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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Meu povo, meu poema






Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta



   (1930-2016)


Quem visita o Xaile de Seda há algum tempo terá encontrado aqui Ferreira Gullar em alguns poemas, nomeadamente,  Traduzir-se e Não há Vagas.

Pois, meus amigos, hoje, traduzindo um pouco o meu estado de espírito, pensei em publicar Traduzir-se mas vi que já o tinha feito. Deixo o link, caso o queiram reler. 

Mas ainda bem, pois o poema que ora publico, Meu povo, meu poema, transcende-nos e vai buscar todo um sentimento de crescimento comum e de pertença. E ouso pensar que o momento que atravessamos, em que decisões importantes nos serão imputadas, requer reflexão em função das obrigações que nos cabem como eleitores dos nossos representantes. O nosso Leviathan


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Poema: daqui
Imagem: daqui


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ferreira Gullar - Novo ocupante da cadeira 37

Aqui no Xaile, Ferreira Gullar tem marcado presença com Não há Vagas, poema que recebe quase todos os dias inúmeras visitas. De seu verdadeiro nome, José Ribamar Ferreira, o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras tem 84 anos e ao ser eleito para ocupar a cadeira nº 37 declara-se muito feliz. A referida cadeira era ocupada pelo poeta e tradutor Ivan Junqueira, falecido em Julho passado.

Em jeito de felicitação, insiro este poema:

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


Uma bela forma de se definir, com arte, Ferreira Gullar.

Poema retirado de- aqui

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Não há vagas - Ferreira Gullar



O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira

FERREIRA GULLAR

»»»»»

Procurei por Ferreira Gullar e este poema surgiu-me antes de tudo, focando aspectos da vida concreta e dura do dia-a-dia, que nos leva quase a fazê-lo nosso. Há, porém, um óbice: o facto de todas estas coisas 'não' caberem no 'poema'. A propósito, encontrei uma interpretação que nos conduz a um caminho que terá a ver com a função da poesia, em termos sociais. Eis uma passagem:

O texto, assim, com esse andamento metalingüístico, com o poema que discute a própria poesia, parece se tecer também como uma poética do autor. Ao se discutir o fazer poético, está se discutindo — embutido no texto — o sentido ou mesmo a função da poesia — para quê, e para quem, ela serve.O poema, assim, se tecendo como uma poética do autor, uma poética marcadamente modernista, e ironizando os poetas indiferentes à vida, ao cotidiano das pessoas comuns (como os parnasianos, por exemplo), traz o seguinte recado: a poesia não deve se furtar às questões sociais. Nela cabe, sim, há vagas para os dramas diários. Portanto: o sentido verdadeiro do poema é o contrário do que nele é dito.Ver mais...

Haverá lugar a uma outra ou outras interpretações?

Parece que sim. Esta, aqui, por exemplo, centrada na propaganda de um colégio: 'Sem um bom currículo NÃO HÁ VAGAS no mercado de trabalho', põe a tónica na negação, e, ao mesmo tempo na relação inclusão/exclusão, jogando também com ilusões e esperanças, para além de outras considerações.

Bem. O que diriam os meus amáveis leitores?  


Poema: fonte