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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Chagas de salitre

Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar
da urina e do suor
da carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.
Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.
Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos do espesso deslizar
dos braços e das mães do meu país
Olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.
Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.
In: A Decisão da Idade
União dos Escritores Angolanos,1976
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Poema: daqui (Bibliotecário de Babel)
Ver também no "Xaile de Seda", post com o título "Vou lá visitar pastores", obra sobre os
Kuvale.

sábado, 31 de março de 2018

Os caminhos da Felicidade, segundo Max Ehrmann

Pessoa amiga enviou-me este video em que Ruy de Carvalho empresta a sua voz a este prose poem intitulado Desiderata, de um autor norte-americano de nome Max Ehrmann. Nele são apontados alguns caminhos na procura da Felicidade. Aqui vo-lo deixo, com votos de uma Boa Páscoa.




The Desiderata of Happiness no idioma original - aqui


E também neste video:






Façam o favor de ser felizes, como diria o nosso Raúl Solnado.

Abraço.

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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Vou lá visitar pastores






A terra que te ofereço

1

Quando,
ansiosa,
pela primeira vez
pisares
a terra que te ofereço,
estarei presente
para auscultar,
no ar,
a viração suave do encontro
da lua que transportas
com a sólida
a materna nudez do horizonte.

Quando,
ansioso,
te vir a caminhar
no chão de minha oferta,
coloco,
brandamente,
em tuas mãos,
uma quinda de mel
colhido em tardes quentes
de irreversível
votação ao Sul.

2

Trago
para ti
em cada mão
aberta,
os frutos mais recentes
desse Outono
que te ofereço verde:
o mês mais farto de óleos
e ternura avulsa.
E dou-te a mão
para que possas
ver,
mais confiante,
a vastidão
sonora
de uma aurora
elaborada em espera
e refletida
na rápida torrente
que se mede em cor.

3

Num mapa
desdobrado para ti,
eu marcarei
as rotas
que sei já
e quero dar-te:
o deslizar de um gesto,
a esteira fumegante
de um archote
aceso,
um tracejar
vermelho
de pés nus,
um corredor aberto
na savana,
um navegável
mar de plasma
quente.


Ruy Duarte de Carvalho
      1941-2010

VER
SOBRE ESTE AUTOR

Poema retirado de:


http://betogomes.sites.uol.com.br/

Imagem retirada do
Google