Não sei bem quando comecei isto. Em dado momento, tomando como referência o Dia dos Namorados, resolvi publicar poemas de amor ou prosa poética, de 01 a 15 de Fevereiro. Já falei dos amores de Pedro e Inês, de Tristão e Isolda, de Romeu e Julieta.
Tenho publicado poemas de autores conhecidos e desconhecidos, cartas de amor de grandes personalidades literárias e não só. Já tive o prazer de publicar poemas vossos ou de autores da vossa preferência.
E como não podia deixar de ser, volto a convidar-vos para esta maratona do amor e aqui fico a aguardar escritos da vossa autoria ou de quem gostais para abrilhantar este espaço durante o tempo acima referido. Bastará que depositeis o vosso contributo no espaço destinado aos comentários. Irei ali buscá-lo e publicá-lo-ei...
Portanto, declaro aberta a Quinzena do Amor, aqui, no "Xaile de Seda" (a partir de 01/02).
o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo, mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar, que eu amava quando imaginava que amava. era a tua a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde. muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
E MAIS
um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade.
José Luís Peixoto
José Luís Peixoto (1974) é um narrador, poeta e dramaturgo português,
cuja primeira obra foi publicada em 2000.
foi o mais jovem vencedor de sempre do Prémio Literário José Saramago. Desde esse reconhecimento, a sua obra tem recebido amplo destaque nacional e internacional. Os seus livros estão traduzidos e publicados em 26 idiomas.
A sua obra tem sido abundantemente adaptada para espetáculos e obras artísticas de diversos géneros.
A voz cristalina de Carolina Deslandes.
E o seu talento.
Valentine's Day
Neste dia, que para muita gente seria de oferendas simbólicas e comemorações com jantares à luz das velas, temos as palavras.
E servimo-nos, aqui, das palavras dos outros para abrilhantar esta maratona, apesar da Covid-19, que quase nos fazia falhar a meta.
Nos textos que apresentei foi privilegiado o amor romântico. Mas o Amor universal e solidário está sempre presente nas minhas publicações, como sabeis.
Vestida de gemidos de bordão, lancinâncias de violino, na noite parada vem descendo a seresta.
Sumiu-se a cidade barulhenta inimiga das crianças e dos poetas.
Uma voz canta sentimentalmente um samba.
Aquele aperto de mão
não foi adeus!
Os cavaquinhos desmaiam de puro sentimento, a cidade morreu lá longe, e a lua vem surgindo cor de prata.
Nessa história de amor todos são iguais, até o rei volta sua palavra atrás...
O meio tom brasileiro deixa interrogativamente a sua nostalgia.
É hora que os poetas escolheram para a procura dos seus mundos perdidos...
Amanhã a cidade virá novamente inimiga dos poetas. Mas agora ela dorme, ela não sabe que os poetas falam com Nossenhor, com a lua e as estrelas, nesta hora tão lírica...
Menina romântica, irmã das crianças e dos poetas... A tua janela, florida de esperanças, é um mistério que a cidade não entende.
Passa a serenata. Mas no coração dos que temem a primeira luz do dia que vai chegar ficam os gemidos do violão e do cavaquinho, vozes crioulas neste noturno brasileiro de Cabo Verde.
Oswaldo Alcântara
Osvaldo Alcântara, pseudônimo poético de Baltazar Lopes da Silva, nasceu na Ilha de São Nicolau, Cabo Verde, em 1907. Advogado e filósofo. Professor, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa. Um dos fundadores da revista Claridade, marco da literatura cabo-verdiana.
Publicou: Chiquinho (romance), São Vicente, 1947; O Dialeto crioulo de Cabo Verde, Lisboa, 1957; Cabo Verde visto por Gilberto Freire, Praia, Cabo Verde, 1956; Antologia da ficção cabo-verdiana contemporânea, Praia, Cabo Verde, 1960.
O amor é um poema. Dói e canta cá dentro. Tem a filosofia das árvores, a lição do mar, os ensinamentos que as aves recolhem quando migram para lá dos desertos, de onde hão-de regressar mais sábias e seguras. O amor é uma causa. Uma luta excessiva com a divindade dos dias e a sua fogueira obscura. Mas também contra o mistério de si mesmo, uma paz que nos dá o cansaço e a loucura infeliz da felicidade, esse primitivo terror dos sinos que tocam como um aviso aos densos nevoeiros súbitos do mar.
O amor é uma casa. Erguida com os beijos, com os versos da noite e o gemido das estrelas. Casa cujas paredes vestem o nosso júbilo, a nossa intuição, a nossa vontade, sobretudo o nosso instinto e a nossa sabedoria. Onde se acende e brilha a luz suplicante da pele comprometida dos amantes. O amor é um gigantesco pequeno mistério, uma estranha generosidade que faz com que, quanto mais damos, com mais ficamos para dar.
Só o amor é o elixir da juventude. Não esse que sempre se procurou nas indecifráveis formulas dos antigos livros de magia e de alquimia, mas aquele que está tão perto de nós que, por vezes, o pisamos sem reparar.
Francisco Buarque de Hollanda mais conhecido como Chico Buarque (1944), é um músico, dramaturgo, escritor e ator brasileiro. É conhecido por ser um dos maiores nomes da música popular brasileira (MPB). Sua discografia conta com aproximadamente oitenta discos, entre eles discos-solo, em parceria com outros músicos e compactos.
Mário Cesariny de Vasconcelos (1923 -2006) foi poeta e pintor, considerado o principal representante do surrealismo português. É de destacar também o seu trabalho de antologista, compilador e historiador (polémico) das actividades surrealistas em Portugal.
Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (Cidade de Goiás, 20 de agosto de 1889 — Goiânia, 10 de abril de 1985), foi uma poetisa e contista brasileira. Considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras, ela teve seu primeiro livro publicado em junho de 1965 (Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais), quando já tinha quase 76 anos de idade, apesar de escrever seus versos desde a adolescência.
Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás.
Poeminha gostoso, não é? Un peu naïf como convém aos poemas de amor romântico... Veremos em breve esta Mulher, no Xaile de Seda, em poemas fortes de crítica social, crítica aos costumes...
Todos os anos dedico a primeira quinzena de Fevereiro a poemas que falem de Amor nas suas múltiplas facetas. Ao longo do tempo tenho-o anunciado e lançado desafios no sentido de virem nela participar não só lendo como trazendo textos da própria autoria como dos autores preferidos. Desta vez não tive oportunidade de o fazer, por motivos vários, mas a denominada, por mim, de Quinzena do Amor não passou despercebida à nossa querida Emília que me deixou este encantador comentário, no post A Demora.
Sabia, querida Olinda, que ias começar a tua " quinzena do amor", como de costume e apesar de vir aqui sempre ( imperdoável...saio sem nada dizer), só hoje reparei que já começaste a brindar os teus amigos com poemas amorosos. Gostei muito da rosa, essa flor linda que, segundo o autor, sempre buscamos; estamos sempre inquietos, procurando alguma coisa e muitas vezes é tão simples o que desejamos, que poderemos encontrá-lo numa rosa, num girassol, numas florzinhas campestres, olhando o mar, pensando nos amigos , dizendo mais vezes, aos que estão perto de nós que os amamos. Não podemos visitar os amigos, abraçar os que estão doentes ( há-os sempre, infelizmente ) mas podemos telefonar e mostrar-lhes o quanto são importantes na nossa vida o quanto pensamos neles. Há dias de tudo, Amiga....há dias em que faço isso e a conversa fica muito interessante e benéfica para os dois lados, mas há outros em que penso neles, mas fico por aí. Esta situação desanima toda a gente, mas não podemos deixar que ele nos tolha e nos impeça de dar algum alento aos outros e, com isso, a nós mesmos também. Carlos Drummond de Andrade tem um poema onde ele fala da Palavra Mágica, palavra que ele busca todos os dias e que continuará a procurar até a encontrar. Há tantas palavras mágicas, Olinda!!!! Precisamos encontrar a nossa! Para muitos é o Amor e, concordo...sendo sincero, opera verdadeiros milagres e é essencial à nossa vida, ao nosso equilíbrio emocional; mas há outra...que não deixando de ser uma forma de amar, para mim também é mágica, a Amizade , esse sentimento lindo que, juntamente com o amor, faz a vida valer a pena. Obrigada, querida Amiga, pela quinzena do amor, uma oportunidade de conhecermos, com toda a certeza, belos poemas. Que te sintas sempre rodeada de muito amor e que não te faltem também os bons Amigos. Um abraço enorme, carregadinho de amizade
Emilia 🌷 🌻 🙏
Eis pois Drummond de Andrade, o homem do pluriamar, aqui, no Poema em boa hora citado pela querida Emília:
A Palavra Mágica
Certa palavra dorme na sombra de um livro raro. Como desencantá-la? É a senha da vida a senha do mundo. Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira no mundo todo. Se tarda o encontro, se não a encontro, não desanimo, procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura ficará sendo minha palavra.
Devia ter anunciado a "Quinzena do Amor", como faço todos os anos. Não pude fazê-lo a tempo e horas, deixando para a rematar, no final, com algumas palavras.
E foi muito prazeroso para mim que te tenhas lembrado deste ciclo que nos tem acompanhado no "Xaile de Seda", desde o princípio.
A situação que estamos a atravessar é terrível, mas há sempre espaço, mais do que nunca, para o Amor. E para a Amizade, esse sentimento belíssimo que nos faz irmanar na vida e encontrar pessoas belíssimas,
como tu, querida Amiga.
E se não te importasses gostaria de passar algumas passagens deste teu comentário para o post. Ou na íntegra :)
Desejo-te muita Saúde ao lado dos teus.
Beijinhos
Olinda
Blogue da Emília: Começar de Novo sob a égide de "COMEÇAR DE NOVO", da autoria de Ivan Lins e Vitor Martins, canção interpretada por Simone.
Aos amantes é lícito a voz desvanecida. Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido: Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora, Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo Ronda escurecida?
Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor Quando tudo anoitece? Antes lamenta Essa teia de seda que a garganta tece.
Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.
Hilda de Almeida Prado Hilst, mais conhecida como Hilda Hilst, (Jaú, 21 de abril de 1930 — Campinas, 4 de fevereiro de 2004) foi uma poeta, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. É considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX. Seu trabalho aborda temas como misticismo, insanidade, erotismo e libertação sexual feminina. Hilst foi fortemente influenciada por James Joyce e Samuel Beckett, e essa influência aparece em temas e técnicas recorrentes em seus trabalhos como o fluxo de consciência e realidade fraturada.
Quando eu não te tinha Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo... Agora amo a Natureza Como um monge calmo à Virgem Maria, Religiosamente, a meu modo, como dantes, Mas de outra maneira mais comovida e próxima… Vejo melhor os rios quando vou contigo Pelos campos até à beira dos rios; Sentado a teu lado reparando nas nuvens Reparo nelas melhor— Tu não me tiraste a Natureza... Tu mudaste a Natureza... Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim, Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma, Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais, Por tu me escolheres para te ter e te amar, Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente Sobre todas as coisas. Não me arrependo do que fui outrora Porque ainda o sou.
Alberto Caeiro da Silva foi um heterónimo criado por Fernando Pessoa, sendo considerado o Mestre Ingénuo dos heterónimos Álvaro de Campos e Ricardo Reis e também de seu próprio autor, Fernando Pessoa, apesar de apenas ter feito apenas a instrução primária....
É um poeta de completa simplicidade, e considera que a sensação é a única realidade. Suas principais obras são O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos.
“O Pastor Amoroso”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
Eduardo Costley-White (1963 - 2014) foi um poeta moçambicano.
Autor de vários livros de poesia como: Amar sobre o Índico (1984), Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave (Caminho, 1992), Janela para Oriente (Caminho, 1999) ou O Manual das Mãos (Campo das Letras, 2004).
Além de poesia, publicou também novelas, como As Falas do Escorpião (2002), e outros textos em prosa. Mais aqui
não há quem não persiga uma rosa nos escassos dias da mortal residência na terra
não há quem não a busque mística ideal solitária carnal geográfica ou comunal inseparável de longas veias e bandeiras
nunca houve quem não a desejasse colhida nas mãos em concha como água purificadora desses escassos dias de residência
volátil volúvel sublima-se e desespera ao mínimo gesto do toque e do encantamento o achador
qual a tua rosa?
temos cada um de nós a rosa eletiva e nunca idêntica por mais próxima mística ideal ou comunal à do outro
a rosa (in)fixa só aparentemente se movimenta somos nós atrás dela velozes e perdidos ansiosos de busca do que não temos ou temos imperfeitamente
cada um quer a sua rosa clandestina mas rosa apaixonada mas rosa
solitária — todas as rosas são solitárias — mas ainda assim rosa comunal porém de todos rosa carnal ou mística sempre e ainda rosa rosa mesmo que conspurcada e rosa da rosa-dos-ventos rosa é desabrochada sobre o mundo de ilha a continente de mar a mar de pólo a pólo levada pelos ventos
ó rosa que nos diversificas no âmago de ti própria! qual a tua rosa?
rosa de ninguém porque minha e eletiva não há quem não persiga a sua rosa inagarrável estrela que adia a mortal residência e nos sobra no leito ao acordarmos nem sabemos em que horizontes de outras rosas.
Todos procuram a sua de modo a fixá-la nas suas vidas.
É a procura da Felicidade, talvez...
"cada um quer a sua rosa clandestina mas rosa apaixonada mas rosa"
Oswaldo Osório, do seu nome próprio Osvaldo Alcântara Medina Custódio é uma referência na literatura cabo-verdiana; nasceu em Mindelo a 25 de Novembro de 1937. Terminou o liceu e ingressou no Seminário Nazareno, tendo exercido várias funções profissionais, como trabalhador de rádio, funcionário público, empregado de comércio, presidente da União dos Sindicatos e jornalista no semanário Voz di Povo
Amo-te tanto, meu amor... não cante O humano coração com mais verdade... Amo-te como amigo e como amante Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante E te amo além, presente na saudade Amo-te, enfim, como grande liberdade Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente De um amor sem mistério e sem virtude Com um desejo maciço e permanente
E de te amar assim, muito e amiúde É que um dia em teu corpo, de repente Hei-de morrer de amar mais do que pude.
Chegamos ao fim da Quinzena do Amor, deste ano. Em jeito de despedida desta série, trouxe o soneto de Vinicius de Moraes intitulado, Soneto do Amor Total, como que a reafirmar todos os poemas e textos que publicámos. Que o amor seja vivido como uma festa entre risos, harmonia e cumplicidade.
Agradeço a todos os que por aqui passaram.
Bom fim de semana.
Abraços.
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Entretanto, meus amigos, estarei ausente por alguns dias.
Ele nascido na Hungria, descobre muito cedo a sua aptidão para o desenho. Estabelece-se em Paris depois de ter percorrido todas as capitais artísticas europeias. Ela nascida em Portugal, desde criança interessada pela magia das artes. Viajaria para Paris para estudar escultura e pintura.
Maria Helena saía todas as tardes, em longos passeios pela cidade, em busca dos pintores antigos, dos modernos, pelas galerias e pelos museus, de Cézanne e de novas formas de configurar o mundo. Descobre que só naquele conjunto de luz e sombras encontraria a inspiração que procurava.
Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva encontram-se na bela Paris em 1928, quando ainda procuravam desvendar as linhas da pintura e da escultura da Academia Ranson. Ele em guaches e têmperas, exploração de ambientes e sensações de luz. Ela, urbana, explorando a profundidade do espaço e a angústia da guerra.
Casam-se em 1929. Arpad abdicaria das suas próprias ambições para se dedicar a Helena, à mulher vulnerável e melancólica, a precisar de apoio e de certezas para a confiança no seu génio, como ele chegaria a dizer. Ela retribuiria pintando retratos que encheriam as paredes de casa. Leva-a a viajar, para espaços inspiradores aos seus olhos de artista, revela-lhe os mistérios da Hungria e Pensilvânia. Ela, recordando Sintra na assimetria das suas duas colinas.
Em Paris trabalhavam, incansáveis e apaixonados, deixando que o espírito lhes guiasse as mãos e os pincéis. Em 1933 acontece a primeira exposição de pintura de Vieira da Silva. A vida continua a mesma, com os dois a abraçar-se e a pintar-se no silêncio da sua casa feita atelier, e a frequentar as reuniões no Café Raspail, do pequeno mundo intelectual "Amis du Monde".
O eclodir da guerra, 1939, veio alterar as suas vidas. Arpad era judeu húngaro e apátrida. Aceita de Maria Helena a ideia de um refúgio em Lisboa. Maria Helena tenta recuperar a nacionalidade portuguesa, perdida aquando do seu casamento. Chantageada pelo regime, só lha dariam se se divorciasse de Arpad tido como um perigoso comunista. Les deux amoureux, artistas pintores sem nacionalidade, partem para o Brasil, onde estiveram exilados durante sete anos. Solidão, sentimento de orfandade e condições precárias. Arpad cedo apercebe-se de que não conseguiriam sobreviver somente com a venda dos quadros. E ele começa a aceitar pintura de retratos e a dar aulas. Ela dedica-se à pintura decorativa de objectos. Em 1947, dois anos depois do fim da guerra regressam a Paris onde vivem até ao fim da vida: assim, o trabalho, os passeios, a luz, a calma, a casa, o atelier, as mãos e a tela, o ritmo dos respirares nem mais lento nem acelerado. As obras de ambos começaram a ser exibidas regularmente nas prestigiosas galerias de Jeanne Bucher e Pierre Loeb. Até 1990, a consagração internacional se afirmou. Já não se preocupavam com as coisas do dia-a-dia - viviam apenas um para o outro e para a sua pintura, privando com um pequeno grupo de pintores, escritores e poetas.
Arpad tornar-se-ia um dos melhores representantes da Escola de Paris dos anos 40. A importância de Vieira da Silva no panorama da arte internacional seria reconhecida unanimemente. Mas Arpad e Vieira da Silva permaneceriam, na mudez segredada por detrás dos seus quadros, uma história de amor irredutível a galardões e comentários críticos. Viveram lado a lado durante cinquenta e cinco anos.
Meus amigos:
Hoje, Dia dos Namorados, trago a história de amor de Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes. Sempre quis falar de Vieira da Silva aqui no Xaile. O texto que produzi, a partir do livro abaixo indicado, é apenas um pequeníssimo resumo sobre estes dois artistas. Muito há ainda a dizer sobre a sua vida, o seu desempenho na arte da pintura e inúmeras peripécias por que passaram. Mas com o Amor, sentimento sublime, a acompanhá-los. Excelente dia de São Valentim vos desejo.
==== Texto a partir de "10 histórias de amor em Portugal", de Alexandre Borges Pags. 76 a 88 Ver: Fundação Arpad-Szenes-Vieira da Silva Imagem 1 - daqui Imagem 2 - pintura de Arpad Szenes Imagem 3 - pintura de Vieira da Silva Quinzena do amor