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sexta-feira, 17 de abril de 2026

Dom Casmurro




Segundo notícias do fim do mês de Março, o Consulado do Brasil em Lisboa vai inaugurar (ou já inaugurou) um espaço dedicado a Machado de Assis. 

Também o Clube Leitura Libertas, do Núcleo de Estudo Luso-Brasileiro da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, iria debater a obra Dom Casmurro no dia 8 de abril...

E o artigo acrescenta:

A discussão a respeito da obra promete se transformar num verdadeiro julgamento sobre os personagens de um dos clássicos do escritor brasileiro: afinal, Capitu traiu Bentinho?

***


Cap.CXL

VOLTA DA IGREJA

 Ficando só, era natural pegar no café e bebê-lo. Pois não, senhor; tinha perdido o gosto à morte. A morte era uma solução; eu acabava de achar outra, tanto melhor quanto não era definitiva, e deixava a porta aberta à reparação, se devesse havê-la. Não disse perdão, mas reparação, isto é, justiça. Qualquer que fosse a razão do acto, rejeitei a morte, e esperei o regresso de Capitu. Este foi mais demorado que de costume; cheguei a temer que ela houvesse ido a casa de minha mãe, mas não foi.

_Confiei a Deus todas as minhas amarguras - disse-me Capitu ao voltar da igreja -; ouvi dentro de mim que a nossa separação é indispensável, e estou às suas ordens.

 Os olhos com que me disse isto eram embuçados, como espreitando um gesto de recusa ou de espera. Contava com a minha debilidade ou com a própria incerteza em que eu podia estar da paternidade do outro. Mas falhou tudo. Acaso haveria em mim um homem novo, um que aparecia agora, desde que impressões novas e fortes o descobriam? Nesse caso era um homem apenas encoberto. Respondi-lhe que ia pensar, e faríamos o que eu pensasse. Em verdade vos digo que tudo estava pensado e feito. (...)

Machado de Assis, Dom Casmurro, pg.154 (Diário de Notícias)

Deixo aqui mais um excerto de uma das obras de um autor que muito aprecio.


Abraços, meus amigos.

Olinda


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Machado de Assis aqui


terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Simplicidade moldada


Imersa nos seus pensamentos que, ao mesmo tempo que lhe causavam
uma saudade enorme também a tornavam,
inexplicavelmente, feliz...






Da casa da vovó uma bela lembrança,

pelas manhãs um bom café o desjejum,

os ovos caipiras cozidos a dar sustança.

Cortes de galinha cobertos no urucum.¹


Lembro do menino na caça à ninhada,

naquele quintal das galinhas os cantos,

eram como um GPS contra derrocada,

difíceis ninhos escondidos pelos cantos.


Na cozinha um calor do fogão a lenha,

panelas pretas perfumavam a casinha.

Assava bolo de fubá vindo da azenha, ²

a farofa de ovos com a pura farinha.


Assim como pintinhos dos ovos nascem,

a vida lá na roça era belo aprendizado,

como quebrar cascas encontrar o além,

um menino pela simplicidade moldado.




Esta figura da Avó teria de constar desta "Quinzena do amor". E vi a oportunidade neste poema publicado há poucos dias pelo amigo Toninho. Identifico-me com muitas das memórias que ele traz e, assim, fui ao seu blogue buscar esta preciosidade. 




O Sítio da Vovó
Sandy e Junior






O blog: Mineirinho



Quinzena do Amor

Post 1-Só o amor; Post 2-Alastrar Paz e Amor; Post 3-Ouça as vozesPost 4-Estética da Vida; Post 5-Quando o Amor chora de sede; Post 6-Um gosto antigo de alfazema; Post 7-Como nos Prodígios; Post 8-Flora; Post 9-Passei na nossa rua; Post 10-O Amor na sua Plenitude; Post 11-Se eu tivesse coragem; Post 12-Poesia é Amor;Post 13-Sobram as mãos/Sóbran las manos; Post 14- Colhi-te; Post 15-Floresça; Post 16-Retrato em Luar; Post 17-Desilusão

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Imagem: Uma homenagem a todas as avós

1, 2 - notas do autor

Poema: resposta ao desafio da Chica:

Botando a cabeça parafuncionar é o desafio da Chica para uma imagem postada no seu blog chicabrincadepoesia, 

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Retrato em Luar


Aqui estão meus olhos nas flores,
meus braços ao longo dos ramos:
e, no vago rumor das fontes,
uma voz de amor que sonhamos.
Cecília Meireles






Descanso meus olhos ávidos

refrescados pelo orvalho

contido nas ramas das flores,

alado nas asas dos pássaros.


Alongo a delicadeza

destes prados em muitos verdes,

sorvo a brisa perfumada,

refaço-me em natureza.


Os instantes se confundem

nas cores que a tudo abrangem.

Deixo-me ficar muda,

falo a voz dos montes.


Aqui, onde murmúrios d'alma

se fazem ouvir mansamente,

crio claro relicário

nessa luz que me revela.




Momento de rara beleza neste poema que fala da comunhão com a natureza, no lugar "onde murmúrios d'alma se fazem ouvir mansamente..." 





Moonlight Sonata
Beethoven







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Imagem: pixabay
In: Dueto Poético: Cecília Meireles e Calu Barros

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Alastrar Paz e Amor

Amor é a flor sem tempo que se 
planta no coração de quem nos cruza a vida.

                                            São Banza 





Semeia, semeador!

Dissemina com carinho, dê tudo de si,

Vai com fé, no intuito de fazer frutificar

Gestos de ternura pelo mundo afora.


Sementes do bem, do zelo,

do Amor puro,

verdadeiro e imortal

são lançadas delicadamente

pelo cultivador dos sonhos.

Avante! Não se desanime.

Deus é sua Força, coragem!


Trabalha, labora, ora, reza,

Incansavelmente,

luta pela boa sementeira,

Outros colherão os frutos do seu fardo.


O Amor lançou

Sementes preciosas em meu coração,

Ninguém vai destruir

o que o meu amado semeou.

Sou solo acolhedor,

fincou em meu solo fértil.

Rosélia Bezerra


Semear o bem na esperança de que frutifique 

e traga boas colheitas.



MADREDEUS
O Pastor



Os blogues: Roselia Bezerra (clique)


***

Quinzena do Amor

Post 1 - Só o amor



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In: No voo da Poesia - Liberdade Poética - de Rosélia Bezerra

Refª 18

Nota: os versos em bold constam do original

Imagem: pixabay

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Todo Caminho

 


Todo caminho da gente é resvaloso.
Mas também, cair não prejudica demais
A gente levanta, a gente sobe, a gente volta!...
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim:
Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,
Sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria,
E ainda mais alegre no meio da tristeza...

Guimarães Rosa



João Guimarães Rosa  (1908-1967) foi um poeta, diplomata, novelista, romancista, contista e médico brasileiro, considerado por muitos o maior escritor brasileiro do século XX e um dos maiores de todos os tempos.





Vi hoje um video no blogue da UJM.
Lembrei-me de pesquisar poemas de Guimarães Rosa,
(aliás, já publicado no Xaile)que muito influenciou Mia Couto, 
como ele próprio diz.

Abraços
Olinda


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Poema : daqui

Imagem: pixabay

domingo, 29 de dezembro de 2024

SONHE

Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida e nela só
se tem uma chance de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que 
aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância 
das pessoas que passam por suas vidas.



Clarice Lispector, nascida Chaya Pinkhasivna Lispector (10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977), foi uma escritora e jornalista brasileira nascida na Ucrânia. Autora de romances, contos e ensaios, é considerada uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX.Sua obra está repleta de cenas cotidianas simples e tramas psicológicas, reputando-se como uma de suas principais características a epifania de personagens comuns em momentos do cotidiano. Quanto às suas identidades nacional e regional, declarava-se brasileira e pernambucana. 
Ver mais aqui




- Raffa - 
A vida é um Rio

***

Sonhemos com um mundo melhor e façamos 
a nossa parte para que tal aconteça.

Olinda


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poema: daqui

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Poemas da Fernanda Maria e Rosélia Bezerra

 Inspiração:

Mas a vida, a vida, a vida,

a vida só é possível

reinventada.

Cecília Meireles






A Vida

"A vida, a vida...
tão bela, por vezes tão sofrida."

Na travessia da vida tão bela, imensa,
percorremos alegrias e dores, intensa.
Cada passo, um novo enredo é urdido,
com momentos de riso e choro, vivido.

A vida, a vida...complexo de sinfonias,
com notas suaves, outras tão sombrias.
Reinventá-la? Ah, quem dera pudesse,
não tenho o dom, seria uma benesse.

"A vida, a vida...uma eterna aprendizagem."







Palavras sensatas

Nos jardins de areia, caminho feliz,
colho um buquê de flores de espuma,
ainda quero da vida tão querida,
respondo a cada dia como me condiz.

O autoconhecimento me faz saber
quem sou eu, aonde vou, de onde vim,
abro portas do meu ser a enriquecer,
não deixo brechas de invasões em mim.

Fendas de desilusão querem me deter,
compadeço-me pela própria sensatez,
o instante existe, tenho meta, sou poeta,
com alegria e tristeza, na terna fluidez.

Torno eterno o vivido, creio no céu,
encontro de almas afins, não ao léu,
Até lá, palavras são ditas com amor,
sinto em cada uma delas o sabor.




Este é o 4º livro publicado em parceria por estas duas amigas, intitulado, neste caso, Inspirações Poéticas nos Poetas Consagrados. Todos os poemas constam do Blogue "Entre Nós". 

O Prefácio esteve a cargo do amigo e escritor Toninho Bira, que fala desta amizade e talento que levam a Fernanda e a Rosélia a unirem-se numa só voz. E vê-se que a distância não é problema. 
Os poemas ora publicados encontram-se nas páginas 64 a 67. 

Desejo que o Ano de 2025 vos traga muitas Felicidades.

Parabéns minhas amigas!



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Imagens: Pixabay

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Nascemos, imensamente

 



POEMA DE NATAL

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.




Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes (Rio de Janeiro19 de outubro de 1913 – Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980), mais conhecido como Vinicius de Moraes, foi um poetadramaturgojornalistadiplomatacantor e compositor brasileiro.
Mais aqui... 


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Poema daqui
imagem: pixabay

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Cantiga quase de roda



Na roda do mundo
lá vai o menino.
O mundo é tão grande
e os homens tão sós.
De pena, o menino
começa a cantar.
(Cantigas afastam
as coisas escuras.)
Mãos dadas aos homens,
lá vai o menino,
na roda da vida
rodando e cantando.
A seu lado, há muitos
que cantam também:
cantigas de escárnio
e de maldizer.
Mas como ele sabe
que os homens, embora
se façam de fortes,
se façam de grandes,
no fundo carecem
de aurora e de infância
— então ele canta
cantigas de roda
e às vezes inventa
algumas — mas sempre
de amor ou
de amigo.
Cantigas que tornem
a vida mais doce
e mais brando o peso
das sombras que o tempo
derrama, derrama
na fronte dos homens.
Na roda do mundo
lá vai o menino,
rodando e cantando
seu canto de infância.
Pois sabe que os homens
embora se façam
de graves, de fortes,
no fundo carecem
de claras cantigas
— senão ficam ocos,
senão endoidecem.
E então ele segue
cantando de bosques,
de rosas e de anjos,
de anéis e cirandas,
de nuvens e pássaros,
de sanchas senhoras
cobertas de prata,
de barcas celestes
caídas no mar.
Na roda do mundo,
mãos dadas aos homens,
lá vai o menino
rodando e cantando
cantigas que façam
o mundo mais manso
cantigas que façam
a vida mais justa,
cantigas que façam
os homens mais crianças.”

THIAGO DE MELLO

***

Amadeu Thiago de Mello (1926 - 2022) foi um poetajornalista e tradutor brasileiro. Foi considerado um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional. (...) Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem, onde o poeta chama a atenção do leitor para os valores simples da natureza humana-

Foi membro da Academia Amazonense de Letras, na cadeira nº 29, eleito em 20 de janeiro de 1955, na sucessão de Vivaldo Lima, e recebido em 15 de março de 1956, pelo acadêmico Djalma Batista.
Mais aqui



E..

lá vai o menino
rodando e cantando
cantigas que façam
o mundo mais manso
cantigas que façam
a vida mais justa,
cantigas que façam
os homens mais crianças.



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Poema: daqui
O dia 20 de Novembro foi institucionalizado como Dia Internacional dos Direitos da Criança.
Veja:
Declaração Universal dos Direitos da Criança
Convenção sobre os Direitos da Criança

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

A Vida Oblíqua





A vida oblíqua é muito íntima. Não digo mais sobre essa intimidade para não ferir o pensar-sentir com palavras secas. Para deixar esse oblíquo na sua independência desenvolta.
E conheço também um modo de vida que é suave orgulho, graça de movimentos, frustração leve e contínua, de uma habilidade de esquivança que vem de longo caminho antigo. Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica. Tem um lado da vida que é como no inverno tomar café num terraço dentro da friagem e aconchegada na lã.
Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante, levitação e sonhos no dia aberto: vivo a riqueza da terra.

(excerto)

Clarice Lispector, 
in 'Água Viva'



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Texto: Citador
Imagem: pixabay