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sábado, 13 de junho de 2015

O político que queria ser poeta

Palavras de Corsino Tolentino no discurso que proferiu quando foi distinguido com o prémio Amílcar Cabral, em 2007. Do seu jeito de poeta deixo mais abaixo um poema dedicado à outra parte do seu grande projecto: Cabo Verde. Cabo Verde que, com sabedoria, vai seguindo o seu caminho gerindo os seus poucos recursos e as ajudas que lhe chegam. Dez ilhas no meio do oceano. 

E é a uma dessas ilhas que Cabral dedica estas palavras:


ILHA

Tu vives — mãe adormecida —  

                nua e esquecida,
                seca,
                fustigada pelos ventos,
                ao som de músicas sem música
                das águas que nos prendem…  

                Ilha:  
                teus montes e teus vales  
                não sentiram passar os tempos  
                e ficaram no mundo dos teus sonhos  
                —    os sonhos dos teus filhos   —  
                a clamar aos ventos que passam,  
                e às aves que voam, livres,  
                as tuas ânsias!  
                 Ilha:  
                colina sem fim de terra vermelha  
                —    terra dura   —  
                rochas escarpadas tapando os horizontes,  
                mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!

                                                                              Praia -Santiago, 1945                                                                                                                   




Amílcar Cabral, um homem afável e profundo, um teórico com sentido prático e também um político original que viveu e agiu entre o rigor do cientista, que foi, e a liberdade do poeta que queria ser.



quinta-feira, 19 de abril de 2012

Libertação através da cultura

Um povo deve apropriar-se da sua cultura e fazer dela o seu estandarte. Revolver a terra à procura dos valores da sua ascendência e beber as ideias emanadas desde o princípio dos tempos. Despir-se de roupagens culturais trazidas pelo opressor numa assimilação imposta e eliminar em si próprio todos os resquícios externos fazendo nascer um homem novo. Amílcar Cabral acreditava neste paradigma, não propriamente com estas palavras, mas de forma sistemática e com uma fundamentação político-filosófica de mestre.
Qual a realidade geográfica e mental que ele tinha em vista? Pergunta retórica... Era a Guiné e, paradoxalmente, unido a Cabo Verde. Espaços geográficos diferentes e mentalidades diferentes e já com desinteligências no terreno de quase-séculos. Mas não é aqui que reside o propósito desta reflexão. É dentro da própria Guiné onde existia uma grande diversidade de povos, com as suas diferenças e as suas querelas ancestrais (R.Pélissier). Onde seria necessário encontrar um denominador comum que servisse de elo, numa noção de corpo e de nação trilhando os mesmos caminhos. Tê-lo-á descoberto Cabral? Talvez. Contudo, sabemos que ele não pôde consolidar e pôr em prática as suas ideias. Um tempo que lhe foi roubado.
Hoje sentimo-nos perplexos perante a instabilidade na Guiné-Bissau. Ali, todas as situações são consideradas de ruptura, não prevalecendo o diálogo e a procura do caminho ideal para que o país possa prosseguir em paz. Fazem-se perguntas. Apontam-se motivos. Soluções, não se vislumbram.
Voltando a Cabral, mas com a adaptação necessária a estes tempos, há que dar pequenos passos, indo buscar ao passado elementos culturais válidos, como o amor arreigado à terra, no sentido de serem ultrapassadas as diferenças para a construção do país com o contributo de todos.
Li num jornal, há uns dois dias, que, em Bissau, os rapazes mais velhos, perante a falência de um outro modelo, transmitem aos mais novos o 'a,e,i,o,u', reunindo-se para isso debaixo de uma mangueira. E eles dão-lhe um nome:'escola bas di pe di mango'. Só interrompem quando a isso são obrigados pelo barulho das armas. Mas o sonho não morre, diz o articulista.
O povo que sofre já está a dar o exemplo.