sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Ah querem uma luz melhor que a do sol!






Ah querem uma luz melhor que a do sol!
Querem campos mais verdes que estes!
Querem flores mais belas que estas que vejo!
A mim este sol, estes campos, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontento,
O que quero é um sol mais sol que o sol,
O que quero é campos mais campos que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores que estas flores —
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!

Aquela coisa que está ali estava mais ali que ali está!
Sim, choro às vezes o corpo perfeito que não existe.
Mas o corpo perfeito é o corpo mais corpo que pode haver,
E o resto são os sonhos dos homens,
A miopia de quem vê pouco,
E o desejo de estar sentado de quem não sabe estar de pé.
Todo o cristianismo é um sonho de cadeiras.

E como a alma é aquilo que não aparece,

A alma mais perfeita é aquela que não apareça nunca —
A alma que está feita com o corpo
O absoluto corpo das coisas,
A existência absolutamente real sem sombras nem erros
A coincidência exacta (e inteira) de uma coisa consigo mesma.




Ah Alberto Caeiro, dilecto e destacado heterónimo do seu Criador, o que diria se visse agora o nosso Sol obscurecido pelos fumos dos incêndios e os nossos prados e florestas consumidos pelas chamas. E as nossas flores? Onde estarão, delas,
 o viço e a cor?
Perante tal desgraça a veia filosófica esconde-se envergonhada, ainda que a filosofia seja a expressão do que acontece na vida. 

Mas compreendo-o. O que quer é:

Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!



No Teu Poema
Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti
Letra e Música de José Luís Tinoco


E também eu.
Irei em busca desse ideal, pela estrada fora,
lembrando-me agora do poema de Guerra
Junqueiro.

Mas volto em breve. :)

Abraços
Olinda


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Poema daqui
12-4-1919

“Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença,

 

1994.

  - 145.1ª versão inc.: Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de de João Gaspar Simões e Luís de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Sorte ou Benção?



Na "XIII Interação Fraterna", promovida pela amiga Rosélia, em celebração do 13º Aniversário do seu Blogue Espiritual-Idade, foi-nos proposto, pela autora, o "Tema: Sorte ou Benção?", no sentido de o tratarmos segundo o estilo que cada um cultiva no respectivo espaço.

O blogue foi criado na altura do falecimento do seu querido pai, há treze anos. E no Dia dos Pais, no Brasil, homenageou-o com um belo poema do qual extraio os seguintes versos:

Meu pai amado se foi no tempo,
é atemporal em meu coração...

Tem ainda cheiro de humildade no ar
quando se fala dele
ou se pensa nele...


Devo dizer que aceitei com muito prazer o Convite e a minha participação se consubstancia no texto que se encontra abaixo, no qual assinalo momentos da minha vida pessoal. 

Um acontecimento aflitivo que, segundo creio, se insere no referido tema:



O imprevisível, o imponderável ... o susto

Tarde calma, uma revista sobre os joelhos ... em conversa com a irmã.

Lá longe notícias arrepiantes da guerra e da fome, na Europa, no Médio Oriente, em África, nas Américas, coisas que nos assombram. No Mediterrâneo, pessoas em fuga que tentam alcançar o El Dorado, a Europa, a nova terra prometida. 

E em nossos corações sentimos a dor das gentes que procuram encontrar paz e melhores condições de vida. Na medida do possível tenta-se ajudar, com palavras de ânimo, com bens materiais. Mas essa compaixão, na maior parte das vezes, não sai do conforto do sofá. Sabemos que existe sofrimento atroz lá fora. E compadecemo-nos. 

Contudo, isso vai entrando aos poucos na ordem do dia. Os nossos ouvidos habituam-se aos ruídos das notícias, ao palavreado de certos comentadores. E a habituação, esse mal silencioso, instala-se...

...

De repente, toca o telefone. Um grito desgarrado vindo das profundezas do ser desestabiliza tudo, abalando as estruturas das convicções e do deixa andar:

-MÃE!!!

Vai lá a casa com o pai. Os armários da cozinha desabaram da parede, a todo o comprimento. 

-E o bebé?!!!

-Não sei, não sei. Vai depressa...

O mundo desabou naquele momento. O espanto, a dor da perda, do imprevisível, do imponderável, numa amálgama. Num instante vê-se tudo de pernas para o ar. E a visão horrível do acidente, perante os olhos.

Numa correria, sem fôlego, subo os dois andares, o pai do pequenino à nossa espera, e ele sentado na cadeirinha com os olhos muito abertos...Tinham estado na cozinha a preparar o lanche momentos antes. E a família em choque, não refeita do susto do que podia ter acontecido. 

Pelo chão jazia o monstro que deixava entrever louças partidas, vidros espalhados, micro-ondas retorcido, e tudo o que se possa imaginar, enfim, bens materiais, nada importante. 

O bem mais precioso estava são e salvo!

Foi há seis dias.



SORTE OU BÊNÇÃO?

Um MILAGRE, sem dúvida!

 



Querida Amiga Rosélia

Os meus Parabéns pelo 13º Aniversário do seu Blogue Espiritual-IdadeQue continue a oferecer-nos as suas belas palavras em verso e em prosa.

Beijinhos
Olinda



RESSONÂNCIAS DA XIII INTERAÇÃO FRATERNA

OBRIGADA, ROSÉLIA


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Imagem - pixabay

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

As palavras pesam




Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas,
Do quotidiano entrincheirado entre compromissos,
Das tramas afectivas, do exílio anunciado
No andar inquieto das mulheres.

De rosto em rosto, a caligrafia do amor
implorou a memória das palavras encantadas
e, como se houvesse uma linguagem
de atravessar o tempo, acenderam,
sobre os dias, constelações sonoras.
Mas eu, que não adiro aos calendários
nem acredito em vogais prometidas,
eu parti, de punhos febris,
enlaçando nos braços
um futuro marginal, a qualquer lógica.

A posse da noite, onde me quero lua em todas as fases,
leva-me a glosar os medos num novelo de rimas imperfeitas.
A cidade tem pombas que me perseguem sem eu dar por isso.
Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito.

Graça Pires



O peso das palavras, aqui, neste belo poema, com o talento e elegância a que nos habituou a querida amiga Graça Pires. Há o quotidiano com as suas pequenas coisas que nos envolvem e fazem condicionar praticamente tudo o resto. E esse resto que é quase tudo leva-nos em viagens de descoberta em descoberta e nos faz sentir e dizer:

Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito. 




Graça Pires editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro "Poemas". Depois disso publicou mais de uma dúzia de livros de poesia, muitos dos quais premiados. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Veja mais aqui


Blog da Autora:






Bom fim de semana, amigos.
Abraços 
Olinda


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Poemas Escolhidos 1990-2011
daqui

Imagem - pixabay