Mostrar mensagens com a etiqueta Amor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Amor. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.




Mostrar que se ama, mas não o expressar em palavras. 
Será o bastante?


Você é assim um sonho pra mim



Adélia Prado (1935) é uma escritora e poetisa brasileira. Recebeu da Câmara Brasileira do Livro, o Prêmio Jabuti de Literatura, com o livro "Coração Disparado", escrito em 1978. Mineira de Divinópolis, sua obra recria numa linguagem despojada e direta, a vida e as preocupações dos personagens do interior mineiro. Ler mais...  Aqui

====

Poema - daqui
Video - Youtube

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Reencontro - terra e semente






A terra, virgem, linda e viçosa
Transbordante de puro húmus
Anelava pela semente fecunda
Veículo de vida e doce pujança

A semente, estuante de energia
Proliferava ao sabor do vento
Caía vadia em receptáculos vários
Desbaratando a ansiada essência

A terra, só, tragada pelos vermes
Esventrada, escavada, consumida
Perdia, exangue, o viço e a cor
Na espera inútil da sua semente

A semente, afoita, leve, contente
Distribuía doces, suculentos frutos
Férteis manjares de seiva e mel
Exangue mas satisfeita, repousou...


Terra e semente reencontram-se
Húmus e essência encanecidos
Jazendo, algures, o irrecuperável
Nem uma frágil haste germinarão

                                                     Dinola Melo


=====

Imagem: Pixabay

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Louros e Rosas




O Amor dá-se de graça; a Glória é cara;
Esta é matrona grave, o outro é menino;
Cuida o Amor dum canteiro pequenino
E a Glória lavra intérmina seara.

O Amor é gastador, a Glória, avara;
Esta com siso marcha, o outro sem tino;
E aos ventos desnorteados do destino
Enquanto o Amor se apressa, a Glória pára.

Em bronze escreve a Glória, o Amor, na areia;
E enquanto ele escorrega, ela tateia
Do futuro nas brumas misteriosas…

A Glória eternos louros faz crescer;
Frágeis rosas, o Amor. Quando eu morrer,
Dispenso os louros; cubram-me de rosas!

       1869-1944

Numa primeira fase, simbolista. Depois, neo-classicista. Voltado para a Antiguidade Clássica e com um pendor saudosista no que se refere ao passado português, características dos trabalhos das primeiras décadas do Século XX.

===
Poema: Banco de Poesia Fernando Pessoa
Imagem: Pixabay

quarta-feira, 12 de março de 2014

Acredita, meu amor, sou um pássaro a salvo do alvoroço do tempo

A propósito dos vagares, deixo-te um poema meu de Janeiro, que não sei se leste:





Pertenço à multidão,
que sei temporária, de pássaros
indiferentes aos ramos
cada vez mais desusados,
já sem a esperança de frutos.

Espero, sereno,
a migração sem retorno,
não com a pressa da vida,
mas no passo ronceiro da lesma,
a menos que venha a ser empurrado.

Enquanto aguardo, prefiro o pousio
das tuas asas de ave sedenta
e pensar-me perpétuo,
que o perene germina
se na doçura o semeiam.

Acredita, meu amor, sou um pássaro
a salvo do alvoroço do tempo
e talvez a predição
de uma alvorada permanente.
Sou vagarosamente teu.


Nilson Barcelli


Muito obrigada, meu amigo.

Grande abraço.

Olinda

*****


Nota: Vide post: É preciso amar devagar

imagem:daqui

segunda-feira, 3 de março de 2014

É preciso amar devagar

Que é isso? Perguntei-me. Amar devagar, amar sem pressas, com todo o tempo do mundo... talvez. E como fazê-lo? À boleia deste título, rolei nas suas ondas, viajei por esquinas e socalcos até à percepção de uma realidade que vive tão perto, tão ao nosso lado. 

Percorri as ruas e os corações do Bairro, mas antes segui o Ripas e o amigo, em visita ao irmão na prisão, o Palhas, 19 anos, e que à notícia: O Palhas, enforcou-se!, mostra todo o seu sentimento de desespero e impotência nesta expressão: Fosga-se man! O Palhas? 

Segui a sotôra Marília, nas suas reflexões, ela que tem uma turma de repetentes, que não só repetiam a escola, mas a vida dia após dia...Um desfile de jovens por amar: A Cecília, a Susana, a Rosa, o André, o Rui, o Cravo, a Luísa, a Carla, a Joana, o Alfredo, o Miguel...

Destas vidas já com marcas tão profundas, detenho-me um momento junto ao Cravo. Miúdo de 14 anos, que ajudava a mãe no seu sonho de um dia saírem do bairro. E conseguiram-no. Contudo, não estão felizes. Oiço a Cecília dizer ao ouvido do Rui, em coma, depois de uma intervenção cirúrgica que correu mal: -Não entendo por que é que as pessoas são assim. O Cravo e a mãe mereciam aplausos e vai a ver-se e afinal...Andam infelizes e algumas pessoas riem-se deles e acham que não deviam ter saído do bairro da Terra Salgada. 

Mas, a principal preocupação deste rapaz é a Luísa, ela que sofrera um inferno de 23 dias nas mãos de um desconhecido e que agora não sai de casa e leva uma vida apática. Contara à mãe o problema dela, ainda na velha barraca, e ali chorara lágrimas sentidas, sentindo as dores dela dentro do seu próprio peito.. Se isso não era amor era uma coisa muito parecida.

A mãe dissera-lhe com uma voz muito rara de sabedoria:

-É preciso amar devagar.

- Não entendo.


-O amor não quer pressas nem sobressaltos. Nem que aconteça antes de ter mesmo de acontecer.


- Não entendo.


-O amor é como a certeza da Lua no céu, mesmo que não se veja fica connosco se for verdadeiro e volta se tiver de voltar, porque nunca chegou a partir.






Tantas coisas para aprender. Tanta vida ainda para cumprir. Diz-nos o autor, isso e tantas outras coisas, pois a vida destes personagens continua nas páginas deste livro de 127 páginas, sem pressas. Um livro cheio. Incrível. É assim, Alexandre Honrado, escreve com o coração, com a alma, com a sageza de quem sabe observar o que se passa à nossa volta. 

E, pela sua mão, fiz-me parte desta história. Diria como Laurinda Palma, 16 anos: "Li o primeiro volume, 'lágrimas quebradas', e quando comecei a ler este julguei que ia saber tudo sobre os personagens. Acabei o 'é preciso amar devagar' e sinto-me amiga de todos eles. Não sei se quero saber como acabam as histórias. Só quero que a vida lhes corra bem."


Uma boa semana.

Abraço

Olinda

***

Referências:
Alexandre Honrado
É preciso amar devagar
2001-Colecção: Casos Reais

****

Querida amiga

É PRECISO AMAR DEVAGAR...

Amar exige cuidado.
Sentir o perfume para entendê-lo.
Aprender o gosto para entender o alimento.

Amar exige paciência.
Com o outro e com nós mesmos.
Paciência para entender o ritmo do outro
E também o nosso ritmo,
E como consequência entender o ritmo do amor.

Assim, é preciso amar sem pressa.
Amar é um milagre,
E aprender a senti-lo, também...


Que o amor nos vista a vida,
com as suas mais preciosas cores...



****

Obrigada, Caro Aluísio, por estas belas palavras.

Grande abraço.

Olinda

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Cartas de amor quem as não tem

Quem sabia destas coisas era Tony de Matos, chanteur de charme, voz arrastada, inconfundível. Tanto Cartas de amor como Tu é que és a Tal, introduzem-nos nesse mundo romântico, onde tudo é encantamento e magia, enquanto dura a paixão, a novidade e, acima de tudo, o respeito e a admiração. E desejamos todos que seja assim para sempre. Só que o amor, esse amor cantado pelos poetas, é coisa finita. Ou não?
Todos sabemos que todas as cartas de amor são ridículas. Só o não são para o destinatário ou destinatária, desde que corresponda a tal sentimento. Na verdade, certas expressões de carinho e diminutivos apenas fazem sentido se lidos pela pessoa a quem são dirigidos.

Antigamente havia cartas de amor pré-escritas. Cartas que os apaixonados copiavam e endereçavam aos bem-amados. Ou então, quem não soubesse escrever teria de recorrer a quem tivesse algumas luzes, alguém que soubesse, pelo menos, desenhar as letras do alfabeto.

Já desempenhei essa função. Com os meus 8 anos de idade vi-me investida na responsabilidade imensa de passar para o papel as juras de amor de uma rapariga. Claro que deu para o torto. Ela ditava-me os seus anseios em determinado idioma e eu passava-os directamente para o português. Houve um dia em que uma palavra me atrapalhou. Não estive com meias medidas: pus na carta a que me pareceu melhor. Resultado: o seu bem-amado não gostou, zangou-se e a moça dispensou os meus serviços.


Quando os apaixonados se zangavam, devolviam as cartas. Quem que se considerasse ofendido ou defraudado nos seus sentimentos devolvia-as e exigia também a devolução das suas. Agora como é? Partindo do princípio de que se escrevem menos cartas, ou nenhumas, como é que se faz para devolver as sms, os e-mails, as mensagens no facebook? Talvez cancelando as contas? Bem, nada sei acerca disso.

É sabido que estes sucedâneos das cartas de amor não pertencem ao foro privado. O secretismo das palavras, quase sussurradas ao ouvido, e a solenidade dos pedidos de namoro ou de casamento foram substituídos, na maior parte das vezes, pelo hábito de propalar aos quatro ventos o pretendido. E nem é preciso dominar a escrita. É quase tudo instantâneo, com a utilização de símbolos, uma profusão de consoantes e abreviaturas que fariam inveja aos escrivães paleográficos.

Ainda que os meios sejam outros, mais rápidos, mais universais, menos exigentes no que à escrita diz respeito, o certo é que continua válida a retórica pergunta/afirmação:

Cartas de amor, quem as não tem...




****

Canto da Boca trouxe-nos este lindo presente: Maria Bethânia e a sua Mensagem... com a declamação de: Todas as cartas de amor são ridículas. Obrigada, amiga.



****
Ver post, no UJM, "O amor no Facebook (...)". 
No espaço virtual, imenso, onde nos movimentamos, tudo é armazenado, nada se perde. Um tema muito sério.


Imagens: daqui, daqui e daqui

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O amante da China do Norte





Anos depois da guerra, da fome, dos mortos, dos campos de concentração, dos casamentos, das separações, dos divórcios, dos livros, da política, do comunismo, ele telefonou. Sou eu. Ela reconheceu-o logo pela voz. Sou eu. Só queria ouvir a sua voz. Ela disse-lhe: Bom dia. Ele tinha medo como dantes, de tudo. A voz tinha estremecido, e foi nessa altura que ela reconheceu o sotaque da China do Norte.

Ele disse uma coisa sobre o irmão mais novo que ela não sabia: que o corpo dele nunca tinha sido encontrado, que ele tinha ficado sem sepultura. Ela não respondeu. Ele perguntou-lhe se ela ainda ali estava, ela disse que sim, que estava à espera que ele falasse. Ele disse que tinha deixado Sadec por causa dos estudos dos filhos, mas que ia para lá voltar mais tarde porque era o único sítio para onde lhe apetecia voltar.

Foi ela quem perguntou por Thanh, o que é que lhe aconteceu. Ele disse-lhe que nunca teve notícias de Thanh. Ela perguntou-lhe: nenhuma nunca? Ele disse, nunca. Ela perguntou-lhe qual era a opinião dele sobre isso. Ele disse-lhe que na sua opinião Thanh devia ter resolvido procurar a família na floresta do Sião e devia ter-se perdido e morrido aí, nessa floresta.

Ele disse que para ele era muito curioso que a história deles tivesse permanecido como era antes, que ainda a amava, que nunca poderia em toda a sua vida deixar de a amar. Que ia amá-la até à morte.

Ele ouviu-a a chorar ao telefone.

E depois continuou a ouvir chorar mais longe, do quarto dela sem dúvida, porque ela não desligou. E depois tentou continuar a ouvir. Ela já ali não estava. Tinha-se tornado invisível, inatingível. E ele chorou. Muito alto. Com todas as suas forças.





Extraí este texto das duas últimas páginas da obra de Marguerite Duras, 'O amante da China do Norte'. Nas palavras da autora, O livro poderia ter-se chamado "O Amor na Rua" ou "O Romance do Amante" ou "O Amante Recomeçado". No fim escolhemos entre estes dois títulos mais vastos, mais verdadeiros. "Escrevi este livro na felicidade louca de escrevê-lo".

Segundo o resumo, o livro conta a história da "criança": A criança, de 15 anos, tem uma mãe tentada a prostituir a filha e dois irmãos: o mais velho é violento e de mau carácter, o mais novo é medroso, um pouco atrasado mental. Não são ricos. Certo dia a criança, numa viagem pelo Mékong, encontra um jovem chinês de 27 anos, pertencente a uma família opulenta, e é amor à primeira vista. As origens separam-nos e a idade também, mas tal não os impede de viver uma intensa paixão que, embora contrária à sociedade que os rodeia e aos costumes familiares chineses, resistirá ao afastamento e à passagem dos anos. Esta história, que arrebata os sentidos e os corpos, tem, pois, a beleza, como diria a própria Marguerite Duras, da "soberana banalidade" do amor... 

Voltarei a este livro e a esta história.

Para já, descubramos as semelhanças e as diferenças, os pontos de contacto, do texto acima transcrito com o meu texto do post anterior.

:)

Abraço

Olinda

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Salpicos da vida

Ele não conseguia dormir. Dava voltas e mais voltas na cama, com jeito, para não acordar a mulher, companheira de muitos anos, mãe dos seus quatro filhos. Mas, não conseguia deixar de pensar naquela que ele considerava a mulher da sua vida e que se encontrava noutro continente. Recordava amargamente o momento aziago em que a perdera, talvez por culpa sua. Reencontrara-a há três anos, casada, com uma filha e uma vida profissional de sucesso. Nunca a esquecera e como lamentava não ter feito tudo para que continuassem juntos, não dando ouvidos a mexericos. Na altura, ela era uma menina de dezoito anos e ele já trintão. Tivera de partir, o dever chamava-o. Agora, ele, homem que cumprira todos os seus objectivos, que se fez a si próprio, chorava. Chorava porque sabia que algo de muito importante se escapara das suas mãos, irremediavelmente. Parecia-lhe que também ela ainda sentia a magia que os atraíra há tanto tempo. Outras vezes era ríspida e dizia-lhe que nada tinha a ver com ele. Tinha-lhe dito abertamente que não queria que lhe telefonasse. Sofria horrores e, nesse momento, eram cinco horas da manhã, revolvia-se impaciente. Estava decidido: logo assim que fossem horas decentes telefonar-lhe-ia. A urgência de ouvir a sua voz era mais forte do que o receio de ela se zangar. Começou então a contar os minutos, os segundos. Levantou-se, pôs os calções; ia dar um mergulho. Era um hábito diário, com o mar logo ali, convidativo, a dois passos. Na praia não havia ninguém. Deu umas quantas braçadas vigorosas, expelindo a energia acumulada numa noite de completa insónia.




Depois do pequeno-almoço saiu e, em largas passadas, percorreu a pequena distância que o separava do local donde podia telefonar. Consultou o relógio. Era uma boa hora, tendo em conta os fusos horários. Pegou no telefone, discou o número a medo e aguardou. Depois de alguns momentos ouviu-a:

Sim?!
Ele: Olá! Queria ouvir a tua voz...
...
Sim, eu sei que ainda é cedo, mas...
...
Não queres ouvir o que eu tenho para te dizer?
...
Repito-me porque o meu desejo é que falemos sobre as coisas...
...
Ok, já se passou uma vida quase, mas...
....
Sim, eu sei que devia ter lutado por ti, devia ter-te ouvido...
...
Qual é a minha proposta? Bem...

Sentiu-se cobarde de novo. Afinal, o que poderia oferecer-lhe? Não se sentia capaz de dar uma reviravolta à sua vida...

De facto, não a merecia. Tinha de reconhecer isso. Talvez tivesse mesmo de se contentar com as suas noites de insónia e com a premissa de que a distância também aproxima e que ninguém é só corpo. Quem sabe numa outra vida, numa próxima reencarnação tudo se compusesse. Esta linha de raciocínio perseguia-o, impedindo-o de resolver a vida aqui e agora.  Com um friozinho na barriga afastou-se dali.


****

13/02

NOTA: Como vêem, terminei a história. Agradeço a vossa participação que foi muito valiosa. Muito obrigada.


****

Fevereiro, mês de todos os contos de amor.

Como terminará esta história, ou esta conversa?

Nem eu sei...  :)

Querem alvitrar alguma coisa?


Abraço

Olinda



Imagem: daqui
Parece que é um pôr-do-sol, não? Bem, preferia uma alvorada...

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Onde está o amor? José Ángel Valente sabe a resposta




O amor está no que lançamos
(pontes, palavras).

O amor está em quanto erguemos
(risos, bandeiras).

E no que combatemos
(noite, vazio)
por verdadeiro amor.

O amor está em quanto levantamos
(torres, promessas)

Em quanto nós colhemos e semeamos
(filhos, futuro).

E nas ruínas de quanto derrubamos
(usurpação, mentira)
por verdadeiro amor.


José Ángel Valente 
(1929 -2000)

Antologia de Poesia Espanhola Contemporânea (selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento). Pintura de Gustav Klimt retirada de: aqui