sábado, 5 de março de 2011

TEMPOS (i)

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O tempo das esperas, de deixar amadurecer uma notícia, de chorar por causa de uma catástrofe, de um cataclismo, já lá vai. Agora tudo se sabe a cada minuto, praticamente antes de acontecer, privando o nosso espírito do seu poder de assimilação. 

Estamos a anos-luz da sucessão paulatina dos dias e das noites, de ver o tempo nas estrelas, na Via Láctea ou Estrada de Santiago, de contemplar a lua e saber que vai chover, do esvoaçar dos pássaros quando o vento se avizinha. E a anos-luz estamos do tempo dos mensageiros que percorriam grandes distâncias e chegados ao destino sucumbiam exauridos; dos dias e dias, meses, anos que duravam as viagens antes e depois do tempo das catedrais e do cantochão; do tempo dos peregrinos, do caminho das florestas que continha perigos de toda a espécie; do mar de ondas alterosas e monstros que alimentavam a imaginação das gentes.

Caminhando em direcção ao futuro a forma de comunicar foi sendo aperfeiçoada: correio expresso, estradas, veículos de tracção animal, automóveis, aviões supersónicos, naves espaciais, que sais-je?, o mundo é hoje uma coisa só. Da nossa casa, sentados a uma secretária, deitados, de uma bóia na piscina, de um banco de jardim, no mar, a sulcar os céus, podemos decidir do destino das nações, das pessoas, da guerra, da paz. As ferramentas electrónicas de hoje facilitam-nos a vida até ao inconcebível; tanto podemos combinar encontros amorosos, manifestações cívicas como engendrar revoluções... E nem precisamos ser especialistas, é tudo na óptica do utilizador e à distância de um clique. 

Ao mesmo tempo, através dessas estradas as ideias são veículadas, o pensamento filósofico como medida de todas as coisas sofistica-se, a evolução em termos conceptuais e abstractas afirma-se cada vez mais e já há alguma dúvida se estaremos ainda, integralmente, no tempo do homo sapiens sapiens ou se haverá já, de entre nós, um grupo que se destacará não tarda nada.

Contudo, pobres de nós, com os neurónios concentrados na nossa faceta de Indivíduo Sentado estamos a perder a habilidade de sobreviver em contacto com a natureza. No nosso código genético estará inscrito que fazemos parte integrante dela e antes de nos distanciarmos irremediavelmente dos outros  primatas teríamos tido a noção disso. 

Mas, bem no nosso íntimo vamos sentindo o apelo da selva. Não poucas vezes bate em nós aquela sede de aventura.Então resolvemos dar asas a essa condição, fazemos um pique-nique ou acampamos, acendemos uma fogueira, descuidamo-nos e incendiamos tudo; sentamo-nos numa escarpa em frente ao mar, com saudades indefiníveis, contemplando a linha do horizonte, na conversa com amigos, vêm ondas e levam-nos; aproximamo-nos de uma ribanceira muitas vezes de um precipício para olhar lá para baixo, numa curiosidade incompreensível ou não, e escorregamos. Mais ainda, metemo-nos em mares e rios cujos perigos não conhecemos e desaparecemos.

E isto repete-se todos os anos, sempre que o tempo se torna mais ameno, lá vamos nós perecer numa atitude inglória e fatalista.

Il faut cultiver notre jardin.


Imagem Google

6 comentários:

  1. Excelente texto. É um retrato fiel do que somos e para onde vamos. As tecnologias tomaram conta das nossas vidas. Parece que elas nos dominam em vez de ser ao contrário.

    Realmente o ser humano está a caminhar na direcção errada. Precisamos de nos olhar mais nos olhos, sentir o outro para que a frieza de teclados e monitores não endureçam o nosso coração.

    Isabel

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  2. Amiga excelente post como sempre. Vamos evoluindo por um lado e regredindo por outro. Temos alta tecnologia sim, mas vemos a violência aumentar em número e agressividade, vemos o homem a afastar-se cada vez mais da natureza e dos seus semelhantes. Por vezes sinto que infelizmente caminhamos para um mundo cada vez mais frio em sentimentos e atitudes.
    Tenha um maravilhoso fim de semana, pleno de alegria, paz e harmonia.
    Beijinhos
    Maria

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  3. Texto de grande qualidade, como sempre! A voragem do tempo está a tomar conta de nós. O futuro já corre que nem um tresloucado no nosso presente. A veriginosa evolução da tecnologia consome-nos até às entranhas. Já não sabemos usufruir serenamente os milagres diários da natureza. Nunca a frase "Il faut cultiver notre jardin" se revelou tão apropriada.
    Um grande abraço.

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  4. Olá, Isabel (anónimo)

    Obrigada pela visita e pelas palavras.
    Volte sempre.
    Abraço
    Olinda

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  5. Obrigada, Maria.
    Também lhe desejo um fim de semana com tudo de bom para si e para a família.
    Beijinhos
    Olinda

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  6. Olá, Isabel

    Sim, voltar às coisas boas e simples da vida aliadas ao que o progresso nos oferece seria o ideal.
    Já estive a dar uma olhadela ao seu último post. Para já, devo dizer, os flamingos sempre me enterneceram, com aquele porte elegante e ar de que tudo é etéreo.Voltarei para comentar o texto.
    Um grande abraço
    Olinda

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