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segunda-feira, 12 de maio de 2025

A rua é das crianças

 



Ninguém sabe andar na rua como as crianças. Para elas é sempre uma novidade, é uma constante festa transpor umbrais. Sair à rua é para elas muito mais do que sair à rua. Vão com o vento. 

Não vão a nenhum sítio determinado, não se defendem dos olhares das outras pessoas e nem sequer, em dias escuros, a tempestade se reduz, como para a gente crescida, a um obstáculo que se opõe ao guarda-chuva. Abrem-se à aragem.
 
Não projetam sobre as pedras, sobre as árvores, sobre as outras pessoas que passam, cuidados que não têm. Vão com a mãe à loja, mas apesar disso vão sempre muito mais longe. E nem sequer sabem que são a alegria de quem as vê passar e desaparecer.

Ruy Belo





***

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão





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1º excerto:"Obra Poética de Ruy Belo-Vol.1 p.185 - aqui
2º excerto: Pedra filosofal - António Gedeão - aqui

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O Portugal futuro



0 portugal  futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro


In:Boca Bilingue

   Ruy Belo
(1933-1978)

Poeta e ensaísta português, natural de São João da Ribeira, Rio Maior.

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Poema retirado de: Banco de Poesia Fernando Pessoa
Imagem: daqui

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Sem casas não haveria ruas


Oh as casas as casas as casas

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo

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Da Casa Fernando Pessoa trouxe esta informação:

CICLO LEITURAS/CONTOS SEM CASAS NÃO HAVERIA RUAS*
LEITURAS E CONTOS ENTRE A CASA FERNANDO PESSOA, A FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO E A BOCA
Todos os meses a editora BOCA sai para a rua e celebra a palavra em casa amiga. À Fundação José Saramago leva contadores de histórias, reinventores da melhor tradição oral e popular. Na Casa Fernando Pessoa desfruta em voz alta dos vários géneros da literatura consagrada e por consagrar. Fica o encontro marcado: um sábado na Casa Fernando Pessoa, na Fundação Saramago uma sexta-feira do mês seguinte e por aí adiante alternadamente.
(*Oh as casas, as casas, as casas, de Ruy Belo)

E, claro, fui em busca do poema de Ruy Belo. Encontrei-o aqui, no site do Instituto Camões.

Depois da folia carnavalesca, centremo-nos na grande verdade da nossa fragilidade, no facto indesmentível de que somos pó. Apenas a nossa espiritualidade poderá colocar-nos acima da nossa condição.

A imagem - foto minha, uma vista da linha do Elevador da Bica - Lisboa. 


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente

Não eu, mas Ruy Belo. Não pude deixar de sorrir perante as suas palavras. Não sei se a Helena dos seus versos é ou não a Helena que nós conhecemos, mas a verdade é que há um heleno de sorriso aberto e ar de Aquiles que está a impor um novo ritmo aos senadores do velho continente. Pode ser que ainda nos dê a água pela barba mas vê-lo a abanar o status quo vigente é reconfortante.




To Helena

Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
A maneira mais triste de se estar contente
a de estar mais sozinho em meio de mais gente
de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente
Emotiva atitude de quem age friamente
inalterável forma de se ser sempre diferente
maneira mais complexa de viver mais simplesmente
de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
de estar num sítio tanto mais se mais ausente
e mais ausente estar se mais presente
de mais perto se estar se mais distante
de sentir mais o frio em tempo quente
O modo mais saudável de se estar doente
de se ser verdadeiro e revelar-se que se mente
de mentir muito verdadeiramente
de dizer a verdade falsamente
de se mostrar profundo superficialmente
de ser-se o mais real sendo aparente
de menos agredir mais agressivamente
de ser-se singular se mais corrente
e mais contraditório quanto mais coerente
A via enviesada para ir-se em frente
a treda actuação de quem actua lealmente
e é tão impassível como comovente
O modo mais precário de ser mais permanente
de tentar tanto mais quanto menos se tente
de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
de estar mais no passado se mais no presente
de não se ter ninguém e ter em cada homem um parente
de ser tão insensível como quem mais sente
de melhor se curvar se altivamente
de perder a cabeça mas serenamente
de tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
de tanto desistir e de ser tão constante
de articular melhor sendo menos fluente
e fazer maior mal quando se está mais inocente
É sob aspecto frágil revelar-se resistente
é para interessar-se ser indiferente
Quando helena recusa é que consente
se tão pouco perdoa é por ser indulgente
baixa os olhos se quer ser insolente
Ninguém é tão inconscientemente consciente
tão inconsequentemente consequente
Se em tantos dons abunda é por ser indigente
e só convence assim por não ser muito convincente
e melhor fundamenta o mais insubsistente
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente

Ruy Belo (1933-1978). Diz-se na sua biografia que foi um homem de causas. A sua participação na greve de 1962 e candidatura a deputado, em 1969, pelas Listas da Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, levaram a que as suas actividades fossem vigiadas e condicionadas.
A sua obra encontra-se organizada em três volumes sob o título, Obra Poética de Ruy Belo. 

Poema e biografia:Banco de Poesia da Casa Fernando Pessoa

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Uma curiosidade:
:)
“Dar água pela barba… que se diz de algo que dá enormes dificuldades a alguém? Ao contrário do que se possa pensar, esta expressão nada tem a ver com os pêlos da cara. Em termos náuticos, a “barba” é a proa de uma embarcação. Quando a água está pela “barba”, então a situação começa a ser preocupante para a estabilidade da embarcação.”Nas Bocas do Mundo, Sérgio Luís de Carvalho (aqui) 
E esta, hein?!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Ah, a Música

Quem terá deixado esquecida
esta música ouvida num canto da rua?
Ninguém de quem passa nela repara
No entanto— é ela — faltava
no dia de chuva
No meu dia de chuva?
Meu  seria decerto este  dia
pois por mais precário que eu seja
nenhuma chuva fora podia
cair se acaso em  mim não caísse
Cai   chuva   e   há   música   em   meu  coração
Era mera ilusão o dia de chuva


Ruy Belo
In: AQUELE GRANDE RIO EUFRATES
Casa Fernando Pessoa