sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Oh se houvera uma rémora na terra, que tivesse tanta força como a do mar, que menos perigos haveria na vida e que menos naufrágios no mundo

Em contraste com a rémora que 'é freio da nau e leme do leme' Padre António Vieira apresenta no seu sermão aos peixes aqueles que representam os diversos defeitos humanos: os roncadores - soberba e orgulho; os pegadores -parasitas, vivem na dependência dos grandes, morrem com eles; os voadores -presunção, ambição; o polvo-traição, ataca sempre de emboscada porque se disfarça, comparado a Judas. Uma alegoria em que poderia ter-se socorrido de qualquer outro ser ou coisa, interessando apenas fazer passar a mensagem. E a mensagem era apontar os erros dos homens do seu tempo e procurar corrigi-los através das suas críticas e actos.


Homem do Sec. XVII, vivendo no Brasil desde criança, tinha a noção exacta do que se passava por lá em relação aos índios, dos ecos da Inquisição, da perseguição aos Judeus, da escravatura, assuntos que o preocupavam e contra os quais lutou durante a vida. Em Portugal mercê das suas ideias e das suas intervenções foi perseguido, inclusivamente, pela Inquisição.

A obra literária de António Vieira é vasta, assinalando-se em especial os seus sermões. É um caso interessante porque estabelece a ponte entre Portugal e o Brasil, inserindo-se por um lado no estilo barroco europeu e por outro dando início juntamente com Gregório de Matos Guerra a este estilo literário propriamente brasileiro, ainda dentro do género da Literatura Colonial, como nos informa este video.

Dado o seu grande valor como filósofo, escritor e orador, não são precisos pretextos para falar de António Vieira, cujos escritos cheios  de ensinamentos nos colocam questões de uma actualidade impressionante. Mas, por acaso, tenho um outro motivo para o trazer aqui hoje. Trata-se da leitura do 'Sermão de Santo António aos Peixes' por Diogo Infante, primeiro, abrindo em Junho passado o Ciclo de Primavera da Biblioteca Municipal do Porto, depois na Comuna em Lisboa, e a seguir vai dizê-lo em recital, para escolas, a partir do início do próximo ano letivo.




Segundo o actor: À medida que ia lendo o sermão, ia-me surpreendendo com a sua atualidade. É relativamente fácil pensar-se que António Vieira viveu numa sociedade menos evoluída, mas a verdade é que as suas críticas – políticas e sociais – podem ser aplicadas aos políticos e figuras públicas de hoje.

Reconhecendo o valor insofismável de António Vieira, como não podia deixar de ser, tenho, contudo, uma mágoa dele. Contra a escravatura e grande defensor dos índios, não teve esta postura concreta em relação aos negros que eram levados da Mãe-África para os trabalhos escravos no Brasil, nomeadamente, nos Engenhos. Em vez disso, procurou fundamentar a posição da Igreja de que 'a escravidão salva'. Leiam, por favor, esta análise do 'Sermão Décimo Quarto', de Eva Paulino, que versa sobre o assunto. Embora não se deva tomar a parte pelo todo, deixo aqui esta passagem: 


 Assim que Vieira termina de louvar aos negros por sua alta missão como cristãos que serão salvos, ele diz, claramente, que a primeira obrigação que eles têm é de
dar infinitas graças a Deus por vos ter dado conhecimento de si, e por vos ter tirado de vossas terras, onde vossos pais e vós vivêis como gentios; e vos ter trazido a esta, onde instruídos na fé, vivaes como christãos, e vos salveis. (303)
A honra de serem cristãos fica, então, imediatamente ligada ao processo da escravidão. Sem uma, a outra seria impossível. A terra dos escravos, a África, é representada não como o lugar em que os negros eram livres e podiam cultivar suas terras, professar suas próprias crenças. A África se torna toda num continente onde o que os  negros podiam esperar era somente a perdição.

Aceito o contraditório, se for caso disso. :)

E hoje já é sexta-feira. É tempo de vos desejar um bom fim de semana. Parece que o calor vai voltar. Para os amantes da praia, do Sol, do ar livre, que somos todos (ou quase) é uma maravilha.

Abraço

Olinda

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Título: citação retirada de aqui

6 comentários:

  1. Bom dia
    Hoje comecei por aqui e embora esta temática seja já muito debatida parece que os actuais políticos ainda não aprenderam com os erros.
    O Pe António Vieira continua a viver e a falar na actualidade, basta trocarmos as cores e os trabalhos encontraremos a emigração e muitas outras formas de escravatura e exploração dos povos.

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  2. O Padre António Vieira é alguém admirável, que escreve bem e , diz-se, foi um excelente orador.

    Uma pessoa bem adiante do seu tempo e com visão de futuro.

    Por tudo isto, não consigo entender como é que defendendo( e com toda a razão) os índios , achou muito bem que os negros africanos fosssem escravizados!!

    Realmente,o ser humano consegue ter contradições incríveis.

    Quanto à actualidade das críticas, só me faz convencer ainda mais da paragem de Portugal no tempo.

    Boa iniciativa, muito boa mesmo, desse trabalho de Infante nas Escolas.

    Querida Olinda, tenha feliz semana.

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  3. Deve ser maravilhoso ouvir o Diogo Infante lendo coisas do Padre
    António Vieira, que infelizmente muitas estão actuais.
    Bom post.
    Beijinho
    Irene Alves

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  4. O que mais se pode acrescentar, Olinda? Os atenuantes soarão sua maior incongruência, como já bem disseste, o ser humano é muito contraditório!

    Um beijo, querida!

    ;))

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  5. Uma rica postagem! Certas contradições não desmerecem seu valor. Bjs.

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