sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Ode aos Natais esquecidos



Eu vinha, pé ante pé, em busca da pequena porta 
que dava acesso aos mistérios da noite, 
daquela noite em particular, por ser a mais terna 
de todas as noites que a minha memória 
era capaz de guardar, com letras e sons, 
no seu bojo de coisas imateriais e imperecíveis. 
Tinha comigo os cães e os retratos dos mortos, 
a lembrança de outras noites e de outros dias, 
os brinquedos cansados da solidão dos quartos, 
os cadernos invadidos pêlos saberes inúteis. 
E todos me diziam que era ainda muito cedo, 
porque a meia-noite morava já dentro do sono, 
no território dos anjos e dos outros seres alados, 
hora inatingível a clamar pela nossa paciência, 
meninos hirtos de olhos fixos na claridade 
enganadora de uma árvore sem nome. 


Depois, o meu pai morreu e as minhas ilusões também. 
Tudo se tornou gélido, esquivo e distante 
como a tristeza de um fantasma confrontado 
com a beleza da vida para sempre perdida. 
Deixaram de me dar presentes e de dizer 
que era o Menino Jesus que os trazia 
para premiar a minha grandeza de alma, 
o meu desejo de ser bom para os outros. 
Passei a escrever sobre tudo isso, sofregamente, 
só para não ter de escrever sobre a saudade 
que esse tempo fugidio deixou em mim.

 
A árvore mirrou de frio num canto da sala, 
os presentes apodreceram no sótão da casa, 
juntamente com os doces da Consoada 
que ninguém teve vontade de comer, 
nem mesmo os mais gulosos como eu. 
Um homem de muita idade bateu-me à porta 
e depositou-me nas mãos um pequeno embrulho: 
«Eis o teu presente de Natal» — disse-me. 
Abri-o e vi um livro onde se contava 
toda a minha vida desde o primeiro Natal 
de que conseguia lembrar-me, tudo o mais esquecendo. 
Ali estava eu de pé, muito quieto, junto da árvore, 
à espera que alguém me viesse dizer 
que o céu era pródigo em revelações e dádivas. 
Era para lá que eu sonhava ir quando morresse. 



Quando Dezembro se aproximar do fim, 
lançarei pétalas ao vento como se tentasse 
semear o perfume do que fui enquanto acreditei. 
Talvez o homem volte com outro embrulho secreto, 
só para me dizer que esse é o livro que ainda me falta escrever. 
Então, juntarei os amigos, os filhos e os netos 
numa roda de luz à minha volta e direi do Natal 
o que os antigos diziam dos heróis e dos deuses: 
foi à sombra deles que nos fizemos homens. 
Quando eu partir de vez, lembrem ao menos 
a ternura do meu sorriso de menino 
quando a meia-noite soava no relógio da sala 
e eu acreditava ainda que a felicidade era possível. 

José Jorge Letria
-1951-


Jornalista.Político.Escritor.Português.

====
Imagens crianças - pixabay
Poema - Citador

 

17 comentários:

  1. Não conhecia e adorei ler. Obrigado pela partilha.
    Um abraço

    ResponderEliminar
  2. Que bem traçado! Infelizmente há uma estrofe que define bem o que se passou comigo.
    Beijinhos e feliz Natal!

    ResponderEliminar
  3. Não conhecia!
    (Li, tenho, dois livros que, por vezes,vou comprar para oferecer a amigos 'baixinhos': 'Galileu à luz de uma estrela' e o 'Alfabeto dos países', que gosto particularmente).
    Não conhecia. Mas gostei, claro!
    ...
    (e, ai que complicação se tronou o Blogger! Não lhe sei explicar, essa das mensagens, que deve ser chinesice. Mas se clicar em cima de 'autor' - No 'Coisas', claro, já dá email direitinho. Quer experimentar, para evitar estes àpartes, aqui a despropósito?)
    E, aproveito: Um Natal embrulhado em Paz!
    Abraço.

    ResponderEliminar
  4. Muito bonito :)

    Um Feliz Natal, Olinda

    ResponderEliminar
  5. Querida Olinda
    Adorei este texto de J.J.Letria, que não conhecia, embora goste muito do autor (e do filho, Joaquim ... de quem publiquei um texto lindíssimo).
    A época do Natal traz à nossa memória as boas e as menos boas recordações.
    E todos nós temos lembranças que gostaríamos de não ter... mas a vida não é composta SÓ de momentos felizes...

    Que o teu Natal seja recheado de Amor e Alegria.

    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS


    ResponderEliminar
  6. Uma bela história para ser contada nesses dias que celebramos o nascimento do Menino Jesus, Olinda!
    Desejo muita alegria no Natal e felicidade por todo o ano vindouro!
    Beijos!

    ResponderEliminar
  7. Olinda, a leitura deste maravilhoso texto é uma maneira de buscarmos melhorar o que vemos deste mundo. É sentir algo que prega a transformação.
    É gritar, com todas as nossas forças, que o mundo, as pessoas e a vida podem ser infinitamente melhores. Parabéns pela escolha.

    ResponderEliminar
  8. muito bem escolhido...
    Bom Natal
    beijinho
    :)

    ResponderEliminar
  9. ~~ººº~***~ººº~***~ººº~***~ººº~***~ººº~***~ººº~~

    Excelente seleção para comemorar este Natal

    que encerra um agradabilíssimo Outono atípico!

    O trabalho que deu transcrever a Ode, por amor

    aos amigos! Agradeço os excelentes momentos

    de leitura com carinho especial, muito merecido...

    Um 'post' que condensa, de modo notável, amor

    pela arte visual e literária.

    ~ Dias de muitas felicidades e grandes ternuras.

    ~~~ Abraço amigo, Olinda.~~~
    ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~

    ResponderEliminar
  10. Feliz Natal!!! Que a manjedoura do seu coração esteja pronta para receber o Menino Jesus que irá nascer!!!
    Um ano novo repleto das bençãos de Deus!!!
    Doce abraço com carinho, Marie!

    ResponderEliminar
  11. Também aqui ao seu espaço, venho desejar-lhe um Santo Natal, com tranquilidade e paz...

    Um beijinho amigo

    ResponderEliminar
  12. ¡Hola Olinda!!!

    Es un bellísimo texto de acorde con estos días navideños que ya se viven en muchos lugares del mundo. Ojalá fuera igual para toda la humanidad. Pero me temo y me entristece, que muchísimos seres humanos, no tendrán ni un techo donde cobijarse. ¡Recemos por ellos!!!

    Gracias por darnos a conocer este Buen Escritor. Que yo desconocía.
    Y mil gracias y bendiciones,por dejar tu huella de mi cerca, es un honor para mí: saber que del país hermano alguien muy especial, se acuerda de esta sencilla persona.
    Un abrazo grande con el corazón en la mano y mis mejores deseos de paz y felicidad.
    Felices fiestas navideñas en compañía de los tuyos y un próspero año nuevo.
    Que este 2016 sea más humano, más justo más tolerante; donde rene la comprensión la paz, la ternura, el amor, el respeto, la cordura, la caridad y la esperanza en el Planeta Tierra.

    Se muy muy feliz

    ResponderEliminar
  13. ❀✿゚ه
    É super linda essa Ode ao Natal. Esse também é o Natal de muitos!...
    Que nunca deixemos de acreditar e confiar no menino de Belém!!!
    Que Ele traga esperança e muitas alegrias para todos nós!!!

    Bom domingo! Ótima semana!
    Beijinhos.
    ✿˚ه° ·.

    ResponderEliminar
  14. Adorei, Olinda, postagem mais que pertinente!

    Um beijinho e... um feliz Natal! :)

    ResponderEliminar
  15. Impressionante, as memórias que o Natal escreve na alma!
    Não podia ser mais bela esta proposta de saudades de Natal.
    FELIZ NATAL
    Beijinho

    ResponderEliminar
  16. Li e emudeci. Tão belo!
    Uma ótima partilha, Olinda.
    Bjo :)

    ResponderEliminar