sexta-feira, 4 de abril de 2025

GOSTO





Gosto do mar que rodeia a minha ilha, das rochas nuas e portentosas que a integram. 

Gosto das noites de lua cheia mas também do céu estrelado nas noites escuras como breu. 

Gosto da chuva benfazeja que faz crescer o milho, o feijão, a batata, a mandioca, o inhame - e que, quando vem com força, quase que nos leva para o mar, descendo em grandes quebradas, arrasando tudo.

Gosto do peixe que se compra às pratadas à beira-mar, observando antes os homens a puxarem o bote à força de braços. 

Gosto de cuscuz com manteiga, acompanhando com queijo de cabra, doce de papaia e café com leite. 

Gosto de cachupa e quando guisada comê-la com peixe frito. Gosto de caldo de peixe a acompanhar papas de milho.

Gosto do tempo das colheitas em que ajudamos "desajudando", de ouvir os contos enquanto se descascam as espigas, do ritmo das pauladas desferidas pelos homens ao debulhá-las no terreiro.

Gosto do Sol e do Céu azul, 
mas também das nuvens escuras anunciando chuva...




Nuno Ribeiro, Calema, Mariza
Maria Joana




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Imagem: pixabay

domingo, 30 de março de 2025

Bicentenário de Camilo Castelo Branco

Descera o académico ao pátio, depois de abraçar a mãe e irmãs, e beijar a mão do pai, que para esta hora reservara uma admoestação severa, a ponto de lhe asseverar que de todo o abandonaria se ele caísse em novas extravagâncias. Quando metia o pé no estribo, viu a seu lado uma velha mendiga, estendendo‑lhe a mão aberta, como quem pede esmola, e, na palma da mão, um pequeno papel. Sobressaltou‑se o moço; e, a poucos passos distante de sua casa, leu estas linhas: 

 "Meu pai diz que me vai encerrar num convento, por tua causa. Sofrerei tudo por amor de ti. Não me esqueças tu, e achar‑me‑ás no convento, ou no céu, sempre tua do coração, e sempre leal. Parte para Coimbra. Lá irão dar as minhas cartas; e na primeira te direi em que nome hás de responder à tua pobre Teresa."

Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição, pg.30


Em 1850

Este é o romance considerado mais importante da obra de Camilo. Ultraromântico, prevendo-se desde já o seu desfecho em morte. Realmente, no fim morre Simão, Teresa e Mariana, menina apaixonada por Simão.

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (1825–1890) foi um escritor, romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor português. Foi o 1.º Visconde de Correia Botelho, título concedido pelo rei D. Luís. É um dos escritores mais populares, proeminentes e prolíferos da literatura portuguesa, especialmente do século XIX.

Tido como o primeiro autor de língua portuguesa a viver exclusivamente da escrita, escrevia com frenesim, deixando uma obra com muitos títulos, além de colaborações em diversas publicações periódicas. Embora tendo de obedecer aos ditames da moda, consegue manter uma forma de escrever original, como consta da sua biografia.

Camilo seduz e rapta Ana Plácido. Depois de algum tempo a monte, são capturados e julgados pelas autoridades. Naquela época, o caso emocionou a opinião pública, pelo seu conteúdo tipicamente romântico de amor contrariado, à revelia das convenções e imposições sociais.

Irrequieto e irreverente vive a vida com intensidade. Cegou e não podendo continuar a ler e a escrever decide o momento da sua morte.

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AMOR DE PERDIÇÃO - aqui em PDF - Imprensa Nacional

 200 anos depois quem é Camilo Castelo Branco aqui

sexta-feira, 28 de março de 2025

A louca




Ela andava com o filho por todo o lado, fazendo ele parte do seu corpo mesmo depois de nascido. Punha-o às costas, amarrava-o à cintura, desafiava precipícios agarrando-o pelos bracitos. 

Fruto de (quem sabe?), sedução ou violação por parte do senhor da terra, que, talvez, tivesse mais filhos que terras. Homem tido como portador de valores, fino, de bom trato, discípulo de padres, autoridade máxima da terra, casado. Os filhos, não reconhecidos, povoavam a sua casa, tratavam-no por tio. 

A mulher legítima, teve dois filhos e soçobrava sob o peso dessa população. O quarto, a solidão seria a sua melhor companheira. Talvez sofresse de depressão crónica, doença não diagnosticada na época.

Ela, a louca, viu-se sem o filho antes de lhe acontecer alguma desgraça. Foi-lhe retirado pela família do pai da criança. Conheci este filho de ninguém. Chamava-se Júlio. Meu tio.

Vítimas do tempo, da época, das contingências morais e sociais, que obrigavam a mulher a atitudes que se assemelhavam, muitas vezes, a patologia incurável ou à loucura. 



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Pintura: Almada Negreiros