Tenho estado a ler alguns livros de Philippa Gregory sobre a "Guerra das Rosas", de 1455 a 1487, entre a Casa Lencastre e a Casa de York, uma guerra feroz entre primos. Tratando-se de uma aristocracia terra-tenente, o objectivo maior era deixar herdeiros, prometendo em casamento meninos e meninas no sentido de juntar casas e fortunas. Assim, o importante era ascender ao trono e permanecer ali e se necessário mandar decapitar familiares e amigos que tentassem impedir esse estado de coisas, no seu próprio interesse, como é evidente.
O penúltimo romance que li foi "A Rainha Branca", referente à flor branca dos York. A esposa de Eduardo IV de nome Isabel Woodville, era tida como bruxa dizendo-se que o seu poder lhe vinha de Melusina, personagem da lenda e folclore europeus, um espírito feminino das águas doces em rios e fontes sagradas. Ela é geralmente representada como uma mulher que é uma serpente ou peixe (ao estilo das sereias), da cintura para baixo.
Consta que, a beira do rio Tamisa, Isabel Woodville e a mãe, Jacquetta de Luxemburgo, lançariam pragas para que Melusina produzisse tempestades no sentido de que a parte contrária não pudesse avançar com as suas tropas.
Posto isto, chamou-me a atenção a notícia de que um documentário da autoria de Melanie Pereira ganhara o prémio de grande vencedor do 21º festival de cinema DocLisboa, em 2023, com este título: "As Melusinas à Margem do rio".
Esse documentário nada tem a ver com a Guerra das Rosas, mas sim com Melusina e o rio e sobre o fenómeno da imigração. Fala da história de cinco mulheres, reflectindo sobre identidades fragmentadas e sentimentos de não pertença: Ana-Filipa, Melina, shanila, Amela, e a própria realizadora, Melanie, nascidas em Luxemburgo de pais imigrados. A finalidade do filme é, precisamente, tentar uma reconciliação com o país que as viu nascer. Contudo, no trailer diz-se que o que é fragmentado não tem reconstituição possível.
Eis uma passagem do referido documentário:
Há também algo de profundamente terapêutico na forma como Melanie Pereira, se aproxima das suas amigas: Ana Filipa, Melina, Shanila e Amelia. As conversas que partilham não têm pressa. São feitas de pausas, de memórias familiares, de perguntas difíceis como “De onde és, afinal?”. O que para muitos é uma pergunta banal, mas para elas é um poço sem fundo. “As Melusinas à Margem do Rio” não procura respostas fáceis. Antes, tenta habitar o desconforto, o desenraizamento, a sensação de nunca se ser “de lá”, mesmo quando se nasceu lá. A segurança económica e o conforto social do Luxemburgo não apagam o sentimento de exclusão cultural. E é nesse desfasamento que nasce a dor, mas também a arte e a simplicidade da realizadora.
Transpus a similaridade deste caso para outros que conheço, de filhos de imigrantes que nascem em países que não os dos pais e que lutam toda a vida com essa diferença.
Um exemplo flagrante, mal estudado, é o caso dos filhos dos europeus que vieram de África, os chamados retornados, que nunca se integraram verdadeiramente e os filhos dos africanos que carregam nas costas a marca desse estrangeirismo.
O papel do documentário referido acima é deveras importante porque foca esse sentimento de não pertença. Filhos sem terra, quase expatriados, que não pertencem a lado nenhum, que tentam construir uma vida baseada no trabalho, na integração social e política e que nem sempre se sentem realizados.
Abraços, amigos.
Olinda
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Imagem: pixabay
Embora o documentário se refira a Luxemburgo, em homenagem aos livros de Philippa Gregory optei pela imagem acima. Isabel Woodville esteve muito tempo refugiada com os seus filhos, na Abadia de Westminster.
Ver aqui "As Melusinas à Margem do Rio - Análise / Uma história de sereias reais".
Uma história muito interessante.
ResponderEliminarQuanto aos desenraizados também se pode ver de outro ângulo.
Herdaram o melhor dos dois lados, são mais ricos por isso!
Abraço
Olá, querida amiga Olinda!
ResponderEliminarUm texto onde muitos de nós nos encaixamos:
"As conversas que partilham não têm pressa. São feitas de pausas, de memórias familiares, de perguntas difíceis como “De onde és, afinal?”."
Aqui me vejo também.
Quem sai do lugar que nasceu e vive bem distante... tem ânsia de momentos assim...
Não se agarra a lugar algum.
Sente-se um pouco sem raiz...
Tenho a nitida sensação de nunca ter sido de lá... mesmo tendo morando 18 anos "lá".
O mínimo que se pode almejar é ter uma boa acolhida onde se está encaixado no tempo atual.
Ainda existe bairrismo, divisão de quem não é da terra dentro de um próprio país. Que dirá de nações diferentes?
Uma excelente matéria bem atual.
Tenha dias abençoados!
Beijinhos fraternos
Importante e interessante tema desse documentário tão bem apresentado aqui por ti, Olinda! Lindo fds!
ResponderEliminarbeijos, chica
Um verdadeiro Ensaio sobre o assunto.
ResponderEliminarUm abraço.
Muito interessante, confesso que não conhecia...
ResponderEliminarBjxxx,
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Olá, amiga Olinda
ResponderEliminarMuito interessante e oportuno texto. Principalmente nesta altura que a imigração está nos holofotes de todos.
Uma excelente partilha, estimada amiga.
Gostei de ler.
Deixo os votos de um bom fim de semana, com tudo de bom.
Beijinhos, com carinho e amizade.
Mário Margaride
http://poesiaaquiesta.blogspot.com
https://soltaastuaspalavras.blogspot.com
Oi Olinda
ResponderEliminarJá estive lendo algo sobre a série da "A Rainha Branca' e a Guerra das Rosas, um conflito entre a Casa de York e Lencastre com foco na plebeia Elizabeth Woodville e sua trajetória com intrigas e traições e o desparecimento dos príncipes na Torre de Londres. Sobre as 'Melusinas' acreditavam que era um ser etéreo que transitava entre o humano e o sobrenatural .Se verídico ou não, pouco se sabe. rsrs Não consegui seguir o link , até abre ,com empecilhos para a leitura . Obrigada Olinda, um documentário bem incomum como sempre trazes para nós.. Seu texto nos dá uma boa noção desse imbróglio . Boas leituras, amiga.
Olá, Olinda.
ResponderEliminarMuito interessante seu texto. A guerra das Rosas, os tratos entre famílias nobres para manter suas coroas e fortunas , e a questão da imigração que hoje é um assunto que está na pauta.
Temos no Brasil muitos filhos de imigrantes europeus, asiáticos, africanos que nasceram aqui mas ao que parece, esses filhos se adaptaram bem ao Brasil. Aqui temos em uma mesma rua de comércio muito conhecida no centro da cidade, árabes, turcos, libaneses trabalhando ao lado de judeus. Temos muitos filhos de pais imigrantes japoneses bem aculturados ao país. Quase metade da nossa população é preta ou parda. Por isso me causa tanto espanto quando alguns dizem que no Brasil há "racismo estrutural" - tese que eu não concordo. Racismo, certamente há, mas nunca institucionalizamos o racismo como por exemplo, aconteceu nos EUA.
Falando em EUA, a atual crise dos imigrantes ilegais está na pauta das discussões. Assim também na Europa onde uma grande leva de imigrantes legais ou ilegais muçulmanos começa a criar tensões religiosas.
Não será algo fácil de ser pacificado.
Interessante também o documentário que você comenta.
"De onde é, afinal?"
ResponderEliminarUma questão pertinente que também me toca pelos meus netos.
A dupla nacionalidade não satisfaz os sentires, mas é um grito pertinente que se fazem.
Luxemburgo, França, Inglaterra... são caminhos demasiados para a Alma da identidade.
Excelente motor de reflexão, este magnífico Post.
Obrigado, Olinda.
Beijo,
SOL da Esteva
Minha amiga Olinda,
ResponderEliminarOscilamos entre a convivência social incompatível e o abandono total; entre o descaso e a solidão.
Vejo claramente, depois da pandemia, que descobrimos que EMPATIA é apenas mais uma palavra no dicionário. Sua representação é puramente literária.
Um abraço e bom fim de semana!!!
Magnífico post! (Sublinho)
ResponderEliminarDiria tanta coisa pessoal...minha querida Olinda!
Um beijo
Olá, querida Olinda, excelente texto no que toca aos imigrantes nos EUA, por exemplo, há barreiras à saúde, trabalho, educação...e estão enviando de volta para seus países de origem.
ResponderEliminarPorém, o que causou grande indignação, foi a maneira que enviaram os imigrantes de volta ao Brasil e com certeza os de outros países. Não aceitável tal desumanidade.
Gostei de ler, amiga, e lembrei disso aqui na hora...
Um beijinho, boa semana, com saúde e muita paz.
Olá, amiga Olinda.
ResponderEliminarPassando por aqui, para desejar uma feliz semana, com tudo de bom.
Beijinhos, com carinho e amizade.
Mário Margaride
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A política sempre foi feita à custa de mortes. No tempo dos faraós matavam-se pais, filhos ou irmãos para chegar ao poder. Hoje, matam-se palestinianos ou ucranianos para tomar conta das terras.
ResponderEliminarOs imigrantes, quando são vistos como invasores, são um problema. E os políticos (alguns) criam essa perceção para ganhar votos com medidas populistas que não fazem sentido (não permitir que as famílias se juntem é um exemplo).
Excelente post, gostei de ler.
Boa semana.
Um abraço.
Um documentário interessante que você trouxe pra nós, Olinda boa semana bjs.
ResponderEliminarA ler um livro histórico. E o resumo que nos faz dele deixa-nos com vontade de o ler. Obrigada, minha Amiga Olinda.
ResponderEliminarUma boa semana.
Um beijo.
Post incrível!
ResponderEliminarBoa semana!
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Até mais, Emerson Garcia
Caríssima Olinda,
ResponderEliminarQue bela partilha, pelo menos para mim que não conhecia a história das Melusinas, menos ainda a "Guerra das Rosas", que durou de 1455 a 1487; não conhecia igualmente o documentário As melusinas à margem do rio, com uma breve crítica cujo link você nos proporcionou para saber um pouco mais sobre o documentário e refletir sobre a questão da imigração que se encontra na pauta de todos, incluídas as nações.
Confesso que o pouco que trouxe do filme me deixou vivamente interessado pelo olhar da documentarista e ficcionista que o texto sobre o filme insinua.
Só para aguçar sua curiosidade, há um lugarzinho chamado Riacho Pequeno, no semiárido pernambucano, na terra da cebola, que quase todos são parentes. Os casamentos foram realizados entre primos e primas. Tendo cuidado de dois ou três livros para esse lugarzinho e quis saber a razão de quase todos carregarem os mesmos sobrenomes.
Eis um breve resumo de um deles sobre esse lugarzinho, tendo sido deixado à margem os casamentos.
Pessoas nascidas no distrito de Riacho Pequeno, que fica no município de Belém do São Francisco, Sertão de Pernambuco, eternizaram as histórias da terra natal em um livro. A obra, intitulada de “Riacho Nosso Chão”, reúne artigos escritos por 21 pessoas que nasceram na comunidade e hoje moram em diversas partes do país.
Riacho Pequeno é uma comunidade simples, com pouco mais de 500 habitantes. No entanto, o local guarda uma rica história. A organizadora do livro, Maria de Lourdes Soares Ornellas, conta como surgiu a ideia de criar a obra. “Em 2017, nós estando lá, reunimos os intelectuais mais presentes e resolvemos fazer um livro para resgatar a memória dessa terra, os costumes, os valores, a fé, as lutas travadas naquele povoado”.
Reitero, Olinda, o agradecimento pela partilha e o seu belo texto!
Tenha uma ótima semana!
Beijinhos,
Interessante postagem, boa e muito oportuna sugestão de conteúdo nesses dias esquisitos pelos quais passamos.
ResponderEliminarUm abraço. Tudo de bom.
APON NA ARTE DA VIDA 💗 Textos para sentir e pensar & Nossos Vídeos no Youtube.
Boa tarde, Olinda, excelente texto. Uma reflexão sobre a imigração, seus prós e seus contras. Muita luz e paz.
ResponderEliminarAdoro essas obras e já as li todas! Foi interessante recordar essa passagem sobre esse velho mito associado à Isabel e à mãe!
ResponderEliminarBjxxx,
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