2019 - um ano que nos trouxe mais uma vez o espectáculo público, mesmo que ocorrido nos lares, de mulheres maltratadas e mortas, numa sanha quase incompreensível. Não refiro aqui o número das que pereceram, porquanto uma que fosse já representaria uma tragédia.
Encontrei este poema de Edmundo Bettencourt, "Aparição".
Que nos sirva de algum refrigério essas palavras, mas com a consciência de que a mulher é um ser humano com as suas qualidades e defeitos e não há que divinizá-la mas tão-só olhar para ela e reconhecer-lhe o lugar a que tem direito. E à Mulher compete reivindicar esse lugar para si, sem perder as suas próprias características.
Aparição
A mulher que por mim passou na rua, há pouco, foi uma coisa diáfana, gentil, cedo, a pairar na sombra dum jardim com flores, em baixo, ajoelhadas, ao senti-la na altura, e mandando-lhe o aroma em lágrimas, desfeito, para mantê-la em uma nuvem branca... Mulher, coisa diáfana, vaga e bela, sem desenho, logo fluido animando o colo duma nuvem, nuvem, num ápice, trucidada pelo vento!
Edmundo Bettencourt (Funchal, 1899 — Lisboa, 1973) foi um cantor e poeta Português notavelmente conhecido por interpretar a Canção de Coimbra e pelo seu papel determinante na introdução de temas populares neste género musical. Notabilizou-se pela composição musical "Saudades de Coimbra" a qual é ainda hoje uma referência da música portuguesa universitária ...daqui
Desejo-vos, meus amigos, uma boa passagem de ano e que 2020 nos traga mais tolerância e compreensão em relação aos nossos semelhantes.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade; Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente?
É uma coisa relativa ao passado e ao futuro. É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem. Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema. Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar nelas como coisas. Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar. Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia vê-las, apenas vê-las; Vê-las até não poder pensar nelas, Vê-las sem tempo, nem espaço, Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê. É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.
Alberto Caeiro, heterónimo criado por Fernando Pessoa, sendo considerado o Mestre Ingénuo dos heterónimos Álvaro de Campos e Ricardo Reis e também de seu próprio autor, Fernando Pessoa. É um poeta de completa simplicidade, e considera que a sensação é a única realidade. Suas principais obras são O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos. aqui Descrito pelo heterónimo Álvaro de Campos assim: "Vejo-o diante de mim, vê-lo-ei talvez eternamente como primeiro o vi. Primeiro, os olhos azuis de criança que não têm medo; depois, os malares já um pouco salientes, a cor um pouco pálida, e o estranho ar grego, que vinha de dentro e era uma calma, e não de fora, porque não era expressão nem feições. O cabelo, quase abundante, era louro, mas, se faltava luz, acastanhava-se. A estatura era média, tendendo para mais alta, mas curvada, sem ombros altos. O gesto era branco, o sorriso era como era, a voz era igual, lançada num tom de quem não procura senão dizer o que está dizendo-nem alta, nem baixa, clara, livre de intenções, de hesitações, de timidezas. O olhar azul não sabia deixar de fitar. Se a nossa observação estranhava qualquer coisa, encontrava-a: a testa, sem ser alta, era poderosamente branca. Repito: era pela sua brancura, que parecia maior que a da cara pálida, que tinha majestade. As mãos um pouco delgadas, mas não muito; a palma era larga. A expressão da boca, a última coisa em que se reparava — como se falar fosse, para este homem, menos que existir — era a de um sorriso como o que se atribui em verso às coisas inanimadas belas, só porque nos agradam — flores, campos largos, águas com sol — um sorriso de existir, e não de nos falar." aqui
Mas o negro sacudiu a cabeça e recuou um passo. Vendo-o retrair-se o português, para voltar a estabelecer a confiança, começou a cantar e a dançar. O outro, com grandes saltos, cantos e risos, seguiu o seu exemplo. Em frente um do outro bailaram algum tempo. Mas no ardor do baile e da mímica Pero Dias, ergueu no ar a sua espada, que faiscou ao sol. O brilho assustou o nativo, que deu um pulo para trás e estremeceu. Pero fez um gesto para o sossegar. Mas o outro começou a fugir, e o navegador precipitou-se no seu encalce e agarrou-o por um braço. Vendo-se preso, o negro principiou a debater-se, primeiro com susto, depois com fúria. Com gritos roucos e sílabas guturais respondia às palavras e aos gestos que o tentavam apaziguar. Ao longe, no mar, os companheiros de Pero Dias avistaram a luta e principiaram a remar para a praia.
O negro viu-os aproximarem-se, julgou-se cercado e perdido e apontou a sua lança. Pero Dias com a espada tentou aparar o golpe mas ambos caíram trespassados. Os portugueses saltaram do batel e correram para os corpos estendidos. Do peito do negro e do branco corriam dois fios de sangue.
Olhem - disse um moço -, o sangue deles é exactamente da mesma cor.
De bordo veio o capitão com mais gente e todos durante uma hora choraram o triste combate. *
SOPHIA, também contista, autora de livros infantis...
Mãe, de que cor é o sangue deles? - perguntou-me a pequenina, curiosa nos seus quatro aninhos, apontando para dois jovens negros, entregues à conversa, no seu idioma natal. Estávamos completamente comprimidas na parte da frente do autocarro, de tão cheio, e, para a proteger dos apertos das pessoas que iam entrando tinha-a colocado na parte destinada aos volumes, que estava livre (não sei se os autocarros, actualmente, ainda têm essa parte). Procurando não elevar a voz respondi-lhe: É como o de toda a gente. Ela, para ter a certeza: Vermelho?
Dela herdei "O Cavaleiro da Dinamarca", cuja leitura lhe fora indicada na escola. Hoje** peguei nele e abri-o precisamente na página que acabo de transcrever, donde sobressai a importância dos usos e costumes para cada um de nós, do nosso espaço vital, da realidade nossa e a do outro, independentemente do nosso aspecto exterior. Também relevante o facto de que nem tudo poderá ser percebido correctamente se não dominarmos a mesma língua ou linguagem e, mesmo tendo essa raiz, o que dizemos poderá não chegar ao nosso interlocutor com a clareza desejada.
Daí que, seja em que contexto flor, a palavra bem falada, bem escrita, bem explicada, bem transmitida, é fundamental. Há que distinguir dessa abordagem clean a linguagem poética, a qual convoca universos diferentes dos do nosso quotidiano. E ainda que nos transmita realidades com as quais nos identificamos, ela encontra-se num nível em que são permitidas figuras de estilo e estas poderão conduzir-nos a uma interpretação mais de conformidade com as nossas próprias vivências. E os gestos? Temos um ditado que diz: O gesto é tudo! Mas nem sempre. Vimos a sua trágica insuficiência bem representada no texto acima...
Por outro lado, há o gesto em sentido figurado, estilizado, o de boa vontade, o de boa-fé, que poderá desimpedir um mundo imenso de desconfianças e mal-entendidos, tanto socialmente como no complicado mundo da política, sem esquecer a diplomacia. Um bom diplomata pode evitar uma guerra. Importância nem sempre conhecida ou reconhecida.
Voltaremos aos gestos e a outras línguas e linguagens, numa dinâmica surpreendente, mas que são do conhecimento de todos nós.
Brevemente.
Eugénio Tavares, Sãozinha Fonseca,
a Ilha da Brava
Boa quinta-feira, meus amigos.
Abraço
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** Há três dias.
*Excerto:
Sophia de Mello Breyner Andresen
in: O Cavaleiro da Dinamarca - páginas 55/56
Obra incluída no Plano Nacional de Leitura
Sinopse
No regresso de uma longa peregrinação à Palestina, o Cavaleiro tem apenas um desejo: voltar a casa a tempo de celebrar o Natal com a sua família. Nessa viagem, maravilha-se com as cidades de Veneza e Florença, e ouve histórias espantosas sobre pintores, poetas e navegadores. São muitas as dificuldades com que se depara, mas uma força inabalável parece ajudá-lo a passar essa noite tão especial com aqueles que mais ama…
São, por vezes, compassivos os deuses E, em seu arbítrio, permitem a glória de seu rosto. E sonhos de Eternidade... Incautos então os homens se incendeiam Fogos-fátuos de intenso brilho a atravessar O Universo. E a arder em Desejo fugidio. E se esgotam em inútil bater de asas. E nesse percurso de solidão e morte talvez Um acaso de cor, ou um som inesperado, Ou um clarão intenso, sejam lenitivo. Ou sejam queda. Ou novo ritmo. E regresso ao barro. E talvez os deuses ignorem... E o delírio passageiro se erga e ganhe forma Inesperada. E Eros reine (breve que seja). E amor seja florescência consumada. E o sonho expluda. E as estrelas se percam Em fantasmagórico bailado. MANUEL VEIGA in: Caligrafia Íntima pg.58
Como preferir, Caro Poeta, determinado Poema seu em relação a outro ou outros também seus? Impossível! Assim, há que lê-los, apreciá-los e, num dia em que sentimos que nos falta algo, abrir um dos seus livros e apenas interiorizar aquele que aparecer. Acaso? Obra desses deuses compassivos, por vezes, e noutras jogando aos dados? Que importa? Deixemos então que o sonho expluda e as estrelas se percam em fantasmagórico bailado.
Meus amigos:
Deixo-vos este belo Poema de Manuel Veiga ao mesmo tempo que vos desejo a continuação de um bom fim-de-semana.
Vem-me lembranças doutro Tempo azul Que me oscilava entre véus de tule - Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa. Então os meus sentidos eram côres, Nasciam num jardim as minhas ansias, Havia na minh'alma Outras distancias - Distancias que o segui-las era flôres... Caía Ouro se pensava Estrelas, O luar batia sobre o meu alhear-me... Noites-lagôas, como éreis belas Sob terraços-liz de recordar-me!... Idade acorde d'Inter sonho e Lua,
Onde as horas corriam sempre jade, Onde a neblina era uma saudade, E a luz - anseios de Princesa nua...
Balaústres de som, arcos de Amar, Pontes de brilho, ogivas de perfume... Dominio inexprimivel d'Ópio e lume Que nunca mais, em côr, hei de habitar...
Tapêtes doutras Persias mais Oriente... Cortinados de Chinas mais marfim... Aureos Templos de ritos de setim... Fontes correndo sombra, mansamente...
Zimbórios-panthéons de nostalgias... Catedrais de ser-Eu por sobre o mar... Escadas de honra, escadas só, ao ar... Novas Byzancios-alma, outras Turquias...
Lembranças fluidas... cinza de brocado... Irrealidade anil que em mim ondeia... - Ao meu redór eu sou Rei exilado, Vagabundo dum sonho de sereia... Mário de Sá-Carneiro
(1890-1916)
Mário de Sá-Carneiro, foi um poeta português da primeira Geração Modernista, também conhecida como "Geração do Orpheu". Sua obra ocupa lugar de destaque na literatura portuguesa...Ler mais: aqui ==== Citador in 'Indícios de Oiro' Orpheu nº 1 Imagem: daqui
Benignos os deuses que derramam Sua majestade no coração dos homens E dulcificam tempestades No fogo dos poetas. Néscios os homens que caminham rente Aos pés e de olhar perdido: Receiam a nuvem E gota de luz. E gemem as dores E funestas danças no corpo interdito De auroras negras. Liberdade é esta chama. Que almeja A inquietação dos anjos E o seio do barro redentor. E se glorifica eterna Na fusão do sonho E mágoa. Manuel Veiga in Perfil dos Dias pg.100 Ler Perfil dos Dias, o mais recente livro de Poesia de Manuel Veiga, é deveras um exercício de pertença. Nesse percurso, assinalam-se os poemas nossos preferidos para, a seguir, voltar ao princípio porque afinal são esses e mais outros e assim sucessivamente acabando, nós, por perfilhá-los a todos. Então, porquê a escolha de "Liberdade é esta chama..." e não outro, nesta nossa publicação de hoje?
Estes versos: Liberdade é esta chama.Que almeja/A inquietação dos anjos/E o seio do barro redentor, e todos os outros que compõem o poema, não poderiam, quanto a nós, definir com maior acuidade esse valor por que todos ansiamos, aflorando o fogo interior que nos anima e a nossa condição humana. E nesse lume redentor marcamos encontro esconjurando as nossas fraquezas e fantasmas.
Conhecendo um pouco da obra de Manuel Veiga, julgamos ver neste livro uma deliciosa contenção, quiçá, uma bem alojada maturação de ideias e de sentires. Os poemas grandiloquentes, que amamos, de palavras que desafiam os deuses, cantam Helenas e Lydias, louvam montanhas e declives, água e febre, em que, por vezes, o Poeta (perdoe-nos esta interpretação), ombreando com essa força divina lança raios e coriscos, em rasgos de puro talento,- dão lugar no presente livro a um olhar mais intimista e humanizado. Com efeito, surgem os chamados Poemas Mínimos dos quais colhemos mensagens inteiras e também aqueles em que o Poeta se recolhe e mostra mais de si, como em Inamovível Pedra, Sou Pedra Rústica, Sei que passo, Fio de prumo e outros, não deixando de lado Regresso(s), poema de uma doçura imensa.
Do Autor, assinalamos ainda: "Do Amor e da Guerra - Fragmentos", editora Modocromia, 2018. "Caligrafia Íntima", Poética Edições, 2017 "Do Esplendor das Coisas Possíveis", Poética Edições, 2016 "Notícias de Babilónia e Outras Metáforas", editora Modocromia, 2015. "Poemas Cativos", Poética Editora, 2014. O Blog: Relógio de Pêndulo .
NOTA: Num próximo post apresentaremos um Apontamento sobre o "Do Amor e da Guerra - Fragmentos".
Ela pega no livro de poemas e começa a ler. Entrementes, distrai-se e inconscientemente o seu pensamento voa para longe e ensaia palavras quase sem nexo: "A outra parte de mim gerada num dia de graça no cimo de alta montanha, enfeitada de coroa de louros, lira pura não dedilhada: Onde estará? Ansiará por mim?" Recolhe-se por momentos. Lá fora os sons da noite, ténues, num rumorejar fazem dançar o silêncio. Com as mãos cheias de nadaagarra a viola e toca a misteriosa música que os búzios transportam desde a noite dos tempos. O livro abandonado ganha vida, de novo.
ENTRE CADÊNCIAS
Adormeço entre a bigorna e a cadência dos relâmpagos. Escavo o minério por entre os ramos despenhados da ausência
O ritmo partiu-se no ar e levanto o rosto de encontro ao fogo quebrado e cego
Hoje não dançaremos a noite Sou um barco melancólico entre as dunas do silêncio
ÚLTIMO SILÊNCIO
Queria morrer numa praia desassombradamente livre morrer sentindo morrer o grito da gaivota -
Ana Pinto é artista plástica, abrangendo as áreas de pintura sobre tela, ilustração e cerâmica.Como tal está representada em várias colecções particulares em Portugal e no estrangeiro. Escreve poesia desde muito jovem. Em 2004 foi galardoada com o prémio Revelação em Poesia, pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) e pelo Instituto Português do livro (IPLB), com o livro “ O pólen do silêncio”. A sua escrita, de diversas temáticas, incide também em temas clássicos e mitológicos.
O ser humano busca nas artes a forma de exprimir os seus sentimentos, sonhos, anseios, desejos. Vemos isso na pintura, na escultura, na música, na dança, no teatro e em tantas outras actividades. Assim a Literatura, essa manifestação artística maior que, através do verso e da prosa, procura explicar o nosso mundo, o mundo das sensações, das emoções.É o sítio onde marcamos encontro, tomando contacto com a nossa condição humana, um lugar onde autores e leitores comungam do poder das palavras, a matéria prima moldada, cinzelada pelo talento e prenhe de significações. Cada um de nós aproveitará esse manancial, representado pelos textos literários, de conformidade com a sua sensibilidade e as suas necessidades.
Tem sido colocada a questão sobre a responsabilidade dos obreiros da Literatura de produzir textos que respondam ou não a questões da sua época ou, ainda com um sentido lato, que atravessem o próprio tempo tornando-se quase eternos.
Vejamos o que tem a dizer José Régio sobre o assunto, na sua qualidade de historiador da Literatura:
Penso eu que a literatura pode responder a interrogações, pode tentar responder-lhes, pode simplesmente pô-las e pode nem sequer pô-las. Há a contar com a variedade dos temperamentos literários. Coisa difícil, sei-o por experiência própria, embora deva estar na base de qualquer atitude crítica. Aceitemos, porém, que toda a grande literatura põe interrogações, e lhes procura resposta. Pergunto: Não poderá admitir-se que seja antes às interrogações eternas do homem eterno que a literatura procura responder? Não envelhecerá uma obra de arte precisamente na medida em que só responde às inquietações de uma época? E não perdurará na medida em que, através, ou não, de respostas provisórias a interrogações provisórias, sugere uma resposta eterna a interrogações eternas, exprime inquietações eternas embora de forma pessoal? Entendamo-nos: Há quem, no homem, antes considere o homem eterno, e quem antes considere o homem temporal. O leitor compreende que chamo homem eterno ao que, no homem, permanece através da diversidade das épocas, dos meios, das circunstâncias históricas, das modalidades individuais; e que chamo homem temporal ao que nele depende destas coisas. Evidentemente, o homem que através da literatura se nos revela é, ao mesmo tempo, um e outro: o temporal e o eterno. Mas a questão é esta: Será antes pelo que nos revela do homem temporal que uma obra dura por humana - ou antes pelo que nos revela do homem eterno? Duram as tragédias de Shakespeare, ou as comédias de Molière, antes pelo que nos mostram do homem do tempo de Shakespeare e Molière, ou antes pelo que nos mostram do homem de sempre?
Diz Rodrigues Miguéis: «Uma literatura que não responde às interrogações da sua época - pelo menos - está condenada ao esquecimento.» Ora aquele importante "pelo menos" ao mesmo tempo salva e embrulha tudo nesta frase dúbia. Tal como está expresso, o pensamento de Rodrigues Miguéis é o seguinte: uma literatura, para viver, deve responder às interrogações que o homem se põe. Em primeiro lugar (parece) às eternas interrogações do homem de sempre; pois em não respondendo a estas, deverá responder, pelo menos, às da sua época.
Ecce Homo: José Régio (1901-1969), ou José Maria dos Reis Pereira,o autor do Cântico Negro, poema lapidarde que apenas retemos, por vezes, os versos considerados mais emblemáticos:
"Ninguém me diga: vem por aqui"!
...Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!",
poema esse incluído em Poemas de Deus e do Diabo. Na sua escrita as Palavras parecem ganhar força anímica, a marca desse grande escritor, poeta, dramaturgo, romancista, novelista, contista, ensaísta, cronista, crítico, autor de diário, memorialista, epistológrafo e historiador da literatura. aqui
As que procurei em vão, principalmente as que estiveram muito perto, como uma respiração, e não reconheci, ou desistiram e partiram para sempre, deixando no poema uma espécie de mágoa como uma marca de água impresente; as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te nem foram capazes de dizer-me; as que calei por serem muito cedo, e as que calei por serem muito tarde, e agora, sem tempo, me ardem; as que troquei por outras (como poderei esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?); as que perdi, verbos e substantivos de que por um momento foi feito o mundo e se foram levando o mundo. E também aquelas que ficaram, por cansaço, por inércia, por acaso, e com quem agora, como velhos amantes sem desejo, desfio memórias, as minhas últimas palavras.
Manuel António Pina (Sabugal, 18 de novembro de 1943 — Porto, 19 de outubro de 2012) foi um jornalista e escritor português, premiado em 2011 com o Prémio Camões. A obra de Manuel António Pina incidiu principalmente na poesia e na literatura infanto-juvenil embora tenha escrito também diversas peças de teatro e de obras de ficção e crónica. Algumas dessas obras foram adaptadas ao cinema e televisão e editadas em disco. A sua obra se difundiu em países como França (Francês e Corso), Estados Unidos, Espanha (Espanhol, Galego e Catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária. aqui Em 2005, em 9 de maio, foi feito Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.
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Poema - daqui In: Todas as Palavras-Poesia reunida
Imagem - daqui
Quase acreditámos na luz rodopiando as sombras para tornar transparente a maciez do húmus preso à torrente das chuvas. Pressentíamos que qualquer coisa de comovente se alojava no brilho da folhagem atravessada pelo perfil das aves migratórias. Sempre soubemos que há rosas que se desfolham antes de alguém as ver derramando um leve aroma sobre o delírio da cor para deslumbramento das borboletas. Nunca se repete, sempre soubemos, a curva do tempo na concha do olhar. Graça Pires in: Uma vara de medir o sol pg.48 Querida Graça Mais uma vez na sua seara, onde gosto de descansar a vista e alimentar o espírito. Obrigada. Bj ==== Título do post - retirado do primeiro verso Ortografia do olhar - Blogue da autora Imagem - daqui
Ela veio passar a Páscoa connosco e resolveu ficar mais uns dias dizendo-me: Como amanhã é feriado vou na sexta-feira à tarde, descanso no fim-de-semana e na segunda-feira vou ao hospital saber dos meus exames. Assim foi. Nesses dias demos pequenos passeios, devagar, conversando e chegou a dizer-me: Ultimamente tenho-me cansado ao fazer pequenas caminhadas. Mas aqui não me tem acontecido. Nas nossas conversas íamos recordando o seu/nosso percurso e dizia-me: Acompanhaste-me toda a vida. E eu a ela: Ou foste tu que me acompanhaste toda a vida.Lembras-te de quando mudámos de casa e vieste connosco?Claro, como havia de me esquecer? Sempre tomaste conta de mim. Tenho marido (o teu irmão), tenho filhos, tenho muitos irmãos, mas tu é que carregaste comigo ao colo, passaste horas e horas nos hospitais enquanto eu era submetida a inúmeras intervenções cirúrgicas, enfim, estiveste sempre presente. Ela expressava a dor quando a sentia, mas tinha um espírito alegre que quem a visse não diria que padecia de uma doença auto-imune, altamente incapacitante em termos vasculares. Há oito dias não me passaria pela cabeça estar a fazer este post, embora já o pudesse ter feito, para falar um pouco da Arterite de Takayasu. Mas a vida é tão frágil, não sabemos o momento em que ela se escoa, deixando-nos impotentes. E isso aconteceu. Assim, sem mais.
Teve dois filhos quando lhe diziam que não podia tê-los.
Dedico-lhe o poema que se segue, homenageando a mãe incansável e amorosa que foi:
Mãe
Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade. Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital. Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos. Vejo-te menina e noiva, vejo-te mãe mulher de trabalho Sempre frágil e forte. Quantos problemas enfrentaste, Quantas aflições! Sempre uma força te erguia vertical, sempre o alento da tua fé, o prodigioso alento a que se chama Deus. Que existe porque tu o amas, tu o desejas. Deus alimenta-te e inunda a tua fragilidade. E assim estás no meio do amor como o centro da rosa. Essa ânsia de amor de toda a tua vida é uma onda incandescente. Com o teu amor humano e divino quero fundir o diamante do fogo universal.
Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade. Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital. Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos. Vejo-te menina e noiva, vejo-te mãe mulher de trabalho Sempre frágil e forte. Quantos problemas enfrentaste, Quantas aflições! Sempre uma força te erguia vertical, sempre o alento da tua fé, o prodigioso alento a que se chama Deus. Que existe porque tu o amas, tu o desejas. Deus alimenta-te e inunda a tua fragilidade. E assim estás no meio do amor como o centro da rosa. Essa ânsia de amor de toda a tua vida é uma onda incandescente. Com o teu amor humano e divino quero fundir o diamante do fogo universal. António Ramos Rosa, (1924-2013)
Benditas as Mães que cumprem até ao fim a sua missão - cuidar, proteger, amar.
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Poema - Citador
Imagem - daqui
video - youtube - Rick e Renner - Mãe