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sexta-feira, 20 de março de 2020

Vão de infinitos/Preça d'anfenitos

E as varandas, que nos abrem uma 
fresta para a vida, requerem aqui a palavra poética de 
Teresa Subtil


Vão de infinitos

É a varanda de grades da cor do tempo
que me leva em breve enleio e receio de entardecer.
É na varanda solta no descampado do olhar
que me debruço e me encontro na árvore onde me fiz

É o toque na parreira de pele retesada
e rasgada que me diz da erupção que sentia
e das escadas que subia e descia,
querendo entender-me no emaranhado da vida.

Era em vão de infinitos que a varanda se espraiava.
E eu, debruçada, a sentir-me nada, não cabia em mim.
E eu, num chão de inquietudes a agigantar-me
para as dúvidas que nunca resolvi.

Aninhada em ti,
parecia que a aldeia ao longe era igual à minha,
embora a raia nos falasse de outra língua
e de outro país. Na minha varanda percebia a raia
e adivinhava que nem a vinha, nem a aldeia que avistava,
encobriam o reboliço do rio
que bem fundo cavava o fragaredo.
Nem eu nem o rio conhecíamos limites
e apesar do aperto e da inquietude,
saltávamos e corríamos
na pressa dum tempo a descobrir.





E também na doce língua mirandesa. Debrucemo-nos e, juntamente com o rio, saltemos e corramos na pressa de um tempo a descobrir, através da nossa imaginação


Preça d'anfenitos

Ye la baranda de grades de la quedor de l tiempo
que me lhieba an brebe anleio i arrecelo d'entardecer.
Ye na baranda suolta ne l çcampado de l mirar
que m'astribo i m'antronco n'arble adonde me fiç.

Y l toque na parreia de piel retesada
i resgada que me diç de l manantial que sentie
i de las scaleiras que chubie i abaixaba,
querendo antender-me ne l eimaranhado de la bida.

Era an preça d'anfenitos que la baranda se spraiaba.
I you, debruçada, a sentir-me nada, num cabie an mi.
I you, nun suolo d'anquietudes a agigantar-me
pa las dúbedas que nunca resolbi.

Arrimada a ti,
parecie que l'aldé al loinge era eigual a la mie,
anque la raia mos falasse d'outra lhéngua
e d'outro paiç. Na mie baranda percebie la raia
i çcunfiaba que nien la binha, nien l'aldé q'abistaba,
tapában l reboliço de l riu
que bien fondo scababa l fragaredo.
Nien you nien l riu coinciemos lhemites
i indas que l aperto i l'anquietude,
saltábamos i corríemos
na priessa d'un tiempo a çcubrir.








=====
Poema: Teresa Subtil - Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos - pgs 14/15
Post anterior:
As varandas - nossas aliadas
Imagem: pixabay

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Nun sei... se l tiempo trairá de buolta la poesie, se inda bestirei de spráncia


...talvez o tempo seja amigo e traga 
vestes floridas de esperança. 



CHOVE NA PRAÇA

Não sei se chove na praça, meu amor,
se o vento desnuda as árvores da confiança
que nos fustigam o caminho
e nos atiram cascalhos de mudança.
Uma a uma vão caindo as certezas.
os cabelos branqueando
e o sorriso amarelecendo.
As horas arrastam-se lentas e tardias
sem nos devolverem o tempo das cerejas
e as rosas que no peito me trazias.
Não sei se chove na praça, meu amor,
não sei se logo veremos as estrelas
e se o nosso olhar se cruzará entre elas.
Não sei se chove na praça, meu amor,
se o tempo trará de volta a poesia,
se ainda me vestirei de esperança
e se encontrarei
a melodia que a aurora em nós escrevia.
pg 110


CHUOBE NA PRAÇA

Nun sei se chuobe na praça, miu amor,
se l aire znuda las arbles de la cunfiança
que mos fustígan l camino
i mos atíran chinicas de mudança.
Ua a ua ban caendo las certezas,
ls pelos branquiando
i l sonriso amarelhecendo.
Las horas arrástran-se debagarosas e tardies
sien mos debolbéren l tiempo de las cereijas
e las rosas que ne l peito me trazies.
Nun sei se chuobe na praça, miu amor,
nun sei se lhougo beremos las streilhas
i se l nuosso mirar se cruzará antre eilhas.
Nun sei se chuobe na praça, miu amor,
se l tiempo trairá de buolta la poesie,
se inda bestirei de spráncia
i s'ancuntrarei
la melodie que l'ourora an nós screbie.
pg 111

Teresa Almeida Subtil
in: Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos
Livro em português e mirandês

Teresa Almeida Subtil, (Miranda do Douro, Trás-os-Montes, Portugal) - através das palavras desafia o tempo, solidifica o tempo, apura a sensibilidade e revive os estados de alma que na sua vida foram chama, luz e caminho. A poesia, a pintura e a dança são actividades que a apaixonam.





Sobre o Mirandês, Teresa diz-nos, entre outras considerações
Sempre senti a sonoridade e o encanto desta língua. Ser raiano no planalto mirandês é andar abraçado a três línguas: o Português, o Castelhano e o Mirandês. A mistura é quase inevitável. Diversos fatores se conjugaram para que o mirandês mantivesse a sua autenticidade e em 1998 a Língua Mirandesa (património linguístico notável) foi oficializada na Assembleia da República. 

Veja mais nesta entrevista em: Memórias...e outras coisas

Blog da autora: O perfume do verso

Nota:
Não me tendo sido possível encontrar listagem da sua bibliografia,
remeto-vos para o seu blog, onde encontrareis referências preciosas.

In Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos:

Teresa Almeida Subtil escreve em tom de desafio, movimento e emoção. Inseriada no sacrário da língua mirandesa, deixa-se seduzir pela sonoridade e riqueza vocabular desta língua, soltando na palavra o seu jeito de raiana, como se cantasse e dançasse os sons da terra. Apelidada de "filha de Torga" (Conceição Lima), a sua geografia é de amor (Amadeu Ferreira) e a poesia é o seu traje de madrugar (Alfredo Cameirão). 

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Poema :in Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos pgs 110 e 111
Imagem : pixabay

Quinzena do amor
Post 1 ; Post 2 ; Post 3 ; Post 4Post 5Post 6; Post 7; Post 8

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Sem raça nem credo/Sien raça nien credo




Sem raça nem credo

A primeira vez que de ti me abeirei
todas as sedes me tomaram. Sem raça nem credo.
Cruzei-te num primeiro abraço, mar sonhando, desejado
e finalmente sentido. Quando a coragem permitiu
o primeiro mergulho, até a areia me bordou o corpo,
ponto por ponto. As cores brincavam e eram tantas
que despertavam e refletiam a luz que queria minha.

Nos meus olhos de céu e mar
cruzavam-se correntes loucas,
e eu, já sem roupa, fiquei à tona e deixei-me prender
nas mais belas cores. Fiz-me laço,
palmarés de glorioso arco-íris.
Sei, sei que te dei versos sem palavras e,
num silêncio prometedor,
até as czardas se ouviram.
As czardas que bailaria com paixão.
As czardas que, para ti, escreveria com emoção.




Sien raça nien credo

La purmeira beç que a ti me cheguei
todas las sedes me tomórum. Sien raça nien credo
Cruzei-te nun purmeiro abraço, mar sonhado, deseado
i al fin sentido. Quando la coraige permetiu
l purmeiro maegulho, até l'arena me bordou l cuorpo,
punto por punto. Las quelores brincában i éran tantas
que spertában i debuolbien la lhuç que querie mie.

Ne ls mius uolhos de cielo i mar
cruzában-se corrientes boubas,
i you, yá sien benairos, quedei anriba i deixei-me prender
nas mais guapas quelores. Fiç-me lhaço,
ramo de guapa cinta de la raposa.
Sei, sei que te dei bersos sien palabras i,
nun siléncio pormetedor,
até as "czardas" se scuitórum.
Las "czardas" que beilarie cun paixon.
Las "czardas" que, para ti, screberie cun eimoçon.

Teresa Almeida Subtil





Peço emprestado à querida amiga Teresa Almeida Subtil este belíssimo poema bilingue para enfeitar o Xaile de Seda, que hoje completa dez anos. E a Schubert esta Avé Maria que adoro, aqui nas vozes de dois grandes intérpretes, Andrea Bocelli e Luciano Pavarotti.



Também esta Czarda a fazer jus ao poema e em agradecimento à sua autora.

A todos agradeço a presença e comentários com que têm distinguido este blog.

Abraços.

=====
Poema bilingue:
in Rio de Infinitos
Riu d'Anfenitos
pgs 154, 155

Ver Teresa A. Subtil no Xaile, aqui


quarta-feira, 1 de março de 2023

Cai Neve a Nordeste/Neba a Nordeste

  

*

Cai neve a Nordeste

Distantes e despidos do verbo
E dos meandros da conjugação
Da cor e do tempo escaldante
Cubro-me de saudade e envolvo
Na seda e na carícia deste xaile
Meu corpo de inquietação

E na pele nua do inverno
Lavro a fantasia e o desejo
Colho perfumes de lírio silvestre
E no subtil deslaçar do colete
Breve aragem rasga a costura
E cai neve a nordeste.


Teresa Almeida Subtil





Neba a Nordeste


Longe i znudados de l berbo
I de ls remissaques de la cunjugaçon
De la quelor i de l tiempo scaldante
acubro-me de soudade i ambuolbo
Na seda i carino deste xal
Miu cuorpo d'apequentaçon

I na piel znuda de l eimbierno
Bimo la fantasie i l anseio
Cuolho prefumes de spadanhas
I ne l cencilho zlhaçar de l colete
Un cinués d’araige rasga la questura
I neba a nordeste.

Teresa Almeida Subtil



Cuolho prefumes de spadanhas
I ne l cencilho zlhaçar de l colete
E un cinués d'araige rasga la questura
I neba a nordeste



Galandum Galundaina

Eu quis uma Burgalesa
E ela não me quis a mim
E com outro se casou




O Blog da Autora,
Bilingue: Português
e Mirandês


Nota: O Mirandês é uma das três línguas oficiais portuguesas



===
*Traje feminino de Miranda do Douro
Do blog da Teresa

Pedi-lhe para me indicar uma música tradicional de
Miranda do Douro

quarta-feira, 18 de março de 2020

As varandas - nossas aliadas



No Verão costumo aparecer com apontamentos sobre vida saudável. Já falei sobre ginástica, iodo e não sei que mais. Se já estivéssemos nessa estação falaria da vitamina D, a tal que é conhecida como a Vitamina do Sol. Mas, hoje, mais do que nunca devemos ter presente essa vitamina que recebemos através dos raios solares. E dizem os especialistas que bastará todos os dias, durante 10 ou 15 minutos, recebê-los no rosto, no peito, nas mãos, por volta do meio-dia ou um pouco mais tarde, para termos as nossas reservas garantidas.

Agora que estamos impossibilitados, pelo isolamento social ou quarentena, de apanhar sol na praia, parques ou jardins, como fazer? É aqui que as nossas varandas têm uma utilidade que nem sempre lhe reconhecemos. Sabemos que somos um povo virado sobre si próprio (mais nas cidades) que se isola voluntariamente com cortinas nas janelas, gradeamento nas portas, e, mais ainda, varandas fechadas dando-lhes um uso diferente daquele para que foram construídas.

Por força das circunstâncias elas agora estão a ter o seu momento áureo, como veículo de comunicação, lembrando-nos que somos mais do que seres virtuais. Na Itália, serviram para lançar uma voz uníssona de rebeldia contra o vírus. Cá em Portugal, num acto espontâneo para com os profissionais da saúde serviram de plateia (ou palco?) donde soaram palmas de solidariedade e incentivo.




Também nós deveríamos livrá-las do seu isolamento e aproveitá-las para receber o astro rei em toda a sua glória, trazendo-nos a energia de que carecemos. Durante os nossos exercícios, alongamentos, passos para aqui, passos para lá... 

E, meus amigos, sirvamo-nos delas como esplanadas. Se fizerem um cafezinho, um chá, uma limonada fresca, desfrutem desses momentos com alguma música, ali na varanda, recebendo a aragem que passa.

Tal como a amiga Teresa Subtil, momento para ouvirmos Pedro Barroso, falecido há dois dias:



Boa quarta-feira.

Abraços.


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Imagens: daqui

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Como nos Prodígios


Sou-te presente mulher e chama,
ímpeto fremente de lua abandonada.
aberta do calor na turbulência da noite,
ignota fonte de ternura derramada.



Encontrou-o à entrada do deserto,

absorto, como se conhecesse

todas as invocações do silêncio.

Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento,

pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão.

Ela saía do deserto. O mesmo deserto.

Trazia um cacto murcho em cada mão

e um rio seco a escamar-lhe a pele.

Olharam-se. Ela contou-lhe.

Contou-lhe das vezes que se afogou no chão

pensando que era água;

como rebentaram seus lábios pela sede interminável.

Disse-lhe que quase morreu com saudades do mar;

que bebeu o próprio sangue

para curar a febre e o delírio.

Falou-lhe do medo e do cansaço

que venceu cambaleando, rastejando,

dormindo agarrada à noite.

Ele hesitou.

Depois, com uma quietude

que nos prodígios acontece,

pegou-lhe na mão e foi com ela até ao mar.

Graça Pires



Como nos prodígios apreende-se o mistério
que envolve este belo poema.
As palavras envolvem-nos e fazem-nos pressentir um
certo sofrimento e dedicação aproximado ao amor.



Paganini



O blog: Ortografiadoolhar


Quinzena do Amor

Post 1-Só o amor; Post 2-Alastrar Paz e Amor; Post 3-Ouça as vozesPost 4-Estética da Vida; Post 5-Quando o Amor chora de sede; Post 6-Um gosto antigo de alfazema


===

In: A solidão é como o vento, de Graça Pires

pg.61

Citação: Rio de Infinitos, pg162

domingo, 5 de março de 2023

A MINHA SERENATA

 



Tudo a postos: 

Ambiente criado. Delicadeza de gestos e dolência da música. Tudo é amor e é amorável. Tudo se induz e se aceita. Nem precisamos compreender todas as palavras. 

Eles, Cremilda e Tito Paris, ajudam-me nesta Serenata que vos dedico, agradecendo a vossa presença que se traduziu em variadas formas de dizer poético.

Assim a nossa "Quinzena do Amor", que se estendeu no tempo, ocupando vários espaços mentais que são as participações dos meus queridos amigos, publicadas num espaço que se situa no éter. Porém, nós temos uma certeza: Existimos, somos reais.

Já muito se leu, muito se comentou, portanto hoje não serei muito extensa. Tenho o maior prazer em indicar, mais abaixo, quem andou por aqui a espalhar amor.



OS PARTICIPANTES:


Post 1 -  (O Amor? O que é...? - São, Luis Rodrigues, Verena,  Edite
Post 2 - ( A força do amor) - Taís Luso de Carvalho
Post 3 -  (Falando de amor) - Chica
Post 4 - ( Tempo de ser livre) Graça Pires
Post 5 - (O mais valioso) - Rosélia Bezerra
Post 6 - ( É o teu sorriso o oásis que me sacia) - Ricardo Valério
Post 7 - (Tudo o que eu queria ter) - Maria Caiano Azevedo
Post 8 - (Não posso adiar o amor) - Emília Pinto
Post 9 - Desafio de Juvenal Nunes - Olinda
Post 10 - (Sabor Utópico) - Janita
Post 11- (Penso em ti) - Elvira
Post 12 - (Memória) - Fernanda Maria
Post 13 - (Açafate de Palavras) - Manuel Veiga
Post 14 - (Vem) - Manuela Barroso
Post 16 - (Apetece-me, sim) - José Carlos Sant Anna
                Loiva e Jaime Portela
Post 18 - (Poema para a Amada) - Pedro Luso de Carvalho
Post 19 - (Estar contigo) - Lis
Post 20 - (Regresso) - maria loBos
Post 21 - (O Amor  - que é só um) - Sol da Esteva
Post 22 - (Se é para falar de amor) - Gracita Fraga
Post 23 - (Que feliz destino o meu) - Maria Rodrigues
Post 24 - (O Excesso) - Ana Maria Tapadas
Post 25 - (Incondicional) - Teresa Dias
Post 26 - (O Tempo passa? Não passa...) - Norma Emiliano
Post 27 - (As nossas mãos autorizam) - Luís Rodrigues
Post 28 - (Desfiar ilusões) - Juvenal Nunes
Post 29 - (Cai a Neve a Nordeste/Neba a Nordeste) - Teresa Almeida Subtil
Post 30 - (Entre Olhares) Carmen Luísa Barros
Post 31 - (Os Verdes Anos) - Ângela 
Post 32 - (Nossa música, "Amor puro" ) - Antônio Apon


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WHAT A FEELING


Canção - Irene Cara
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Take your passionAnd make it happenPictures come aliveYou can dance right through your life
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Grande a minha alegria pela reunião de tantos participantes no mesmo espaço, durante trinta e dois dias. Apetece cantar e dançar, como neste video.

Tenho ainda um delicioso remanescente, composto de 4 textos poéticos, que publicarei em breve. Fiz saber aos respectivos participantes desta minha intenção. Eles já constam desta nossa "Quinzena do Amor".

ATÉ SEMPRE, AMIGOS.

Beijos e abraços.

Olinda

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Não deixes nada por dizer / Nun deixes nada por dezir


Diz-me tudo

Diz-me dos silêncios inquietos que cantam no teu olhar
do rio de palavras selvagens preso em ti
das melodias vadias que escreves ao luar,

diz ao desassossego que ateias em mim
o poema que quero entender

e quando a minha pele começar a enrubescer
diz-me tudo.
Não deixes nada por dizer.





Diç-me todo

Diç-me ls siléncios zanquietos que cantán ne l tou mirar
de l riu de palabras salbaiges preso an ti
de las melodies bagamundas que scribes a la lhuna

diç al zassossego que chiçcas an mi
l poema que quiero antender

i quando la mie piel ampeçar a aburmelhar
diç-me todo.
Nun deixes nada por dezir.

TERESA ALMEIDA SUBTIL

In:
Rio de Infinitos
Riu d'Anfenitos
Pgs 58 e 59
Obra escrita em Português e em Mirandês

Querida Teresa, mais uma vez a invadir as páginas deste seu livro. A minha dificuldade esteve na escolha, e quem já teve a oportunidade de o folhear percebe logo o que quero dizer.
O tango chegou agora ao "Xaile", não numa interpretação dita clássica mas a convidar a uma boa milonga.


Apreciemos este Silêncio da Orquestra Negracha




Sobre a autora. 
Atentemos nestas suas palavras:
O meu voo nas palavras começou muito cedo através da leitura. A leitura foi, de facto, a grande motivação. Pela leitura rasguei caminhos, abri horizontes, viajei por espaços de enorme encantamento. O mundo abria-se para mim de maneira surpreendente e percebi que a vida é a ideia que dela fazemos. Penso que quem tem o prazer intenso de ler, acaba por sentir necessidade de comunicar as suas próprias emoções, acaba por descobrir o prazer de escrever. O que seria a vida sem emoção?
E mais...Aqui

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Título do post: o último verso do poema, em português e em mirandês.
Imagem: daqui
Excerto sobre a autora - Blog Memórias... e outras coisas... Bragança

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Sobram as mãos/Sóbran las manos


Somos um país de emigrantes e lamento que 

não saibamos respeitar aqueles que, por motivos vários, 

escolhem o nosso país para viverem.

Emília  






Sobram as mãos

e correm palavras de dor e de pranto,

exauridas, feridas, deitadas na rua,

em bocas de espanto.

Sem estrelas de afeto nem pétalas no chão,

são frios e tristes os lábios sem pão.


Acordam - desesperadas - as palavras

em vão de escada e escuros becos.

Sobram mãos estendidas,

manhãs geladas, crianças sem teto.


Que gritem os versos o silêncio e a fome

nas mãos estendidas de gente sem nome.

Que as palavras corram ardentes, selvagens

Que - a tempo - sejam seiva e raiz

e morem em mãos que não se conformem.


Que o amor seja país nas palavras que dizeis.

Está podre o olhar por dentro das leis.





Sóbran las manos

i cuórren palabras de delor i de pranto,

perdidas, fridas, deitadas na rue,

an bocas de spanto.

Sien streilhas de carino nien pétalas ne l suolo,

son frius i tristes ls lhábios sien pan.


Spértan, zesperadas, las palabras

an uocos de scaleira i scuros becos.

Sóbran manos stendidas,

manhanas geladas, ninos sien telhado.


Que griten ls bersos l siléncio i la fome

nas manos stendidas de giente sien nome.

Que las palabras cuorran ardientes, salbaiges

Que, a tiempo, séian sangre i raiç

i móren an manos que nun se cunfórmen.


Que l amor seia paíç nas palabras que dezis.

Stá podre l mirar por drento de las leis.


Teresa Almeida Subtil

Poema bilingue (Português e Mirandês)



António Marcos

Vamos dar as Mãos



O blog: O Perfume do Verso



Quinzena do Amor

Post 1-Só o amor; Post 2-Alastrar Paz e Amor; Post 3-Ouça as vozesPost 4-Estética da Vida; Post 5-Quando o Amor chora de sede; Post 6-Um gosto antigo de alfazema; Post 7-Como nos Prodígios; Post 8-Flora; Post 9-Passei na nossa rua; Post 10-O Amor na sua Plenitude; Post 11-Se eu tivesse coragem; Post 12-Poesia é Amor


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In: Rio de Infinitos/Riu D'Anfenitos

Pgs168 e 169

terça-feira, 22 de março de 2022

Uma lágrima no olhar / Ua lhágrima ne l mirar


Ceifaram dos teus versos o riso
e o alvoroço de searas maduras ondulantes.
No teu poema corre 
uma lágrima
e no sorriso um esgar de tristeza.
O teu olhar não se engana. Dói num amor, quase sem saída.
Caminhos incertos, sentimentos confusos, perdida,
como quem viaja na sombra
à procura de um apetecível cheirinho a café,
perfumado com a nata do afecto.
Mas não esperas na paragem.
Não ceifaram o mar de poesia
que derramas em lágrimas no teu planalto,
como gaivota que voa ferida e cruza o céu a agarrar a vida.




Segórun de ls tous bersos la risa
i l alboroto de senaras maduras ondiantes.
Ne l tou poema cuorre ua lhágrima
i na risa un cachico de tristeza.
L tou mirar nun se anganha. Duol nun amor, quaije sien salida.
Caminos anciertos, sentimientos cunfusos, perdida,
cumo quien biaija na selombra
a saber dun gustoso cheirico a café
prefumado cula nata de l agarimo.
Mas nun speras na paraige.
Nun segórun l mar de poesie
q'arramas an lhágrimas ne l tou praino,
cumo gaibota que bola ferida i cruza l cielo a agarrar la bida.


Teresa Almeida Subtil

in:
Rio de Infinitos/Riu D'Anfenitos
pgs 134/135


...esta obra ganha ainda um valor redobrado porque sendo a autora uma apaixonada pela língua mirandesa, que aprendeu, sem a ter mamado no leite materno, aparece traduzida, em mirandês, pelo próprio punho. dando um grande exemplo de que querer é poder e de divulgação daquela que é a segunda língua oficial de Portugal. ... pg. 7, in prefácio de Domingos Raposo.





Galandum Galundaina -
fraile cornudo . nós tenemos muitos nabos .
siga a malta . burgalesa


Galandum Galundaina (Miranda do Douro, 1996) é um grupo de música tradicional mirandesa criado com o objectivo de recolher, investigar e divulgar o património musical, as danças e o Mirandês, a língua falada em Miranda. Os instrumentos usados, réplicas de outros muito antigos, que mantêm o aspecto e sonoridade dos mesmos, são gaitas de fole mirandesas, flauta pastoril, sanfona, caixa de guerra, conchas de Santiago, castanholas, pandeireta, etc.. aqui

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Imagem: net

sábado, 29 de dezembro de 2018

Estou aqui por pouco tempo, mas é sempre tempo de sermos gente...






Tempo de mim

Deslizam nuvens nos lenços do meu vestido,
folhos rubros em dia pardacento.
É um dia gigantesco este em que se desfolham folhas de vida
nos versos que pela noite se vão erguer
e renascer fervilhando em tertúlias de poesia,
cantando um Porto cinzento sim, mas poético e glamoroso.
E é nesta alegria que me encanto e desço
e troco cumplicidades com a vizinha que afinal mal conheço.
Os rostos agarram a frieza do betão e a pressa
não se compadece nem espera que a vida
se solte desinibida, confiante em desabafos
esparsos e breves sentires.
O sol começa a aquecer e a assomar-se no olhar
e como um cálice de vinho fino que partilhássemos juntas,
os olhos brindaram a alegria deste encontro,
o primeiro na escada derradeira,
e perdi a pressa, deixei-me estar.
Estou aqui por pouco tempo, mas é sempre tempo
de sermos gente, de nos olharmos e vermos
que afinal abrandar o passo pode ser um passo em frente.
E eu, que hoje tenho pressa, demoro mais um pouco
porque tenho sempre tempo para mim
e é quando me dou que eu me pertenço





Tiempo de mi

Zlízan nubres ne ls lhenços de l miu bestido,
fuolhos burmeilhos an die quelor de cinza.
Ye un die sien fin este an que se çfólhan fuolhas de bida
ne ls bersos que pula nuite s'alhebántan
i tórnan ferbendo an tertúlias de poesie,
cantando un Porto anque cinza, poético i galano.
I ye nesta alegrie que m'ancanto i abaixo
i troco segredos cula bezina q'afinal mal conheço.
Ls rostros agárran la frialdade de l cimento i la priessa
nun ten pena nien spera que la bida
se solte zabergonhada, cunfiante an zabafos
ralos i brebes sentires
l sol ampeça a calcer i a assomar-se ne l mirar
i cumo un cáleç de bino fino que buíssemos juntas,
ls uolhos brindórun l'alegrie deste ancuontro
l purmeiro na scaleira derradeira
i perdi la priessa, deixei-me star,
stou eiqui por pouco tiempo, mas ye siempre tiempo
de sermos gente, de mos mirarmos i bermos
q'afinal abrandar l passo puode ser un passo adelantre
i you hoije que tengo priessa tardo mais un chiç-niç
porque tengo siempre tiempo para mi
i ye quando me dou que you me pertenço

Pgs 72/73

Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos



Nota: Obra escrita em português e mirandês.
O título do post pertence a versos do poema
Os meus agradecimentos à Autora.

E, com um bino fino, brindemos à Vida e ao Ano que se avizinha.



BOAS FESTAS!!!

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2ª e 3ª imagens - pixabay