sábado, 18 de março de 2017

Radiografia de uma insónia

Acordo sobressaltada. Deixei-me dormir a ver a série e já são quase duas horas. Salto do sofá, arrumo a papelada na pasta, guardo o computador e outras ferramentas para a apresentação de amanhã. Casa de banho, pijama, um copo de água e cama.

Encosto a cabeça na almofada, de certeza que vou reatar o sono. Mas será que não me esqueci de nada? Claro, está tudo controlado. A menos que surjam imprevistos, uma pergunta de alguém mais picuinhas sobre o produto, talvez não tenha pensado em tudo... E, se o computador se encravar, se o projector avariar. Mas não, vai tudo correr bem. Às vezes, a memória pode falhar, com os nervos, ou pode dar-se o caso de a pessoa se engasgar... Credo, que pensamentos! Agora me lembro que não vi a roupa que vou levar...Talvez, a saia cinzenta e...mas essa está-me justa...aliás toda a minha roupa está assim. Preciso rever o meu guarda-roupa. Mas, dizem que não se deve adaptar a roupa ao corpo mas o corpo à roupa, para controlar o aumento de peso. Pois, é isso. Tenho de ter cuidado com aquilo que como. Ao fim e ao cabo o que é eu como de mais? Aquele bolinho todos os dias de manhã? Isso não fará grande diferença e uma pessoa não é de ferro. A sério, tenho de começar a comer umas saladas. À noite tomar uma refeição mais leve, aliás, ajuda à digestão. Também ouvi dizer que se pode comer de tudo e que bastará reduzir um pouco nos hidratos de carbono, açucar e... tenho de ver isso. Ah! esquecia-me, e os sapatos? Preciso de uns sapatos confortáveis, não sei se os que tenho me permitem estar muito tempo de pé. Bem, nem sei se vou estar muito tempo de pé, mas mais vale prevenir do que remediar. Mas remediar com quê? As sabrinas já não têm um aspecto apresentável. Talvez uns botins que não calço há já algum tempo... mas está calor apetecia-me uns sapatinhos mais leves. Fazer o quê? Tenho de levar os que eu tenho. A esta hora já não dá para esquisitices. Ai!!! mas que horas são? Quase quatro horas? Não acredito! Tão tarde! Ou já se deve dizer, tão cedo? Pois, tenho de me levantar às sete, tenho de deixar o miúdo na escola às oito. Sinto a cabeça pesada. O bocadinho que dormi enquanto via a série não é suficiente. Tenho de me sentir estável, senão não direi coisa com coisa na apresentação do trabalho. Será que ainda consigo dormir um bocadinho até às sete?



A partir de agora o cérebro está completamente desperto, preocupo-me com as horas olhando vezes sem conta para o relógio, viro-me para o lado esquerdo, viro-me para o lado direito, coço a cabeça, a cara, os olhos, as orelhas, deito-me de barriga para baixo, de costas, mexo na almofada que se tornou de pedra, procuro aplicar umas técnicas de descontracção que conheço: faço o corpo pesado, faço respiração abdominal, procuro concentrar-me num som qualquer, mas agora é que oiço nitidamente os ínfimos silêncios e os pequenos barulhos, começo a ouvir as pessoas a mexerem-se no andar de cima, o bater da porta da rua, carros que começam a trabalhar... Nada feito. O despertador, claro, desperta e lá se vão as minhas esperanças. 

Meus amigos, não façam como eu. Sendo o sono importantíssimo para a saúde, reservem-lhe o espaço a que tem direito.

Bom fim de semana.

Abraço

Olinda

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Imagem - aqui 

sexta-feira, 10 de março de 2017

Poesia por Alepo

Um grupo de escritores portugueses teve a louvável iniciativa de publicar um livro com poemas seus com o objectivo de o produto da respectiva venda ser entregue à Unicef para minorar o sofrimento das crianças de Alepo que se vêem sem apoio, órfãs e desvalidas.

O livro foi apresentado a 4 de Fevereiro e tem este título: Cinco Lágrimas por Alepo. 

Dele vou retirar dois poemas que abaixo transcrevo:





Choro por ti, mártir Alepo.
O teu coração já não bate porque to arrancaram a toda a hora, 
em cada filho, na combustão das valas, onde agora mora.
Já não te pertence o teu sol soalheiro.
Anoitecem-te com o fumo ácido dos morteiros.
Gota a gota te mirram as crianças que em ti cresciam
e que agora atravessam a poeira dos escombros
outrora parte do colo onde adormeciam.
No desnorte do teu horizonte se ergue o teu nome,
escrito com teu sangue, algures no monte.

Na Abóbada que te cobre acolhe-se a Alma de que és parte.

Na potência dos fortes, querem-te sumindo.
Resiste, Alepo.
Só a putrefação serve aos abutres famintos.

Manuela Barroso (a nossa querida amiga do "Anjo Azul"-clique no nome, p.f.)

pg. 45

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"o medo não podia ter tudo..."

ALEPO

Cidade fantasma.
Destruição, fome, desespero...
São milhares, fogem da guerra
de mãos vazias e as memórias nos escombros.
No rosto vazio, triste e macerado das crianças
há um grito mudo - urge acordar o Mundo!
Só a voz das armas se faz ouvir...
Enquanto houver ditadores, tiranos e fundamentalismo
a humanidade estará em perigo.

José Efe

pg.57


O livro tem 120 páginas. A lista dos contribuidores é imensa.
Em "Notas Iniciais", Conceição Lima diz isto:

Um dia, li no Jornal Público: Em Alepo, contam-se os dias para a morte".
Colei esta frase no meu mural. Choveram poemas, em reação! Tornou-se vaga alterosa, incontrolável, irreprimível! Formou-se uma onda! Há ondas que nascem  e se formam, sem que se preveja o movimento em que se desenham e avançam. A Ciência as explica, a poesia as preenche.(...)

António Gaspar deu-me o empurrão!Demos as mãos!
Cá estão elas - AS CINCO LÁGRIMAS POR ALEPO!
Desaguam agora, num grito comum, cumprindo o "dilúvio" que António Gaspar prenunciara...
(...)


E António Gaspar Cunha, também ele poeta, numa reflexão sobre a civilização e a escravidão intelectual que "Os Senhores" do mundo nos querem impor, fala do livro assim, a dado passo:
"O que daqui emana são as almas dos poetas. Almas que choram, que gritam, que clamam esperança e que por vezes sorriem. É um livro de poesia de uma beleza erguida passo-a-passo; são choros, sob a forma de poemas, que se juntam até formar um dilúvio de esperança."


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Título / Cinco lágrimas por Alepo
Autor / Vários autores
Género / Poesia
Capa / António Gaspar Cunha
Paginação / António Gaspar Cunha

1ª edição - Gráficamares, LDA


terça-feira, 7 de março de 2017

Jardim das mulheres

A última vez que pensei nesta história foi uma semana depois de a carta ter chegado. Nessa altura, tinha deixado Londres - cidade que considero agora a minha casa - para seguir o percurso da carta até ao local de onde ela tinha vindo e mais além. 




Encontrava-me numa floresta exactamente igual àquela que os marinheiros tinham encontrado por acaso, e lembrei-me de como costumava, de manhã bem cedo, ver as minhas avós, as esposas do meu avó, saírem de casa e dirigirem-se, pelo mesmo caminho no qual eu estava, ao seu jardim. Uma a uma, cada mulher separava-se das suas companheiras e encaminhava-se para a sua parcela de terreno, cujos limites eram marcados por uma termiteira abandonada, uma árvore caída, um pedregulho vertical. Ali, entre as cambalas gigantes, os sapelis e as mafumeiras da floresta, cada mulher cuidava das goiabeiras, papaieiras e jamboeiros que ali tinha plantado. Depois, mondava o inhame e a mandioca, onde estes cresciam na terra fofa e escura, e regava o ananaseiro que marcava o centro da sua parcela de terreno.
  



Pensei na história dos marinheiros. E, durante muito tempo, julguei que não passava disso. Uma história. Sobre a forma como os Europeus nos descobriram e como deixámos de ser um espaço em branco num mapa.(...) depois de eu ter ouvido todas as histórias que este livro contém e escrevê-las para o leitor, lembrei-me designadamente desta. Então apercebi-me de que o tema da história era, na verdade, outro. Era sobre diferentes maneiras de ver. Os marinheiros não atentaram nos sinais, sendo incapazes de ver o padrão ou a lógica, só por serem diferentes dos seus. E a maneira de ver africana: arcana, invisível, porém, visível, evidente para quem nele se insere.
Os marinheiros viram o que consideraram ser a abundância da Natureza e roubaram o jardim das mulheres. Julgaram ter encontrado o Éden, e talvez tivessem mesmo, mas era um Éden criado, não pela mão de Deus, mas sim pelas mãos de mulheres.
(Excerto: Aminatta Forna, Jardim das mulheres pgs 18 e 19).  

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Quem não sabe é como quem não vê, não é Aminatta?

África arcana, visível apenas para quem lhe sente o respirar profundo vindo das suas entranhas; de quem lhe adivinha o ritmo calmo e chão do passar dos dias e das noites mas também a trepidação dos sons saídos do fundo da alma. Lá onde tudo começou, donde saímos todos e espalhados por sítios vários fomos tomando feições outras, colorações novas, eis que voltámos à fonte, mas já tão esquecidos dos valores da terra-mãe.

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Jardim de Mulheres -

Sinopse

Tudo começou com uma carta...

Abie Kholifa herda uma plantação de café da família, num país africano. Movida pelas palavras de Alpha Kholifa, seu primo, Abie regressa, iniciando uma viagem de reencontro com o passado.
Através das histórias contadas pelas suas quatro tias - Asana, Mary, Hawa e Serah -, ela descobre uma África atraída pelas tentações do Ocidente, mas desesperada por se manter fiel às suas tradições. Submersas em verdades silenciadas, mentiras sussurradas e contos mágicos, estas mulheres fortes - as verdadeiras protagonistas de Jardim de Mulheres - tentam alterar o correr tranquilo dos seus destinos e reivindicar as suas próprias identidades.
Percorrendo sensibilidades e gerações, Jardim de Mulheres é um romance espantoso sobre uma nação, uma família e as mulheres cujas histórias oferecem uma emotiva verdade que jamais entrará para as narrativas oficiais da História. aqui



Aminatta Forna was born in Glasgow, raised in Sierra Leone and the United Kingdom and now divides her time between London and Sierra Leone.
Forna was born in Bellshill, Scotland, in 1964 to a Sierra Leonean father, Mohamed Forna, and a Scottish mother, Maureen Christison. When Forna was six months old the family travelled to Sierra Leone, where Mohamed Forna worked as a physician. He later became involved in politics and entered government, only to resign citing a growth in political violence and corruption. Between 1970 and 1973 he was imprisoned and declared an Amnesty Prisoner of Conscience. Mohamed Forna was hanged on charges of treason in 1975. The events of Forna's childhood and her investigation into the conspiracy surrounding her father's death are the subject of the memoir The Devil that Danced on the Water.
Forna studied law at University College London and was a Harkness Fellow at the University of California, Berkeley. In 2013 she assumed a post as Professor of Creative Writing at Bath Spa University.
Between 1989 and 1999 Forna worked for the BBC, both in radio and television, as a reporter and documentary maker in the spheres of arts and politics. She is also known for her Africa documentaries: Through African Eyes (1995), Africa Unmasked (2002) and The Lost Libraries of Timbuktu (2009). Forna is also a board member of the Royal National Theatre and a judge for The Man Booker International Prize 2013.[
Aminatta Forna is married to the furniture designer Simon Westcott and lives in south-east London.
aqui e aqui
Imagens:net

Jardim do Éden

Vem-me à memória uma história. Uma história que conheço, segundo parece, há muitos anos, embora já não me lembre de quem ma contou.

Há quinhentos anos, uma caravela que ostentava as cores do Rei de Portugal contornou a curva do continente. Tinha sido privada de vento algures ao largo das ilhas de Cabo Verde, e os mantimentos, comida e água começavam a escassear. quando finalmente os ventos se apiedaram dela, impulsionaram-na para Sudeste, em direcção à costa, onde o comandante avistou uma série de portos naturais e levantou a âncora, Os marinheiros prostrados pela fome, e com os cabelos encaracolados devido ao escorbuto, remaram para terra, arrastaram-se pelas águas pouco profundas e pela areia, onde ficaram sob a sombra das árvores. 

Ali se detiveram e olharam à sua volta com incredulidade. Imagine-se! Balouçando-se diante dos seus rostos, estavam mangas suculentas, abundantes quantidades de carambolas, abacates do tamanho da cabeça de um homem. Enquanto, da extremidade dos seus elegantes caules, os ananases acenavam de forma incentivadora, despontavam batatas-doces e inhame da terra, e grandes cachos de bananas desciam até eles. Os marinheiros pensaram ter encontrado nada mais, nada menos do que o Jardim do Éden.


E, durante algum tempo, era isso que os europeus pensavam que a África era. O Paraíso. 
(Excerto: Aminatta Forna - Jardim de Mulheres, pgs 17 e 18)

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Não me esqueci que tenho pendente a continuação da descrição de alguns aspectos da minha viagem a Cabo Verde. Coisa comezinha perante a magnitude das viagens dos descobrimentos que aqui se aflora, do tempo em que homens mal preparados em equipamentos e desconhecendo quase tudo arrostaram com perigos enormes para cumprirem um destino, fosse ele qual fosse, bem como objectivos que muitos deles desconheciam. O mundo que iam descobrindo, muito diferente do seu, levavam-nos de deslumbramento em deslumbramento, não isento de sofrimento como sabemos, ultrapassando aquilo que algum dia pudessem ter imaginado.

A região que a autora tem em mente chama-se Serra Leoa, nome dado por Pêro de Sintra que, ao serviço do Infante D. Henrique na exploração da costa ocidental africana, ali aportara em 1462. Um pormenor muito interessante que importa registar aqui é que numa terra com 16 etnias a língua franca é o KRIO, mistura do inglês e de algumas línguas nativas. Por aqui se vê o destino que essa terra levou depois, no que se refere à potência que lá se implantou.

Numa época em que a Inglaterra e França ainda se ocupavam em discutir as suas linhas sucessórias e a delimitar o território que lhes competia (guerra dos cem anos, 1337-1453) Portugal abria caminhos nunca dantes percorridos, para o mal dos seus naturais, alterando para sempre a face do mundo. Com a Espanha, através do Tratado de Tordesilhas (1494) divide o mundo descoberto e por descobrir em duas partes. Depois...depois França, Inglaterra e Holanda lançaram-se na recolha dos louros.

Voltando a Serra Leoa, esta transformar-se-ia num importante centro de comércio transatlântico de escravos até 1792.

Voltarei com mais um excerto do livro desta autora.

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Imagem: Net   

sábado, 4 de março de 2017

Iniciação - Júlio Dinis

Não sei se já vos terei dito que na minha adolescência li os romances de Júlio Dinis quase todos. Os meus pais eram grandes leitores de autores do século dezanove e, assim, transmitiram-me a mim e aos meus irmãos esse bichinho da leitura.

Sempre quis ler alguma poesia de Júlio Dinis para além daquela que ele inclui nos seus livros. Há poucos dias encontrei no escaparate de sugestões de leitura da biblioteca aqui da minha aldeia um livrinho de bolso, de 264 páginas, que ele próprio prefacia e ao qual também vai introduzindo notas de rodapé. Dele retiro o poema que hoje aqui vos trago, Iniciação: 


Além, naquela avenida,
De plátanos e salgueiros,
Foi que em teus beijos primeiros
Bebi a primeira vida.

Sob os copados verdores
Daquela frondosa rua,
Mal vistos da própria lua,
Falávamos nós de amores.

Todos em nossa procura,
Nós a rirmos escondidos.
Oh! que instantes decorridos!
Oh! que rápida ventura!

"Vai", disseste-me ao partires,
"Que estes beijos te dêem vida.
"Adeus, a infância é volvida!
"Luta e...se não sucumbires..."

E a voz faltava-te em meio;
E eu disse com modo brando:
Se não sucumbir?..." Chorando
Apartaste-me ao teu seio.

"Volta; e a sentida promessa,
"Que em meus beijos entendeste,
"Cumprida será." Disseste:
"Adeus. A luta começa."

E começava! Ai, por vezes
Me tomou o desalento:
Porém aquele momento
Lembrava-me nos reveses.

Lutei. E ao voltar agora
Com as lembranças do passado,
Dize, anjo, se me é dado
Recordar-te ainda essa hora?
                                    
                                    1865

(1839-1871)


Um outro préfacio é nele inserido por Egas Moniz, em 1946, (o nosso primeiro laureado com um Nobel) e a que intitulou: "Algumas Palavras". Logo no início ele diz isto: A notícia do seu desaparecimento emocionou o País e deixou no Norte um vinco forte de saudade, pois Júlio Dinis tem um culto muito especial no Porto e em longos arredores que envolvem o Minho, Trás-os-Montes e Beiras. Nestas regiões raros são os que não leram a obra romântica do seu autor predilecto: mas as poesias nem sempre têm tido a boa sorte de outros dos seus livros. Esquecem-nas uns, outros não lhes encontram os encantos da sua prosa.

Egas Moniz encontra explicação para isso no facto de Júlio Dinis ser um admirador de Soares de Passos cuja obra fez derramar muita lágrima de emoção. Mas, segundo ele, à época já "Agonizava aquele romantismo saudosendo e tristonho que se acoitava à sombra dos ciprestes. A arte tomava novos rumos sob rajadas fortes de revolta e salutar protesto."

Bem, meus amigos, lede e dizei-me da vossa justiça se vos interessardes por este género de literatura.

Desejo-vos um bom fim de semana. Hoje está Sol e um pouco menos frio, o que poderá fazer-nos ver as coisas com mais optimismo perante os imbróglios que se desenrolam à nossa volta.

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Poema transcrito de: Júlio Dinis - Poesias , página 154 e 155
Imagem: internet