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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Capitu



- Que é que você tem?
- Eu? Nada.
- Nada, não; você tem alguma coisa.

Quis insistir que nada, mas não achei língua. Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca fora. Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem água de toucador, mas com água de poço e sabão comum trazia-as sem mácula. Calçava sapato de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos.

- Que é que você tem? repetiu.
- Não é nada, balbuciei finalmente.
E emendei logo:
- É uma notícia.
- Notícia de quê?

Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminário e espreitar a impressão que lhe daria. Se a consternasse é que realmente gostava de mim; se não, é que não gostava. Mas todo esse cálculo foi obscuro e rápido; senti que não poderia falar claramente, tinha agora a vista não sei como...

- Então?
- Você sabe...

Nisto olhei para o muro, o lugar em que ela estivera riscando, escrevendo ou esburacando, como dissera a mãe. Vi uns riscos abertos, e lembrou-me o gesto que ela fizera para cobri-los. Então quis vê-los de perto, e dei um passo. Capitu agarrou-me, mas, ou por temer que eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adiante e apagou o escrito. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era.

Machado de Assis - Dom Casmurro, pgs 30/31 (excerto).


Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi um escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e crítico literário.Testemunhou a Abolição da escravatura e a mudança política no país quando a República substituiu o Império, além das mais diversas reviravoltas pelo mundo em finais do século XIX e início do XX, tendo sido grande comentador e relator dos eventos político-sociais de sua época...daqui
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Volto sempre a Machado de Assis, mesmo que pareça tê-lo esquecido ou não o traga para o Xaile de todas as vezes que o leio. Egoísmo meu, certamente. Hoje senti esta necessidade e abri Dom Casmurro, que me apresentou o Capítulo 13-Capitu. 

Capitu e Bentinho (narrador-personagem), ternurentos nos seus verdes anos. Mas também na sua vida de adultos, com as voltas que essa mesma vida dá.
E mais: o desenho de uma sociedade com os seus altos e baixos.

Espero que se deliciem com a leitura, meus amigos. 
Tanto quanto eu.




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imagem: daqui

sábado, 20 de julho de 2019

Cantares do sem-nome e de partidas


Nos idos* de 2013, Canto da Boca dizia-me: 

Como sabes, Hilda é da minha Santíssima Trindade da poesia das mulheres do Brasil, não é possível falar em poesia brasileira e não mencioná-la. Entretanto, sua passagem por essa dimensão foi um tanto difícil, a sensação que eu tenho é que ela partiu para o "andar de cima", com muita mágoa desse mundo das artes...

Trago-te como já é de hábito, sites, ou algo que possa ajudar na sua apropriação da nossa poesia, da nossa cultura, eis aqui um site onde vais saber um pouco mais sobre a Hilda Hilst:
http://www.hildahilst.com.br/site/

E um dos meus poemas preferidos dela:



CANTARES DO SEM-NOME E DE PARTIDAS

I

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.


II

E só me veja


No não merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias.
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos

Eu-alguém travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).

Dorsos de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.

E que jamais perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.

III

Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.

Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isto? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.

VII

Rios de rumor: meu peito te dizendo adeus.
Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no peito: que te viram subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena.
Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os.
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo vêem aquela.

VIII

Aquela que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.

Pertencente é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, “ESSE”
Que bem me sabe inteira pertencida.


IX

Ilharga, osso, algumas vezes é tudo o que se tem.
Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso.
E pensas maravilha quando pensas anca
Quando pensas virilha pensas gozo.
Mas tudo mais falece quando pensas tardança
E te despedes.
E quando pensas breve
Teu balbucio trêmulo, teu texto-desengano
Que te espia, e espia o pouco tempo te rondando a ilha.
E quando pensas VIDA QUE ESMORECE. E retomas
Luta, ascese, e as mós do tempo vão triturando
Tua esmaltada garganta... Mas assim mesmo
Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas...
Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade
A esperança.



Beijos!!

;))







Minha amiga:

Penso não te ter agradecido o suficiente todo o conhecimento que me proporcionaste sobre a Cultura brasileira. 
Agora, em mais uma das minhas pesquisas sobre o teu belo país encontrei, de novo, Hilda Hilst e lembrei-me deste poema que me trouxeste em tempos. Trouxe o poema bem como as tuas palavras de então para embelezar este "Xaile".

Deixo-te aqui um apontamento da tua cidade, OLINDA, 
com interpretação de Caetano Veloso.
Desejo-te tudo de bom.
Beijos.
Olinda



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Canto da Boca18/08/2013, 23:56:00
aqui
*idos - uso incorrecto neste post. ver aqui

terça-feira, 16 de julho de 2019

Fagulha


Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.



Ana Cristina César (1952-1983) foi uma das grandes promessas da literatura brasileira que partiu do mundo precocemente, aos apenas trinta e um anos de idade, cometendo suicídio após um longo histórico depressivo. A jovem autora carioca, no entanto, deixou um riquíssimo legado que desde então jamais foi esquecido.
Em 2016, pela colaboração da sua obra dentro da historiografia literária brasileira, foi homenageada na Festa Literária Internacional de Paraty.
Ver mais aqui





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Poema - aqui

Tateio





Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.

Hilda Hilst



Hilda de Almeida Prado Hilst, mais conhecida como Hilda Hilst, (Jaú, 21 de abril de 1930 — Campinas, 4 de fevereiro de 2004) foi uma poeta, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. É considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX.



Veja Hilda Hilst- aqui e aqui no "Xaile"


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Poema - daqui
Imagem - daqui
Hilda Hilst, aos 29 anos, pelo fotógrafo português Fernando Lemos em 1959 Foto: Fernando Lemos / Divulgação

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Canção do africano







Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ...

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!

"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!

"0 sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!

"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar ...

"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".


O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!


Castro Alves
(1847-1871)



Antônio Frederico de Castro Alves. Poeta brasileiro. Nasceu na fazenda Cabaceiras, a sete léguas (42 km) da vila de Nossa Senhora da Conceição de "Curralinho", hoje Castro Alves, no estado da Bahia. aqui


Suas poesias mais conhecidas são marcadas pelo combate à escravidão, motivo pelo qual é conhecido como "Poeta dos Escravos". Foi o nosso mais inspirado poeta condoreiroCondoreirismo ou condorismo é uma parte de uma escola literária da poesia brasileira, a terceira fase romântica, marcada pela temática social e a defesa de ideias igualitárias. Ler mais...


1ª e 3ª imagens - Tempo e Espaço

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Quinzena do Amor:

Post 16 - Os cinco sentidosPost 15 - Amor a amor nos convidaPost 14 - E Serei VeleiroPost 13 - Poema de Amor de António e CleópatraPost 12 - Que era é esta?Post 11  - A noite abre meus olhosPost 10 - sim.foi por um beijo em simples vendaval que morriPost 9 - Ó MãePost 8 - Alma minha gentil que te partistePost 7 - Do inquieto oceano da multidão,Post 6 - Amar teus olhosPosta 5 - Conheço esse sentimentoPost 4 - Éramos tu e euPost 3 - Saudades não as queroPost 2 -Não é por acasoPost 1 - É daqui a pouco 

Poema: daqui

sábado, 15 de julho de 2017

Descobrir a grandeza das coisas anónimas

Leve os seus filhos a encontrar os grandes motivos para serem felizes nas pequenas coisas. Uma pessoa emocionalmente superficial precisa de grandes eventos para ter prazer, uma pessoa profunda encontra prazer nas coisas ocultas, nos fenómenos aparentemente imperceptíveis: no movimento das nuvens, no bailar das borboletas, no abraço de um amigo, no beijo de quem ama, num olhar de cumplicidade, no sorriso solidário de um desconhecido.



A felicidade não é obra do acaso, a felicidade é um exercício. Treine as crianças para serem excelentes observadoras. Saia pelos campos ou pelos jardins, faça-as acompanhar o desabrochar de uma flor e descubra com elas o belo invisível. Sinta com os seus olhos as coisas lindas que estão à sua volta.

Leve os jovens a viver os momentos singelos, a força que surge nas perdas, a segurança que brota no caos, a grandeza que emana dos pequenos gestos. As montanhas são formadas por ocultos grãos de areia.

As crianças serão felizes se aprenderem a contemplar o belo nos momentos de glória e de fracasso, nas flores da Primavera e nas folhas secas do Inverno. Eis o grande desafio da educação da emoção!

In: Cury, Augusto - Pais brilhantes, Professores fascinantes, páginas 41/42


Tempo de férias, tempo para reaprender a estarmos juntos. Oportunidade para andarmos de mãos dadas e apreciar tudo o que está à nossa volta. O autor bem o diz, descobrir as coisas que os nossos olhos não vêem normalmente e ensinar essa forma de ver às nossas crianças. Nem tudo o que luz é ouro, lá diz o povo. Muitas vezes é nas pequenas coisas que encontramos a verdadeira felicidade.

Desejo-vos um bom fim de semana.

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Imagem: daqui

domingo, 26 de março de 2017

A Peregrina



Calma, sim, acostumada
ao teu convívio constante,
és pessoa encontrada
sendo eterna itinerante.

Passas na comum estrada
e só tu passas durante
a multidão variada
de rostos para o levante.

Às vezes paras na estância
sem nenhum morno cansaço
de quem caminha com ânsia.

Entendes de todo engano
e fazes virar o passo
com teu pífaro indiano.

Maria Ângela Alvim
(1926-1959)
In: Superfície-Toda poesia


Maria Ângela Alvim nasceu no dia 1 de janeiro de 1926 nas fazendas do Pouso Alegre, município de Volta Grande, no estado de Minas Gerais - Brasil.
Leitora assídua de Simone Weil e de Santa Teresa de Ávila pensa durante algum tempo seguir a vida religiosa. Em 1945, por influência de um dominicano francês, o Padre Lebret, fundador do movimento e da revista "Économie et Humanisme", inicia a carreira de assistente social, então nascente em todo o Brasil, que a confronta com uma realidade terrível. É dessa época que data a sua amizade e colaboração com o autor de "Geografia da Fome", Josué de Castro.
No dia 19 de outubro de 1959, Maria Ângela Alvim pôs fim aos seus dias.
aqui

Encontrará uma reflexão sobre esta autora, sob o título Maria Ângela Alvim: a célebre desconhecida, bem como considerações sobre pesquisas sobre a sua vida e obra. aqui.

O Poema é do Poemário Assírio & Alvim, 2012.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Uma louca chamada Esperança



Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
- Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Mario Quintana, (1906-1994). Poeta.Tradutor.Jornalista. Brasileiro.

"Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas. 
Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha,
nem desconfia que se acha conosco desde o início
das eras. Pensa que está somente afogando problemas
dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar
inquietação do mundo!"
  
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Do blog picosderoseirabrava trouxe a imagem e esta mensagem: 

A chama da amizade
Amizade em cadeia. Porque Dezembro é um mês muito especial.
Esta chama acesa vem do blog da Fê Blue Bird e espero que propague por outros e muitos mais.

(Ver post anterior) 


sábado, 7 de novembro de 2015

E agora, José?

Melhor poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade
JOSÉ

E agora, José?
          A festa acabou,
          a luz apagou,
          o povo sumiu,
          a noite esfriou,
          e agora, José?
          e agora, você?
          você que é sem nome,
          que zomba dos outros,
          você que faz versos,
          que ama, protesta?
          e agora, José?
          Está sem mulher,
          está sem discurso,
          está sem carinho,
          já não pode beber,
          já não pode fumar,
          cuspir já não pode,
          a noite esfriou,
          o dia não veio,
          o bonde não veio,
          o riso não veio
          não veio a utopia
          e tudo acabou
          e tudo fugiu
          e tudo mofou,
          e agora, José?

          E agora, José?
          Sua doce palavra,
          seu instante de febre,
          sua gula e jejum,
          sua biblioteca,
          sua lavra de ouro,
          seu terno de vidro,
          sua incoerência,
          seu ódio - e agora?
          Com a chave na mão
          quer abrir a porta,
          não existe porta;
          quer morrer no mar,
          mas o mar secou;
          quer ir para Minas,
          Minas não há mais.
          José, e agora?

          Se você gritasse,
          se você gemesse,
          se você tocasse
          a valsa vienense,
          se você dormisse,
          se você cansasse,
          se você morresse...
          Mas você não morre,
          você é duro, José!
          Sozinho no escuro
          qual bicho-do-mato,
          sem teogonia,
          sem parede nua
          para se encostar,
          sem cavalo preto
          que fuja a galope,
          você marcha, José!
          José, para onde?


Carlos Drummond de Andrade: Foi um poeta mineiro, nascido em Itabira em 31 de outubro de 1902. Faleceu aos 84 anos em 1987.  É considerado um dos maiores poetas da literatura brasileira e construiu extensa obra ao longo dos anos de vida. Ficou conhecido pela sua pacata vida de funcionário público, que se colocou em contraste com o poder de sua poesia. Drummond está ao lado dos modernistas, que reivindicaram na poesia os versos livres, sem metro fixo definido e com temática cotidiana. Sua poesia circula entre os temas sociais, existenciais e metafísicos, marcados por uma fina ironia. Quem nunca escutou o verso “E agora José?”.

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Daqui 

domingo, 9 de agosto de 2015

Dá-me a tua mão

Marco o meu regresso, da minha ausência* forçada, trazendo comigo Clarice Lispector. Melhor companhia não haverá. 
No toque das mãos sentimos o bater do coração e o encontro das emoções. É o que as suas palavras me transmitem, neste momento:



Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.


Melhores escritores brasileiros

Clarice Lispector: É certamente a escritora de literatura brasileira mais lida entre nós. Clarice nasceu na Ucrânia em 10 de dezembro de 1920 e veio ao Brasil logo em seguida, sendo naturalizada brasileira. Morreu aos 56 anos em 9 de dezembro de 1977. Sua obra se constitui de romances e contos, além de ter escrito artigos de jornal em colunas femininas e poucos livros infantis. Sua literatura é de caráter existencial, introspectivo e filosófico, mostrando com maestria o lado misterioso das coisas mais simples e do cotidiano. Suas principais obras são: Perto do Coração Selvagem (1944), A Paixão segundo G.H. (1964), Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (1969), Água Viva (1973), A Hora da Estrela (1977), Laços de Família (1960).aqui

Desejo-vos um bom domingo.  

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*Obrigações familiares
Poema de aqui
Imagem: aqui

sexta-feira, 10 de julho de 2015

A palavra mágica

Por vezes sinto que já está tudo dito, tudo escrito, tudo falado. Que nada que se diga irá desviar o mundo da sua rota. Que o ser humano preocupado consigo próprio não se ocupa da grande tarefa de tentar adivinhar os gostos e as preocupações do outro: Se está triste procurar saber o porquê e consolá-lo; se está alegre, congratular-se com isso. Mas, não poucas vezes encontro pessoas que me fazem crer o contrário e uma lufada de esperança me invade. Com efeito, no nosso quotidiano vislumbro as que conseguem renovar-se e renovar a língua e a linguagem, com um toque de génio, um sorriso, um olhar. E eu aí fico contente e admiro essas pessoas. Como quando passo por alguém que abranda o passo e me diz: "Como está? Hoje o dia vai estar bonzinho". Parece banal, não é? São as tais palavras que de tão repetidas parecem banais mas que são o motor do nosso relacionamento humano. Outras há que de tão escondidas no nosso íntimo parecem nem existir.



Atentemos nestes dizeres:

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira 
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura 
ficará sendo 
minha palavra.  

É A Palavra Mágica, de Carlos Drummond de Andrade, aquela que nos fará sublimes se nos dedicarmos a encontrá-la. A tal que desbloqueará conversações, negociações, mal-entendidos. E, como diz o Poeta, "É a senha da vida, a senha do mundo".

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Diógenes de Sinope, pintado por Jean-Léon Gérôme

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A vitória nossa de cada dia



Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe. 
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.


Clarice Lispector
in: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres

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Excerto trazido do Citador
Imagem: aqui

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Tecendo a Manhã



Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto
      1920-1999

Autor brasileiro. Grande Oficial da Ordem de Sant'Iago da Espada, Portugal-1987. Prémio Camões-1990. Vide Biografia.

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Imagem - daqui

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ferreira Gullar - Novo ocupante da cadeira 37

Aqui no Xaile, Ferreira Gullar tem marcado presença com Não há Vagas, poema que recebe quase todos os dias inúmeras visitas. De seu verdadeiro nome, José Ribamar Ferreira, o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras tem 84 anos e ao ser eleito para ocupar a cadeira nº 37 declara-se muito feliz. A referida cadeira era ocupada pelo poeta e tradutor Ivan Junqueira, falecido em Julho passado.

Em jeito de felicitação, insiro este poema:

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


Uma bela forma de se definir, com arte, Ferreira Gullar.

Poema retirado de- aqui

terça-feira, 8 de julho de 2014

Espelho do Príncipe - Alberto da Costa e Silva

De volta com Alberto da Costa e Silva, agora com o título do livro pelo qual lhe foi atribuído o Prémio Camões - 2014, tendo também em conta toda a sua obra. Não que eu o tenha já lido, mas baseio-me na análise que dele faz Guilherme d'Oliveira Martins - um admirável livro de história e de memórias:

Ao lermos o “Espelho do Príncipe”, onde o memorialista e o historiador se encontram, somos levados à recordação de um jovem de Sobral, no Ceará, até à ida para o Rio de Janeiro, que relembra episódios onde a natureza, as tradições e a sociedade que evolui se encontram, como no célebre episódio do ritual da morte de uma galinha, onde percebemos que o lado melancólico apela à magia da existência: “a visão da moça a matar a galinha frequentou a sua infância. Ele acordava cedinho e, encolhido na rede, assistia à cena a repetir-se, com o corredor escuro, o quadrado branco da porta e, no patamar de tijolos gastos da escada que descia para o quintal, a moça, a mudar de modinha ou não mais cantando, porém sempre alegre, completa em seu riso, permanentemente ressonhada a degolar a galinha".*





Em relação ao autor refere que é dos mais completos escritores da língua portuguesa contemporânea e, simultaneamente, um dos intelectuais que melhor compreendeu o entrançado complexo da lembrança e de uma língua de várias culturas, cultura de várias línguas, na Europa, América e África. Palavras de Oliveira Martins que também nos mostra aspectos interessantes do percurso pessoal e literário de Alberto da Costa e Silva. Se quiser ler o artigo completo clique aqui.





De outro sítio trago este Soneto:

Soneto

Alto me sonho, mas sou apenas homem:
alguns dias a infância desterrada
em outro ser (e o ar que as mãos agarram
se vai movendo em nós, respiro fraco

com que me gasto, calmo, rês, mudado
no tempo em que me faço e me desfaço,
humilde, cego, em lágrimas sangrado,
passagem de luar, bicho deserto)

que sente, alguma vez, a despenhar-se
o espaço nas coisas, grande, alado,
ou sobre mim, em mim, no ser atado

à vida, à terra, a este adeus cortado
e vê o mundo a reerguer-se, aberto,
no refino da espera e de um abraço.

Alberto da Costa e Silva

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*Citação de Mia Couto, inserido no texto em referência.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O menino Alberto da Costa e Silva: o tecelão do parque





A poesia de Alberto da Costa e Silva se murmura dentro de sua perene infância, tão eternizável, que inunda todo o conhecimento de sua imagem literária:

Vou pedir ao meu pai
que me esqueça menino.

A passagem do dístico vale intensamente para sentir a força de suas mãos poéticas, que ilumina a altíssima linhagem de sua revelação:

Todos os dias são iguais - o grego
e o menino que fui
sempre o souberam.
Ele o pensava; eu o vivia,
amargo.
                      O sol
cegava, nos telhados.
Mas o menino de ontem, hoje,
cantava.

Esse cantar de Alberto da Costa e Silva é lucidez perdida no presente ou encontrado no amor a sua Musa Vera, vera musa:

Dizer jamais de nós
senão o certo:
o céu,
e o campo aberto.

No livro AO LADO DE VERA (1997), Alberto da Costa e Silva brinda a amada (  e a todos nós) com lindos poemas mágicos:

Usa o meu coração, se o teu já tens gasto,
feito a pedra de mó que a faca alisa, cava
e parece estender como massa de trigo
sobre a mesa molhada. Usa o meu coração

como o trapo que limpa a sujeira das tábuas
e negrece de pó, e se pui, e se esgarça,
se com ele se invertem este dia adverso
e esta noite perversa. Usa o meu coração

para nos esconder, como aos olhos as pálpebras.
do cansaço do tempo, do bolor nos retratos,
e jogar para os céus, ao abrir das janelas,
qual um sonho ou um parto, os pardais e os canários.

A frase Usa o meu coração será sempre um eco. Alberto da Costa e Silva faz de sua obra um artesanato elevado de sonhos, é um tecelão que se fia no grande parque da linguagem:

Cuidado! Não é tua
esta morte.
Cuidado! Ela vem disfarçada
de irmã e reparte
moscas e formigas
como se fossem frutas
maduras e espigas.
Cuidado! que vem vestida
de infância
e de vida.

Alberto é filho de Da Costa e Silva ( um dos maiores poetas Simbolistas em Língua Portuguesa, nascido no Piauí):

Meu pai, que estás no céu,
no céu que vejo,
neste céu que respiro e que me veste
( e não naquele de derrota feito,
em que o eterno disfarça o sonho breve),

repara em mim,
em mim, que me envelhece
a tua falta
( a tua falta cresce
e desfaz o rancor desta certeza:
mesmo na morte o corpo dói), protege

o homem que fizeste e que, menino,
se agacha junto à quinta das paredes,
o queixo nos joelhos,
o olhar cego
a outro tempo que não seja ainda
imóvel, puro, certo,
como tu,
como tu, que estou sendo
na carne que, em mim,
é teu degredo.

O menino é o Poeta em consoada.

Quando nos criaram,
as mãos do deus já estavam
cansadas.

Por isso,
somos frágeis e mortais. E amamos,
para resgatar o que no deus
foi sonho.


Poemas de Alberto da Costa e Silva
Minuta de Diego Mendes Sousa

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Deste site trago estas palavras sobre a poesia de Alberto da Costa e Silva. Espero que gostem.

A todos desejo uma excelente quarta-feira. :)