Mostrar mensagens com a etiqueta José Jorge Letria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Jorge Letria. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

A Árvore, a Estrela e a Pequena Mão




A pequena mão desenha a árvore 
onde uma estrela se aninha para dormir. 
Que dia será o de amanhã 
no meio dos escombros onde o eco da súplica 
enlouquece os cães famintos? 
Quadro trágico para uma noite assim. 
A pequena mão pega na borracha 
e tenta apagar toda a dor do mundo 
e acender com um novo traço 
a claridade que resgata a alma. 
A estrela acorda numa copa alta 
e segue o caminho do que sabe 
até encontrar a pequena mão 
que tudo reinventa à medida do que somos. 
Quando o encontro acontece 
já não é noite nem dia, tempo infinito, 
mas apenas um lugar onde o choro das crianças 
de súbito se transforma em cântico. 

A pequena mão desenha tudo 
o que falta desenhar para o sonho fazer sentido. 
É uma mão frágil mas firme, apenas sábia, 
e quando abre o livro azul das manhãs 
é sempre para escrever as palavras 
que o estrondo abafou nas cidades feridas. 
A pequena mão desenha uma árvore, 
uma estrela e uma mãe aflita. 
Depois desenha uma linha de horizonte, 
uma constelação e uma pequena arca. 
Um traço basta para criar a luz. 
Depois tudo é mistério e júbilo. 
Que ao menos esta noite ninguém se esqueça 
da árvore, da estrela, da lenda 
e da magia da pequena mão afagando a vida


In: Antologia Poética

José Jorge Letria

Jornalista, poeta, dramaturgo, ficcionista e autor de uma vasta obra para crianças e jovens, José Jorge Letria nasceu em Cascais, em 1951.

======
Poema: daqui
Imagem: daqui 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Ode aos Natais esquecidos



Eu vinha, pé ante pé, em busca da pequena porta 
que dava acesso aos mistérios da noite, 
daquela noite em particular, por ser a mais terna 
de todas as noites que a minha memória 
era capaz de guardar, com letras e sons, 
no seu bojo de coisas imateriais e imperecíveis. 
Tinha comigo os cães e os retratos dos mortos, 
a lembrança de outras noites e de outros dias, 
os brinquedos cansados da solidão dos quartos, 
os cadernos invadidos pêlos saberes inúteis. 
E todos me diziam que era ainda muito cedo, 
porque a meia-noite morava já dentro do sono, 
no território dos anjos e dos outros seres alados, 
hora inatingível a clamar pela nossa paciência, 
meninos hirtos de olhos fixos na claridade 
enganadora de uma árvore sem nome. 


Depois, o meu pai morreu e as minhas ilusões também. 
Tudo se tornou gélido, esquivo e distante 
como a tristeza de um fantasma confrontado 
com a beleza da vida para sempre perdida. 
Deixaram de me dar presentes e de dizer 
que era o Menino Jesus que os trazia 
para premiar a minha grandeza de alma, 
o meu desejo de ser bom para os outros. 
Passei a escrever sobre tudo isso, sofregamente, 
só para não ter de escrever sobre a saudade 
que esse tempo fugidio deixou em mim.

 
A árvore mirrou de frio num canto da sala, 
os presentes apodreceram no sótão da casa, 
juntamente com os doces da Consoada 
que ninguém teve vontade de comer, 
nem mesmo os mais gulosos como eu. 
Um homem de muita idade bateu-me à porta 
e depositou-me nas mãos um pequeno embrulho: 
«Eis o teu presente de Natal» — disse-me. 
Abri-o e vi um livro onde se contava 
toda a minha vida desde o primeiro Natal 
de que conseguia lembrar-me, tudo o mais esquecendo. 
Ali estava eu de pé, muito quieto, junto da árvore, 
à espera que alguém me viesse dizer 
que o céu era pródigo em revelações e dádivas. 
Era para lá que eu sonhava ir quando morresse. 



Quando Dezembro se aproximar do fim, 
lançarei pétalas ao vento como se tentasse 
semear o perfume do que fui enquanto acreditei. 
Talvez o homem volte com outro embrulho secreto, 
só para me dizer que esse é o livro que ainda me falta escrever. 
Então, juntarei os amigos, os filhos e os netos 
numa roda de luz à minha volta e direi do Natal 
o que os antigos diziam dos heróis e dos deuses: 
foi à sombra deles que nos fizemos homens. 
Quando eu partir de vez, lembrem ao menos 
a ternura do meu sorriso de menino 
quando a meia-noite soava no relógio da sala 
e eu acreditava ainda que a felicidade era possível. 

José Jorge Letria
-1951-


Jornalista.Político.Escritor.Português.

====
Imagens crianças - pixabay
Poema - Citador

 

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Quando eu for pequeno, mãe, quero ouvir de novo a tua voz





QUANDO EU FOR PEQUENO

Quando eu for pequeno, mãe, 
quero ouvir de novo a tua voz 
na campânula de som dos meus dias 
inquietos, apressados, fustigados pelo medo. 
Subirás comigo as ruas íngremes 
com a certeza dócil de que só o empedrado 
e o cansaço da subida 
me entregarão ao sossego do sono. 

Quando eu for pequeno, mãe, 
os teus olhos voltarão a ver 
nem que seja o fio do destino 
desenhado por uma estrela cadente 
no cetim azul das tardes 
sobre a baía dos veleiros imaginados. 


Quando eu for pequeno, mãe, 
nenhum de nós falará da morte, 
a não ser para confirmarmos 
que ela só vem quando a chamamos 
e que os animais fazem um círculo 
para sabermos de antemão que vai chegar. 

Quando eu for pequeno, mãe, 
trarei as papoilas e os búzios 
para a tua mesa de tricotar encontros, 
e então ficaremos debaixo de um alpendre 
a ouvir uma banda a tocar 
enquanto o pai ao longe nos acena, 
lenço branco na mão com as iniciais bordadas, 
anunciando que vai voltar porque eu sou 
                                                       [pequeno 
e a orfandade até nos olhos deixa marcas. 



in "O Livro Branco da Melancolia"
Poema retirado de 'O Citador'

Imagem: Tela de Manuela Batista, a partir de foto publicada aqui
Blogue: Histórias com mar ao fundo