sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ferreira Gullar - Novo ocupante da cadeira 37

Aqui no Xaile, Ferreira Gullar tem marcado presença com Não há Vagas, poema que recebe quase todos os dias inúmeras visitas. De seu verdadeiro nome, José Ribamar Ferreira, o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras tem 84 anos e ao ser eleito para ocupar a cadeira nº 37 declara-se muito feliz. A referida cadeira era ocupada pelo poeta e tradutor Ivan Junqueira, falecido em Julho passado.

Em jeito de felicitação, insiro este poema:

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


Uma bela forma de se definir, com arte, Ferreira Gullar.

Poema retirado de- aqui

26 comentários:

  1. E finalmente cheguei cá, querida Olinda, pedindo desde já desculpas por esta ausência. Agradeço-te a aula de história que me dás sobre a républica portuguesa; muita coisa já está esquecida e é muito bom relembrar. de facto, onde estão os brandos costumes?
    Gostei muito de saber que Ferreira Gullar acaba de ocupar a cadeira 37 na academia de letras brasileira. e só espero que a ocupe por muito tempo, apesar da idade que já tem. Adorei esta letra que me fez lembrar uma outra , de Oswaldo Montenegro e cuja mensagem, acho, é a mesma. Se me permites vou deixá-la aqui. Chama-se A Metade

    Que a força do medo que tenho
    não me impeça de ver o que anseio
    que a morte de tudo em que acredito
    não me tape os ouvidos e a boca
    porque metade de mim é o que eu grito
    mas a outra metade é silêncio.
    Que a música que ouço ao longe
    seja linda ainda que tristeza
    que a mulher que amo seja pra sempre amada
    mesmo que distante
    porque metade de mim é partida
    mas a outra metade é saudade.


    Que as palavras que eu falo
    não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor

    apenas respeitadas como a única coisa
    que resta a um homem inundado de sentimentos


    porque metade de mim é o que ouço
    mas a outra metade é o que calo.
    Que essa minha vontade de ir embora
    se transforme na calma e na paz que eu mereço
    e que essa tensão que me corrói por dentro
    seja um dia recompensada
    porque metade de mim é o que penso
    mas a outra metade é um vulcão.
    Que o medo da solidão se afaste
    e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
    que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
    que eu me lembro ter dado na infância
    porque metade de mim é a lembrança do que fui
    a outra metade não sei.
    Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
    pra me fazer aquietar o espírito
    e que o teu silêncio me fale cada vez mais
    porque metade de mim é abrigo
    mas a outra metade é cansaço.
    Que a arte nos aponte uma resposta
    mesmo que ela não saiba
    e que ninguém a tente complicar
    porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
    porque metade de mim é platéia
    e a outra metade é canção.
    E que a minha loucura seja perdoada
    porque metade de mim é amor
    e a outra metade também.


    A mensagem é tão parecida que houve uma polémica entre os dois, achando Gullar que o Montenegro o tinha plagiado. Bem...o que importa é que são dois belos poemas. Obrigada, amiga e um bom fim de semana
    Emília

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  2. Olá Olinda,

    Aqui aprendo sempre qualquer coisa. Hoje aprendi duas e li um poema muito bonito que não conhecia. Obrigada.

    Um beijinho e bom fim de semana, Olinda!

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  3. Uma pérola de poema. Embora já todos lido e ouvido esta poesia, repetindo-a encontramos novos momentos que nos animam interiormente.

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  4. Um poema muito bonito de um poeta que não conhecia, e me lembrou o poema "metade" do poeta cantor Osvaldo Montenegro.
    Um abraço e bom fim de semana

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  5. ~
    ~ ~ Confesso que não conhecia os poemas, nem nunca tinha ouvido falar do poeta, nem do Neoconcretismo carioca.

    ~ ~ Gostei do que li: muito interessante e original! Apesar de não conhecer toda a obra, penso que já merecia há mais tempo a cadeira.

    ~ ~ ~ Meritória a ideia de apresentar e difundir géneros distantes da poesia lírica.

    ~ ~ ~ ~ ~ Dias agradáveis e felizes. ~ ~ ~ ~ ~

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  6. Não conhecia, mas...
    se não é arte, então, não sei que seja!
    abraço.

    jorge

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  7. Aprecio muito Ferreira Gullar. É um merecido lugar que irá ocupar.
    Muito bom relê-lo aqui.
    bj

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  8. (•ิ‿•ิ)✿

    Bonjour chère Olinda et Merci pour ce partage ! C'est très beau !

    GROSSES BISES d'Asie pour toi ❤♥

    Bonne continuation !!!!!! ✿✿º°。

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  9. É arte, diz esta tradutora :)
    Beijinhos, bom domingo!

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  10. Olá

    Quando o cantor Fagner, musicou, esse poema do Ferreira Gullar, nós aqui no Brasil, já saberíamos do sucesso. Parabéns pela postagens Abraços

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  11. A contradição humana muito bem plasmada num belo poema.

    "A Metade" de Montenegro, inspirada ou não neste texto, também é um poema lindo.Como bem diz a nossa querida Emilia Pinto.

    Minha querida Olinda, obrigada por mais um muito interessante post e que seja muito boa a sua semana :)

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  12. E é realmente uma tradução da arte aliada a Ferreira Gullar.
    Parabenizamos por mais essa do maranhense por chagar a compor a lista dos imortais.
    Abraço

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  13. Os poetas não querem salvar o mundo

    só ajudar

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  14. Fez muito bem em colocar aqui este poema.
    Boa homenagem a um poeta que o merece.
    Bj.
    Irene Alves

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  15. Admirável e muito talentoso. Seus escritos merecem nossos aplausos. Essa cadeira é um reconhecimento até tardio. Você lhe fez uma homenagem muito bela, evidenciando essa conquista. Bjs.

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  16. Belo poema...Espectacular....
    Cumprimentos

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  17. Um belo poema, sim senhor!

    Saudações poéticas!

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  18. (•ิ‿•ิ)✿

    Un petit bonjour sur ton joli blog ce mardi matin !

    GROSSES BISES d'Asie pour toi Olinda ❤♥

    Bonne continuation !!!!!! ✿✿º°。

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  19. Bem traduzir é criar arte! Aliás, a arte é, em si, uma tradução.
    Beijinhos, boa semana!

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  20. Querida Olinda
    Fizeste uma óptima escolha, pois este poema de Gullard é, talvez, um dos mais bonitos - ainda que a escolha seja difícil...
    Mas o que aprecio em Gullard, tanto como a sua poesia, é a arte com que "manipula" as palavras, colocando-as no momento certo no local exacto.
    É um verdadeiro mestre da palavra.
    Concordo com a nossa querida Emília - este poema faz lembrar o de Oswaldo Montenegro - também muito bonito.
    Parabéns pela excelente postagem.

    Uma óptima semana, querida.
    Beijinhos
    Mariazita

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  21. Um grande poeta que aprendi a amar e a admirar não só pela poesia mas pelo grande senhor que é e de quem meu falecido tio, que privava com ele, dizia maravilhas. Assim, foi uma alegria e uma surpresa muito terna esta sua postagem , Olinda!
    Beijinho meu

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  22. Oi Olinda!
    Parabéns pela postagem. O poema é divino merece aplausos. Uma ótima escolha fizeste.
    Estive ausente por meses e agora cá estou.
    Deixo Beijos !

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  23. ⒽⒺⓁⓁⓄ et merci pour ce partage chère Olinda !

    ☼ je t'envoie plein de douces pensées d'Asie ≧^◡^≦ Bon dimanche !

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  24. ~
    ~ ~ Está tudo bem, Olinda?

    ~ ~ Um excelente Domingo, segundo os meteorologistas, o 1º dia do Verão de S. Martinho.

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  25. Fico sem palavras porque me identifico, entendo, vivo... esta definição pessoal.
    Comparar-me com Ferreira Gullar, já seria abuso meu e não pretendo tal.
    Admirar, é pouco para enaltecer o "Veterano" da Cadeira 37ª.
    Parabéns por me (nos) mostrares este Poema de Identidade.


    Beijos


    SOL

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