a leitura dos dias faz-se a partir de vitrais de água
e sombra de palavras
paisagens cidades descobertas algures sobre os dedos
estrangulados na incerteza mineral da noite
onde o cansaço me devora impedindo-me de prosseguir
e ao aproximar-me do centro vertiginoso da página
o movimento da mão torna-se lento e a caligrafia meticulosa
a sede devassa a escassez dos corpos
o monólogo embate
despenha-se pelas brancas margens da desolação
o enigma de escrever para me manter vivo
a memória desaguando a pouco e pouco no esquecimento perfeito
para que nada sobreviva fora deste corpo viandante
vou assinalar os percursos da ausência e as visões
doutros lugares de sossegados amarantos...alimentar a escrita
com o sangue de cidades e de facas engorduradas
onde os corpos adquirem a violência noctívaga da fala
desfazendo-se depois na carícia viscosa dos néons
mas existe sempre um qualquer lume eterno
um coração feliz à esquina dos sonhos
surge o deserto que toda a noite procurei
está em cima desta mesa de trabalho no meio de palavras
donde nascem indecifráveis sinais...irrompe
o movimento doutro corpo colado ao aparo da caneta
desprende-se da folha de papel agride-me e foge
deixando-me as mãos tolhidas num fio de tinta
In 'O Medo'
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Alberto Raposo Pidwell Tavares, (1948-1997) um meteoro na poesia portuguesa do século XX. De formação artística, desenho, pintura.Um expatriado voluntário fixando-se em Bruxelas e um viajante (Sardenha, Córsega, Sicília, Grécia, Málaga, Catalunha e Amesterdão). Escreve em francês. Assume-se como autor de textos literários. Regressa definitivamente em 1975 a Portugal e escreve o seu primeiro livro em português: À Procura do Vento num Jardim d'Agosto. Morreu vítima de cancro, no dia 13 de Junho de 1997. Meses antes, no Coliseu dos Recreios (Lisboa), tinha anunciado esse dia: "caminho com os braços levantados, e com a ponta dos dedos acendo o firmamento da alma/ espero que o vento passe... escuro, lento, então, entrarei nele, cintilante, leve... e desapareço."
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Deixo-vos com Al Berto. Um poeta intenso. Deste seu poema destaco estes versos e faço-os meus:
mas existe sempre um qualquer lume eterno
um coração feliz à esquina dos sonhos
Da minha parte, procurarei dobrar essa esquina e ombrear com os meus sonhos. Será importante concretizá-los? Não sei. Enquanto sonhos alimentam-nos e levam-nos sempre com o espírito alto, olhando mais e mais além...
É onde reside a grandeza dos poetas. A partir das suas criações poderemos recriar mil e uma situações, interpretações, adaptações. E está tudo ali ao nosso dispor.
E já chove. Também faz falta, não é?
Abraço
Olinda