quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Capitu



- Que é que você tem?
- Eu? Nada.
- Nada, não; você tem alguma coisa.

Quis insistir que nada, mas não achei língua. Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca fora. Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem água de toucador, mas com água de poço e sabão comum trazia-as sem mácula. Calçava sapato de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos.

- Que é que você tem? repetiu.
- Não é nada, balbuciei finalmente.
E emendei logo:
- É uma notícia.
- Notícia de quê?

Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminário e espreitar a impressão que lhe daria. Se a consternasse é que realmente gostava de mim; se não, é que não gostava. Mas todo esse cálculo foi obscuro e rápido; senti que não poderia falar claramente, tinha agora a vista não sei como...

- Então?
- Você sabe...

Nisto olhei para o muro, o lugar em que ela estivera riscando, escrevendo ou esburacando, como dissera a mãe. Vi uns riscos abertos, e lembrou-me o gesto que ela fizera para cobri-los. Então quis vê-los de perto, e dei um passo. Capitu agarrou-me, mas, ou por temer que eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adiante e apagou o escrito. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era.

Machado de Assis - Dom Casmurro, pgs 30/31 (excerto).


Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi um escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e crítico literário.Testemunhou a Abolição da escravatura e a mudança política no país quando a República substituiu o Império, além das mais diversas reviravoltas pelo mundo em finais do século XIX e início do XX, tendo sido grande comentador e relator dos eventos político-sociais de sua época...daqui
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Volto sempre a Machado de Assis, mesmo que pareça tê-lo esquecido ou não o traga para o Xaile de todas as vezes que o leio. Egoísmo meu, certamente. Hoje senti esta necessidade e abri Dom Casmurro, que me apresentou o Capítulo 13-Capitu. 

Capitu e Bentinho (narrador-personagem), ternurentos nos seus verdes anos. Mas também na sua vida de adultos, com as voltas que essa mesma vida dá.
E mais: o desenho de uma sociedade com os seus altos e baixos.

Espero que se deliciem com a leitura, meus amigos. 
Tanto quanto eu.




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imagem: daqui

16 comentários:

  1. que leitura deliciosa. Nunca me recuperei depois de ler Esaú e Jacó.

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  2. Triste destino, o de Capitu ao lado do Bentinho Casmurro... Rsrsrsrsss...
    Música dançante, bem alegre...
    Beijinhos
    ~~~~


    ´´

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  3. Que lindo. Esse livro é maravilhoso. Já pensei em escrever alguma história tendo Capitu e Ofélia como protagonistas rs.

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  4. Gostei muito, da escolha e da escrita do autor (a qualidade não engana)

    Beijinhos

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  5. Na faculdade fiz cadeiras de Literatura Brasileira e tive o privilégio de conhecer Machado de Assis.
    Fiquei fã!
    Ai os olhos de Capitu!

    Abraço

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  6. Esse excerto fez crescer água na boca, por mais.
    Grata.

    Bom fim-de-semana!
    Beijinhos.

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  7. Fantástico texto :)) Parabéns:))

    Hoje:-Para além do infinito

    Bjos
    Votos de uma óptima tarde

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  8. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  9. Caro Manuel Veiga

    Por engano, removi o seu comentário pelo que peço muitas desculpas.

    Poderia escrevê-lo de novo?

    Muito obrigada.

    Abraço

    Olinda

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  10. há textos assim, que nunca perdem a inocência...
    e livros que nunca perdem o prazer da primeira vez
    que foram folheados...

    excelente escolha, amiga Olinda
    abraço

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  11. Também volto muitas vezes ao Dom Casmurro de Machado de Assis. Gostei de o encontrar aqui com este texto encantatório.
    Um bom fim de semana, minha Amiga Olinda.
    Um beijo.

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  12. Después de leer ese texto que me ha dejado con las ganas de más, espero no olvidarme del nombre de ese gran escritor que, hasta el momento de entrar en tu espacio, desconocía por completo.
    Gracias por dármelo a conocer.
    Ha sido un placer entrar en tu ameno blog.
    Cariños.
    kasioles

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  13. Infelizmente só conheço Machado de Assis de nome.
    Abraço

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  14. Boa noite de muita paz, querida amiga Olinda!
    Adorei o vídeo, gosto do ritmo.
    Machado foi minha paixão na juventude junto a José de Alencar...
    Gostei de me lembrar do romance aqui.
    Você prima pela cultura e excelentes postagens como gosto de ler para aprender.
    Tenha um final de semana feliz e abençoado!
    Bjm carinhoso e fraterno de paz e bem

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  15. Querida Olinda
    Nunca é demais recordar Dom Casmurro e, consequentemente, Machado de Assis, esse GRANDE escritor brasileiro que deixou excelente obra.
    A inocência que transparece da sua narrativa é enternecedora.
    Foi muito bom recordar.

    Muito obrigada pelas tuas palavras de incentivo deixadas na minha "CASA".
    Elas ajudam-me a seguir em frente, o que, às vezes, não apetece muito.

    Desejo que estejas passando muito bem, sem problemas dignos de nota.

    Desejo bom Fim-de-semana
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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  16. Machado de Assis é uma grande referência literária, profundo e simples como poucos. Não poderia faltar neste espaço que gosto de frequentar. E, é claro que fica a vontade de voltar à sua escrita.

    Beijos, querida Olinda, e bom fim de semana.

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