domingo, 25 de setembro de 2022

Eternidade




Hoje lembrei-me de ti
Esbelto e soberbo nos teus verdes anos
Raio de luz que deslumbrava
Num redemoinho de luz e som.

Adónis vestido de vaidade e força
Nada temias, o mundo era teu
Incauto, pensavas, nada me faltará!

Fugi eu de ti ou tu de mim?

Orgulhosos, muito jovens e belos
Não soubemos ver que a eternidade
Era a única e incomensurável medida
Sobre a qual nós dois repousaríamos.

Dinola Melo



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No passado passado dia 22 saudámos a chegada da 
Primavera 
no Blog "Flor do Campo", da  
Festa linda!!! 



Bom domingo, meus amigos.

Abraços
Olinda


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Flor acima:
Gentileza da querida amiga Rosélia

domingo, 18 de setembro de 2022

A Revolução da Bondade

Acho que a grande revolução, e o livro «Ensaio sobre a Cegueira» fala disso, seria a revolução da bondade. Se nós, de um dia para o outro, nos descobríssemos bons, os problemas do mundo estariam resolvidos. Claro que isso nem é uma utopia, é um disparate. Mas a consciência de que isso não acontecerá, não nos deve impedir, cada um consigo mesmo, de fazer tudo o que pode para reger-se por princípios éticos. Pelo menos a sua passagem pelo este mundo não terá sido inútil e, mesmo que não seja extremamente útil, não terá sido perniciosa. Quando nós olhamos para o estado em que o mundo se encontra, damo-nos conta de que há milhares e milhares de seres humanos que fizeram da sua vida uma sistemática acção perniciosa contra o resto da humanidade. Nem é preciso dar-lhes nomes.
José Saramago, in " Folha de S. Paulo, Outubro 1995"





Interessante o facto de José Saramago citar este seu livro, "Ensaio sobre a Cegueira", onde o caos se instala através da chamada cegueira branca que afecta todos ou quase, lugar de horror em que os instintos mais baixos do ser humano se manifestam numa dança macabra. 

Talvez, depois do caos a bondade se instale para mostrar que ainda existe algo de bom no íntimo da humanidade. De tal cegueira escapa uma mulher, testemunha dos horrores perpetrados naquela sociedade sem rumo. 

Em continuação desse livro surge "Ensaio sobre a lucidez", em que o terreno explorado são os votos em branco que invadem o acto de eleger representantes do povo. Nesse contexto são postos em prática perseguições e torturas que denotam total ausência dos princípios éticos que norteiam a vida em democracia.

Personagens do livro "Ensaio sobre a cegueira" são encontrados neste livro, o que me causou um certo espanto e, ao mesmo tempo, um estranho sentimento de solidariedade, acompanhando-os eu pelas provações por que voltam a passar.  

Continua em foco, no "Xaile de Seda", o Centenário de José Saramago. 

Bom domingo, meus amigos.

Abraços
Olinda


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Texto em itálico: Citador
Imagem: Pixabay

domingo, 11 de setembro de 2022

A Palavra renova-se no poema





A PALAVRA

A palavra renova-se no poema.
Ganha cor,
ganha corpo,
ganha mensagem.

A palavra no poema não é estática,
pois, inteira e nua se assume
no perfeito,
no perpétuo movimento
da incógnita que a adoça.

A palavra madura é espetáculo.
Canta.
Vive.
E respira. Para tudo isso
basta
uma mão inteligente que a trabalhe,
lhe dê a dimensão do necessário
e do sentido
e lhe amaine sobre o dorso
o animal que nela dorme destemido.

A palavra é ave
migratória,
é cabo de enxada,
é fuzil, é torno de operário,
a palavra é ferida que sangra,
é navalha que mata,
é sonho que se dissipa,
visão de vidente.

A palavra é assim tantas vezes
dia claro
sinal de paisagem
e por isso é que à palavra se dá,
inteiramente,
um bom poeta
com os seus sonhos,
com os seus fantasmas,
com os seus medos
e as suas coragens,
porque é na palavra que muitas vezes está,
perdido ou escondido,
o outro homem que no poeta reside.

(1963-2014)


Narração do "Mundo dos Poemas"

Escritor moçambicano, Eduardo Costley White nasceu em Quelimane (Moçambique), a 21 de novembro de 1963 e faleceu a 24 de agosto de 2014. Numa preocupação com as origens, Eduardo White tenta na sua poesia refletir sobre a sua história e sobre Moçambique, numa tentativa de apagar as marcas da guerra e de dignificar a vida humana. Para isso, escreve através de um amor diversificado que pode ser pela amada, pela terra ou mesmo pela própria poesia, sempre num tom de ternura, de onirismo, de musicalidade e, por vezes, de erotismo. (Daqui)


Mais deste autor aqui, no Xaile de Seda

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Poema - daqui
Vídeo  - daqui

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Ocupação Feliz

Resolvi examinar as diversas ocupações que as pessoas têm na vida, procurando escolher a melhor entre elas; e, sem desejar dizer algo a respeito delas, concluí que não poderia fazer nada melhor do que continuar naquela que encontrei para mim, ou seja, ocupando toda a minha vida no cultivo da razão e na busca do conhecimento da verdade, seguindo o Método que prescrevi a mim mesmo. Eu senti um contentamento tão profundo desde que comecei a usar esse Método, que não acreditava que alguém pudesse obter algo mais doce ou mais inocente nesta vida; e, ao continuar a descobrir, a cada dia, por meio dele, verdades que me pareciam dotadas de certa importância e das quais os outros não estavam em geral cientes, a satisfação que senti preencheu a minha mente de maneira tão plena que nada mais de modo nenhum me afectava.

René Descartes, (1596-1650) 
in Discurso do Método

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A Felicidade reside, por vezes, em tão pouco! Difere de pessoa para pessoa, de conformidade com a sua formação, com a terra que habita, com o ambiente onde cresceu... ou com o momento em que determinada situação intelectual eclode.

Por isso, não me espanta que as elucubrações filosóficas de Descartes lhe tenham trazido essa satisfação que lhe preencheu a vida. Esvaziando o cérebro de tudo o que aprendera, dos ensinamentos da Escolástica ao conceito de Deus, eis que o nosso homem encontra a ocupação suprema. 

Conhecemos sobejamente a máxima Cogito, ergo sum, que o filósofo descobre depois de duvidar de todas as coisas, prevalecendo como verdade incontestável a sua própria existência como "coisa" pensante. Método tão perfeito para ele que nada nem ninguém o afectava, como ele próprio afirma.

Será que isso bastaria?

Parece que sim, para Descartes. Outros filósofos viriam contestar essa descoberta, dizendo de sua justiça, nomeadamente, G.Leibniz, F.Nietzsche, B. Russell, tendo este frisado: no máximo, Descartes poderia inferir que há o pensamento, e não que “eu penso".

Já António Damásio, médico neurologista português, que trabalha no estudo do cérebro e das emoções, escreveu o livro "O Erro de Descartes", que muita polémica tem suscitado. Descartes errou, segundo Damásio. Mas em quê? Muitos perguntam porque é que não reclama essa atenção para Platão ou Kant, pela natureza das suas posições.

Mas o próprio autor diz que "Cogito ergo sum", é a afirmação mais famosa da história da filosofia. Assim, porque não escrever um livro falando das emoções e dos sentimentos, do corpo e do cérebro, pondo Descartes em evidência quanto mais não seja no título






Mas é de Felicidade que aqui se fala. Que pode surgir num sorriso, no perfume
de uma flor, no brilho de uma linda manhã. Nas coisas simples da vida, em suma.


Mas também pode ser breve, como nos diz Vinicius, na voz de
 Tom Jobim



 A Felicidade é como a pluma 
que o vento vai levando pelo ar


Desejo-vos uma boa semana, meus amigos.

Abraços
Olinda



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Análise crítica de "O erro de Descartes" - aqui

-Ter em atenção "Meditações Metafísicas", de Descartes.

Imagens: pixabay

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Massacre de Wiriyamu

Veio a público a notícia do pedido de desculpas do Primeiro-Ministro do Governo de Portugal, António Costa, pelo Massacre de Wiriyamu, ocorrido em 1972, em Moçambique, nestes termos:

“Não posso deixar aqui de evocar e de me curvar perante a memória das vítimas do massacre de Wiriamu, acto indesculpável que desonra a nossa História”, afirmou o primeiro-ministro, perante o Presidente da República de Moçambique, em Maputo.

Em que consiste afinal esse massacre?

Em 2021, estando eu a pesquisar sobre a História e Literatura de Moçambique deparei-me com esse acontecimento. Fui de link em link tomando conhecimento de todo aquele horror, com o nome de código "Operação Marosca", informação que disponibilizo abaixo, para quem quiser lê-la.

Um facto interessante que destaco é que o pedido de desculpas já tinha sido apresentado há anos aos sobreviventes, cara a cara, olhos nos olhos, por um Oficial português que fez parte da Operação.

Ali, no local, com eles, teve de sofrer a vergonha, arcando com a responsabilidade própria e a dos outros, não se esquivando às palavras amargas de quem perdera os seus entes queridos nesse fatídico dia 16 de Dezembro de 1972. Uma Via Sacra registada em videos.

Para que conste.


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Ver aqui 

É fácil pedir perdão - Entre as brumas da Memória

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Eis os links:

https://observador.pt/especiais/wiriamu-teve-aspetos-de-genocidio/#

https://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_de_Wiriyamu

http://massacredewiriyamu.blogspot.com/2008/ Videos Antonino Melo

https://www.jornaldemonchique.pt/o-massacre-portugues-de-wiriamu-uma-extraordinaria-investigacao/

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Intimidade

 



Entrelaço minhas pernas nas tuas

estendo o braço,

chego-me

até sentir na tua respiração

os pombos que regressam,

tremor dum pinheiro fustigado

pelas mãos de setembro.


Eduardo Bettencourt Pinto



À Toi
Joe Dassin


Bom fim de semana, meus amigos.
Abraços
Olinda


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Poema, in: Um Dia qualquer em Junho
pg. 41
Imagem: Desenho de António Ramos Rosa

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Ah querem uma luz melhor que a do sol!






Ah querem uma luz melhor que a do sol!
Querem campos mais verdes que estes!
Querem flores mais belas que estas que vejo!
A mim este sol, estes campos, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontento,
O que quero é um sol mais sol que o sol,
O que quero é campos mais campos que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores que estas flores —
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!

Aquela coisa que está ali estava mais ali que ali está!
Sim, choro às vezes o corpo perfeito que não existe.
Mas o corpo perfeito é o corpo mais corpo que pode haver,
E o resto são os sonhos dos homens,
A miopia de quem vê pouco,
E o desejo de estar sentado de quem não sabe estar de pé.
Todo o cristianismo é um sonho de cadeiras.

E como a alma é aquilo que não aparece,

A alma mais perfeita é aquela que não apareça nunca —
A alma que está feita com o corpo
O absoluto corpo das coisas,
A existência absolutamente real sem sombras nem erros
A coincidência exacta (e inteira) de uma coisa consigo mesma.




Ah Alberto Caeiro, dilecto e destacado heterónimo do seu Criador, o que diria se visse agora o nosso Sol obscurecido pelos fumos dos incêndios e os nossos prados e florestas consumidos pelas chamas. E as nossas flores? Onde estarão, delas,
 o viço e a cor?
Perante tal desgraça a veia filosófica esconde-se envergonhada, ainda que a filosofia seja a expressão do que acontece na vida. 

Mas compreendo-o. O que quer é:

Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!



No Teu Poema
Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti
Letra e Música de José Luís Tinoco


E também eu.
Irei em busca desse ideal, pela estrada fora,
lembrando-me agora do poema de Guerra
Junqueiro.

Mas volto em breve. :)

Abraços
Olinda


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Poema daqui
12-4-1919

“Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença,

 

1994.

  - 145.1ª versão inc.: Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de de João Gaspar Simões e Luís de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Sorte ou Benção?



Na "XIII Interação Fraterna", promovida pela amiga Rosélia, em celebração do 13º Aniversário do seu Blogue Espiritual-Idade, foi-nos proposto, pela autora, o "Tema: Sorte ou Benção?", no sentido de o tratarmos segundo o estilo que cada um cultiva no respectivo espaço.

O blogue foi criado na altura do falecimento do seu querido pai, há treze anos. E no Dia dos Pais, no Brasil, homenageou-o com um belo poema do qual extraio os seguintes versos:

Meu pai amado se foi no tempo,
é atemporal em meu coração...

Tem ainda cheiro de humildade no ar
quando se fala dele
ou se pensa nele...


Devo dizer que aceitei com muito prazer o Convite e a minha participação se consubstancia no texto que se encontra abaixo, no qual assinalo momentos da minha vida pessoal. 

Um acontecimento aflitivo que, segundo creio, se insere no referido tema:



O imprevisível, o imponderável ... o susto

Tarde calma, uma revista sobre os joelhos ... em conversa com a irmã.

Lá longe notícias arrepiantes da guerra e da fome, na Europa, no Médio Oriente, em África, nas Américas, coisas que nos assombram. No Mediterrâneo, pessoas em fuga que tentam alcançar o El Dorado, a Europa, a nova terra prometida. 

E em nossos corações sentimos a dor das gentes que procuram encontrar paz e melhores condições de vida. Na medida do possível tenta-se ajudar, com palavras de ânimo, com bens materiais. Mas essa compaixão, na maior parte das vezes, não sai do conforto do sofá. Sabemos que existe sofrimento atroz lá fora. E compadecemo-nos. 

Contudo, isso vai entrando aos poucos na ordem do dia. Os nossos ouvidos habituam-se aos ruídos das notícias, ao palavreado de certos comentadores. E a habituação, esse mal silencioso, instala-se...

...

De repente, toca o telefone. Um grito desgarrado vindo das profundezas do ser desestabiliza tudo, abalando as estruturas das convicções e do deixa andar:

-MÃE!!!

Vai lá a casa com o pai. Os armários da cozinha desabaram da parede, a todo o comprimento. 

-E o bebé?!!!

-Não sei, não sei. Vai depressa...

O mundo desabou naquele momento. O espanto, a dor da perda, do imprevisível, do imponderável, numa amálgama. Num instante vê-se tudo de pernas para o ar. E a visão horrível do acidente, perante os olhos.

Numa correria, sem fôlego, subo os dois andares, o pai do pequenino à nossa espera, e ele sentado na cadeirinha com os olhos muito abertos...Tinham estado na cozinha a preparar o lanche momentos antes. E a família em choque, não refeita do susto do que podia ter acontecido. 

Pelo chão jazia o monstro que deixava entrever louças partidas, vidros espalhados, micro-ondas retorcido, e tudo o que se possa imaginar, enfim, bens materiais, nada importante. 

O bem mais precioso estava são e salvo!

Foi há seis dias.



SORTE OU BÊNÇÃO?

Um MILAGRE, sem dúvida!

 



Querida Amiga Rosélia

Os meus Parabéns pelo 13º Aniversário do seu Blogue Espiritual-IdadeQue continue a oferecer-nos as suas belas palavras em verso e em prosa.

Beijinhos
Olinda



RESSONÂNCIAS DA XIII INTERAÇÃO FRATERNA

OBRIGADA, ROSÉLIA


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Imagem - pixabay

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

As palavras pesam




Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas,
Do quotidiano entrincheirado entre compromissos,
Das tramas afectivas, do exílio anunciado
No andar inquieto das mulheres.

De rosto em rosto, a caligrafia do amor
implorou a memória das palavras encantadas
e, como se houvesse uma linguagem
de atravessar o tempo, acenderam,
sobre os dias, constelações sonoras.
Mas eu, que não adiro aos calendários
nem acredito em vogais prometidas,
eu parti, de punhos febris,
enlaçando nos braços
um futuro marginal, a qualquer lógica.

A posse da noite, onde me quero lua em todas as fases,
leva-me a glosar os medos num novelo de rimas imperfeitas.
A cidade tem pombas que me perseguem sem eu dar por isso.
Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito.

Graça Pires



O peso das palavras, aqui, neste belo poema, com o talento e elegância a que nos habituou a querida amiga Graça Pires. Há o quotidiano com as suas pequenas coisas que nos envolvem e fazem condicionar praticamente tudo o resto. E esse resto que é quase tudo leva-nos em viagens de descoberta em descoberta e nos faz sentir e dizer:

Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito. 




Graça Pires editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro "Poemas". Depois disso publicou mais de uma dúzia de livros de poesia, muitos dos quais premiados. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Veja mais aqui


Blog da Autora:






Bom fim de semana, amigos.
Abraços 
Olinda


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Poemas Escolhidos 1990-2011
daqui

Imagem - pixabay



quarta-feira, 10 de agosto de 2022

'In Nomine Dei'

 


WALDECK

Teu marido abjurou.


GERTRUD VON UTRECHT 

O Senhor lhe pedirá contas, como mas vai pedir a mim, a ti, bispo, quando chegar a tua vez. 
Mas eu perguntarei ao juízo de Deus por que permite Ele esta mortandade dos homens que vem desde o princípio do mundo,
Estes ódios de crenças, estas vinganças de povos, esta interminável dor do mundo,
A quem não basta a morte natural.


WALDECK

Abjura.


GERTRUD VON UTRECHT

Abjuro da intolerância, abjuro dos males que pratiquei e permiti, abjuro de mim, quando culpada, e dos meus erros.
Mas não abjurarei da minha crença, porque só a tenho a ela.
Sem uma crença o ser humano é nada.


WALDECK

Matem-na.


(Os soldados matam GERTRUD VON UTRECHT. O bispo WALDECK  e a sua comitiva retiram-se. Escurece. Uma luz vermelha incide sobre as gaiolas, que começam a ser subidas lentamente. Os soldados vão e vêm, matando os feridos. A luz diminui cada vez mais. Um a um, terminada a tarefa, os soldados retiram-se. A escuridão torna-se total quando o último vai desaparecer.)


VOZ RECITANTE

Eis a palavra de Daniel:
  "E ouvi jurar o homem vestido de linho, que estava sobre as águas do rio, levantando ao céu a mão esquerda assim como a mão direita: "Por Aquele que vive eternamente, isto será num tempo, tempos e metade de um tempo. Primeiro, a força do povo há-de quebrar-se inteiramente. Então todas as coisas se cumprirão."

José Saramago - In: In Nomine Dei, pgs 146/147

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IN NOMINE DEI, peça de Teatro baseada na: 

Revolta de Münster, tentativa dos anabaptistas de estabelecer uma teocracia na cidade alemã de Münster, na Vestfália. 

A rebelião durou de Fevereiro de 1534 a Junho de 1535. Sob a liderança de John de Leyden, que afirmava ter sido inspirado diretamente por visões divinas, a cidade foi administrada pelo terror e a poligamia legalizada. Ocupada por seu ex-arcebispo em Junho de 1535 os líderes foram condenados à morte.

A revolta de Münster deixou uma imagem deplorável do anabaptismo, embora essa comunidade religiosa se engajasse na não-violência absoluta. 

A revolta serviu de inspiração para muitas obras literárias e cinematográficas. aqui



Cerco de Münster: Ataque de Pentecostes 
de 1534 (gravura de 1535).


A dramaturgia: Uma das vertentes da obra de Saramago.

De Duarte Ivo Cruzexcerto de uma análise: admite-se que incompleta mas sempre válida (na minha opinião), acerca da dramaturgia de Saramago, tal como deve ser citada.

Como referi, efetivamente Saramago, depois da adaptação, com Costa Ferreira, de um conto seu (“Fim de Paciência”) escreveu, a partir de 1970, peças que trazem para cena temários dominantes do autor:

“A Noite” (1979), visão realista da noite de 25 de abril de 1974 numa redação de jornal, “Que Farei com Este Livro” (1980) onde o protagonista, mais do que Camões é “Os Lusíadas” e alegorias heterodoxa e azedas, “A Segunda Vida de Francisco de Assis” e “In Nomine Dei”, ambas reflexo das angústias do autor.

E acrescento agora “Don Giovanni ou O Dissoluto Absurdo” datada esta publicação de 2005. aqui



J.S.Bach (1685-1750)
Sonatas para Flauta


Nota:

Ano da Celebração do Centenário de José Saramago.
Pequena incursão pela sua Obra, tal como
em posts anteriores.

Olinda


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1ª Imagem:
Gaiolas nas quais os corpos dos líderes da revolta de Münster foram expostos, no campanário da Igreja de Saint-Lambert.




terça-feira, 9 de agosto de 2022

EM FAMÍLIA

 



O Blog da Norma Emiliano faz treze anos e como devem calcular hoje é dia de Festa. Recebemos o Convite para nos juntarmos a essa celebração, escolhendo uma palavra que nos tenha causado maior impacto em relação aos temas das publicações. Este ano é o primeiro em que frequento com maior assiduidade o espaço desta nossa amiga. E como não podia deixar de ser a palavra escolhida é FAMÍLIA.

Família porque faz parte do título do blog e pela sua função de terapeuta a nossa amiga trata de assuntos que dizem respeito a todos, como uma grande família, e em comunhão com essa sua preocupação ajuda a ver melhor o mundo em que nos encontramos inseridos. Nessa linha, os seus interessantes textos têm um enorme cariz humano e didáctico pela apresentação de autores da área como também pelos desafios que traz aos leitores.

Vejamos um pequeno excerto:  

A poética e a terapêutica

(...)

Na biblioterapia, a poética pode oferecer individualmente ou em grupo a oportunidade do cliente(s) estabelecer (em) o olhar atento para si e/ou com os membros do grupo, tendo como estímulo os poemas que podem ampliar novas percepções sobre si mesmo e sobre as relações. Ao ler um poema se tem contato com as palavras que ao serem costuradas tocam sentimentos e desperta emoções.

Como psicóloga, e sendo membro do grupo de biblioterapia, ampliei muito minha escrita poética, lancei livros e comecei a compartilhar, com certa regularidade, poesias, para minhas redes, escritas e em vídeos, principalmente via Whatsapp, ao qual denominei Gotas poéticas, com retornos que me deram um novo rumo na direção do cuidar. Assim, hoje associo a minha prática terapêutica esta outra forma de cuidar das pessoas e de mim. O livro No Traçado das paletas, lançado em 2021, é a concretização do meu arco-iris existencial.

As palavras têm um profundo processo de cura. “A poesia é escuta, é sossego da alma” Danilo Vizibelli. aqui



O seu talento não se esgota nesta temática. Oferece à nossa leitura belos poemas, profundamente humanos onde se encontra patente a sua vertente profissional, e não só. Lembro-me, por exemplo, da sua participação na Quinzena do Amor, do Xaile de Seda, com um precioso poema romântico que poderemos reler aqui.

Hoje, apraz-me transcrever, para vossa apreciação, outro belíssimo Poema, que trouxe do "PensandoemFamília": Qualidade aliada à sensibilidade e talento:


Força Vital

Na balança do tempo
O invisível letal mantém-se à espreita
E transforma a incerteza
Numa montanha russa de sentimentos.

Nada dura para sempre.
Na balança do meu tempo
O perigo já está além do suportável.
Quando desaparecerá ?

Quando me  serão retiradas
As amarras  que me tolhem?
Adiando os desejos de liberdade
Do ir e vir sem receios do mal
Que me cerceia.

Ao subir no topo da montanha
Abro os pulmões com forte som
Que me desperta da letargia
Que a descida provoca n’alma
Que se  revira para não permitir
Que a energia vital seja banida.

Norma Emiliano




Muitos parabéns, querida Norma.

Beijinhos

Olinda


BLOG - Pensandoemfamília

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Excertos e Imagens: Do blog da Norma


quinta-feira, 4 de agosto de 2022

ÁGUA - esse bem precioso e... finito

Quando temos água, água para beber, para cozinhar, para a nossa higiene, para a agricultura, para os jardins, gastamo-la com naturalidade, quiçá, esbanjando-a, sem pensar na sua escassez e que pode vir a faltar.

O ciclo hidrológico, como sabemos, tem uma constância precisa - trata-se de uma troca contínua de água na hidrosfera, entre a atmosfera, a água do solo, águas superficiais, subterrâneas e das plantas. E nesse processo entra a evaporação dos oceanos e outros corpos de água, a precipitação por condensação do vapor de água do ar, o escoamento superficial, fluxo de água que ocorre na superfície do solo quando este se encontra saturado de humidade. 




A Natureza congrega todos os elementos para esse funcionamento, em que o Sol desempenha um papel fundamental. E assim seria sempre se a nossa incúria, em muitos casos, não viesse perturbar esse concerto maravilhoso. E não é de agora. Assim a formação de desertos que acontece, principalmente, a partir do processo de desertificação do solo, que consiste na perda de vegetação através da ação do homem, por meio de técnicas de cultivo inadequadas e desmatamento descontrolado.

Há lugares onde a água, para os mais diversos fins, rareia e em especial a água potável. Há que percorrer grandes distâncias a pé para aceder a um vasilhame de água que depois é colocado na cabeça em cima de uma rodilha e transportado. A agricultura ressente-se com a falta de chuva, sendo, na realidade, de subsistência e na maior parte dos casos nem isso. 

Há países que procuram obviar a situação de falta de água através da dessalinização da água do mar, sendo esta utilizada em todas as necessidades. Para irrigação alguns recorrem à técnica de rega gota-a-gota. Dessas situações já dei conta aqui no Xaile de Seda, em outros anos. Temos tido experiências aflitivas quando o calor aperta, a temperatura aumenta e a chuva foge para outras paragens. Já houve por cá municípios a fornecer água através de camiões cisternas.

Mas temos uma certa tendência para o esquecimento enquanto não nos vemos em apertos. Existe legislação produzida (há que tempos!) sobre o regime da utilização dos recursos hídricos tanto no que respeita ao consumo humano, como ao sistema de rega, actividade industrial, produção de energia hidroeléctrica, actividades recreativas e de lazer.





Há notícias de que o governo pretende proceder ao racionamento de água, ou já é um facto, em empreendimentos turísticos, quanto a espaços verdes e campos de golfe. Mas afiança que Portugal tem condições para garantir água para o consumo humano nos próximos dois anos. Esse limite no tempo não nos descansa. Antes pelo contrário. Tenhamos presente que as alterações climáticas são persistentes e que a seca não é uma miragem.

A poupança de água tem de ser preocupação nossa. Sabemos todos o que é preciso fazer nas nossas casas. Toda a água deve ser utilizada com respeito e reutilizada se for caso disso. O facto de termos torneiras em casa donde sai o precioso líquido não nos dá o direito de o gastar a nosso bel-prazer. 


Desejo-vos um óptimo dia, meus amigos.

Abraços
Olinda


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Queira ler aqui - 3 posts meus sobre a Água.

Ciclo hidrológico - aqui

Veja aqui, Poupe água com os hábitos e os dispositivos certos

Imagem - pixabay

 

domingo, 31 de julho de 2022

A história das bolinhas... Com sementes ou sem sementes?

No sábado, desloquei-me a uma mercearia de bairro para comprar pão, umas bolinhas de que o meu pequenino gosta. Pedi 3 bolinhas das menos cozidas. Vislumbrei duas que estavam chamuscadas. A senhora da mercearia fez o meu avio e eu já sem prestar atenção ao que ela metia no saco.

E disse-me o preço:

- Tem a pagar 1.20€.

- Mas ontem comprei duas e custaram 0.60€. 

- Ah, mas estas custam 0.40€ cada. 

- Custam 0.40€ cada, assim de um dia para o outro? 

- Não é de um dia para o outro. Sempre custaram 0.40€. 

- Ah, sim?

- Sim. Pediu bolinhas com sementes e foi o que aviei...

- Mas olhe que pedi bolinhas das menos cozidas.

- Não, não, pediu bolinhas com sementes.

- Tudo bem. Pode trocá-las por bolinhas sem sementes?

- Posso. Mas agora tem de levar 4.

- Quatro porquê?

- Porque já registei 1.20€ e a máquina está pronta para receber o dinheiro.

(Tem daquelas máquinas nas quais o cliente deita o dinheiro e que faz o troco. Ali, a senhora é que faz esse "trabalho", com a máquina enfiada num canto...)

- Está bem, levo quatro. E peço desculpas pela confusão.

- Oh, não faz mal. Quem não se engana?

Chegada a casa vejo que no meio das quatro bolinhas estavam as duas chamuscadas que nunca quis.





Votos de bom domingo, amigos.

Abraços

Olinda


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Imagem retirada daqui



sexta-feira, 29 de julho de 2022

'Constrangimentos'

Não sei desde quando é que esta palavra, constrangimentos, no plural ainda por cima, começou a fazer escola para explicar tudo e mais alguma coisa.

Ele é constrangimentos quando se trata de falar de grávidas que não têm onde ir dar à luz ou, melhor dizendo, parir. Ele é constrangimentos quando uma companhia aérea não dá vazão aos passageiros, quando passageiros têm de dormir no chão do aeroporto, quando passageiros têm de aguardar horas e horas para serem despachados para poderem sair do aeroporto ou seguirem viagem.

E tudo o que não funcione, seja no mar, em terra ou no ar é explicado por essa palavra milagrosa que algumas cabeças pensadoras decidiram adoptar. Mas talvez tenham razão.

Vejamos o que quer dizer constrangimento:

a) Coacção e opressão:
opressões, violências, coibições, coerções, repressões, ameaças, intimidações, coações, imposições.

b) Restrição e limitação
confrangimentos, restrições, tolhimentos, cerceamentos.

c) Embaraço e vexame:
vergonhas, aflições, embaraços, vexames.

d) Timidez e acanhamento:
encabulações, introversões, reservas, recolhimentos, retraimentos,
encolhimentos, timidezes, acanhamento.

e) Aborrecimento e insatisfação:
insatisfações, descontentamentos, incômodos, aborrecimentos.

f) Redução do volume por pressão:
compressões, constrições, pressões, apertos.


Será tudo isso? 
Em que alínea inseriremos os constrangimentos de que se fala?

Realmente, é uma palavra que tem pano para manga. E venha o diabo e escolha. Gabo a inteligência de quem resolveu enfiar no mesmo saco tudo o que vem acontecendo e que vai para lá da normalidade.

Com os hospitais a fecharem urgências e a administração interna a fechar esquadras por falta de efectivos, e tendo em vista ganhos de eficiência e eficácia (em que sentido?), vamos de mal a pior. Fala-se agora em unidades móveis, que não deixam de ter o seu interesse, pela proximidade com o cidadão... mas a segurança da instituição física tem o seu lugar na mentalidade das pessoas.

Um país democrático, com todos os órgãos a funcionar em pleno tem de se esforçar mais, em termos de organização e previsão de situações que possam prejudicar os contribuintes. Temos ministérios para tudo. Se cada um se dedicar a estudar os problemas da sua área, assinalando os problemas sem eufemismos, procurando soluções, estaremos no bom caminho.

Parece que teremos de voltar aos bancos da escola para nos lembrarmos dos fundamentos da REPÚBLICA. Para não ser fastidiosa diria apenas que um dos objectivos desse sistema de governo é precisamente a Felicidade do povo.

Mas afinal é uma utopia, pelo que se vê.

E enquanto isso o País arde!


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Nota:
"Constrangimentos" - palavra usada em notícias, nos últimos
tempos, a propósito de tudo o que acontece de menos bom

Sinónimos de constrangimento- aqui