O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira
FERREIRA GULLAR
»»»»»
Procurei por Ferreira Gullar e este poema surgiu-me antes de tudo, focando aspectos da vida concreta e dura do dia-a-dia, que nos leva quase a fazê-lo nosso. Há, porém, um óbice: o facto de todas estas coisas 'não' caberem no 'poema'. A propósito, encontrei uma interpretação que nos conduz a um caminho que terá a ver com a função da poesia, em termos sociais. Eis uma passagem:
O texto, assim, com esse andamento metalingüístico, com o poema que discute a própria poesia, parece se tecer também como uma poética do autor. Ao se discutir o fazer poético, está se discutindo — embutido no texto — o sentido ou mesmo a função da poesia — para quê, e para quem, ela serve.O poema, assim, se tecendo como uma poética do autor, uma poética marcadamente modernista, e ironizando os poetas indiferentes à vida, ao cotidiano das pessoas comuns (como os parnasianos, por exemplo), traz o seguinte recado: a poesia não deve se furtar às questões sociais. Nela cabe, sim, há vagas para os dramas diários. Portanto: o sentido verdadeiro do poema é o contrário do que nele é dito.Ver mais...
Haverá lugar a uma outra ou outras interpretações?
Parece que sim. Esta, aqui, por exemplo, centrada na propaganda de um colégio: 'Sem um bom currículo NÃO HÁ VAGAS no mercado de trabalho', põe a tónica na negação, e, ao mesmo tempo na relação inclusão/exclusão, jogando também com ilusões e esperanças, para além de outras considerações.
Bem. O que diriam os meus amáveis leitores?