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segunda-feira, 30 de junho de 2025

Em que língua escrever?






'Em que língua escrever
As declarações de amor?
Em que língua cantar
As histórias que ouvi contar?

Em que língua escrever
Contando os feitos das mulheres
E dos homens do meu chão?
Como falar dos velhos
Das passadas e cantigas?
Falarei em crioulo?
Mas que sinais deixar
Aos netos deste século?
Ou terei de falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem
Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo
Ou terei de falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem

Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo
E ao longo dos séculos
No caminho da vida
Os netos e herdeiros
Saberão quem fomos




Apesar de ter nascido solta e desenvolta, livre, ainda há quem pense ser dela o dono policiando no escuro a língua, não vá um mal-intencionado beliscar um acento ou acrescentar uma abertura em lugar incerto ou, ainda, quem sabe?, virgular o que deve ser pontofinalizado. 
Mas a língua não se importa que a façam voar em vozes e falas, que a enrolem em pergaminhos, folhas simples ou papel reciclado; o certo é que em silêncio ela grita e mesmo quando, inseguros, nela deitamos a mão... questionando... a língua é sempre testemunha.




Canta Tchuba
Eneida Marta






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Odete Semedo -aqui no Xaile de Seda
 

quarta-feira, 10 de abril de 2024

A minha Poesia sou eu





… Não, Poesia:
Não te escondas nas grutas de meu ser,
não fujas à Vida.

Quebra as grades invisíveis da minha prisão,
abre de par em par as portas do meu ser
— sai…

Sai para a luta (a vida é luta)
os homens lá fora chamam por ti,
e tu, Poesia és também um Homem.

Ama as Poesias de todo o Mundo,
— ama os Homens
Solta teus poemas para todas as raças,
para todas as coisas.
Confunde-te comigo…

Vai, Poesia:
Toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida.

A minha Poesia sou eu.


Amílcar Cabral,
in “Seara Nova”. 1946.




Amílcar Cabral, o homem que preconizava o diálogo. No poema cantado, abaixo, de António Gedeão ouve-se "mesmo morto hei-de passar". E passou. Não com a Concórdia que ele queria... 

Mesmo assim abriu os braços para acolher a Humanidade, 
transmitindo-lhe o que considerava um bem precioso:
a noção de liberdade.





Adriano Correia de Oliveira
"Fala do Homem Nascido"

(Poema: de António Gedeão
Música: José Niza)


***


Amílcar Lopes da Costa Cabral, (Bafatá, Guiné Portuguesa, actual Guiné-Bissau, 12 de setembro de 1924 — Conacri, 20 de janeiro de 1973) foi um político, agrónomo e teórico marxista da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. aqui



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Poema publicado aqui, no Xaile de Seda

quinta-feira, 31 de março de 2022

Vem...senta-te que a história não é curta





O teu mensageiro

Não te afastes
aproxima-te de mim
traz a tua esteira e senta-te

Vejo tremenda aflição no teu rosto
mostrando desespero
andas
e os teus passos são incertos

Aproxima-te de mim
pergunta-me e eu contar-te-ei
pergunta-me onde mora o dissabor
pede-me que te mostre
o caminho do desassossego
o canto do sofrimento
porque sou eu o teu mensageiro

Não me subestimes
aproxima-te de mim
não olhes estas lágrimas
descendo pelo meu rosto
nem desdenhes as minhas palavras
por esta minha voz trémula
de velhice impertinente

Aproxima-te de mim
não te afastes
vem...

senta-te que a história não é curta

in: No fundo do canto


Odete Semedo (Maria Odete da Costa Soares Semedo), nasceu em Bissau, em 7 de Novembro de 1959. Poeta, contista, professora universitária e política. Aos 18 anos iniciou as suas atividades como professora. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1989/1990). Ao regressar à Guiné-Bissau, assumiu a Coordenação Nacional do Projeto de Língua Portuguesa no Ensino Secundário, financiada pela Fundação Gulbenkian. Foi Diretora da Escola Normal Superior Tchico-Té; exerceu ali ao mesmo tempo suas atividades de professora. Em 2006 mudou-se para o Brasil para realizar o seu doutorado em Letras, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC Minas, em 2010, defendeu a tese "As mandjuandadi – cantigas de mulher na Guiné-Bissau: da tradição oral à literatura".
Mais aqui...



Flor Ave do Paraíso



Eneida Marta - Mandjuandadi


Tenham uma boa quinta-feira, meus amigos.

Abraços
Olinda

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Veja, se interessar: 

Odete Costa Semedo - ancestralidade e a poética do desassossego

Título do post retirado do poema
Imagem: pixabay 

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Dores e desaires dos caminhantes




Que palavras
poderão espelhar este desaire
ensinaram-me o abc
deram-me a conhecer
letras e sílabas
sentenças e provérbios
ditos e cantigas

Ensinaram-me
que as letras
que as palavras
traduzem
reproduzem
encantam
contam
pensamentos
intentos
devaneios
e sonhos


Para tanta aflição expressar
esta dor queimando
a minha alma
o nosso infortúnio

Este punhal...
cravado no meu chão
maldição de que deuses
para dilacerar
as estranhas da gente?
como aplacar tanta
e tamanha dor
ninguém me desvendou
tal segredo.
-



Maria Odete da Costa Soares Semedo nasceu em Bissau, a 7 de Novembro de 1959. Aos 18 anos iniciou as suas atividades como professora. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1989/1990). Assumiu, ao regressar à Guiné-Bissau, a Coordenação Nacional do Projeto de Língua Portuguesa no Ensino Secundário, financiada pela Fundação Gulbenkian. Foi Diretora da Escola Normal Superior Tchico-Té; exerceu ali ao mesmo tempo suas atividades de professora. A partir de 1995 passou a desempenhar as funções de Diretora Geral do Ensino. Foi Presidente da Comissão Nacional para a UNESCO - Bissau. Assumiu as funções de Ministra da Saúde e de Ministra da Cultura. Doutorou-se em Letras pela PUC Minas, Brasil.



Eneida Marta : Guiné-Bissau

Traduziu para crioulo o guião do filme Olhos Azuis de Yonta do cineasta Flora Gomes e participou na rodagem do mesmo filme como assistente de realização.

Participou na Anthologie de Literatures Francophones de l'Afrique de l'Ouest, Éditions Nathan, Paris, 1994. Foi co-fundadora e é membro do Conselho de Redacção da Tcholona, Revista de Letras, Artes e Cultura. Mais: aqui


Leia, se interessar:

O que é feito da Guiné-Bissau?
    Um paraíso (quase) perdido
   Reportagem da TVI24


=====

Poema: No fundo do canto.Odete Semedo, Belo Horizonte: Nandyala, 2007.

Veja posts, desta série, sobre:
Amílcar Cabral
Vasco Cabral
António Baticã Ferreira

Agnelo Regalla

Hélder Proença

.A Literatura Guineense: Contribuição para a identidade da Nação, de Joaquim Eduardo Bessa da Costa Leite (Tese de doutoramento, 2014 - Coimbra) - pg 10


Imagem: daqui

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Não posso adiar a Palavra




Não posso adiar a Palavra

Quando te propus
um amanhecer diferente
a terra ainda fervia em lavas
e os homens ainda eram bestas ferozes

Quando te propus
a conquista do futuro
vazias eram as mãos

negras como breu o silêncio da resposta

Quando te propus
o acumular de forças
o sangue nómada e igual
coagulava em todos os cárceres

em toda a terra
e em todos os homens

Quando te propus
um amanhecer diferente, amor
a eternidade voraz das nossas dores
era igual a «Deus Pai todo poderoso 

                           criador dos céus e da terra»

Quando te propus
olhos secos, pés na terra, e convicção firme
surdos eram os céus e a terra
receptivos as balas e punhais

as amaldiçoavam cada existência nossa

Quando te propus
abraçar a história, amor
tantas foram as esperanças comidas
insondável a fé forjada

no extenso breu de canto e morte

Foi assim que te propus
no circuito de lágrimas e fogo, Povo meu
o hastear eterno do nosso sangue
para um amanhecer diferente!


Helder Proença
    (1956-2009)

Hélder Proença foi um escritor, professor e político da Guiné-Bissau, havendo lutado na guerra de independência do país, na década de 1970. Desde a adolescência que Proença escrevia poemas, àquele tempo sob a temática anti-colonialista, que resultou na publicação, em 1977, da primeira antologia poética guineense, sob sua coordenação, entre outros, e que também prefaciou, intitulada "Mantenhas Para Quem Luta!" - Mais... aqui




De uma forma ou de outra a História acaba sempre por nos apresentar a factura das nossas decisões, más práticas e incompetências. A nós ou a nossos filhos e netos, ou seja, aos vindouros. Trata-se aqui da tal História de que se não fala muito, porque incómoda. Assim a História da África Negra. Esquecer a Conferência de Berlim de 1884/1885, em que se procedeu à partilha de África pelas potências de então, parece remeter aos povos que depois ascenderam à independência a responsabilidade, na íntegra, de todos os seus insucessos sociais e políticos. O que não corresponderá à realidade. 

Estou a pensar no caso da Guiné-Bissau. Ano após ano assistimos à tentativa falhada de que o regime político que lhe foi imposto dê resultado, a forma de auscultação popular exportada do chamado ocidente, como boa, dê frutos. E nós, na nossa alta consciência e detentores de todas as razões e lógicas encolhemos os ombros e damo-lo como caso perdido. Terra de vários povos, alguns separados arbitrariamente do seu torrão, de grande variedade étnico-cultural, difícil se torna a integração desses valores num objectivo comum. 

E tomando como mote este poema de Hélder Proença, escrito num momento outro, diria que a Palavra não poderá ser adiada por mais tempo. Uma nova visão desse mundo com idiossincrasias próprias e que nos passa ao lado deveria ser abordada. Pelos próprios guineenses, naturalmente. E pela nossa predisposição de melhor entender essa realidade...

Continuando um pouco na senda do que expresso acima, apresento-vos um dos grandes pensadores africanos dos nossos dias: 

Kuasi Wiredu que, em DEMOCRACIA E CONSENSO NA POLÍTICA TRADICIONAL AFRICANA: Um apelo para uma política apartidária - argumenta que o sistema político multipartidário frequentemente visto como o fundamento para a democracia, nem sempre conduz à unidade e à estabilidade. Em vez disso, a democracia de consenso é muito mais adequada ao contexto africano. Wiredu elabora a sua tese a partir do exemplo do sistema político tradicional dos Ashantis em Gana...*

Posição que estudada e experimentada poderia conduzir a certezas ou formas de governo mais adaptadas ao meio e às diversas culturas. Quem sabe?
Diz-se que a democracia é um sistema com muitos defeitos mas melhor que todos os outros. De acordo. Isso, no nosso mundo que o foi buscar à antiga Grécia tendo sido adaptado e acrescentado e reinterpretado ao longo dos tempos...

Bom fim-de-semana, meus amigos.

Abraços.


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Poema: daqui
Veja posts, desta série, sobre:
Amílcar Cabral
Vasco Cabral
António Baticã Ferreira

Agnelo Regalla

.A Literatura Guineense: Contribuição para a identidade da Nação, de Joaquim Eduardo Bessa da Costa Leite (Tese de doutoramento, 2014 - Coimbra) - pg 10
*.Democracia e Consenso na Política Tradicional Africana - de Kuasi Wiredu

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O último adeus dum combatente

Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.

Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que eu parti e tu ficaste!

Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.

Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!


 (1926-2005)


Numa preciosa resenha sobre a Literatura Guineense, Filomena Embaló, de quem já falámos aqui no Xaile através da sua obra, "Tiara", coloca Vasco Cabral, António Baticã Ferreira e Amílcar Cabral no período compreendido entre 1945 e 1970 - período esse de produção poética a que deu a designação de "Poesia de Combate".

Sobre este autor, F. Embaló diz-nos:

Vasco Cabral é certamente o escritor desta geração com a maior produção poética e o poeta guineense que maior número de temas abordou. A sua pluma passa do oprimido à luta, da miséria à esperança, do amor à paz e à criança.... Inicialmente com uma abordagem universalista, a sua obra se orienta, a partir dos anos 1960 para a realidade guineense. Em 1981, publicou o seu primeiro livro de poemas intitulado “A luta é a minha primavera”, obra que reúne 23 anos de criação poética entre 1951 e 1974. Esta obra foi ulteriormente publicada pela União Latina numa versão trilingue português, francês e romeno.

Também deixo alguns dados biográficos referentes a poeta guineense:

Estudou em Portugal onde se formou em Ciências Económicas e Financeiras pela Universidade Técnica de Lisboa e foi militante do MUD juvenil, movimento unitário de oposição à ditadura fascista, fortemente influenciado pelo PCP. Foi preso político no Aljube e em Caxias. Na guerra contra o império colonial, Vasco Cabral tornou-se um dos principais dirigentes do Partido Africano pela Independência de Guiné Bissau e Cabo Verde (PAIGC) (...)
Foi companheiro de armas de Amilcar Cabral, líder da luta pela independência da Guiné Bissau e de Cabo Verde (...) aqui




Da obra referida, "A luta é a minha Primavera", trarei, oportunamente, mais alguns poemas. Aliás, este Xaile de Seda vai ocupar-se um pouco da Literatura Guineense nos próximos dias, com uma ligeira interrupção no dia 22.

Bom fim de semana, meus amigos.


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Poema: daqui
A luta é a minha primavera, 1981
Em: Manuel Ferreira, 50 Poetas Africanos. Lisboa, Plátano Editora, 1989