Poema do Mar
(Ambiente, 1941)
Poema do Mar
(Ambiente, 1941)
Onde é que eu estou?,
Na garganta de todos os Homens
Cabo Verde - Mornas
Licenciou-se em Ciências Sociais e Políticas pela Universidade Técnica de Lisboa. Durante o serviço militar, foi mobilizado como expedicionário para Cabo Verde, em 1941, tendo lá permanecido seis anos, até 1947. Na cidade do Mindelo, na Ilha de São Vicente, conviveu com os grupos intelectuais cabo-verdianos ligados às revistas Claridade e Certeza.
Casou com a escritora cabo-verdiana Orlanda Amarílis,
Continue a ler aqui
Fiquem bem, amigos.
Abraços.
Olinda
====
Título do post - na pag 62
Post "Por onde andei..." aqui
Imagem - da Ilha de São Nicolau
Pgs 59/60
Com o tempo, de tanto passar a ferro, Mãe Iva adquiriu umas cãibras que lhe deixavam o corpo como ouriceiro atiçado, e ele, Amílcar, catorzeanino ainda, acordava nas madrugadas para esfregar-lhe cânfora e óleo de purga nas costas, porque suas mãos pequenas e macias acalmavam, dizia-lhe a mãe. Depois da terapia ele, Amílcar, estendia-se noctâmbulo a contemplar a imagem de Santo António a dançar na flâmula do candeeiro por entre as fraldas da cortina; filosofava com a moringa transpirada em cima da janela; hauria o cravinho-da-índia que vinha da tigela de comida para o dia seguinte; arpejava à distância as tiras das cadeiras de mogno da casa de jantar; alucinava-se com o torresmo e o peixe frito nas montras da vitrine; catava o som aleatório dos insectos voadores; divertia-se com a rênquea de garrafas vazias e seus pescoços elegantes em cima da mesinha; ria do pote bojudo feito um bispo no canto da sala; distraía-se a destrinçar os vestidos das gémeas nos cabides; e vogava madrugada adentro, consoante a ondulação da chama a fritar os bichos de luz em cima da banquinha da cabeceira. Amanhecia.
Pg 70
E lembra o dia que Mãe Iva apareceu na Achada Falcão, sem aviso nem licença, para resgatar suas crias do pai e da madrasta. Juvenal nem sabia que Mãe Iva tinha deixado a Guiné, e ficou empedrado na porta a olhar a pessoa desconhecida que roçava as crianças num anúncio de temporal...
pg 60
A casinha de Ponta Belém, na cidade da Praia, para onde foram morar, era como um agasalho de pedra. Chegaram à noite, lembra, vencidos de oitenta quilómetros e sete horas de mulas. Mãe Iva sentou-se com as gualdrapas da saia arrepanhadas entre as pernas, mandou as crianças acomodarem-se no chão, não tinha móveis, penintenciou-se pela demora em vir ao encontro de seus filhos, percalços, e assegurou:
_Podem crer que, deusadiante, só a morte nos separará...
Pg 61
Era Setembro, lembra, Mãe Iva cozeu o bolo de mandioca, fincou-lhe em cima uma vela de Igreja, confeccionou uma pucarinha de água de açúcar, chamou os amiguinhos e as amiguinhas recentes da cidade, e fez a um dos filhos a sua primeira festa de aniversário. Foi para ele, Amílcar: dez anos de vida. Nunca mais se esquece. Em Outubro, Mãe Iva vendeu e colocou em penhor todos os seus valores, de brincos a roupa de cama, costurou um par de uniformes, remendou umas meias furadas, levou à forma os sapatos e, numa manhã cacimbada de cânticos de pássaros, acordou seus dois rapazitos, Ivo e Amílcar, lavou-os e levou-os para a primeira chamada à escolinha da cidade, rogando-lhes pelo caminho: "Estudem, especialmente tu, Amílcar, para não perderes acesso ao liceu, lembra-te que é até os treze anos". Ele, Amílcar, obediente e compromissado, cursou em três anos os quatro requeridos e terminou a quarta classe da instrução primária com a idade de doze anos, dez meses e dezassete dias. Mãe Iva ficou tão enaltecida que deu aos dois rapazes dois meses inteiros e o mundo inteiro para brincarem...
Pg 62
Um dia, nada te faltará, mamãe...
Mãe Iva só lhe devolveu a resposta trinta e seis anos depois, por intermédio de um amigo, que lhe fora levar de presente do filho uma notícia e um rosário. *
Pg 63
Trinta e seis anos depois, com quatro meses de diferença apenas, acorda de um apagão e percebe que uma bala acaba de lhe furar o ventre, e alfineta-lhe tanto a barriga como a memória, replicando todas as picadas de agulha de quando Mãe Iva às pressas lhe franzia as pregas das calças no corpo. Era uma casinha em São Vicente, moradia igualmente de uma porta e uma janela, ambas de batentes flácidos e dobradiças ronhas,...
Pg 67
===
Excertos de:
A última Lua de Homem Grande, Mário Lúcio Sousa
Edição 2022 - Prémio Leya
A LENDA