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quarta-feira, 25 de março de 2026

A Borbulhar Por Dentro





Soberbo o carvalho e sua fronda -
Soberbo o freixo e sua sombra.
Soberbo o melro a saltar de galho em galho.
Soberano. E negro.

Soberbos os espantados tordos. E meus olhos
Espantados no seu canto.

Soberba a montanha. E a pedra parideira.
E a água fresca a cair da pedra.
Bebida pelos dedos.

Soberba a litania dos insectos. E o sol a pique.
Soberbo o rio. E as coleantes margens.
E o linho na corrente fria
A curtir as mágoas.

Soberbos os dedos tecendo. E as açucenas.
E os bordados. E a toalha alva.
E a mesa do sacrário.

Soberbos os sinos. E missa d'alva. E o menino
A esfregar os olhos. Meigos.
E o restolho. E o trigo.
E o pão ázimo.

Soberba a misteriosa Lua a espreitar furtiva
Amores imaculados. E a dançar soberba
E nua. Uma dança de corpos perdidos
Em seus raios.

Soberbo o dia de ontem. E todas as auroras.
A soberba cálida vida a esgotar-se. Límpida.
Licor ainda.

Soberbo este perfume de ausência.
A arder sem lume.

Soberbo o murmúrio do poeta
A borbulhar por dentro.
E incauto a resguardar-se
No frágil eco
Do poema.




o Poeta insiste amplo e largo e lírico na ambiência dos seus outros livros
 retransportando uma nitidez reconhecível em cada frase quase como se um risco
contínuo atravessasse cada palavra escrita cada respiração por ele e
só por ele presentificada.
Isabel Mendes Ferreira
in:Prefácio

 

Jacques Brel
-La valse à mille temps-




Nota:
Peço desculpas ao Poeta e aos leitores por haver
transcrito apenas a página 11 deixando a página
12 no tinteiro :)
Já corregi o lapso.
Abraços
Olinda


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Poema in: Caligrafia Íntima, pg 11 e 12

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Que desabrochem flores...

 Havia em Babilónia uma canção. Tão prenhe de memória que explodia em multidões...

Um dia, alquebrados, mas vivos, os babilónios ocuparam a rua. Com fome de pão e de Futuro. E abarrotaram avenidas e praças, num coro de estrofes e emoções...

Hammurabi, o legislador, cofia a barba: há que subir o pré aos generais.

Chegou tarde, porém - os generais estão indignados...

Dizem alguns que os Escribas estão a mudar de campo. E relatam...


**

Um poeta cego e semilouco exclama: que desabrochem flores na ponta dos sabres!...

In: Notícias de Babilónia e outras metáforas, pg 95, de Manuel Veiga


O autor entende a crise racionalmente, mas sente-a emocionalmente. É sobretudo um criador de poesia, da qual não se desembaraça nestes textos. As suas metáforas políticas, quase sempre amargas, constituem, de alguma forma, insurgências de uma zombaria ancestral, com que a arraia-miúda se vingava dos desmandos dos poderosos. Outras vezes, os textos ecoam uma plangência dorida e esperançosa, como gestos solidários que se expõem desamparados ao leitor (…) do prefácio de António Bica João Corregedor




***




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Imagens: net

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Cítara de teus dedos





Que a cítara em teus dedos se desdobre
Nos sentidos em mim despertos...

E dos sons longínquos
Apenas eco e murmúrio e dor da ausência
Seja em minha boca o brado

E a bruma se desvaneça
E tudo seja claro...

Que peregrino por ti
Me reconheço. E outra eternidade
Não quero...

In Coreografia dos sentidos
pg 92





...
uma coreografia de autor em que se reconhece o caminho já andado, mas onde a montanha se faz vale, ou seja, acolhe-se num múltiplo eu em busca do outro.

o que em Manuel Veiga é um destino sem cenários vagos.

tudo o absorve tudo lhe é pródigo e prece.
...

Isabel Mendes Ferreira




Nat King cole
Unforgettable







***




Boa semana, amigos.

Abraços.
Olinda


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Alguns posts aqui no Xaile de Seda, sobre Manuel Veiga
Imagem: Pixabay

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Rasgões da alma




Desdobra-se a mesa e a toalha alva

Como se o tempo fosse agora vivo e a memória

O gesto perturbado acariciando a pele macerada

Dos finados...

E nesta ausência se despenhasse

A cúpula emoldurada dos dias pregoeiros...


Respondem à chamada um a um em volta

Da azulada luz

Quais inesperados fulgores que medeiam o frio

E a chama e os clarões acesos como rasgões de alma

Em sintonias ancestrais outrora latejantes

Como arados galgando terra chã...


Vergo-me, perante os mortos. E ergo-me.

Que a hora é de bençãos. E de tecer liames.

Como se meu corpo fosse passagem

Ou ponte entre margens.

Ou inscrição. Ou barro amassado.

Ou casulo que guarda os ténues fios...


E minhas mãos fossem cadinho. Ou pedra de ara.

Ou exorcismo marcando os sinais. E meus olhos

Fossem guarida e lume.


E meu sangue fosse pasto:

Carne da minha carne

E grito da Humanidade...


Manuel Veiga


***


O blog: Relógio de Pêndulo


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In: Do esplendor das coisas possíveis, Abril 2016

Pg.49

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Um gosto antigo de alfazema


O amor quando se instala nos corações humanos, 
deixa tudo mais lindo e feliz. 
E nada tão bom como os sentimentos 
de compaixão e de gratidão!




Arde no ar um gosto antigo de alfazema

E o fio dos dias suspenso agora. Apenas

A festiva alfazema. E o corredor do tempo.

E as maçãs emolduradas. E as uvas

Bago a bago. E o riso em bocas pregoeiras...


Outonais os dias embalsamados em colcha

Domingueira. E a linha do teu corpo

Debruada por meus dedos no vazio dessa ausência.

E os seios tão tenros - que ainda queimam.

Açucenas sobre o feno...


A saia é vórtice. Esplendor na relva.

Voando. Que corpo se inflama ainda.

E o mar é teu joelho. E absoluto barco

Singrando em meus olhos. Cavaleiro imaculado

Na chama dessa aurora pioneira.


Chama e flor. Pois que em ti declino o lume

Dos dias e o tempo de outras margens:

Miragem sobre mim descendo.

Manuel Veiga


Chama e flor. E o cheiro a alfazema e 

toda a natureza em festa. 

Assim, o amor.




Marcus Viana 

Sinfonia dos Sonhos



O blog: Relógio de Pêndulo



Quinzena do Amor

Post 1-Só o amor; Post 2-Alastrar Paz e Amor; Post 3-Ouça as vozesPost 4-Estética da Vida; Post 5-Quando o Amor chora de sede


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In: Do esplendor das coisas possíveis, de Manuel Veiga

Pg. 32

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Perfume De Um Tempo Breve




Cálida a tarde assim tecida
Seda e linho.

Urdidura de gestos delicados
A soletrar as margens
Reflexo debruado de um rio-outro
A derramar-se por dentro.

Amável o percurso das palavras
Fios de prata e lume
Em que nos dizemos.
Tempo e Modo
Da vertigem.

E em que colhemos
A urgência da Hora.

E soletramos a brisa apressada
E o perfume de um tempo breve.

Manuel Veiga
In: Perfil dos Dias
Pg.44




Mercedes Sosa,
Chico Buarque, Caetano Veloso,
Milton Nascimento e Gal Costa -
Volver a los 17



Blogue do autor: Relógio de Pêndulo


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Imagem: pixabay




quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Primavera lá e Outono cá

 


Flor do Campo


Que linda é a Primavera,
Flores de todas as Cores
embelezam a nossa vida
e tornam-nos venturosos.

❤Olinda❤

Assim, uma quadra simplezinha, faltou-me referir o Regador que devia levar cheiinho de amor e carinho mas subentende-se, não é? Já andava meio perturbada com problemas de saúde...

A nossa amiga Rosélia Bezerra festejou a chegada da Primavera em grande estilo, convidando os seus leitores a contribuírem com uma quadra relacionada com essa linda estação do ano. O Regador era figura fundamental nessa comemoração, transformando em jardineiros aplicados os leitores dos seus blogues.

Como é hábito, houve lugar às Ressonâncias com um belo texto no Espiritual-Idade, no qual foram incluídas na perfeição palavras das referidas quadras. E que lindas quadras tive a oportunidade de ler. Carregadas de flores, cores, luz, boa vontade, transportes de alma, coração na mão.

  



E nós por cá temos o Outono com as suas cores douradas, árvores que vão atapetando o chão, flores que tomam tonalidades que nos aquecem o coração. E quando chove há um lavar de almas, o vento que afaga os cabelos que são logo protegidos com um capuz de lã quentinha.

E temos as castanhas assadas e nos dias de nevoeiro sentimos o seu cheiro no ar e o aguçar do apetite para no Verão de são Martinho, lá para 11 de Novembro, degustá-las com jeropiga nos magustos que ocorrem por vários lados.


Carlos do Carmo
 O homem das castanhas


Quem quer quentes e boas, quentinhas
A estalarem cinzentas, na brasa
Quem quer quentes e boas, quentinhas
Quem compra leva mais calor para casa





Depois, quando o tempo vai ficando mais frio, o quentinho do lar, à lareira ou com os aparelhos que agora pululam por aí para nos ajudar a passar o tempo invernoso. 

E, claro, sem esquecer aqueles que se encontram em campos de concentração, em campos de guerra que sofrem na pele toda a espécie de intempéries e desgraças.

Numa nota outonal, transcrevo, com muito agrado meu, esta homenagem do nosso Poeta-Pintor, Luís Rodrigues:



Visto-me de Outono
na mais completa nudez
Corro descalço pelo areal
Como se já fosse Primavera


***




E mais:

O dia 12 de Outubro é o Dia do Lançamento do livro de Manuel Veiga, "A Carta que nunca te escreverei". Como devem estar lembrados seguimos os episódios um a um, na escrita empolgante do nosso amigo Poeta/Escritor. (Ver Relógio de Pêndulo)

Não poderei lá estar, mas espero que tenha muito sucesso.


***


De volta, amigos. Ainda um pouco periclitante.
Tenham um bom Outono.
Abraços
Olinda


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imagens : net
O regador trouxe-o do blog da Rosélia, obra da querida amiga Fê.



quarta-feira, 24 de julho de 2024

Uma Gota de Luz





Na voragem do Tempo sem tempo
Aleatório jogo. Ou prenúncio.
Ou movimento incerto -
Ainda não ritmo.
Nem sequer verbo
Mas grito.

Ou apenas soma de acasos.
Ou íntima predestinação de partículas
Conforme suas mútuas
Simpatias. Ou cadinho
Das origens onde

Uma gota de luz tomba
Vertida do Inesperado
E todo o Universo
Se ilumina - matéria viva
Agora.

A poisar na vermelha flor
Que ora te digo. Númen
E nome. E verso
E reverso. E o mesmo sopro
Divino. E o mesmo
Barro.




O tempo é esta circunstância, diz o Poeta, (noutro passo). E, tal como refere Ortega y Gasset "eu sou eu e a minha circunstância", ele posiciona-se atento aos condicionalismos do seu tempo donde extrai o mel e o fel.
A hora é esta//Assim escassa//A morder a orla//Do sonho. 
Uma respiração em que se traduz e se envolve. 
Um desassossego pelo presente e pelo devir.
in:Posfácio 
pg 160





Ain't Got No, I Got Life
Nina Simone




Blogue do Autor:


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26/07

Meus amigos

A partir de hoje, vou estar ausente por 3 dias.

Abraços

Olinda






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Poema
In: Coreografia dos Sentidos
Como se fora invenção minha
Pg.50

Imagem: pixabay

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Favo de Teu Nome




 Amoráveis os dias, assim colhidos

Como pétalas em teu regaço

E a doçura de teus olhos

Onde aportam todas as viagens


Deixemos, sim, que o tempo se faça solstício

E do momento guardemos a doce espera

E o favo de teu nome. E desfolhemos

Os dedos numa carícia breve

Como se fora a brisa

Sobre a pele.

Manuel Veiga

In: Coreografia dos Sentidos
pg.46


Nasceu em Matela, concelho de Vimioso, Trás-os-Montes. É licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. Exerceu advocacia alguns anos no início de carreira, que depois prosseguiu como consultor Jurídico em Municípios da Área Metropolitana de Lisboa e, mais tarde, como Inspetor Superior da Inspeção Geral da Educação, onde desempenhou funções no respetivo Gabinete Jurídico. 
Veja mais aqui, inclusivamente as 
obras publicadas


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Blogue do Autor:




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Imagem: pixabay

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

"3º Encontro Temático de Natal"




Iniciativa do amigo Juvenal Nunes

Tema:

Poema de Natal


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Diz-se que Dezembro é um mês mágico. E é. Sentimos que o amor anda no ar e gostamos de fazer parte dessa grande Festa. 

As notícias que vêm de longe sobre guerras, bombardeamentos, torturas, amarguram-nos. Mas fazemos por aproveitar esses momentos de tréguas, pelo menos para nós, sem esquecer que muitos, pelo mundo, sofrem na carne horrores inomináveis.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, aclamada a 10 de Dezembro de 1948 e a Declaração dos Direitos da Criança, de 20 de Novembro de 1959, estão, em grande medida, esvaziadas de sentido nos tempos que correm.

***

Na Celebração do Nascimento de Jesus, da Liturgia Católica, lembremos as grávidas que nestes dias não conseguem trazer ao mundo os seus filhos, em Paz. Muitos recém-nascidos perecem ou encontram situações adversas, além de nados-mortos, pelas terríveis condições em que nascem.

Por cá, temos o problema dos Hospitais que não funcionam em pleno o que faz com que as mulheres em trabalho de parto sejam transferidas de um lado para o outro, não tendo, clinicamente, a paz necessária para esses momentos tão importantes das suas vidas.

Leiamos este belo Poema de Manuel Veiga

Pensemos que tudo não passa de um suave sortilégio, mas carregado de um travo de amargura:


Suaves Sortilégios

Falam-me estes dias de suaves sortilégios
Quando os olhos sorriam na ternura de um afago
E teu regaço, Mãe, em altar e refrigério...

Não havia profusão de cores. Nem artifício.
Tudo se resumia à singeleza de teus dedos
Ajeitando o musgo sobre a pedra.
E a imaginada gruta onde construías o milagre
Aninhando-se em mim: - Deus menino!...

(Que o outro menino era apenas pretexto.
Natal que tu não sabias, então, Mãe, mas eu sei.
Hoje!...)

E a mãe celeste era a amorável devoção
Com que enfeitavas o caminho. E deitavas
Nas palhinhas o meu olhar deslumbrado
E o doce encantamento...

E a liturgia imaculada do presépio!...
E esta eterna dor da ausência. E tua presença
Iluminada que pressinto em cada passo.


In: Coreografia dos Sentidos
pg 120






Blog do autor:



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BOM NATAL, MEUS AMIGOS.






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Imagens: pixabay
i


sábado, 7 de outubro de 2023

Fio de lume


Que a palavra seja
Assim nua. E raiz. E seiva.

E se erga nas planuras
E no pico mais alto
Das mais altas montanhas

E seja cetim e mel
No dorso das viagens...

E bebedeira de sol
E fio de lume. A bordar a nudez
De tua pele...

Que a palavra em que nos dizemos
Seja solícita. E pródiga.


in: 
Coreografia dos Sentidos
pg 134




E o fogo arde. Inscrições de lume ressaltam e porfiam numa coleante espera, na glorificação dos corpos, cântico de cor e vida, pequena lágrima que tomba, na inquietação das horas, do tempo e da circunstância...
in: posfácio




No Tejo - Setembro 2023



O Blog - Relógio de Pêndulo


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Tenham um bom fim-de-semana, amigos.

Abraços

Olinda


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sexta-feira, 19 de maio de 2023

Clarinho, clarinho...

Um dia, os babilónios levantaram-se do chão, roubaram o fogo dos deuses e gravaram na pedra: - nenhum poder sobre a Terra é superior ao império da Lei...

E, entre eles, nomearam um Conselho de Sábios, para que assim vele...

Hammurabi, o legislador, não se conforma e proclama - Babilónicos, a lei sou eu!...

Obsequioso, o Conselho de Sábios: Grande Hammurabi, teu poder é imenso e sábia a tua lei desde que se conforme com a Lei maior que nós velamos...

E devolve uma, duas, três vezes as leis de Hammurabi. Que agreste barafusta, investindo: aclarem vossas decisões - quando não, serão todos escrutinados!...

E culpa o Conselho de Sábios pelo afundamento do barco...

000

E um velho, cego e dando-se ares de profeta, murmura: clarinho, clarinho que até um cego vê!... E exorta: Babilónicos, não queiram ser escravos, nem bestas - o Povo é quem mais ordena!...

Manuel Veiga, in"Notícias de Babilónia e outras Metáforas"- pg 16


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Que livro é este? Publicado em 2015, ele é composto de textos de crítica político-social nos quais se reconhecem os intervenientes por estarmos a viver, na altura, a realidade neles descrita.

Entre os referidos textos, aparecem estas sátiras, tomando Babilónia, os babilónios e Hammurabi como protagonistas. A cereja no topo do bolo é uma entidade diferente em cada situação que, no fim, profere as suas exortações ou sentenças.

Duro e sem contemplações temos nesta obra um Manuel Veiga
versátil, analisando um dos momentos mais difíceis
 da nossa História, dos últimos tempos.




Presentemente, se não temos crises, inventamo-las. E assim passamos os dias em discussões estéreis, no diz-que-diz, em recriminações, em posturas deprimentes de personalidades institucionais que deviam estar a trabalhar para o bem comum.

Bom fim de semana, meus amigos.

Abraços.

Olinda 


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Imagem:
"Os Jardins Suspensos da Babilónia"...
nunca foram encontradas evidências arqueológicas 
irrefutáveis de sua existência.Daqui


domingo, 9 de abril de 2023

Lídia/Lydia

 

Sofro, Lídia, do medo do destino. [1]

Sofro, Lídia, do medo do destino.

Qualquer pequena cousa de onde pode

Brotar uma ordem nova em minha vida,

        Lídia, me aterra.

Qualquer cousa, qual seja, que transforme

Meu plano curso de existência, embora

Para melhores cousas o transforme,

        Por transformar

Odeio, e não o quero. Os deuses dessem

Que ininterrupta minha vida fosse

Uma planície sem relevos, indo

        Até ao fim.

A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca

Amor ou justa estima dessem-me outros,

Basta que a vida seja só a vida

        E que eu a viva.

Sofro, Lídia, do medo do destino. [2]

Sofro, Lídia, do medo do destino.

A leve pedra que um momento ergue

As lisas rodas do meu carro, aterra

        Meu coração.

Tudo quanto me ameace de mudar-me

Para melhor que seja, odeio e fujo.

Deixem-me os deuses minha vida sempre

        Sem renovar

Meus dias, mas que um passe e outro passe

Ficando eu sempre quase o mesmo, indo

Para a velhice como um dia entra

        No anoitecer.













BRISA DE VERÃO

“Deixemos, Lydia, a ciência que não põe
Mais flores do que Flora pelos campos,
Nem dá de Apolo ao carro
Outro curso que Apolo...”

Ricardo Reis – in Obra de Fernando Pessoa.
Ed. - Assírio&Alvim

......................................................

Se como Lydia viesses cobrir meu rosto
Com o perfume de teus cabelos...

E como rosa abrupta
Te abrisses ao mistério de meus dedos...

Se meus olhos
Abrasassem como o sol da tua boca...

Se o grito e o mel povoassem meu deserto
Na glória de teu corpo...

Lírios em círio acesos
Luziriam no altar de meu desejo

E rosas e lírios te daria
Nas rosas e nos lírios que não ouso...
....................................................

Enfim, brisa de Verão. A que não resisto...


No blog - em 22/06/2009


BORDADO DE TEUS DEDOS

Benignos são os deuses e serenas as águas
Depois de os rios transbordarem.
Aceitemos, por isso, Lydia, o destino
Das coisas perecíveis.
Sem indagar da Mentira
Ou da Verdade
A distância.

Apenas o perfume
E a glória de ser…

E sejamos!... Entre o espinho
E a rosa apenas um suspiro breve
E o devir do tempo. E o fluir leve
De nossos passos.

E o bordado de teus dedos
Entrelaçados. A desenharem sinfonias
E afagos. Harpejo de poeta
Soltando maduros bagos e
Pétalas no carmim
De teus lábios…

Manuel Veiga

No blog - 09/01/2021



Dois tempos, dois Poetas, e a inspiração em alta. Ricardo Reis
com a sua Lídia aqui num tom sofrido...

Manuel Veiga parafraseia-o e recria Lydia e dá um tom outro à palavra. 
Conta com os deuses, mas nem sempre, e leva-a à beira-rio 
e canta o seu amor. Deparamo-nos com essa personagem não só nos seus livros, 
mas também esparsamente. 

Em "Caligrafia Íntima" encontramos nada mais nada menos do que 
cinco poemas "Em Louvor de Lydia", com a indicação de que a mesma é 
uma criação de Ricardo Reis, indicação essa que o autor tem o cuidado de repetir sempre que produz um poema que lhe é dedicado. 


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FELIZ PÁSCOA

Abraços 

Olinda



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Poema 1
26-5-1917

Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) 

Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. 

 - 80.
Poema 2
11-8-1918

Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) 

Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. 

 - 80a.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Que germinem rosas




Que germinem rosas. E as palavras sejam
Aquelas que o momento pede
E de tão puras se desfolhem
Pelas ruas.

E sejam eco
E cristal

Agora tombado sobre a mesa
E o vinho azedo.

Marginal a vida
Que outra glória busca o fogo.
Mais que arder
Alimentar
O cântico

In: Coreografia dos Sentidos, 2021
pg.80



Do Autor, assinalo ainda:

"Perfil dos Dias", editora Modocromia, 2019
"Do Amor e da Guerra - Fragmentos", editora Modocromia, 2018.
"Caligrafia Íntima", Poética Edições, 2017
"Do Esplendor das Coisas Possíveis", Poética Edições, 2016
"Notícias de Babilónia e Outras Metáforas", editora Modocromia, 2015.
"Poemas Cativos", Poética Editora, 2014.

Ver biografia aqui


O Blog: Relógio de Pêndulo

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Imagem: pixabay