- Que é que você tem?
- Eu? Nada.
- Nada, não; você tem alguma coisa.
Quis insistir que nada, mas não achei língua. Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca fora. Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem água de toucador, mas com água de poço e sabão comum trazia-as sem mácula. Calçava sapato de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos.
- Que é que você tem? repetiu.
- Não é nada, balbuciei finalmente.
E emendei logo:
- É uma notícia.
- Notícia de quê?
Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminário e espreitar a impressão que lhe daria. Se a consternasse é que realmente gostava de mim; se não, é que não gostava. Mas todo esse cálculo foi obscuro e rápido; senti que não poderia falar claramente, tinha agora a vista não sei como...
- Então?
- Você sabe...
Nisto olhei para o muro, o lugar em que ela estivera riscando, escrevendo ou esburacando, como dissera a mãe. Vi uns riscos abertos, e lembrou-me o gesto que ela fizera para cobri-los. Então quis vê-los de perto, e dei um passo. Capitu agarrou-me, mas, ou por temer que eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adiante e apagou o escrito. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era.
Machado de Assis - Dom Casmurro, pgs 30/31 (excerto).
Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi um escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e crítico literário.Testemunhou a Abolição da escravatura e a mudança política no país quando a República substituiu o Império, além das mais diversas reviravoltas pelo mundo em finais do século XIX e início do XX, tendo sido grande comentador e relator dos eventos político-sociais de sua época...daqui
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Volto sempre a Machado de Assis, mesmo que pareça tê-lo esquecido ou não o traga para o Xaile de todas as vezes que o leio. Egoísmo meu, certamente. Hoje senti esta necessidade e abri Dom Casmurro, que me apresentou o Capítulo 13-Capitu.
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Volto sempre a Machado de Assis, mesmo que pareça tê-lo esquecido ou não o traga para o Xaile de todas as vezes que o leio. Egoísmo meu, certamente. Hoje senti esta necessidade e abri Dom Casmurro, que me apresentou o Capítulo 13-Capitu.
Capitu e Bentinho (narrador-personagem), ternurentos nos seus verdes anos. Mas também na sua vida de adultos, com as voltas que essa mesma vida dá.
E mais: o desenho de uma sociedade com os seus altos e baixos.
Espero que se deliciem com a leitura, meus amigos.
Tanto quanto eu.
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imagem: daqui
















