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quinta-feira, 31 de março de 2022

Vem...senta-te que a história não é curta





O teu mensageiro

Não te afastes
aproxima-te de mim
traz a tua esteira e senta-te

Vejo tremenda aflição no teu rosto
mostrando desespero
andas
e os teus passos são incertos

Aproxima-te de mim
pergunta-me e eu contar-te-ei
pergunta-me onde mora o dissabor
pede-me que te mostre
o caminho do desassossego
o canto do sofrimento
porque sou eu o teu mensageiro

Não me subestimes
aproxima-te de mim
não olhes estas lágrimas
descendo pelo meu rosto
nem desdenhes as minhas palavras
por esta minha voz trémula
de velhice impertinente

Aproxima-te de mim
não te afastes
vem...

senta-te que a história não é curta

in: No fundo do canto


Odete Semedo (Maria Odete da Costa Soares Semedo), nasceu em Bissau, em 7 de Novembro de 1959. Poeta, contista, professora universitária e política. Aos 18 anos iniciou as suas atividades como professora. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1989/1990). Ao regressar à Guiné-Bissau, assumiu a Coordenação Nacional do Projeto de Língua Portuguesa no Ensino Secundário, financiada pela Fundação Gulbenkian. Foi Diretora da Escola Normal Superior Tchico-Té; exerceu ali ao mesmo tempo suas atividades de professora. Em 2006 mudou-se para o Brasil para realizar o seu doutorado em Letras, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC Minas, em 2010, defendeu a tese "As mandjuandadi – cantigas de mulher na Guiné-Bissau: da tradição oral à literatura".
Mais aqui...



Flor Ave do Paraíso



Eneida Marta - Mandjuandadi


Tenham uma boa quinta-feira, meus amigos.

Abraços
Olinda

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Veja, se interessar: 

Odete Costa Semedo - ancestralidade e a poética do desassossego

Título do post retirado do poema
Imagem: pixabay 

sábado, 20 de junho de 2020

O Eco do Pranto




Não me digas
Que essa é a voz de uma criança
Não...
A voz da criança
É suave e mansa
É uma voz que dança...
Não me digas
Que essa é a voz de uma criança
Parece mais
Um grito sem esperança
Um eco
Partindo de fundo de um beco
Não me digas
Que essa é a voz de uma criança,
Essa é doce e mansa
É uma voz que dança...
Esta parece mais
Um grito sufocado sob um manto
- O Eco do Pranto.

Agnelo Regalla, 
Antologia Poética da Guiné-Bissau,
 Editorial Inquérito, 1990





Agnelo Augusto Regalla com o pseudónimo Sakala (Campeane (Tombali), 9 de julho de 1952) é um poeta, jornalista e político guineense. Estudou jornalismo em França no Centro de Formação de Jornalistas. Fundou e dirigiu a Radiodifusão Nacional na Guiné-Bissau de 1974 a 1977 e em 1996, fundou a rádio privada Bombolom FM. Na política - Foi Diretor-Geral no Ministério dos Negócios Estrangeiros de 1987 a 1990 e secretário de estado da informação do Ministério da Informação de 1984 a 1985 e de 1990 a 1991. Foi presidente do partido União para a Mudança e foi eleito deputado pela UM no primeiro parlamento multipartidário de 1994 a 1998. Entre setembro de 2009 e janeiro de 2012, foi conselheiro de comunicação e de porta-voz do presidente da Guiné-Bissau Malam Bacai Sanhá.Em 2018 foi nomeado por Aristides Gomes para a Presidência de Conselho de Ministros e Assuntos Parlamentares. Na literatura - Não editou nenhuma obra individualmente mas os seus textos foram publicados em diversas antologias como, por exemplo, "Mantenhas para quem Luta". Agnelo foi um dos fundadores da Associação de Escritores da Guiné-Bissau em 10 de outubro de 2013. daqui

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Poema: daqui

"Se um dia..." - Poema do mesmo Poeta aqui no Xaile

Imagem: daqui

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Não posso adiar a Palavra




Não posso adiar a Palavra

Quando te propus
um amanhecer diferente
a terra ainda fervia em lavas
e os homens ainda eram bestas ferozes

Quando te propus
a conquista do futuro
vazias eram as mãos

negras como breu o silêncio da resposta

Quando te propus
o acumular de forças
o sangue nómada e igual
coagulava em todos os cárceres

em toda a terra
e em todos os homens

Quando te propus
um amanhecer diferente, amor
a eternidade voraz das nossas dores
era igual a «Deus Pai todo poderoso 

                           criador dos céus e da terra»

Quando te propus
olhos secos, pés na terra, e convicção firme
surdos eram os céus e a terra
receptivos as balas e punhais

as amaldiçoavam cada existência nossa

Quando te propus
abraçar a história, amor
tantas foram as esperanças comidas
insondável a fé forjada

no extenso breu de canto e morte

Foi assim que te propus
no circuito de lágrimas e fogo, Povo meu
o hastear eterno do nosso sangue
para um amanhecer diferente!


Helder Proença
    (1956-2009)

Hélder Proença foi um escritor, professor e político da Guiné-Bissau, havendo lutado na guerra de independência do país, na década de 1970. Desde a adolescência que Proença escrevia poemas, àquele tempo sob a temática anti-colonialista, que resultou na publicação, em 1977, da primeira antologia poética guineense, sob sua coordenação, entre outros, e que também prefaciou, intitulada "Mantenhas Para Quem Luta!" - Mais... aqui




De uma forma ou de outra a História acaba sempre por nos apresentar a factura das nossas decisões, más práticas e incompetências. A nós ou a nossos filhos e netos, ou seja, aos vindouros. Trata-se aqui da tal História de que se não fala muito, porque incómoda. Assim a História da África Negra. Esquecer a Conferência de Berlim de 1884/1885, em que se procedeu à partilha de África pelas potências de então, parece remeter aos povos que depois ascenderam à independência a responsabilidade, na íntegra, de todos os seus insucessos sociais e políticos. O que não corresponderá à realidade. 

Estou a pensar no caso da Guiné-Bissau. Ano após ano assistimos à tentativa falhada de que o regime político que lhe foi imposto dê resultado, a forma de auscultação popular exportada do chamado ocidente, como boa, dê frutos. E nós, na nossa alta consciência e detentores de todas as razões e lógicas encolhemos os ombros e damo-lo como caso perdido. Terra de vários povos, alguns separados arbitrariamente do seu torrão, de grande variedade étnico-cultural, difícil se torna a integração desses valores num objectivo comum. 

E tomando como mote este poema de Hélder Proença, escrito num momento outro, diria que a Palavra não poderá ser adiada por mais tempo. Uma nova visão desse mundo com idiossincrasias próprias e que nos passa ao lado deveria ser abordada. Pelos próprios guineenses, naturalmente. E pela nossa predisposição de melhor entender essa realidade...

Continuando um pouco na senda do que expresso acima, apresento-vos um dos grandes pensadores africanos dos nossos dias: 

Kuasi Wiredu que, em DEMOCRACIA E CONSENSO NA POLÍTICA TRADICIONAL AFRICANA: Um apelo para uma política apartidária - argumenta que o sistema político multipartidário frequentemente visto como o fundamento para a democracia, nem sempre conduz à unidade e à estabilidade. Em vez disso, a democracia de consenso é muito mais adequada ao contexto africano. Wiredu elabora a sua tese a partir do exemplo do sistema político tradicional dos Ashantis em Gana...*

Posição que estudada e experimentada poderia conduzir a certezas ou formas de governo mais adaptadas ao meio e às diversas culturas. Quem sabe?
Diz-se que a democracia é um sistema com muitos defeitos mas melhor que todos os outros. De acordo. Isso, no nosso mundo que o foi buscar à antiga Grécia tendo sido adaptado e acrescentado e reinterpretado ao longo dos tempos...

Bom fim-de-semana, meus amigos.

Abraços.


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Poema: daqui
Veja posts, desta série, sobre:
Amílcar Cabral
Vasco Cabral
António Baticã Ferreira

Agnelo Regalla

.A Literatura Guineense: Contribuição para a identidade da Nação, de Joaquim Eduardo Bessa da Costa Leite (Tese de doutoramento, 2014 - Coimbra) - pg 10
*.Democracia e Consenso na Política Tradicional Africana - de Kuasi Wiredu

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Se um dia...


Se um dia
Dos teus lábios suaves
O sorriso lentamente se apagasse,
E a tua voz que me afaga
Morresse silenciosa
Qual voo de um pássaro
No horizonte
Se de teus olhos amêndoa
Nascesse uma só lágrima
De tristeza
Rolando em teu rosto
De menino de savana
A revolta contida em meus braços
Apunhalaria
O mais profundo das entranhas
Do racismo mascarado
E da sua morte
Nasceria uma flor
Em madrugada de sereno
Que tuas mãos colheriam
No gesto simples
De me acarinhares.

De volta à Literatura Guineense:
Este autor pertence ao grupo de jovens que apareceu entre os anos 70 e finais de 1980, incluindo-se nos mais representativos com António Soares Lopes (Tony Tcheca), José Carlos Schwartz, Helder Proença, Francisco Conduto de Pina, Félix Sigá. 
Segundo Filomena Embaló, que temos vindo a citar, a questão da identidade é abordada através de diversas situações: a humilhação do colonizado, a alienação ou assimilação e a necessidade de afirmação da identidade nacional.




Agnelo Regalla nasceu em Campeane (Tombali), na Guiné-Bissau, a 9 de julho de 1952. Formou-se em jornalismo no Centro de Formação de Jornalistas em França. Fundou e dirigiu a Radiodifusão Nacional na Guiné-Bissau de 1974 a 1977 e em 1996, fundou a Rádio Bombolom FM. Desempenhou vários cargos públicos entre 1987 e 2018. Foi um dos fundadores da Associação de Escritores da Guiné-Bissau em 10 de outubro de 2013.
Não editou nenhuma obra individualmente, mas os seus textos foram publicados em diversas antologias. Ver mais aqui


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Veja posts, desta série, sobre:

Amílcar Cabral
Vasco Cabral
António Baticã Ferreira
Poema : daqui
Antologia Poética da Guiné-Bissau
Editorial Inquérito, 1990
Imagem: aqui

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O último adeus dum combatente

Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.

Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que eu parti e tu ficaste!

Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.

Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!


 (1926-2005)


Numa preciosa resenha sobre a Literatura Guineense, Filomena Embaló, de quem já falámos aqui no Xaile através da sua obra, "Tiara", coloca Vasco Cabral, António Baticã Ferreira e Amílcar Cabral no período compreendido entre 1945 e 1970 - período esse de produção poética a que deu a designação de "Poesia de Combate".

Sobre este autor, F. Embaló diz-nos:

Vasco Cabral é certamente o escritor desta geração com a maior produção poética e o poeta guineense que maior número de temas abordou. A sua pluma passa do oprimido à luta, da miséria à esperança, do amor à paz e à criança.... Inicialmente com uma abordagem universalista, a sua obra se orienta, a partir dos anos 1960 para a realidade guineense. Em 1981, publicou o seu primeiro livro de poemas intitulado “A luta é a minha primavera”, obra que reúne 23 anos de criação poética entre 1951 e 1974. Esta obra foi ulteriormente publicada pela União Latina numa versão trilingue português, francês e romeno.

Também deixo alguns dados biográficos referentes a poeta guineense:

Estudou em Portugal onde se formou em Ciências Económicas e Financeiras pela Universidade Técnica de Lisboa e foi militante do MUD juvenil, movimento unitário de oposição à ditadura fascista, fortemente influenciado pelo PCP. Foi preso político no Aljube e em Caxias. Na guerra contra o império colonial, Vasco Cabral tornou-se um dos principais dirigentes do Partido Africano pela Independência de Guiné Bissau e Cabo Verde (PAIGC) (...)
Foi companheiro de armas de Amilcar Cabral, líder da luta pela independência da Guiné Bissau e de Cabo Verde (...) aqui




Da obra referida, "A luta é a minha Primavera", trarei, oportunamente, mais alguns poemas. Aliás, este Xaile de Seda vai ocupar-se um pouco da Literatura Guineense nos próximos dias, com uma ligeira interrupção no dia 22.

Bom fim de semana, meus amigos.


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Poema: daqui
A luta é a minha primavera, 1981
Em: Manuel Ferreira, 50 Poetas Africanos. Lisboa, Plátano Editora, 1989