessa fúria ciclónica, quem eram? Restos da vida absurda e degradada na luta impiedosa pela sobrevivência.

   E nesse tempo da fome a ilha de São Vicente era o porto de salvamento...

HORA DI BAI - pgs 7/8 - Manuel Ferreira 

***

Assim começa o Autor o romance Hora di Bai, o qual retrata o drama do povo cabo-verdiano nas fomes dos anos 40 do século XX. A trama do livro inicia-se em 1943 com uma viagem de S. Nicolau para S. Vicente, a bordo do navio Senhor das Areias onde se encontram refugiados que tentam escapar à situação de fome e miséria. A narrativa conclui-se com uma leva para S. Tomé, pois a fome, afinal, também assolava S. Vicente.




Manuel Ferreira (Gândara dos OlivaisLeiria18 de julho de 1917 — Linda-a-VelhaOeiras17 de março de 1992) foi um escritor português que se tornou conhecido por divulgar a literatura e a cultura africanas de língua portuguesa.

Licenciou-se em Ciências Sociais e Políticas pela Universidade Técnica de Lisboa. Durante o serviço militar, foi mobilizado como expedicionário para Cabo Verde, em 1941, tendo lá permanecido seis anos, até 1947. Na cidade do Mindelo, na Ilha de São Vicente, conviveu com os grupos intelectuais cabo-verdianos ligados às revistas Claridade e Certeza.

Casou com a escritora cabo-verdiana Orlanda Amarílis, 

Continue a ler aqui


Tenho falado, no Xaile de Seda, desse grande divulgador cultural nomeadamente em relação à Antologia de três volumes, em que compila a Poesia dos cinco países africanos conhecidos por PALOP: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, e que ele intitulou, "No Reino de Caliban".

Através do percurso literário de Manuel Ferreira, que dedica a sua vida à Cultura dos Países Africanos de Língua Portuguesa, procurando dar-lhe visibilidade através das suas obras, além de criar a disciplina: Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, na Faculdade de Letras de Lisboa, aprendi a conhecer e a compreender a Literatura desses países. Hoje, se tento divulgar alguns aspectos dessa realidade, devo-o a ele. Sem esquecer, claro, Isabel Castro Henriques, de quem já falei algures neste blog. 

No meu post "Por onde andei..." Rosa dos Ventos fez este comentário:

Acabei de ler há dias "Hora di Bai" e S. Vicente não era assim e ainda bem!

E com razão.


Fiquem bem, amigos.

Abraços.

Olinda


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Título do post - na pag 62 

Post "Por onde andei..." aqui

Imagem - da Ilha de São Nicolau

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Dádiva e dívida...


_Tua mãe disse que, se tivesse desconfiado que era para político, 
nuncamente jamais do mundo em nenhum tempo 
na vida te teria posto na escola,*






Vai à cozinha devolver a chávena. Encontra sua sogra, Dona Alice, a chorar acidamente diante de uma cepa de cebola para a canja, faz-lhe a piada habitual, como vai Alice no País das Buganvílias?, ela, De saúde, graças a Deus, passa, vai lavar a xícara no alguidar ao lado, despede-se e sai. O cheiro do refogado acompanha-o, lembra-lhe os perfumes das casinhas onde morou com a mãe em Cabo Verde, o lírio do vaso do quintal, os coentros apolejados sobre o xerém, a erva-cidreira mascada à boquinha da tarde, o funcho pisado no almofariz de pedra, a hortelã vaporizando ao lume, o manjericão raspado pelas cortinas das janelas, o orégão e o alecrim em borbulhas de cozimento, o zimbro e evolar-se do litro, as folhas de louro penduradas no espeto, a manjerona doida no travesseiro, a arruda queimada com aguardente, o eucalipto para afugentar as bruxas, o tomilho ardido para curar o peito fechado, a alfazema em unguento sobre a ferida da canela, a erva-príncipe elegante e fresca na mureta do pote; ah, o jasmim, o rosmaninho, a salsa, o poejo, a noz-mocada, o alho, e o café, outra vez o café, que teima na língua como amargor de último dia. Saudade desalmada de tudo isso, e a triste sensação de que ele, Amílcar, é para sua mãe o filho que ela tem e quase não tem, teve e nunca teve, ou coisa assim, delicada de explicar, uma mistura de dádiva e dívida, ou talvez aquilo que em África se designa por parir para servir o mundo. Afinal, ele, Homem Grande, nunca deu à mãe a vida melhor que tantas vezes pronunciou à luz do candeeiro sobre a juntoura, nas suas humildes casas de uma porta e uma janela.

 Pgs 59/60



Com o tempo, de tanto passar a ferro, Mãe Iva adquiriu umas cãibras que lhe deixavam o corpo como ouriceiro atiçado, e ele, Amílcar, catorzeanino ainda, acordava nas madrugadas para esfregar-lhe cânfora e óleo de purga nas costas, porque suas mãos pequenas e macias acalmavam, dizia-lhe a mãe. Depois da terapia ele, Amílcar, estendia-se noctâmbulo a contemplar a imagem de Santo António a dançar na flâmula do candeeiro por entre as fraldas da cortina; filosofava  com a moringa transpirada  em cima da janela; hauria o cravinho-da-índia que vinha da tigela de comida para o dia seguinte; arpejava à distância as tiras das cadeiras de mogno da casa de jantar; alucinava-se com o torresmo e o peixe frito nas montras da vitrine; catava o som aleatório dos insectos voadores; divertia-se com a rênquea de garrafas vazias e seus pescoços elegantes em cima da mesinha; ria do pote bojudo feito um bispo no canto da sala; distraía-se a destrinçar os vestidos das gémeas nos cabides; e vogava madrugada adentro, consoante a ondulação da chama a fritar os bichos de luz em cima da banquinha da cabeceira. Amanhecia.

Pg 70



E lembra o dia que Mãe Iva apareceu na Achada Falcão, sem aviso nem licença, para resgatar suas crias do pai e da madrasta. Juvenal nem sabia que Mãe Iva tinha deixado a Guiné, e ficou empedrado na porta a olhar a pessoa desconhecida que roçava as crianças num anúncio de temporal...

pg 60

A casinha de Ponta Belém, na cidade da Praia, para onde foram morar, era como um agasalho de pedra. Chegaram à noite, lembra, vencidos de oitenta quilómetros e sete horas de mulas. Mãe Iva sentou-se com as gualdrapas da saia arrepanhadas entre as pernas, mandou as crianças acomodarem-se no chão, não tinha móveis, penintenciou-se pela demora em vir ao encontro de seus filhos, percalços, e assegurou:

_Podem crer que, deusadiante, só a morte nos separará...

Pg 61

Era Setembro, lembra, Mãe Iva cozeu o bolo de mandioca, fincou-lhe em cima uma vela de Igreja, confeccionou uma pucarinha de água de açúcar, chamou os amiguinhos e as amiguinhas recentes da cidade, e fez a um dos filhos a sua primeira festa de aniversário. Foi para ele, Amílcar: dez anos de vida. Nunca mais se esquece. Em Outubro, Mãe Iva vendeu e colocou em penhor todos os seus valores, de brincos a roupa de cama, costurou um par de uniformes, remendou umas meias furadas, levou à forma os sapatos e, numa manhã cacimbada de cânticos de pássaros, acordou seus dois rapazitos, Ivo e Amílcar, lavou-os e levou-os para a primeira chamada à escolinha da cidade, rogando-lhes pelo caminho: "Estudem, especialmente tu, Amílcar, para não perderes acesso ao liceu, lembra-te que é até os treze anos". Ele, Amílcar, obediente e compromissado, cursou em três anos os quatro requeridos e terminou a quarta classe da instrução primária com a idade de doze anos, dez meses e dezassete dias. Mãe Iva ficou tão enaltecida que deu aos dois rapazes dois meses inteiros e o mundo inteiro para brincarem...

Pg 62




Um dia, nada te faltará, mamãe...

Mãe Iva só lhe devolveu a resposta trinta e seis anos depois, por intermédio de um amigo, que lhe fora levar de presente do filho uma notícia e um rosário. *

Pg 63

Trinta e seis anos depois, com quatro meses de diferença apenas, acorda de um apagão e percebe que uma bala acaba de lhe furar o ventre, e alfineta-lhe tanto a barriga como a memória, replicando todas as picadas de agulha de quando Mãe Iva às pressas lhe franzia as pregas das calças no corpo. Era uma casinha em São Vicente, moradia igualmente de uma porta  e uma janela, ambas de batentes flácidos e dobradiças ronhas,...

Pg 67


Onde é que eu estou?,
pergunta à Lua.

O simples pronunciar já lhe dói impiedosamente. Está coberto de uma coagulação arrefecida e pastosa, sente uma pérola de suor a escorrer-lhe sob a gola direita, e seu fígado late como um vulcãozinho de estimação. A custo golfa um soluço de dor, tosse partindo todas as costelas, tendões e músculos, e resmunga com dificuldade:

_Deram-me um tiro

Pg 181


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Ele, Amílcar, Homem Grande, sabe que depois da sua morte persistiria a pergunta sem resposta cabal:

Quem matou Amílcar Cabral?

E Mãe Iva, no funeral, apenas o espírito. Não o corpo.
Pariu um filho para servir o mundo.


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Excertos de:

A última Lua de Homem Grande, Mário Lúcio Sousa

Edição 2022 - Prémio Leya


quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Piku Ntóni

 A LENDA

Conta-se que, antes de ser descoberto, Cabo Verde era de facto verde. Possuía uma vegetação espessa, cheia de arvores frondosas e vicejantes. A água era abundante e os terrenos pantanosos, o que de facto se verificava no tempo da descoberta dos portugueses, em 1460, segundo alguns dados.

Havia então dois seres nesse confim do meio do mundo, eleitos do senhor, que os criou à sua semelhança e feitio. Adão e Eva se chamavam eles, únicos seres inteligentes destas paragens hisperianas da Macaronésia.

O povo chamava-os, Ntóni e Ntónia.

Viviam numa grande clareira de Matu-l Engenho, actual planície da Assomada. Eram agricultores e criadores de gados. Viviam em abundância de pão, paz e tranquilidade, semeando e vivendo do fruto da sua sementeira, ate que um dia, por capricho da natureza, essa felicidade foi interrompida, não por uma serpente diabólica, como na Sagrada Escritura, mas por um abalo sísmico seguido de uma erupção vulcânica portentosa que dizimou quase toda a população da ilha, tornando a paisagem idílica de então num espectro desértico e lunar. As lavas e as magmas expelidas espalharam-se pela ilha cobrindo-a de um manto de desolação.

Os dois Elfos fugiram para a maior elevação da ilha de Santiago, que hoje se chama Piku Ntónia, a fim de se resguardarem de uma possível soterração. Entretanto, quando se encontravam num vale, entre uma serra e outra mais elevada, foram inexoravelmente surpreendidos por uma lava mais caprichosa que os petrificou, tornando-as em duas estátuas, postadas lado a lado que a população de Santa catarina chama Adon y Eva.”

PIKU NTÓNI

Para alem dessa lenda contada por Manuel Veiga in “ Cabo Verde: Insularidade e Literatura”, muitos outros mitos rodeiam a maior elevação da ilha de Santiago (e a terceira de Cabo Verde, com 1394 metros).

Diz-se, por exemplo que Piku Ntóni (ou Piku Ntónia, ou Pico de Antonio, ou Pico de Antonia ) é um vulcão de água que a qualquer altura pode arrebentar e inundar a ilha de Santiago e as nuvens que envolvem o seu pico no mês de Julho são interpretadas como sinal de bom ano agrícola, sob o olhar de Ntoni ku Ntonia, duas agulhas levantadas do chão.

fonte:aqui



Assomada

AUTOBIOGRAFIA

Nasci numa aldeia
à sombra de um sobrado
e da austera penumbra das montanhas

Ainda criança
galguei a orografia de Assomada
e fiz-me árvore do planalto

O serpentear das estradas
fez-me desembocar no mar
junto a uma cidade
enfeitiçada de azul e murmúrio

De costas para o mar
insinuei-me – para além da ilha –
na lenta e transparente caminhada das nuvens
para beijar loucamente
a neve com odor de carvão de Leipzig

Hoje sei quem sou
um simples signo de Adão e Eva
e do seu éden pétreo no Piku Ntoni


José Luiz Hoffer Almada, poeta cabo-verdiano, levou-me a querer saber o significado de Piku Ntoni.





Boa semana, meus amigos.
Abraços.


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Imagem: Net

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Emigrante



O drama começa no momento
em que nasce a idéia de "partir"
Aí param os sonhos
E começam os pesadelos.

Emigrante!

Esta é a alcunha que te deram.
A tragédia que isso acarreta
consome anos de existência
aniquilando lentamente
castelos edificados de ilusões
que dos sonhos ainda restam

Emigrante!

Fantasia dos que ficam
Américas
Alemanhas
Franças
e outros mundos sempre iguais...

Emigrante!

Suportar esse título tão honradamente
ter que comer o pão que o diabo amassou
ser sempre forasteiro em porta alheia...

Sim, emigrante!
Emigrante = sobrevivência
Gritos de alma
ambição amordaçada
desejos frustrados...

VITA BREVIS num copo de vinho
Esquecer as amarguras
Da "Terra Prometida"



Biografia da Autora aqui, no Xaile de Seda.


Tema por demais importante neste Portugal emigrante, em tempos idos mas igualmente no presente. Também poderemos olhar o outro lado da moeda, o dos imigrantes. Povos que procuram um porto seguro, arrostando mil perigos e que, muitas vezes, acabam por ficar presos em trabalho escravo. E isso também acontece, por cá, neste país de brandos costumes.

A pandemia, que agora nos ocupa os dias e a mente, camufla ou vem pôr a nu situações que só quem as vive pode aquilatar de como custa a vida. Não apenas a dos imigrantes. Mas também de pessoas que labutam neste chão, e todos os dias é um recomeçar, sem cessar... 

VEJAM BEM!


Ana Laíns, voz belíssima, intérprete talentosa 
"É no estrangeiro que tem recebido o (devido) reconhecimento"

Apreciemo-la, aqui, com Fernando Pereira 
nesta canção de Zeca Afonso



Desejo-vos boa semana, meus amigos.

Abraços

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Poema e imagem: daqui
a) Um paradoxo que acontece amiúde. Muitos artistas e também profissionais 
de outras áreas, ex. científica, não poucas vezes, encontram antes de mais 
reconhecimento fora da terra natal...

sábado, 13 de fevereiro de 2021

A Serenata






Vestida de gemidos de bordão,
lancinâncias de violino,
na noite parada
vem descendo a seresta.

Sumiu-se a cidade barulhenta
inimiga das crianças e dos poetas.

Uma voz canta sentimentalmente um samba.

          Aquele aperto de mão
          não foi adeus!

Os cavaquinhos desmaiam de puro sentimento,
a cidade morreu lá longe,
e a lua vem surgindo cor de prata.

Nessa história de amor todos são iguais,
até o rei volta sua palavra atrás...

O meio tom brasileiro deixa interrogativamente a sua nostalgia.

É hora que os poetas escolheram
para a procura dos seus mundos perdidos...

Amanhã a cidade virá novamente
inimiga dos poetas.
Mas agora ela dorme,
ela não sabe que os poetas falam com Nossenhor,
com a lua e as estrelas,
nesta hora tão lírica...

Menina romântica, irmã
das crianças e dos poetas...
A tua janela, florida de esperanças,
é um mistério que a cidade não entende.

Passa a serenata.
Mas no coração dos que temem a primeira luz do dia que vai chegar
ficam os gemidos do violão e do cavaquinho,
vozes crioulas neste noturno brasileiro
de Cabo Verde.


Oswaldo Alcântara




Osvaldo Alcântara, pseudônimo poético de Baltazar Lopes da Silva, nasceu na Ilha de São Nicolau, Cabo Verde, em 1907. Advogado e filósofo. Professor, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa. Um dos fundadores da revista Claridade, marco da literatura cabo-verdiana.

Publicou: Chiquinho (romance), São Vicente, 1947; O Dialeto crioulo de Cabo Verde, Lisboa, 1957; Cabo Verde visto por Gilberto Freire, Praia, Cabo Verde, 1956; Antologia da ficção cabo-verdiana contemporânea, Praia, Cabo Verde, 1960.

Conhecemo-lo, não é verdade? 
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Humbertona



Bom fim de semana, amigos.

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Extraídos de

BARBOSA, Rogério Andrade. No ritmo dos tantãs; antologia poética dos países africanos de língua portuguesa; Brasília: Thesaurus, 1991. 165 p.
Site de António Miranda:
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/cabo_verde/osvaldo_alcantara.html