sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Afinal, o futuro era isto. Não estamos mais sábios, não temos melhores razões.





MORANGOS

No começo do amor, quando as cidades 
nos eram desconhecidas, de que nos serviria 
a certeza da morte se podíamos correr 
de ponta a ponta a veia eléctrica da noite 
e acabar na praia a comer morangos 
ao amanhecer? Diziam-nos que tínham

a vida inteira pela frente. Mas, amigos, 
como pudemos pensar que seria assim 
para sempre? Ou que a música e o desejo 
nos conduziriam de estação em estação 
até ao pleno futuro que julgávamos 

merecer? Afinal, o futuro era isto. 
Não estamos mais sábios, não temos 
melhores razões. Na viagem necessária 
para o escuro, o amor é um passageiro 
ocasional e difícil. E a partir de certa altura 
todas as cidades se parecem. 

in 'Longe da Aldeia' 

Escritor português, Rui Pires Cabral nasceu a 1 de Outubro de 1967 em Chacim, uma pequena aldeia do concelho transmontano de Macedo de Cavaleiros. Cedo abandonou a terra natal para ir estudar num colégio interno em Macedo. Uma parte importante da sua infância foi constituída pelas visitas de veraneio, em férias do internato, a Chacim e a Alvites, um outra aldeia, em Mirandela, onde o seu pai nascera. O contacto que aí foi mantendo com a natureza veio determinar em absoluto o carácter da sua obra. LER MAIS AQUI

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Poema: Citador

Imagem:daqui

9 comentários:

  1. A poesia corre nas veias da noite. E que felicidade aporta! A simplicidade do título deixa adivinhar o tom vigoroso do olhar. E este toque de natural desencanto não permite que se esqueça o sabor dos morangos ao raiar da alva.

    Beijos, querida Olinda.

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  2. Estimada Amiga.
    Bastante melancólico e descrente, ainda assim o poema tem
    ainda a beleza e o brilho iniciático...
    Todos temos fases menos boas, mas a verdade é que ninguém
    gostaria de voltar a ser novo, se perdesse o que aprendeu
    numa vida.
    Gostei de conhecer o autor, grata por compartir.
    Beijinhos
    ~~~~

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  3. Compreende-se o desencanto, amiga Olinda - os morangos perderam o sabor dos "Morangos Silvestres" ...

    e talvez nem sequer haja Futuro e seja apenas um Infinito-Presente que é necessário construir todos os dias!

    fico feliz por ler neste espaço o talentoso Poeta Rui Pires Cabral, que se destaca entre os maiores de uma nova geração de poetas portugueses

    abraço e votos de bom fim de semana

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  4. Um poeta de que nunca tinha ouvido falar.
    Obrigado pela partilha.
    Abraço e bom fim-de-semana

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  5. Bom dia, amiga Olinda!
    Obrigada por me dares a ler versos lindos de um jovem poeta transmontano, que eu desconhecia.
    "Não estamos mais sábios, não temos
    melhores razões."
    Pura verdade, neste tempo de desencanto.
    Beijo e bom domingo.

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  6. Que bonito, não conhecia, gostei de conhecer o autor. Um abraço.

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  7. Muito interessante a reflexão deste poema, querida Olinda!
    Beijinhos, boa semana!

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  8. Rui Pires Cabral é um excelente poeta. Foi tão bom encontrar aqui um poema dele. Um pouco desencantado, é certo, mas teremos razões para ser diferente?
    Uma boa semana, minha Amiga Olinda.
    Um beijo.

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  9. Boa Tarde, querida amiga Olinda!
    Todo sabor que se perde é possível de se reencontrar mais a frente... ultrapassando fases menos boas a consolação virá.
    Uma imagem muito significativa para ilustrar convenientemente o poema postado.
    Deus a abençoe muito!
    Bjm fraterno e carinhoso de paz e bem

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