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sábado, 20 de junho de 2026

NÓS






II

Que de fruta! E que fresca e temporã,
Nas duas boas quintas bem muradas,
E que o sol, nos talhões e nas latadas,
Bate de chapa, logo de manhã!

O laranjal de folhas negrejantes,
(Porque os terrenos são resvaladiços)
Desce em socalcos todos os maciços,
Como uma escadaria de gigantes.

Das courelas, que criam cereais,
De que os donos - ainda! - pagam foros,
Dividem-no fechados pitosporos,
Abrigos de raízes verticais.

Ao meio, a casaria branca assenta
À beira da calçada, que divide
Os escuros tomates de pevide,
Da vinha, numa encosta soalhenta!

Entretanto não há maior prazer
Do que, na placidez das duas horas,
Ouvir e ver, entre o chiar das noras,
No largo tanque as bicas a correr!
...




José Joaquim Cesário Verde (1855-1886) foi um poeta português, sendo considerado um dos pioneiros, precursores da poesia que seria feita em Portugal no século XX.

Morto prematuramente, aos 31 anos de tuberculose, foi curta a obra que nos deixou. No entanto, o carácter ousado de uma realismo lírico e prosaico confere à sua poesia importância determinante no contexto da segunda metade do XIX e perspectivando já algumas vertentes da modernidade do XX.
Ver aqui*

No ano seguinte ao da sua morte, Silva Pinto organiza O Livro de Cesário Verde, compilação das suas poesias publicada em 1901.
(tenho um exemplar)


***


Bom fim-de-semana, amigos.
Abraços.
Olinda





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Do poema "NÓS" 1884 - extenso.(refere-se à história da família, inclusivamente no que diz respeito à tuberculose que ceifou a vida a uma irmã e a um irmão)
* 9. Pequeno Livro - Brevíssima portuguesa



segunda-feira, 8 de junho de 2026

Contemplação

 




Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre idéias e espíritos pairando...

Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existências...
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando...

E d'entre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais...
É a queixa, o profundíssimo gemido

Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só pressentido...

Antero de Quental
in "Sonetos"


Antero Tarquínio de Quental (1842-891) foi um escritor e poeta português oitocentista que desempenhou relevante papel no movimento da Geração de 70. 



A Carta encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, será hoje apresentada.na Feira do Livro, em Lisboa.

Abraços, amigos.
Olinda

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Imagens:pixabay

terça-feira, 5 de maio de 2026

Se eu pudesse trincar a terra toda






Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...



Planeta Terra ou terra terra? Sempre me intrigou a interpretação deste Poema de Alberto Caeiro. Sendo um heterónimo criado por Fernando Pessoa, com as características próprias de Guardador de Rebanhos deduzo que seja terra terra. Mas nem sempre pensei assim...tendia mais a ver a Terra na sua globalidade.

Contudo, lá volto eu aos pensamentos antigos e hoje Dia Mundial da Língua Portuguesa, publico de novo este poema do nosso homem das sensações.

No Brasil, muito antes deste dia ser estabelecido para todos os países lusófonos, já o Dia Nacional da Língua Portuguesa vigorava desde 5 de Novembro de 2006.  Não nos esqueçamos que a maior parte dos falantes da Língua Portuguesa provém do Brasil.


***

Embora não seja feriado por cá, aproveitemos para fazer boas e proveitosas leituras.

Abraços
Olinda


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7-3-1914

“O Guardador de Rebanhos”. Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luís de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946.

  - 45.
In: Arquivo Pessoa
Publicado aqui no Xaile de Seda

domingo, 3 de maio de 2026

mil estrelas no colo





mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.

eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são

todas as estrelas que existem.

in "A casa, a escuridão"




A todas as mães que por aqui passarem.

Beijos 
Olinda



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imagens: pixabay

sábado, 25 de abril de 2026

Pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos

 ...

sempre defendi que a primeira obrigação da polícia consiste em tornar-se desejada como fomos desejados quando em janeiro de mil novecentos e sessenta e um os bundi-bângalas se recusaram às colheitas, assaltaram cantinas, destruíram senzalas, vagueavam nos trilhos, presentes mesmo se não estavam, ausentes se estavam e nunca tendo estado logo que recolhemos à cidade, a aviação se foi embora e deslocámos para a Baixa do Cassanje, a fim de recuperar o algodão, jingas e tchoués com garantia de trabalho, alojamento e paga que cumprimos mesmo que os padres sustentassem maldosamente que não cumpríamos pelo simples facto de os indígenas gastarem sem prudência demasiado peixe seco, demasiada mandioca, demasiado tabaco na venda, peixe seco, mandioca e tabaco que os padres, sem noção do preço das coisas, acusavam de ser demasiado caros do mesmo modo que nos acusavam injustamente de praticarmos uma espécie capciosa de escravatura, peixe seco, mandioca e tabaco que se comprometiam a pagar na safra seguinte e na seguinte e na seguinte aumentando a dívida em lugar de a amortizarem e enredando-se numa teia de compromissos comerciais (...)

António Lobo Antunes, O Esplendor de Portugal, pgs 307 e 308

No jeito peculiar da escrita deste autor, falecido recentemente, temos uma pequena mostra da situação que levaria à revolta dos camponeses da Companhia Geral dos Algodões de Angola (COTONANG), a empresa angolana produtora de algodão, com participação belga, vigente no tempo colonial. 

Essa rebelião, a 4 de Janeiro de 1961, seria o primeiro passo (segundo alguns) para aquela que marcaria o início da guerra de libertação, a 4 de Fevereiro do mesmo ano.





Hoje comemoramos o 52º aniversário da Revolução dos Cravos levada a cabo, a 25 de Abril de 1974, por militares que serviram na Guerra do Ultramar português. Antes desse dia, o Marechal Spínola publicaria a 22 Fevereiro de 1974 o livro "Portugal e o Futuro" em que propunha uma federação entre Portugal e as antigas colónias por ter chegado à conclusão de que a guerra não resolveria nada. Apenas uma solução politica chegaria a bom porto. 

Mas o que pretendiam os colonizados era uma Liberdade Plena, sem amarras, tornando-se donos das suas terras e dos seus destinos.

E é isso que temos a dita de comemorar nesta data para além da libertação do povo português, das suas ideias, liberto da polícia política que entravava tudo não só por cá como em todo o espaço dito português. 

Pelo sonho é que vamos, como diria Sebastião da Gama. 
O sonho e a realidade a acordar-nos do torpor destes dias de chumbo que vivemos. Cada tempo tem o seu louco. 


Abraços, meus amigos.
Olinda


===
Nota:
a "voz" do excerto refere-se a alguém que chefiava a polícia na Baixa de Cassange,
Angola: Revolta da Baixa de Cassange - aqui

quinta-feira, 23 de abril de 2026

LER

 Seguindo as sugestões do "Horas extraordinárias", delas faço eco e transcrevo um pouco do que nos dizem:

Em Espanha, especialmente em Barcelona, esta data, conhecida por Sant Jordi (dia de S. Jorge), é uma verdadeira loucura, com as livrarias cheias de gente, bancas de autógrafos por todo o lado, as Ramblas cheias de tendas, flores oferecidas a quem comprar livros. É que, na Catalunha, 23 de Abril é também Dia dos Namorados, e faz parte da tradição oferecer-se um livro e uma rosa a quem se ama... 

aqui


De Shakespeare e Cervantes vem-nos esta data para festejarmos o livro que, como bem sabemos, tem um percurso fantástico. Surgida na Antiguidade a escrita tem como suporte, inicialmente, tabuletas de argila ou de pedra em escrita cuneiforme encontradas na Mesopotâmia. 

Mais tarde surge o papiro, depois o pergaminho... Na Idade Média temos os monges copistas, herdeiros dos escribas egípcios ou dos libraii romanos. A invenção da impressão (Sec.XIV) foi um marco muito importante na evolução do Livro. 

Em 1455 Johannes Gutenberg inventa a imprensa com tipos móveis reutilizáveis e o primeiro livro impresso com essa técnica foi a Bíblia, com uma certa resistência dos monges copistas que, no silêncio dos conventos, desempenhavam a reprodução de livros destinados a uma elite.

Uma das individualidades do inicio da tipografia foi Aldus Manutius*, importante no processo de maturidade do projeto tipográfico, o que hoje chamaríamos de design gráfico ou editorial.

No passado e presentemente, sabemos muito bem a importância do Livro, não saímos de casa sem um debaixo do braço ou na mala. Ajudam-nos a passar o tempo nos consultórios, nas repartições publicas enquanto não nos atendem ao mesmo tempo que nos transmitem conhecimentos. Isto é um bocado redutor pois o papel do Livro abrange muitas áreas da Ciência, da Arte e de tudo o que na Vida interessa. 

Sim, sei, agora há os telemóveis, os computadores e demais tecnologia, enfim, mas isso depende do gosto de cada um.

Aproveito para deixar aqui um poema de:

João Pedro Mésseder (Porto, 1957), nome literário de José António Gomes, é um escritor português..Professor Coordenador de Literatura da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto e investigador integrado do CIPEM / INET-md, é doutor em Literatura Portuguesa do século XX, pela Universidade Nova de Lisboa.


UM LIVRO

Levou-me um livro em viagem
não sei por onde é que andei
Corri o Alasca, o deserto
andei com o sultão no Brunei?
P’ra falar verdade, não sei

Com um livro cruzei o mar,
não sei com quem naveguei.
Com marinheiros, corsários,
tremendo de febres e medo?
P’ra falar verdade não sei.

Um livro levou-me p’ra longe
não sei por onde é que andei.
Por cidades devastadas
no meio da fome e da guerra?
P’ra falar verdade não sei.

Um livro levou-me com ele
até ao coração de alguém
E aí me enamorei –
de uns olhos ou de uns cabelos?
P’ra falar verdade não sei.

Um livro num passe de mágica
tocou-me com o seu feitiço:
Deu-me a paz e deu-me a guerra,
mostrou-me as faces do homem
– porque um livro é tudo isso.

Levou-me um livro com ele
pelo mundo a passear
Não me perdi nem me achei
– porque um livro é afinal…
um pouco da vida, bem sei.

João Pedro Mésseder


***

Boas leituras, amigos.

Abraços

Olinda



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*Xaile de Seda
Livro - aqui
Gutenberg - refª aqui


quarta-feira, 8 de abril de 2026

Impossível é não viver

  Se te quiserem convencer de que é impossível, diz-lhes que impossível é ficares calado, impossível é não teres voz. Temos direito a viver. Acreditamos nessa certeza com todas as forças do nosso corpo e, mais ainda, com todas as forças da nossa vontade. Viver é um verbo enorme, longo. Acreditamos em todo o seu tamanho, não prescindimos de um único passo do seu/nosso caminho. (...)

José Luís Peixoto, in "Abraço"



José Luís Marques Peixoto (1974) é um escritordramaturgo e poeta português, cuja primeira obra foi publicada em 2000. Vencedor de vários prémios como o Prémio José Saramago, as suas obras estão traduzidas em mais de 30 línguas. 

Veja o "O único impossível" aqui.

***

Boa quarta-feira, meus amigos.
Abraços.
Olinda

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Citação: Citador

domingo, 5 de abril de 2026

Feliz Páscoa!

 

Ressurreição de Cristo por Rafael Sanzio
(1499-1502)

Meus amigos,

Desejo-vos uma Páscoa Feliz com a família e que o desejo de renovação nos bafeje a todos.

Um poema de Teixeira de Pascoaes para festejarmos este dia:

Minha aldeia na Páscoa…
Infância, mês de Abril!
Manhã primaveril!
A velha igreja.
Entre as árvores alveja,
Alegre e rumorosa
De povo, luzes, flores…
E, na penumbra dos altares cor-de-rosa .
Rasgados pelo sol os negros véus.
Parece até sorrir a Virgem-Mãe das Dores.
Ressurreição de Deus! (…)
Em pleno azul, erguida
Entre a verde folhagem das uveiras.
Rebrilha a cruz de prata florescida…
Na igreja antiga a rir seu branco riso de cal.
Ébrias de cor, tremulam as bandeiras…
Vede! Jesus lá vai, ao sol de Portugal!
Ei-lo que entra contente nos casais;
E, com amor, visita as rústicas choupanas.
É ele, esse que trouxe aos míseros mortais
As grandes alegrias sobre-humanas.
Lá vai, lá vai, por íngremes caminhos!
Linda manhã, canções de passarinhos!
A campainha toca: Aleluia! Aleluia! (…)
Velhos trabalhadores, por quem sofreu Jesus.
E mães, acalentando os filhos no regaço.
Esperam o COMPASSO…
E, ajoelhando com séria devoção.
Beijam os pés da Cruz.



Teixeira de Pascoaes, pseudónimo literário de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos (1877 -1952), foi um poetaescritor e filósofo português e um dos principais representantes do saudosismo.


***

Abraços.

Olinda


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Poema - daqui

quarta-feira, 25 de março de 2026

A Borbulhar Por Dentro





Soberbo o carvalho e sua fronda -
Soberbo o freixo e sua sombra.
Soberbo o melro a saltar de galho em galho.
Soberano. E negro.

Soberbos os espantados tordos. E meus olhos
Espantados no seu canto.

Soberba a montanha. E a pedra parideira.
E a água fresca a cair da pedra.
Bebida pelos dedos.

Soberba a litania dos insectos. E o sol a pique.
Soberbo o rio. E as coleantes margens.
E o linho na corrente fria
A curtir as mágoas.

Soberbos os dedos tecendo. E as açucenas.
E os bordados. E a toalha alva.
E a mesa do sacrário.

Soberbos os sinos. E missa d'alva. E o menino
A esfregar os olhos. Meigos.
E o restolho. E o trigo.
E o pão ázimo.

Soberba a misteriosa Lua a espreitar furtiva
Amores imaculados. E a dançar soberba
E nua. Uma dança de corpos perdidos
Em seus raios.

Soberbo o dia de ontem. E todas as auroras.
A soberba cálida vida a esgotar-se. Límpida.
Licor ainda.

Soberbo este perfume de ausência.
A arder sem lume.

Soberbo o murmúrio do poeta
A borbulhar por dentro.
E incauto a resguardar-se
No frágil eco
Do poema.




o Poeta insiste amplo e largo e lírico na ambiência dos seus outros livros
 retransportando uma nitidez reconhecível em cada frase quase como se um risco
contínuo atravessasse cada palavra escrita cada respiração por ele e
só por ele presentificada.
Isabel Mendes Ferreira
in:Prefácio

 

Jacques Brel
-La valse à mille temps-




Nota:
Peço desculpas ao Poeta e aos leitores por haver
transcrito apenas a página 11 deixando a página
12 no tinteiro :)
Já corregi o lapso.
Abraços
Olinda


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Poema in: Caligrafia Íntima, pg 11 e 12

domingo, 28 de dezembro de 2025

Poema para Galileo





Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei...Eu sei...
As Margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo de praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que estou a vê-las - ,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo
caindo
caindo
caindo sempre,
e sempre.
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.




Rómulo Vasco da Gama Carvalho (19061997), conhecido pelo seu pseudónimo literário António Gedeão, foi um professor e poeta português.

Pedra Filosofal e Lágrima de Preta são dois dos seus mais célebres poemas.

A data do seu nascimento foi adoptada, em Portugal, em 1996, como Dia Nacional da Cultura Científica

Ler mais aqui.




Pedra filosofal e Menina dos Olhos d' ´
Água

Manuel Freire e Pedro Barroso


Sei, meus amigos. Não é a primeira vez que trago estes dois cantores ao Xaile de Seda e a interpretar estas duas canções. Gosto :)

abraços

Olinda


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Poema - Lusofonia poética
Imagem - pixabay




domingo, 21 de dezembro de 2025

A Festa do Silêncio






Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa,
in "Volante Verde"




António Vítor Ramos Rosa, (1924-2013) foi um poeta, tradutor e 
desenhista português.
...trabalhador das palavras a tempo inteiro. Límpidas, meticulosas, depuradas, "com uma certa força nua", dizia. António Ramos Rosa encontrou na poesia a sua matéria vital, espaço de resistência e sobrevivência que o definia e fixava a um tempo de encantamento e contemplação. Refletir sobre a essência, regressar à natureza e aos elementos mais simples - o ar, a terra, a luz e a água -, fazer do poema uma viagem cósmica, é a marca poética que nos deixou.


***


Notas sobre o Natal, que não tarda.

A primeira celebração do Natal! Sabemos que a origem do primeiro presépio se deve a São Francisco de Assis, em 1223, na pequena aldeia de Greccio, na Itália, com o intuito de que as pessoas pudessem visualizar e compreender o milagre do nascimento de Jesus. Para isso, arranjou uma manjedoura com palha, um boi e um burro, numa cena que mostrava a simplicidade e a humildade do acontecimento.


Em Greccio

Mas a celebração do Natal já vem dos tempos dos primeiros cristãos. Em 25 de Dezembro de 336, aconteceu a primeira celebração do Natal. Os cristãos já celebravam o Natal abertamente desde 313 possibilitada pelo Édito de Milão. O Papa Júlio I (pontificado de 337 a 352) viria a formalizar a data de 25 de Dezembro como sendo a data do nascimento de Jesus, tendo em conta que a data do seu nascimento é desconhecida. 

Inicialmente restrito aos cristãos de Roma, com a oficialização do Cristianismo. Em 529 o imperador Justiniano, do Império Romano do Oriente, declarou a data feriado oficial do império. (Lembremo-nos que o Imperador Constantino converteu-se ao cristianismo em 312 d.C.).

A hipótese que subjaz à adopção do dia 25 de Dezembro como data do nascimento de Jesus apoiara-se em duas razões:

A intenção de substituir o culto do Sol Invictus e as festas da Saturnália por uma festa cristã. Essa cristianização de uma festa pagã, algumas vezes entendida como uma apropriação ilegítima por parte da Igreja Cristã, teria ocorrido no bojo de outras assimilações como os termos e conceitos de “templo”, “basílica”, “pontífice”, “auréola” etc.

Por seu valor metafórico e bíblico que permite reconhecer Jesus como o Messias das Profecias e associá-lo à ideia de "luz do mundo".



Visita ao Sagrado:
Local do nascimento de Jesus


***

Juntemo-nos ao silêncio através da palavra, que António Ramos Rosa nos propõe.

Abraços, amigos.

Olinda


===
Ver António Ramos Rosa aqui, no Xaile de Seda.
Fonte sobre a primeira celebração do Natal: aqui 

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Falavam-me de amor





Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia
in 'O Dilúvio e a Pomba'




Natália de Oliveira Correia (1923 -1993) foi uma escritora e poeta portuguesa, nascida nos Açores.
A obra de Natália Correia estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Durante as décadas de 1950 e 1960, na sua casa reunia-se uma das mais vibrantes tertúlias de Lisboa, onde compareciam as mais destacadas figuras das artes, das letras e da política (oposicionista) portuguesas e também internacionais. A partir de 1971, essas reuniões passaram a ter lugar no bar Botequim. Ficou conhecida pela sua personalidade livre de convenções sociais, vigorosa e polémica, que se reflecte na sua escrita. A sua obra está traduzida em várias línguas.
Ver mais aqui



Medley músicas de Natal nos
Açores






Abraços, amigos.

Olinda





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Imagem: pixabay
Poema _ citador
Veja Natália Correia aqui, no Xaile de Seda

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Terramoto de 1755 - 270 anos (2)

Ainda não acabei de ler o livro. Vou na página 91 das 136 que o compõem. Sempre tive curiosidade em saber mais pormenores sobre esse sismo, ocorrido a 1 de Novembro de 1755. E este autor deu-me essa oportunidade. O livro traz muitos termos técnicos que ficam para quem resolver a lê-lo. Da minha parte aqui vão mais uns apontamentos no que diz respeito ao sofrimento das pessoas, aumentado pelos incêndios que foram a principal causa dos danos materiais, já para não falar dos milhares de volumes perdidos nessa tragédia. A reconstrução de Lisboa, já com o espírito iluminista em evidência, foi de pronto levada a efeito.



Alguns lisboetas estavam em casa, outras nas igrejas, onde se festejava o Dia de todos os Santos. O caos torna difícil o retrato preciso dos fenómenos. Nos palácios, casas e igrejas, desabam paredes. As abóbadas cedem na simetria geométrica e abatem-se sobre as pessoas. O estrondo das derrocadas e dos gritos torna ainda mais difícil a precisão das observações. Os gritos, gemidos e lamentos constam de todos os relatos. O choro e o alarido das crianças causam ainda mais perturbação entre as testemunhas. (...)

A magnitude do colossal sismo acaba de provocar um efeito tremendo no fundo do oceano. A massa de água sobe numa gigantesca escala, cerca de 20 metros, provocando um tsunami transoceânico. A escala da deslocação de água na fonte do do sismo é praticamente inimaginável, um valor estimado em mil biliões de litros. As ondas propagam a energia, a caminho da costa de Portugal, Sul de Espanha e Marrocos. pg 53

Na verdade, o incêndio foi a principal causa dos danos materiais mais profundos e massivos. pg 59

Os historiadores nunca falham em referir a perda de 53 palácios, 60 capelas e 46 conventos. No entanto, nestas salas e corredores habitaram adolescentes angustiados por uma palavra severa do seu primeiro amor, criadas e lavadeiras extenuadas de trabalho alimentando sonhos de vida autónoma, mães inconsoláveis agarradas à almofada onde os filhos deixaram o último suspiro...p.67

Os 55 mil volumes do Conde de Ericeira, as livrarias de vários duques eruditos (tanto o Duque de Lafões como o Marquês de Valença eram cultíssimos leitores de obras clássicas), além das riquíssimas bibliotecas de numerosos conventos. 

Recordar 1755 - André Canhoto Costa


***

Na capa traz esta informação:

Nos 270 anos do Grande Terramoto de Lisboa

QUAKE - Museu do Terramoto de Lisboa


***


Tenham um bom fim de semana, amigos.

Abraços

Olinda


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Terramoto de 1755 - 270 anos (1)

imagem - Net


terça-feira, 25 de novembro de 2025

UM AMOR

 



Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

Nuno Júdice, 
in "A Partilha dos Mitos"




Nuno Manuel Gonçalves Júdice Glória, (1949-2024
foi um ensaístapoeta, ficcionista e professor universitário português.

Reconhecido como um dos maiores nomes da 
poesia contemporânea portuguesa...




Anselmo Ralph
Fim do mundo




Boa semana, amigos.
Abraços
Olinda


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Ver Nuno Júdice aqui, no Xaile
imagem : pixabay

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Junto à água





Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.

Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz da infância, que o teu silêncio me chamasse.

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.






Ala dos Namorados 
Caçador de Sóis
(Nuno Guerreiro)






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In: Manuel António Pina - Poesia, Saudade da Prosa
(uma antologia pessoal) pgs 26 e 27

Vide Manuel António Pina - aqui