domingo, 2 de dezembro de 2018

Como um aviso*



Quando as espigas surgiram de repente 
nos sulcos das searas, sem que o braço e a foice
afagassem o trigo, houve homens
que se amarraram à terra aguardando que o corpo
se transformasse em campo lavrado.
Houve mulheres que cegaram, em plena
madrugada, perto dos pomares.
Houve meninos que se fecharam por dentro
dos segredos que as mães guardam no sangue.
Houve pássaros que suspenderam o voo
sobre as casas desertas. Como um aviso.

In: Uma Vara de medir o Sol
pg.52

GRAÇA PIRES



* Título do post retirado do último verso. 
   Peço à autora me releve a liberdade.

=====
Imagem: Pixabay

15 comentários:

  1. Lindo, maravilhoso excerto.
    Boa semana
    Beijinho

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  2. Às vezes, esperamos colher frutos e nada acontece (as espigas cresceram e ninguém as colheu): neste mundo, nada nos é dado e não podemos dizer que nos é devido isto ou aquilo, porque simplesmente não temos direito a nada.
    Poderá não concordar com o que digo, mas é uma constatação.
    Não sei se o poema se refere a isto, indiretamente.
    Claro que acho injusto.
    Boa semana.

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  3. Esqueci de dizer que tenho um post sobre os comentários que me têm colocado. Já os publiquei.

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  4. As aves surgem como aviso num poema atravessado pela dor, como se incêndio fosse.
    Uma extraordinária criação poética de Graça Pires.

    Bom olho, querida Olinda!
    Beijos às duas.

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  5. Muito obrigada, minha Amiga Olinda pela divulgação. Fico sempre sem jeito com o seu carinho…
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  6. Muito lindo.

    Arthur Claro
    http://www.arthur-claro.blogspot.com

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  7. Um poema marcante.
    Já lhe conheço a veia desde há tempos que a blogosfera vai enevoando.
    Abraço
    jorge

    www.tintapermanente.pt

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  8. poema (quase) épico!
    como se coro da Tragédia fosse...

    admirável Poeta. e um livro precioso.

    feliz, amiga Olinda
    por te saber admiradora da poesia da Graça Pires

    beijo

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  9. Querida Olinda
    Extraordinário excerto que escolheste da nossa querida Graça.
    Sou fã da sua poesia, que merece divulgação.

    Um santo e feliz Natal, para ti e tua família.

    Continuação de boa semana.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS






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  10. Esses poemas da Graça que parecem prosas poéticas, ou essas prosas poéticas que parecem poemas, e que, independente disso, têm beleza natural. Gostei da imagem. Um abraço, Olinda.

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  11. Mensagem muito especial a deixar sulcos na sementeira dos sentidos.
    Parabéns, Olinda, pela escolha. Parabéns, Graça, pela mensagem.
    ...Mais que perfeito.


    Beijo ás duas.
    SOL

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  12. Olá, querida Olinda!
    É lindíssimo este poema da amiga Graça.
    Este e todos os que nos dá a ler no livro "Uma vara de medir o sol" (que título fabuloso!!), onde expõe as suas preocupações com o futuro da Humanidade.
    Não resisto a deixar aqui mais um versinhos:
    "...somos a sombra
    de uma vara, presa à inclinação do sol,
    que define a vertigem que nos derruba
    e que nos ergue."
    Beijos, para ti e para a poeta.

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  13. É bela, a poesia do discurso desconstruído da Graça.

    Para si, dias gloriosos, verticais, plenos de paz e harmonia.
    Beijinhos, Olinda.
    ~~~~

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