Ah querem uma luz melhor que a do sol! Querem campos mais verdes que estes! Querem flores mais belas que estas que vejo! A mim este sol, estes campos, estas flores contentam-me. Mas, se acaso me descontento, O que quero é um sol mais sol que o sol, O que quero é campos mais campos que estes prados, O que quero é flores mais estas flores que estas flores — Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!
Aquela coisa que está ali estava mais ali que ali está! Sim, choro às vezes o corpo perfeito que não existe. Mas o corpo perfeito é o corpo mais corpo que pode haver, E o resto são os sonhos dos homens, A miopia de quem vê pouco, E o desejo de estar sentado de quem não sabe estar de pé. Todo o cristianismo é um sonho de cadeiras.
E como a alma é aquilo que não aparece, A alma mais perfeita é aquela que não apareça nunca — A alma que está feita com o corpo O absoluto corpo das coisas, A existência absolutamente real sem sombras nem erros A coincidência exacta (e inteira) de uma coisa consigo mesma.
Ah Alberto Caeiro, dilecto e destacado heterónimo do seu Criador, o que diria se visse agora o nosso Sol obscurecido pelos fumos dos incêndios e os nossos prados e florestas consumidos pelas chamas. E as nossas flores? Onde estarão, delas,
o viço e a cor?
Perante tal desgraça a veia filosófica esconde-se envergonhada, ainda que a filosofia seja a expressão do que acontece na vida.
Mas compreendo-o. O que quer é:
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!
“Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença,
1994.
- 145.1ª versão inc.: Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de de João Gaspar Simões e Luís de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946.
Na "XIII Interação Fraterna", promovida pela amiga Rosélia, em celebração do 13º Aniversário do seu Blogue Espiritual-Idade, foi-nos proposto, pela autora, o "Tema: Sorte ou Benção?", no sentido de o tratarmos segundo o estilo que cada um cultiva no respectivo espaço.
O blogue foi criado na altura do falecimento do seu querido pai, há treze anos. E no Dia dos Pais, no Brasil, homenageou-o com um belo poema do qual extraio os seguintes versos:
Meu pai amado se foi no tempo,
é atemporal em meu coração...
Tem ainda cheiro de humildade no ar
quando se fala dele
ou se pensa nele...
Devo dizer que aceitei com muito prazer o Convite e a minha participação se consubstancia no texto que se encontra abaixo, no qual assinalo momentos da minha vida pessoal.
Um acontecimento aflitivo que, segundo creio, se insere no referido tema:
O imprevisível, o imponderável ... o susto
Tarde calma, uma revista sobre os joelhos ... em conversa com a irmã.
Lá longe notícias arrepiantes da guerra e da fome, na Europa, no Médio Oriente, em África, nas Américas, coisas que nos assombram. No Mediterrâneo, pessoas em fuga que tentam alcançar o El Dorado, a Europa, a nova terra prometida.
E em nossos corações sentimos a dor das gentes que procuram encontrar paz e melhores condições de vida. Na medida do possível tenta-se ajudar, com palavras de ânimo, com bens materiais. Mas essa compaixão, na maior parte das vezes, não sai do conforto do sofá. Sabemos que existe sofrimento atroz lá fora. E compadecemo-nos.
Contudo, isso vai entrando aos poucos na ordem do dia. Os nossos ouvidos habituam-se aos ruídos das notícias, ao palavreado de certos comentadores. E a habituação, esse mal silencioso, instala-se...
...
De repente, toca o telefone. Um grito desgarrado vindo das profundezas do ser desestabiliza tudo, abalando as estruturas das convicções e do deixa andar:
-MÃE!!!
Vai lá a casa com o pai. Os armários da cozinha desabaram da parede, a todo o comprimento.
-E o bebé?!!!
-Não sei, não sei. Vai depressa...
O mundo desabou naquele momento. O espanto, a dor da perda, do imprevisível, do imponderável, numa amálgama. Num instante vê-se tudo de pernas para o ar. E a visão horrível do acidente, perante os olhos.
Numa correria, sem fôlego, subo os dois andares, o pai do pequenino à nossa espera, e ele sentado na cadeirinha com os olhos muito abertos...Tinham estado na cozinha a preparar o lanche momentos antes. E a família em choque, não refeita do susto do que podia ter acontecido.
Pelo chão jazia o monstro que deixava entrever louças partidas, vidros espalhados, micro-ondas retorcido, e tudo o que se possa imaginar, enfim, bens materiais, nada importante.
O bem mais precioso estava são e salvo!
Foi há seis dias.
SORTE OU BÊNÇÃO?
Um MILAGRE, sem dúvida!
Querida Amiga Rosélia
Os meus Parabéns pelo 13º Aniversário do seu Blogue Espiritual-Idade. Que continue a oferecer-nos as suas belas palavras em verso e em prosa.
Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas, Do quotidiano entrincheirado entre compromissos, Das tramas afectivas, do exílio anunciado No andar inquieto das mulheres.
De rosto em rosto, a caligrafia do amor implorou a memória das palavras encantadas e, como se houvesse uma linguagem de atravessar o tempo, acenderam, sobre os dias, constelações sonoras. Mas eu, que não adiro aos calendários nem acredito em vogais prometidas, eu parti, de punhos febris, enlaçando nos braços um futuro marginal, a qualquer lógica.
A posse da noite, onde me quero lua em todas as fases, leva-me a glosar os medos num novelo de rimas imperfeitas. A cidade tem pombas que me perseguem sem eu dar por isso. Tenho um aqueduto modelado nos olhos e um dilúvio vermelho no desenho do peito.
O peso das palavras, aqui, neste belo poema, com o talento e elegância a que nos habituou a querida amiga Graça Pires. Há o quotidiano com as suas pequenas coisas que nos envolvem e fazem condicionar praticamente tudo o resto. E esse resto que é quase tudo leva-nos em viagens de descoberta em descoberta e nos faz sentir e dizer:
Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito.
Graça Pires editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro "Poemas". Depois disso publicou mais de uma dúzia de livros de poesia, muitos dos quais premiados. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Veja mais aqui