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domingo, 22 de outubro de 2017

Catalunha - o impasse

Momentos houve na História em que Portugal e a Catalunha andaram a par e passo na moldagem dos seus próprios destinos.

No dia 1º de Dezembro 1640 um grupo de 40 conjurados, como ficaram conhecidos, num golpe de estado revolucionário restauraram a independência de Portugal, dando por finda a dinastia filipina que nos governou durante 60 anos. Foi aclamado rei o duque de Bragança, D.João IV. A guerra da Restauração arrastou-se por 28 longos anos (1640 a 1668). Foram várias as batalhas que se travaram as quais iam sendo ganhas por Portugal, algo quase incompreensível sabendo que tínhamos saído de uma situação de grande fragilidade.

Meses antes, no dia 7 de Junho de 1640 a Catalunha sublevou-se tendo como motivos mais próximos a vinda de soldados do resto de Espanha para o seu território num dos episódios da Guerra dos 30 anos que opunha várias nações da Europa, tendo como causas rivalidades religiosas, dinásticas, territoriais e comerciais. A revolta da Catalunha, conflito bélico, durou até 13 de Outubro de 1652 e, nesse ínterim, em 1641, foi proclamada a República da Catalunha. Entretanto faleceu o seu líder Pau Claris. O conflito aumentou de proporções e várias foram as situações da referida guerra dos 30 anos que levaram à assinatura do Tratado dos Pirenéus, 1659, tendo Espanha cedido a França as partes norte da Catalunha, incorporadas no condado do Rossilhão. 

Nesse Tratado, Portugal continuava a ser referido como parte de Espanha, não obstante ter declarado a restauração da sua independência em 1640. Continuavam as batalhas nas fronteiras portuguesas, talvez, mais escaramuças do que outra coisa. Essa situação só era possível porque a pressão da revolta da Catalunha não permitia que Espanha se concentrasse nas frentes de batalha com todas as suas forças no caso português que, por sua vez, vê os seus objectivos concretizados com a assinatura do Tratado de paz de 1668, já no reinado de D. Afonso VI, pela mão do Regente D. Pedro (Infante/Regente). 

Claro que esta história não se esgota neste pequeno texto cheio de imprecisões. Convido-vos a uma leitura mais aturada, pelo que indico abaixo alguns links para o efeito.


Mas, chegados à actualidade, a Catalunha revê-se no seu passado e as pretensões enraízadas no Sec. XVII, ou mais atrás, e postas à prova em várias ocasiões têm vindo a tornar mais forte a sua vontade de ascender à independência. Aquando da votação do referendo, alguns catalães levavam um cravo vermelho, um símbolo de liberdade e de revolução pacífica relembrando o nosso 25 de Abril 1974

O que de concreto se sabe agora é que foi decretada a suspensão do governo catalão e que o Presidente da Generalitat promete a proclamação da independência para daqui a dias, se é que ouvi bem. É legal? Não é legal? Nada sei da Constituição espanhola e da aplicação do famoso artigo 155º. O que me parece é que é hora de ambas as partes entrarem em diálogo a bem do povo catalão.

Desejo-vos um bom domingo.

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Catalunha - ver aqui
Opinião:A independência da Catalunha:O labirinto juridico-político
Imagem: Uma vista de Barcelona


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Será isto o inferno de Dante?

O País continua a arder. Ainda não terminou um fogo e começa logo outro num ritmo alucinante, sem descanso para este povo que vê os seus pertences desaparecerem nessa voragem. Fogo que parece ter pernas, que salta de uma estrada para a outra e avança na vegetação como se fosse uma inundação, inundação mas de chamas. No outro dia fiquei boquiaberta a olhar para aquilo, não querendo acreditar nos meus olhos. E então o meu coração confrange-se perante a aflição das pessoas, desamparadas, com labaredas a aproximarem-se, de balde na mão, atirando a pouca água às paredes das casas, ao chão circundante. E o vento que não dá tréguas, numa dança brincalhona. E os bombeiros, vejo-os translúcidos mesmo no meio das chamas, confundindo-se com elas, também eles ajeitando as mangueiras, gritando mais mangueira, numa luta desigual e inglória. No fim, só cinzas e paisagem negra. Custa-me a acreditar que no meio disto haja o fito do lucro, como se ouve por aí. Seria muito cruel. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Nobre povo, Nação valente




Nação pequena que foi maior do que os deuses em geral o permitem, Portugal precisa dessa espécie de delírio manso, desse sonho acordado que, às vezes, se assemelha ao dos videntes (Voyants no sentido de Rimbaud) e, outras, à pura inconsciência, para estar à altura de si mesmo. Poucos povos serão como o nosso tão intimamente quixotescos, quer dizer, tão indistintamente Quixote e Sancho. Quando se sonharam sonhos maiores do que nós, mesmo a parte de Sancho que nos enraíza na realidade está sempre pronta a tomar os moinhos por gigantes. A nossa última aventura quixotesca tirou-nos a venda dos olhos, e a nossa imagem é hoje mais serena e mais harmoniosa que noutras épocas de desvairo o pôde ser. Mas não nos muda os sonhos.

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Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e teso na estrada, com o coco à banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo:

- Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o Sr.Padre Soeiro quem ele me lembra?
- Quem?
- Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o Sr. Padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acovarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
- Quem?...
- Portugal.



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Jornal das Letras, mas tendo como fonte "Portugal - identidade e imagem" in "Nós e a Europa ou as duas razões", por Eduardo Lourenço (1988) 
Jornal de Letras, Artes e Ideias / 20030904.
In:Citador
Imagem:daqui

2º texto
Excerto de "A Ilustre Casa de Ramires". Poderá ler este livro aqui

domingo, 29 de dezembro de 2013

Consoada - Natal à Portuguesa

Bem escura, bem ventosa, bem fria e húmida surjas tu sempre, noite de 24 de Dezembro, que melhor então se avaliará pelo contraste a luz, o calor, o aconchego dos lares e mais íntimos se estreitarão os círculos da família em roda da ceia patriarcal.
"A Morgadinha dos Canaviais"
Júlio Dinis




Um romântico incorrigível este nosso Júlio Dinis, citado num livrinho que me chegou às mãos, há dias, e que fala do "Natal à Portuguesa", no qual são apresentadas receitas dos pratos que fazem a nossa tradição. A autora, Edite Vieira Philips, refere a definição específica e muito bela da ceia da noite de Natal, Consoada, e indica a sua raiz e significado: consonare, soar juntamente, ou seja, uma coisa feita em conjunto, em reunião. Também traz referências aos diversos usos e costumes de cada região. De entre as variadíssimas receitas destaco: bacalhau com todos, arroz de polvo, roupa velha, peru recheado, pato com arroz, arroz doce, leite-creme, rabanadas, filhós, coscorões, broas, bolo-rei, enfim tudo pratos e doces que conhecemos e muitos mais. 




Este ano resolvi voltar ao bacalhau com todos, pondo de lado outras experiências culinárias experimentadas nos últimos dois ou três anos. E, confesso, é como o bacalhau me sabe melhor, com batatas, couves, cenoura e grão, que não pode faltar, e tudo temperado com o nosso bendito azeite. No dia seguinte, a roupa velha, como não podia deixar de ser.

O arroz doce tem o seu lugar de destaque na minha mesa, feito à minha moda, isto é, aldrabado, o que envergonharia sobremaneira a minha avó, se fosse viva. Ainda me lembro de como ela descrevia os ingredientes indispensáveis a um bom arroz doce, o que, decididamente, colocaria o meu no final da lista se fizesse parte de algum concurso de culinária, desses que já tomaram conta das nossas vidas televisivas. Aliás, não há receita que não sofra transformações nas minhas mãos. E nem sempre bem sucedidas.

Outra iguaria natalícia que eu não dispenso: as fatias douradas ou rabanadas. Eu já sei que se não são comidas logo, acabadinhas de fazer, depois já não são saborosas porque ficam meio duras... mas, faço-as sempre e, claro, provo logo uma.

Porquê esta conversa agora que o Natal já passou e a Consoada já foi? Este post era para ter sido publicado, com o verbo no correspondente futuro próximo, no dia 23 ou 24, mas não tive oportunidade. É o que acontece com muitos tópicos que armazeno nos rascunhos e que depois acabo por não desenvolver e finalizar por falta de tempo e, consequentemente, não publicar. Mas como ainda estamos na quadra festiva, pareceu-me que este tema não estaria fora do tempo... 

 Imagens: recolhidas na Internet

domingo, 8 de dezembro de 2013

Hanukkah - A Festa das Luzes

Termina hoje o Hanukkah, iniciado no dia um do corrente mês, a Festa das Luzes, celebrado pela primeira vez fora das portas da sinanoga, pela comunidade judaica de Belmonte. Essa sua expressividade pública indica como vão longe os terríveis dias de perseguição, de conversão compulsiva, de expulsão. Dias que foram séculos.

Mesmo assim há oitenta anos ainda se falava a boca pequena da sua existência ou ela própria não se dava a conhecer abertamente. É o que aqui se diz. A comunidade cripto-judaica de Belmonte foi revelada por um judeu polaco, chamado Samuel Schwarz, através de inúmeros artigos e entrevistas na imprensa judaica de todo o Mundo, que, por sua vez, deram lugar a visitas de individualidades importantes e novos relatos em livros e jornais. A sua principal obra "Cristãos-Novos em Portugal no Século XX" foi publicada em 1925, como separata da revista Arqueologia e História, da Associação dos Arqueólogos Portugueses, de que era membro.

Esses são alguns dos judeus que ficaram por cá e que foram obrigados a esconder as suas práticas, rituais e tradições, levando uma vida que não era a sua. Os que seguiram o caminho da Diáspora forçada, viram-se privados dos seus filhos menores de 14 anos e espoliados dos seus bens. Crianças sequestradas, umas entregues a famílias portuguesas cristãs e outras enviadas para povoar as ilhas de São Tomé e Príncipe, tendo morrido a maior parte com os rigores da viagem, do clima, das doenças. Esta circunstância vem referida na obra de Isabel Castro Henriques, 'São Tomé e Príncipe: a invenção de uma sociedade'.

Deste trabalho, de Esther Mucznik, recolho esta passagem relacionada com a situação dos judeus e com o pós-25 de Abril de 1974: 


Abrem-se os arquivos, surge à luz do dia a riqueza do contributo judaico, desde os primórdios da nacionalidade até ao decreto de expulsão, no sec. XV, mas, também, os horrores das conversões forçadas , a longa noite da Inquisição, as discriminações dos cristãos novos.
Portugal descobre-se e ao descobrir-se encontra-se com os seus judeus. O pedido de perdão simbólico de Mário Soares, então Presidente da República, em 1989, pelas perseguições que os judeus sofreram em Portugal e a Sessão Evocativa dos 500 anos do Decreto de Expulsão dos Judeus em Portugal, em Dezembro de 1996, no parlamento português, na qual foi votada, por unanimidade, a revogação simbólica do Decreto, marcam, de facto, um virar de página no relacionamento mútuo. 

Da Diáspora surgem-nos figuras de relevo, nomeadamente, nas letras e na medicina. Em tempos produzi aqui, no Xaile de Seda, alguns apontamentos sobre Amato Lusitano. Voltarei, em breve, com Baruch Espinoza (1632-1677) e Ribeiro Sanches (1699-1783) - homens que marcaram a sua época.    


****

Desejo-vos um bom domingo.

Abraço

Olinda

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Rumemos a Marvão - É lá que vai acontecer o 'Maior Magusto do Mundo'

Marvão, a vila medieval que tem no seu horizonte a candidatura a Património Mundial da UNESCO, pela sua paisagem natural, história e identidade cultural, também tem, aliada a este desideratum, a vontade de realizar e conquistar o título de: 'Maior Magusto do Mundo'. 

Para isso, a sua 30ª Feira da Castanha, que se realizará nos próximos dias 9 e 10, vai ser assinalada em grande, com muitíssimas castanhas e também bastante vinho. Poderia ser também com jeropiga e agua-pé, mas parece que isso já foi proibido por lei, não? 

Mas passando adiante, para compor ainda mais a festa também vai haver provas de vinhos e licores, degustações da mais diversa doçaria com castanhas, produtos regionais, mostra e venda de artesanato local, exposição de fotografia, bailes populares, teatro de rua, concertos e iniciativas de animação circense.


CastillodeMarvao.jpg


Em lá estando, poderemos passear pela vila, pelas suas ruas, apreciar as casas, subir ao Castelo, este que se inscreve no Parque Natural da Serra de São Mamede e em posição dominante sobre a vila e estratégica sobre a linha da raia, controlando, no passado, a passagem do rio Sever, afluente do rio Tejo. 


Localização de Marvão
Localização da
 Mui Nobre e Sempre Leal Vila de Marvão

De Marvão chegam-nos notícias desde, pelo menos, o período romano. Já no nosso tempo histórico, a localidade foi conquistada aos muçulmanos por D. Afonso Henriques durante as campanhas de 1160/1166, tendo sido novamente tomada pelos mouros na contra-ofensiva de Almansor, em 1190. Em 1226, D. Sancho II dá foral à população e manda ampliar o casteloD. Dinis disputa-o e apodera-se do castelo, que foi incluído no plano das suas reedificações militares.


É para lá que eu vou, esperando que São Martinho nos traga a graça do seu belo Verão. Estes últimos dias não me têm parecido muito auspiciosos, mas dando uma vista de olhos à previsão meteorológica afigura-se-me que o tempo estará de feição, muito embora me tenham aparecido algumas nuvens por alturas de Portalegre. Acredito que o caridoso bispo não nos deixará na mão, fazendo jus à sua lendária bondade.

Entretanto, vou apreciando estas belas imagens, com os meus agradecimentos a quem as produziu:


  

E o Outono não é Outono sem aquele cheirinho e gostinho inconfundíveis da castanha assada embrulhada em folhas de listas telefónicas*...isto, lá para os lados do Cais do Sodré** e da Praça do Comércio**, com a neblina vinda do rio misturada com o fumo saído dos assadores de castanhas.




Mas, alteraram-se as rotas, anda-se por outros caminhos, talvez mais fáceis de caminhar, em termos de acesso, no entanto, estranhamente, perdura aquela saudade. 




Imagens:Internet
*Prática proibida, tendo sido imposta aos vendendores a aquisição de saquinhos de papel, para o efeito.
**Lisboa

terça-feira, 11 de junho de 2013

Mensagem - Fernando Pessoa


Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -,
Com a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!








Fernando Pessoa

in: Mensagem-Colecção Poesia-Edições Ática - pg 75



Continuando a folhear o livro chego à última página e encontro este lindo poema, o último, na página 106, tão cheio de significado e que parece viajar no tempo, depondo perante os nossos olhos as ânsias que nos consomem:


Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!


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A imagem que considero magnífica retirei-a da internet. Os meus agradecimentos a quem ela pertence.

sábado, 8 de junho de 2013

Santos Populares - Uma tradição tipicamente portuguesa

Num jornal gratuito, colocado na minha caixa de correio, encontrei este texto, título incluído, dedicado às festas dos santos populares. Achei-o interessante porque traça uma panorâmica destes festejos que já se iniciaram em alguns locais, nomeadamente, aqui no recanto onde habito, criando-se assim novas tradições:

Sendo, por excelência, o mês dedicado aos santos populares, junho é sinónino de noites de arraial um pouco por todo o país.

A festa começa na noite de 12 para 13 de junho, com as celebrações de Santo António a atingirem o seu expoente máximo em Lisboa, ou não fosse também o santo padroeiro da capital. De Alfama ao Castelo, um pouco por todos os bairros da zona histórica da cidade, o ar cheira a sardinha assada e a manjerico, a planta tradicional dos santos populares, vendida em pequenos vasos e decorada com uma quadra escrita numa pequena bandeira de papel.







Por esta altura, vários são os arraiais que trazem para a rua centenas de pessoas até de madrugada que, entre um pezinho de dança num ou outro bailarico, lá vão subindo e descendo as emblemáticas ruas sinuosas e as escadinhas inclinadas desta zona da capital, onde não faltam crianças a pedir um "tostãozinho para o Santo António" e altares em sua honra, para além de muita sardinha assada, caldo verde e vinho tinto, para ir aconchegando o estômago ao longo de toda a noite.





Simultaneamente, na Avenida da Liberdade, as coletividades bairristas fazem-se representar nas tradicionais Marchas Populares, uma das mais antigas tradições lisboetas.

Cerca de uma semana depois, de 23 para 24 de junho, é a vez das gentes do Porto animarem as ruas da cidade, celebrando o São João, sempre com o tradicional alho-porro ou martelinho de plástico em punho, para ir batendo, em jeito de brincadeira, na cabeça de quem passa.





Durante toda a noite, os foliões vão-se movimentando de freguesia em freguesia, animando os tradicionais arraiais, onde, tal como acontece em Lisboa, não falta o perfume a manjerico no ar, a sardinha assada, o caldo verde e o vinho tinto. À meia noite, no rio Douro, junto à ponte Dom Luís, surge um dos momentos altos da festa, um majestoso fogo de artifício que dura cerca de 15 minutos, para delícia de todos quantos assistem.

O mês termina com a festa em honra de São Pedro, de 28 para 29 de junho, com arraiais em várias localidades, um pouco por todo o país, encerrando assim um mês dedicado aos santos populares.

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Agora vem o resto, mas da minha lavra. Aceito perfeitamente o título dado ao artigo mas saberá alguém as origens destas festas? Afianço-vos que não procurei nada, portanto toda a colaboração será bem-vinda. E já agora tragam também algumas quadras.

E aqui vai uma, originalíssima:  :))


É noite de Santo António
Estalam foguetes no ar;
Põe o manjerico à janela
E vem para a rua dançar.


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Contributos em relação às origens das festas:


Da minha 'xará' Teresa:

Eu acho que estas festas têm origem nas velhas festas pagãs do solstício de verão, não é? Seja como for, são uma época maravilhosa da cidade.

»»»»»»

Do amigo jorge esteves:

Os 'santos populares', um pouco disseminados por todos o país, afinal não são mais do que apropriações das ancestrais festividades pagãs do solstício de Verão. No Porto (o que melhor conheço, diga-se) a variedade dos festejos é imensa. Alguma, lamentavelmente, já perdida. Um pormenor, entre os mais, que acho interessantíssimo e ainda se conserva bem vivo, é o versejar, a criação de quadras que, sob os mais variados temas, nos mostram de modo eloquente, a sagacidade, a ironia e a sabedoria do povo. Por vezes, até porque nos festejos (quase) tudo é brincadeira, não faltam as quadras brejeiras, essas um pouco a fazer-nos lembrar as velhas cantigas de escárnio e mal-dizer.

Deixo, aqui, esta, das premiadas no ano passado:

'Estranha contradição
teve a Maria, que em brasa,
fez a festa sem balão
e foi de balão p'ra casa!...'



»»»»»

Da mui talentosa e amiga, Maria Emilia Moreira, uma quadra da sua autoria:
Olá Olinda!
Não sei a origem das festas dos Santos Populares! Não vou por-me a inventar.
Deixo uma quadra minha premiada pela Associação Portuguesa de Poetas (fui sócia uns 3 anos).

Atiraste-me orvalhado,
um cravo rubro de mil folhas.
- Sou teu! - dizes no recado.
- Não vou em promessas tolas!


»»»»»

Obrigada a todos pelos belos comentários aqui deixados, trazendo-nos, cada um deles, um maravilhoso cheirinho das festas em termos locais e, por outro lado, uma visão quase universal.

Beijos

Olinda


Nota:
O texto foi retirado integralmente de 'Dica-Sociedade/6 de junho de 2013'
As imagens retiradas da Internet e a quadra também.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Deu-la-Deu Martins


Uma imagem de mulher, segurando um pão em cada mão do alto de uma torre, figura no brasão de Monção com a legenda: Deus a deu - Deus o há dado.


Esta é uma homenagem à coragem e astúcia de uma grande heroína, Deu-la-Deu Martins, mulher do capitão-mor de Monção, Vasco Gomes de Abreu. Esta mulher singular viveu no século XIV, no tempo das guerras entre D. Fernando de Portugal e D. Henrique de Castela.

Foi nesta conjuntura que o galego D. Pedro Rodriguez Sarmento pôs cerco a Monção com um poderoso exército, aproveitando a ausência temporária do seu capitão-mor. A vila aguentou o cerco sob o comando de Deu-la-Deu Martins, apesar da escassez de alimentos.

Mas a situação chegou a um ponto de desespero e foi então que Deu-la-Deu, com um sangue-frio notável, mandou fazer alguns pães da pouca farinha que restava. Deu-la-Deu subiu com os pães à muralha e atirou-os aos sitiantes, gritando-lhes que como abundavam as provisões na cidade e dada a duração do cerco, os galegos poderiam precisar de alimento.

O inimigo também estava cheio de fome e pensando que o cerco ainda poderia demorar mais tempo, decidiu retirar para Espanha. Este feito ficou para sempre na memória dos portugueses e deu origem ao costume de os vereadores do município se dirigirem ao túmulo de Deu-la-Deu, quando tomavam posse dos seus cargos, prestando-lhe homenagem.




Texto retirado de
AQUI

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Levantar-me-ei de novo?

Um pouco à deriva, de joelhos dobrados, com estranhos cá dentro de casa a mandar e a desmandar pensei que jamais conseguiria soerguer-me sequer. Uns atrás dos outros, praticamente da mesma família, eles foram surgindo cada um impondo o seu ponto de vista e as suas exigências, aproveitando as brechas que eu não tapei. 
O tempo foi passando, com tudo a cair aos pedaços já não me reconhecia a mim nem aos meus. Passaram-se sessenta anos, mais ou menos, sobre a data em que o meu rei-menino, a minha esperança, resolvera ir perecer, levando as melhores promessas do meu reino, lá por terras de África. Chegou uma altura em que parei para pensar e perguntar-me para que lado é que eu queria ir. Aguentei até quase me faltarem as forças, mas ainda tive as suficientes para levantar a cabeça, endireitar o tronco e fazer-me ouvir. 
Ainda consegui reunir umas quantas cabeças pensantes. Conjugando esforços, delineando metas e o futuro próximo, gritámos: basta! Refiz a minha independência, não foi fácil tudo o que se seguiu, mas recomecei a pensar por mim mesmo e a trabalhar para reerguer todo o edifício que estava quase em ruínas.
Hoje, parece-me, sigo pelo mesmo caminho. São outros tempos, as coisas acontecem com uma velocidade estranhíssima. O que é hoje uma coisa amanhã já não é. As alianças que se fazem presentemente têm o valor de coisa nenhuma. Outros são os senhores do mundo. Os paradigmas são outros. A democracia, em todo o espaço em que eu estou inserido, apresenta-se periclitante. Com o presente e o futuro comprometidos, pergunto-me: Conseguirei levantar-me de novo?


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Quase mil anos

Sinto que tenho mil anos. Será que os não fiz já? Há tanto tempo que trilho por caminhos com que não sonhava sequer. O meu nascimento foi bastante conturbado, reconheço, talvez uma indicação de que aquilo que acabei por conseguir não seria fácil. Por onde terei andado? Faço um esforço. Depois de ter consolidado o meu próprio espaço à custa de trabalhos e canseiras, resolvi expandir-me um pouco. Nunca me passou pela cabeça ir para tão longe. Viajei por todos os continentes, atravessei oceanos, fiz coisas de que nem sempre me orgulhei, deixei e recebi influências.Durante esse tempo todo fiz alguma fortuna...que desapareceu na voragem do tempo. Depois, por força das circunstâncias voltei para casa, pode dizer-se que me recolhi ao lar. Para sobreviver, fiz alianças.Tudo parecia bem encaminhado e o rumo certo a tomar: Pertencer a um grupo com nome sonante, com moeda própria, com muitas e muitas promessas de permeio... Perguntar-me-ão se, depois de tanto tempo vivido, não tive filhos. Claro que tive. Muitos. Alguns deles para meu bem ou para meu mal desafiam-se no governo da minha casa. Um desafio em cujos resultados nem quero pensar. Mas, de nada me vale esconder a cabeça na areia. Maus negócios, dívidas e mais dívidas acumulam-se há já algum tempo. A somar a isso tudo a falta de visão dos meus parceiros, que não atinam com o caminho a seguir. Fazer o quê? Sinto-me com mil anos, mas ainda me faltam cento e sessenta e oito anos para os perfazer, mais coisa menos coisa. É isso, fui registado como independente e livre em mil cento e setenta e nove. Há quem diga que sou um jardim à beira-mar plantado e que na minha casa há um cabo onde a terra acaba e o mar começa...Será esta a solução? Fazer-me ao mar de novo?...



quarta-feira, 20 de abril de 2011

TROIKA? o que é?


De repente, a portuguesa língua apresenta-se pobre e sem palavras. Sem palavras para designar coisas à primeira vista inomináveis. Todos os dias, às mais variadas horas somos torpedeados pela Comunicação Social e também já na rua por palavras que parecem ter um mundo de significados: Troika; Os homens da Troika. Para lá disto, é deixado ao nosso livre arbítrio a procura de uma explicação para o que quer dizer Os homens da Troika que, pelos vistos, são os Papões da nova Era ou então O Homem do saco. Mas vamos de evolução em evolução e há-de ficar na história linguística e na nossa História comum esta nova realidade que havemos de contar aos nossos netos.
Sinto saudades de António Ferreira que, dos confins do século XVI, nos exorta:


Floreça, fale, cante, ouça-se e viva

A Portuguesa língua, e já onde for

Senhora vá de si soberba, e altiva.


Este pecado de lesa-língua pátria será desamor? Venham, perfilem-se, Camões, Almeida Garrett, Herculano, Pessoa e todos os ilustres homens que ajudaram a construir a mais linda história em torno de uma Língua que tem percorrido os quatro cantos do mundo e que conta com mais de 240 milhões de falantes.

Assim é e assim seja... (Caeiro)


 

Imagem:Google