sábado, 22 de junho de 2024

Dueto Amoroso (3)



Comemoração do Dia dos Enamorados, no Brasil, 
12 de Junho
Convite da Amiga Rosélia

Blog: AmorAzul 



ROMANCE À MODA ANTIGA

Alameda de lirismo, paz no coração,
amor, companheirismo e dedicação.

Percurso de fantasia, em amorização,
sentimento de alegria, sintonização.

Caminho de magias em codificação,
ternuras afetivas em solidificação.

Trajeto de carinho na edificação,
casal sem desalinho, ostentação.

Rumo sinuoso na cidade, concessão.
têm cumplicidade, são exceção.






Famílias separadas
Rivalidades sem fim
Incompreensão 
sem limites
Eu e o meu amado
sofríamos horrores
nas contendas
Entre elas

Eram 
os Montecchio
e os
Capuleto

Eu e ele sintonizados
Na maior harmonia
do nosso amor 
sem esperança
Procurávamos
Alegrias em tudo
E o nosso afecto
Crescia

Na maior cumplicidade
decidimos não
quebrar as nossas
juras de amor
E um dia juntámos
os nossos haveres
e fugimos para
bem longe

Seguimos por caminhos
Vários, alamedas, becos
Cantámos, versejámos
dançámos pelas ruas
Tocámos liras e harpas
Trocámos as voltas
Ao destino de um
Amor infeliz.

*

Olinda Melo






Meus amigos:

Estou em viagem. Os comentários, se os houver, 
serão publicados quando eu regressar. 

Saúde.

Abraços
Olinda


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NOTAS:

* A minha versão de Romeu e Julieta 
(W. 
Shakespeare
 que me perdoe a ousadia
)

Rosélia Bezerra tem muitos livros publicados 

A primeira imagem: Veio da publicação da Rosélia
A segunda imagem: da net

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Alma minha gentil...

 



Alma minha gentil, que te partiste

tão cedo desta vida, descontente,

repousa lá no Céu eternamente

e viva eu cá na terra sempre triste.


Se lá no assento etéreo, onde subiste,

memória desta vida se consente,

não te esqueça daquele amor ardente

que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te

alguma* cousa a dor que me ficou

da mágoa sem remédio de perder-te,


Roga a Deus, que teus anos encurtou,

que tão cedo de cá me leve a ver-te

quão cedo de meus olhos te levou.


Luís de Camões


O soneto mais famoso de Camões. Parece ter sido também dedicado à morte de Dinamene. Dizia Machado de Assis que "tem a simplicidade sublime de um recado mandado ao Céu".

Inspirando-se em modelos italianos (Petrarca, Sannazzaro), o nosso Poeta excedeu-os a todos e soube, neste soneto, exprimir com a maior perfeição "o sentimento predominante da raça, a saudade" (Joaquim Nabuco).

In Líricas - Selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa.

Pg 53


MUNDO ESCURO


SAUDADE


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No livro, a grafia: algua, com til sobre o u (impossibilidade de mantê-la com este teclado)

.Música do presente...

.Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões

sábado, 15 de junho de 2024

Dueto Amoroso (2)




Comemoração do Dia dos Enamorados, no Brasil, 
12 de Junho
Convite da Amiga Rosélia
Blog: AmorAzul



NA EMOÇÃO DO PÔR-DO-SOL

No momento de extrema beleza amorosa,
com o adormecer do dia a nos acalmar,
com flores de laranjeira a adornar,
vivencio uma emoção gostosa.

Nos cabelos, diadema floral enfeita,
o buquê marca nosso sublime dia,
poente na luminosidade irradia,
a luz do dia me faz refeita.

O clarão do poente é efusão de sentir,
sinto tua meiga presença tão forte,
você é meu norte, meu suporte,
não vai me deixar, partir.

O crepúsculo motiva toda sensação,
suplanta a beleza do lindo lugar,
o mais belo sei nem explicar,
se o pôr-do-sol ou a emoção. 







As árvores começavam a tomar a cor avermelhada, 
acastanhada, amarelada, dos dias de Outono. 
O ar trazia aquela brisa fresca que remexia os cabelos 
suavemente. E eu sentia-te junto a mim, 
naquela tarde inesquecível.
 
Ao fundo a Torre Eiffel dominava a paisagem. E, perto, 
a ponte Mirabeau, com as suas figuras alegóricas, 
convidava a um passeio pelo Sena. 
O Sol poente tingia o céu de laranja, ou 
uma espécie de dourado 
tornava o fim do dia apetecível.

Tudo, absolutamente tudo, concorria para que as 
emoções tomassem conta de nós e sentíssemos a 
magia daquele lugar que sempre nos conquistou. 
Seria ali o nosso local de eleição, 
decidimo-lo 
naquele momento.

Olinda Melo 



Marc Lavoine
Le Pont Mirabeau



Meus amigos:

Estou em viagem. Os comentários, se os houver, 
serão publicados quando eu regressar. 

Saúde.

Abraços
Olinda



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NOTAS:

Rosélia Bezerra tem muitos livros publicados no Clube de Autores.

A primeira imagem: Veio da publicação da Rosélia
A segunda imagem: da net

Poème Le Pont Mirabeau, de Guillaume Apollinaire aqui

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Dina...mene




Quando de minhas mágoas a comprida
maginação os olhos me adormece,
em sonhos aquela alma me aparece
que para mim foi sonho nesta vida.

Lá numa* soïdade, onde estendida
a vista pelo campo desfalece,
corro para ela; e ela então parece
que mais de mim se alonga, compelida.

Brado:- Não me fujais, sombra benina!
Ela, os olhos em mim c'um brando pejo,
como quem diz já não pode ser,

Torna a fugir-me. E eu gritando:- Dina...,
antes que diga mene, acordo, e vejo
que nem um breve engano posso ter.




O belíssimo soneto dirige-se a uma das amadas de Camões, talvez aquela rapariga chinesa que morreu no mar, num naufrágio na costa da Cochinchina, de que por dita escapou o poeta. Camões deu-lhe o nome poético de Dinamene e dedicou-lhe alguns dos seus mais perfeitos sonetos.

Neste, vê em sonhos essa sombra benigna, que foi das coisas mais suaves da sua vida, uma nota de amorosa mansidão na sua existência turbulenta.

In Líricas - Selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa.
pg 52


MARO


Saudade, Saudade




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* "nua" (numa) com til sobre o u, no livro (neste teclado o til sobre o u não existe)

Nota: Imagens e música do presente, está tudo ligado...

. Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões

segunda-feira, 10 de junho de 2024

10 de Junho - Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades

Neste ano comemora-se os 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões. É considerado o poeta maior da Literatura Portuguesa com a sua obra épica Os Lusíadas, na qual canta o "peito ilustre lusitano".

Tudo o que tinha sido realizado - os heróis antigos e a sua glorificação -, perdia o brilho porquanto uma nova estrela despontava no horizonte, suplantando os feitos extraordinários que vinham da antiguidade.

E assim, sem meias medidas, diz o Poeta:



Cessem do sábio Grego e do Troiano

AS navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandre e de Trajano

A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano

A quem Neptuno e Marte obedeceram.

Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.


Esta é a terceira estrofe da proposição que logo é seguida da invocação às Tágides, pedindo-lhes um som alto e sublimado, um estilo grandíloco e corrente, uma fúria grande e sonorosa, para levar a bom termo o canto em que ele pretende sublimar os feitos dos portugueses.

E ele organiza a sua Obra épica a que dá o título de Os Lusíadas, composto de dez cantos, inspirando-se em Homero e Virgílio. Põe Vasco da Gama a fazer todo o relato da História portuguesa até D.Sebastião, a quem a dedica. 

Uma das partes de Os Lusíadas de que mais gosto é do Canto III, em que o poeta insere a história dos amores de Pedro e Inês, referindo-se à morte desta e relatando de uma forma emotiva o seu assassinato mandado por D.Afonso IV, pai de Pedro.

Penso que sabemos todos esta estrofe de cor:

120 - 

Estavas, linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo doce fruito

Naquele engano da alma, ledo e cego,

Que a Fortuna não deixa durar muito,

Nos saudosos campos do Mondego,

De teus fermosos olhos nunca enxuito,

Aos montes insinando e às ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas.


O que nos toca profundamente é a despreocupação em que Inês se encontrava, não adivinhando que lhe seria tirada a vida apenas porque amava o seu príncipe.

 (Mas também conhecemos os jogos de poder que levaram a essa morte)


***


Bom feriado, meus amigos.

Abraços 

Olinda


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Os Lusíadas, Luis de Camões, pgs 69, 157

Imagem da net.



sábado, 8 de junho de 2024

Dueto Amoroso (1)




Comemoração do Dia dos Enamorados, no Brasil, 
12 de Junho
Convite da Amiga Rosélia
Blog: AmorAzul


NO ABRAÇO SEM PALAVRAS

No calor do teu abraço,
sinto-me afagada na alma,
como num ornado e belo laço,
é bom calor que nos acalma.

Nossas mãos nos aquecem,
nem é preciso as palavras,
só afagos, ternuras mágicas,
merecemos, o mar sabe bem.

O mundo se tingiu de azul,
céu e mar do Norte ao Sul,
golfinhos celebram, bailam
em sintonia, nos embalam.

Cinge a cintura com força,
arranha as costas com bossa,
entre carícias renovadas,
chega-se às festas amadas.

ROSÉLIA BEZERRA





Disse que te daria um grande abraço no dia em que te encontrasse. Um abraço que falasse da saudade, da ânsia de te conhecer, de tudo o que projectei em ti. E tudo que vinha de ti me inspirava. Palavras não eram precisas. Tudo se encaixava e tomava forma à medida que eu caminhava para ti.

E sinos repicaram, chilreios maviosos soaram, todo o universo em festa no momento em que me enlaçaste e eu te enlacei. Num pé de dança, ouvindo uma valsa que somente os nossos ouvidos ouviam, avancei um passo e tu outro, rodopiamos na harmonia que a natureza nos oferecia.

Ali, até o mar ouvimos. No marulhar das suas ondas veio falar-nos de lindas sereias, de contos de encantar que nunca foram contados. Do fundo dos seus mistérios, de cidades de algas, de corais, de pedras luminosas, de luz coada através da finura das águas, disse-nos o que as palavras não conseguem dizer...
Recordas-te? 

Olinda Melo



  

Meus amigos:

Estou em viagem. Os comentários, se os houver, 
serão publicados quando eu regressar. 

Saúde.

Abraços
Olinda



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NOTAS:

Rosélia Bezerra tem muitos livros publicados no Clube de Autores.

A primeira imagem: Veio da publicação da Rosélia
A segunda imagem: da net
 

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Raquel e Jacob




Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se não a tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
dizendo: - Mais servira, se não fora
pera tão longo amor tão curta a vida!




Um dos mais apreciados e imitados sonetos do poeta. Quis ele tratar poeticamente o tema da fidelidade e constância do amor. Achou no Velho Testamento a velha história de Jacob, e, enchendo-a de graça e poesia, produziu uma pequena obra-prima. Não há nela rapto lírico; corre tudo num descritivo suave, rematando só no fim pela exclamação do fiel pastor.

In Líricas - Selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa
pgs 53/54



TONICHA


MENINA



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.Imagem:net

.Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões

sábado, 1 de junho de 2024

A Criança

 Tem sido muito difícil a vida das crianças. Desde sempre. E quando há guerras,  contendas, cataclismos, são os seres humanos que mais sofrem. E isso porque não pediram para nascer e não têm ainda capacidade para se defenderem.

Nos últimos tempos, com as guerras na Ucrânia e na Faixa de Gaza, as notícias que nos chegam sobre crianças mortas pelo poder das armas e à fome levam-nos a descrer na humanidade. E as guerras surdas que se desenvolvem por todo o mundo, nomeadamente, em África, também nos trazem um atroz sentimento de impotência. 

Cecília Meireles, aqui, num poema sobre o menino triste, que poderá abarcar a situação da Criança no mundo inteiro:





CRIANÇA

Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,
que sozinho sofre, — e resiste,

Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...

Cabecinha boa de menino mudo
que não teve nada, que não pediu nada,
pelo medo de perder tudo.

Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto.

Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube que não possuiria.

Cecília Meireles, 
in 'Viagem'


Quem se lembrará ainda da Declaração dos Direitos da Criança, proclamada pela Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas n.º 1386 (XIV), de 20 de Novembro de 1959.

Uma leitura de vez em quando se impõe, para não nos esquecermos do essencial.


Desejo


FELIZ DIA PARA TODAS AS CRIANÇAS


Abraços
Olinda



Obs: Estou de férias


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Poema - citador
Imagem: Wiki





quinta-feira, 30 de maio de 2024

Busque amor novas artes...



Busque amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças:
que não temo contastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
amor um mal, que mata e não se vê;

Que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói e não sei porquê.




Dizia com razão Faria e Sousa que os 11 primeiros versos deste soneto eram dignos do seu mestre, Camões, mas que o último terceto era digníssimo de Apolo, o deus que presidia à inspiração poética.
 
Efectivamente, o soneto versa de modo engenhoso e subtil as vicissitudes do amor e o papel da esperança nesse jogo arriscado, que o poeta compara ao naufrágio dum mar temprestuoso. Às esquivanças do amor o namorado opunha, ou fingia opor, um certo desprendimento, vizinho da indiferença. 

Pura ilusão: era uma "perigosa segurança", que o amor, avesso à indiferença, se encarregava de desfazer, instilando-lhe na alma os germes do sofrimento.

In Líricas, Selecção prefácio e notas de Rodrigues Lapa
Pg.46




- Miragem -



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Lembro-me desta canção numa telenovela brasileira...Gosto muito dela.

. Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Uma réstia de azul


Para onde nos atrai o olhar?



Meus amigos

Vou hoje de férias. Não sei se poderei visitar-vos durante esse período, um mês, dependendo da facilidade ou não de ter internet. Contudo, o Xaile de Seda, continuará, aqui, a fazer-vos companhia como vereis...

Deixo-vos, para já, a Dinola Melo, no seu jeito melodramático, e Jorge Fernando com a sua canção "Chuva". 

E mais: aqui fica a imagem trazida do blogue de Teresa Dias que nos desafia a olhar mais além.


TERRA AMADA

Terra amada, mas avara
Guardas em ti ciosamente
O tesouro que me foi dado
E tirado das minhas mãos
Quando não sabia chorar

Estoicamente aceitei o fardo
A vida ainda no seu início
Havia tempo, arranjaria outro
A solidão parecia quimérica

Terra ardente, pisei o teu solo
E nele se deu o grande milagre:
O encontro de tempos paralelos
Mas, guardaste para ti a melhor
Parte!
                               
Dinola Melo


***



CHUVA
JORGE FERNANDO
 

***

Saúde.

Abraços
Olinda



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terça-feira, 28 de maio de 2024

O nome sepultado nas águas (7)

Apesar de todas as incertezas, qualquer especialista concorda, hoje, que Dinamene foi a grande referência na construção do ideal camoniano do amor. A sua serenidade, a sua calma, o seu jeito solene e angélico de se mover e falar, a sua compreensão infinda, a paz enorme, um ser mais perene pelo carácter do que pela beleza física.

A juntar à sua formação humanista, às referências das figuras de Beatriz e Laura, em Dante e Petrarca, aperfeiçoou Camões o ideal da mulher amada: doce, paciente, branda e humilde, de um sofrimento obediente e um medo sem culpa, pura nos sentimentos, espalhando o bem em sua volta - como Dinamene -, o acontecimento mais suave da vida de Luís, um apontamento de mansidão na sua existência de tempestade.

Até 1567, ficou preso em Goa; no regresso a Portugal, é abandonado na costa de Moçambique por motivos pouco claros; aí, passados dois anos, o amigo e historiador Diogo de Couto encontra-o e fá-lo, por fim, embarcar de regresso à Pátria, dezassete anos depois de ter sido forçado a deixá-la e já sem os originais do seu Parnaso.



Em 71, obteve a licença da Inquisição de publicação para Os Lusíadas, o que viria a suceder no ano seguinte. Oito anos volvidos, pobre e abandonado, calculada a sua idade em cinquenta e seis anos, viria a morrer Luís Vaz de Camões, sem a certeza de ter salvo todas as páginas do manuscrito nem voltado a encontrar outro verdadeiro amor.

Excerto: 10 histórias de amor em Portugal, de Alexandre Borges, pgs.40/41.


Uma história de amor que põe frente a frente dois amores:
 Dinamene e a obra épica de Camões..

Quem venceu este duelo? Aparentemente, 
o manuscrito, ou seja, Os Lusíadas
dedicado a D.Sebastião.

Em vida, Luís Vaz de Camões não provou o 
sabor desta fama...


Abraço
Olinda


Último post.



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.Título da história: Dinamene e Luís de Camões
.Subtítulo: O nome sepultado nas águas (usei-o como título do post)
.Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões

segunda-feira, 27 de maio de 2024

O nome sepultado nas águas (6)

O náufrago que nada por entre a exaltação das ondas, erguendo centenas de papéis manuscritos, movendo-se lento à força de um só braço, não é, neste cenário, um herói; o homem que salva a sua obra e alcança a terra, tombando, inanimado, sobrevivente único daquele naufrágio, reparemos bem, não alcança tranquilidade de alma, não se realiza, não fica feliz. Porquê?

Porque, em nome da acção aparentemente heróica, poderá ter deixado morrer o seu amor. É, antes, um ser humano destroçado, arrependido, assombrado pela memória de um rosto angélico, sonho em vida e em morte, que nunca mais o abandonará.

Aquele que se levanta, na manhã seguinte, e caminha trôpego padece de uma mágoa, de um remorso sem remédio, uma saudade que mesmo a sincera esperança de um reencontro espiritual no paraíso não consegue anular.

Arrastar os pés sangrentos, durante vinte anos, até ao dia 10 de Junho de 1580, escrevendo sonetos úteis aos séculos vindouros, mas incapazes de, por um segundo, devolver ao seu autor a verdade de um abraço, a paz de chegar a ser feliz ao lado de alguém - está é, com certeza, uma das mais bonitas e dolorosas formas tomadas pelo amor, um amor eternizado pela morte.



Mas quem era, afinal, Dinamene? Para muitos, tratar-se-ia de uma cativa chinesa, o amor oriental de Camões que adaptou, literariamente, o seu nome: Tim-Nam-Mem ou Din-Nam-Mem. Contudo, o professor José Hermano Saraiva tem outra versão, segundo a qual Camões se havia apaixonado, sim, pela filha de D. Violante, D. Joana, tese que, de facto, um soneto seu parece confirmar:

"A violeta mais bela amanhece/ no vale, por esmalte de verdura/ com seu palácio lustre e formosura/ por mais bela, Violante, te obedece";

outros textos falam de Anha, antropónimo que significava Joana; outros ainda chamam D.Violante de fera, mulher vingativa e cheia de ciúme.

Sendo sabido que D.Joana foi mandada para a Índia e que terá falecido numa viagem e que, segundo o Livro V das Ordenações Manuelinas, o amor entre um servo e a filha de um amo seriam punidos com pena de morte, o poeta terá ocultado a verdade da amada sob um nome codificado.

"Dina" seria afinal uma sigla a que corresponderia: Dona Ioana Noronha de Andrade; a totalidade do nome - Dinamene - significa "poderosa do mar" (marca irónica do seu destino) e correspondia à figura de uma ninfa, tanto em Homero como em Hesíodo (...)

Excerto: 10 histórias de amor em Portugal, de Alexandre Borges, pg 37/38/39.


Meu Deus! 

Depois de nos termos focado, aqui, em Camões e Dinamene, descobrimos que há outras nuances

Em todo o caso, ainda que não existam certezas sobre os amores do poeta, parece-me que foram amores muito infelizes, que nunca tiveram a concretização que ele teria desejado.


Abraços 

Olinda



Último excerto, a seguir...


Post 1,Post 2,Post 3,Post 4,Post 5

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.Título da história: Dinamene e Luís de Camões

.Subtítulo: O nome sepultado nas águas (usei-o como título do post)

.Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões


domingo, 26 de maio de 2024

O nome sepultado nas águas (5)

 Se de um lugar alto, muito  para além da Terra, Camões pudesse presenciar o tempo que se lhe seguiu até àquele que hoje passa, talvez se alegrasse de ver que Portugal jamais seria o mesmo sem o seu poema, que a nossa História teria seguido um destino bem diferente se, naquele momento decisivo, não tivesse optado pelo simbolismo das palavras e se lançasse à amada.

Quinhentos anos depois, é de bom senso acreditar que tomou a decisão correcta, mas ele próprio, o Luís de Camões para além do poeta, o homem, esse que dor não infligiu a si mesmo?

Talvez a sabedoria comum se incline a pensar que não se trataria de um amor suficientemente grande, que Dinamene poderia não passar de uma amante como as outras de que os livros nem sempre registaram o nome, mas não é isso que a própria letra do poeta escreveu e deixou, em herança, à humanidade.

Ah! Minha Dinamene! Assim deixaste, Aquela Cativa que me Tem cativo, Alma Minha Gentil, que te Partiste e um Mover de Olhos Brando e Piedoso,

entre outros sonetos, demonstram a preponderância desta mulher na sua vida, antes e depois de morta.



O episódio que narramos nas primeiras páginas deste relato contém um paradoxo: trata-se do mais célebre da biografia camoniana e, ao mesmo tempo, permanece mergulhado em dúvidas, contradições e especulações, quase nada de preciso se sabendo acerca dele.

Camões havia sido chamado de Macau a Goa, a fim de ser julgado por acusações de apropriação de dinheiros alheios, feitas por compatriotas.
É, presumivelmente, na viagem de regresso que, na foz do rio Mecom, junto à margem do Camboja, uma tempestade leva o navio em que viaja a naufragar.

Dinamene acompanha-o na deslocação, o que, só por si, revela a sua importância junto do poeta; nessa altura, Camões tem já escrita, ao que se julga saber, grande parte do poema épico.

É deste acontecimento que retiramos a matriz nevrálgica da fotografia que guardámos para a memória colectiva do nosso autor maior: a de um homem infeliz, castigado pela vida, abandonado pelos deuses, sofredor e mártir em nome de um país inteiro; um homem que não se livra, no entanto, de um estigma de culpa, de imperfeição e de pecado.

Excerto: 10 histórias de amor em Portugal, de Alexandre Borges, pgs 35,36, 37.


Seria o amor de Camões por Dinamene tão grande 
como o demonstram os seus sonetos?

O que se sabe realmente da mente humana?

Julgá-lo com a nossa mentalidade de agora é,
na verdade, anacrónico, 
como em tudo o que a História nos narra.


Abraços

Olinda




Penúltimo excerto, a seguir...






NOTA:

Assinalou-se ontem, 25 de Maio, o Dia de África.
Em Julho dedicar-me-ei a este assunto.

Abraços


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.Título da história: Dinamene e Luís de Camões
.Subtítulo: O nome sepultado nas águas (usei-o como título dos posts)
.Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões.