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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

POR ONDE ANDA VOCÊ?





Você,
que vaga em meus sonhos,
qual a brisa de outrora;
acordando sentidos,
acarinhando sentimentos;
exumando lembranças,
memórias perdidas de nossos bons tempos;
laços desatados,
desabraçar dos braços,
confiscar dos sorrisos...
Hoje,
me desencontro a te desencontrar nas redes,
te desachando onde todos se acham;
Desachado, me acho na praia vazia,
mar do tempo a murmurar poesia,
areia do destino a devorar meus passos,
vadia saudade.
O vento,
sopra ecos de nós dois;
o céu,
furta as cores do passado,
projeta um show de slides no entardecer;
a noite,
deixa caírem os cabelos negros,
escuros como os seus;
a lua e as estrelas,
fragmentos do brilho inquieto dos seus olhos.
E mais um dia se esvai…
Por onde anda você?

Antonio Pereira Apon




Sim, por onde anda você?

me desencontro a te desencontrar nas redes, te desachando onde todos se acham; desachado, me acho na praia vazia...

Convidei o Rei para nos ajudar nesta demanda 
mas complicou tudo perguntando, por sua vez,
Adónde andarás, Paloma?





Si supiera dónde estás
Si pudiera convencerte
Que mi amor nada cambió
Y que sufro al no tenerte
Es tan triste no saber
Si todavía me quieres
Si no te importa mi amor
Y es por eso que no vienes




Blog do Autor - Aponarte


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Quinzena do Amor
Post 1 - Doe seu Tudo; Post 2 - Sobre o Amor;
Post 3 - Areais de Além-Mar; Post 4 - Meu Amor
Post 5 - Para ti; Post 6 - Como invenção minha
Post 7 - Amor grande; Post 8 - Certezas;
Post 9 - Poema para a Amada; Post 10 - Preciosas Pérolas;
Post 11 - Ainda te Lembras?; Post 12 - Velejei em ti

Imagem: pixabay

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Quinzena do Amor


Não sei bem quando comecei isto. Em dado momento, tomando como referência o Dia dos Namorados, resolvi publicar poemas de amor ou prosa poética, de 01 a 15 de Fevereiro. Já falei dos amores de Pedro e Inês, de Tristão e Isolda, de Romeu e Julieta. 

Tenho publicado poemas de autores conhecidos e desconhecidos, cartas de amor de grandes personalidades literárias e não só. Já tive o prazer de publicar poemas vossos ou de autores da vossa preferência. 

E como não podia deixar de ser, volto a convidar-vos para esta maratona do amor e aqui fico a aguardar escritos da vossa autoria ou de quem gostais para abrilhantar este espaço durante o tempo acima referido. Bastará que depositeis o vosso contributo no espaço destinado aos comentários. Irei ali buscá-lo e publicá-lo-ei... 



Portanto, declaro aberta a Quinzena do Amor, aqui, no "Xaile de Seda" (a partir de 01/02).

Abraços


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Imagem: Net

domingo, 14 de fevereiro de 2021

o tempo subitamente solto. um dia, quando a ternura for a única regra da manhã


o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.

eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.

era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

E MAIS

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.

José Luís Peixoto

José Luís Peixoto (1974) é um narrador, poeta e dramaturgo português,
cuja primeira obra foi publicada em 2000.
foi o mais jovem vencedor de sempre do Prémio Literário José Saramago. Desde esse reconhecimento, a sua obra tem recebido amplo destaque nacional e internacional. Os seus livros estão traduzidos e publicados em 26 idiomas.
A sua obra tem sido abundantemente adaptada para espetáculos e obras artísticas de diversos géneros.


A voz cristalina de Carolina Deslandes. 
E o seu talento.

Valentine's Day

Neste dia, que para muita gente seria de oferendas simbólicas e comemorações com jantares à luz das velas, temos as palavras.
E servimo-nos, aqui, das palavras dos outros para abrilhantar esta maratona, apesar da Covid-19, que quase nos fazia falhar a meta.
Nos textos que apresentei foi privilegiado o amor romântico. Mas o Amor universal e solidário está sempre presente nas minhas publicações, como sabeis.

Agradeço a vossa presença e comentários. 
Irei visitar-vos em breve.

Bom domingo, meus amigos.

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Citador - Textos
Veja José Luís Peixoto, aqui, no Xaile de Seda

sábado, 13 de fevereiro de 2021

A Serenata






Vestida de gemidos de bordão,
lancinâncias de violino,
na noite parada
vem descendo a seresta.

Sumiu-se a cidade barulhenta
inimiga das crianças e dos poetas.

Uma voz canta sentimentalmente um samba.

          Aquele aperto de mão
          não foi adeus!

Os cavaquinhos desmaiam de puro sentimento,
a cidade morreu lá longe,
e a lua vem surgindo cor de prata.

Nessa história de amor todos são iguais,
até o rei volta sua palavra atrás...

O meio tom brasileiro deixa interrogativamente a sua nostalgia.

É hora que os poetas escolheram
para a procura dos seus mundos perdidos...

Amanhã a cidade virá novamente
inimiga dos poetas.
Mas agora ela dorme,
ela não sabe que os poetas falam com Nossenhor,
com a lua e as estrelas,
nesta hora tão lírica...

Menina romântica, irmã
das crianças e dos poetas...
A tua janela, florida de esperanças,
é um mistério que a cidade não entende.

Passa a serenata.
Mas no coração dos que temem a primeira luz do dia que vai chegar
ficam os gemidos do violão e do cavaquinho,
vozes crioulas neste noturno brasileiro
de Cabo Verde.


Oswaldo Alcântara




Osvaldo Alcântara, pseudônimo poético de Baltazar Lopes da Silva, nasceu na Ilha de São Nicolau, Cabo Verde, em 1907. Advogado e filósofo. Professor, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa. Um dos fundadores da revista Claridade, marco da literatura cabo-verdiana.

Publicou: Chiquinho (romance), São Vicente, 1947; O Dialeto crioulo de Cabo Verde, Lisboa, 1957; Cabo Verde visto por Gilberto Freire, Praia, Cabo Verde, 1956; Antologia da ficção cabo-verdiana contemporânea, Praia, Cabo Verde, 1960.

Conhecemo-lo, não é verdade? 
Veja-o aqui, no Xaile de Seda




Humbertona



Bom fim de semana, amigos.

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Extraídos de

BARBOSA, Rogério Andrade. No ritmo dos tantãs; antologia poética dos países africanos de língua portuguesa; Brasília: Thesaurus, 1991. 165 p.
Site de António Miranda:
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/cabo_verde/osvaldo_alcantara.html


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O Amor é o Elixir da Juventude





O amor é um poema. Dói e canta cá dentro. Tem a filosofia das árvores, a lição do mar, os ensinamentos que as aves recolhem quando migram para lá dos desertos, de onde hão-de regressar mais sábias e seguras. O amor é uma causa. Uma luta excessiva com a divindade dos dias e a sua fogueira obscura. Mas também contra o mistério de si mesmo, uma paz que nos dá o cansaço e a loucura infeliz da felicidade, esse primitivo terror dos sinos que tocam como um aviso aos densos nevoeiros súbitos do mar.

O amor é uma casa. Erguida com os beijos, com os versos da noite e o gemido das estrelas. Casa cujas paredes vestem o nosso júbilo, a nossa intuição, a nossa vontade, sobretudo o nosso instinto e a nossa sabedoria. Onde se acende e brilha a luz suplicante da pele comprometida dos amantes. O amor é um gigantesco pequeno mistério, uma estranha generosidade que faz com que, quanto mais damos, com mais ficamos para dar.

Só o amor é o elixir da juventude. Não esse que sempre se procurou nas indecifráveis formulas dos antigos livros de magia e de alquimia, mas aquele que está tão perto de nós que, por vezes, o pisamos sem reparar.

Joaquim Pessoa, 
in 'Guardar o Fogo'


Joaquim Maria Pessoa (1948), conhecido por Joaquim Pessoa, é um poeta, artista plástico, publicitário e estudioso de arte pré-histórica português.

Veja alguns posts dedicados a este autor aqui, no Xaile de Seda







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Texto: Citador

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Eu te amo






Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Se ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir

Chico Buarque


Francisco Buarque de Hollanda mais conhecido como Chico Buarque (1944), é um músico, dramaturgo, escritor e ator brasileiro. É conhecido por ser um dos maiores nomes da música popular brasileira (MPB). Sua discografia conta com aproximadamente oitenta discos, entre eles discos-solo, em parceria com outros músicos e compactos.
Mais ... Aqui




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Em todas as ruas te encontro





Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto    tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

in "Pena Capital"

Mário Cesariny de Vasconcelos (1923 -2006) foi poeta e pintor, considerado o principal representante do surrealismo português. É de destacar também o seu trabalho de antologista, compilador e historiador (polémico) das actividades surrealistas em Portugal.
Mais...




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Poema - Citador

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Poeminha amoroso

                              Se eu fosse Cora
                                      Coracoralinava a vida
Corava tudo de prazer
Deixava simples, felizes
E doces as coisas
Cora Coralina
:)





Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu…
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu…

E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.

Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,

o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo…
eu te amo, perdoa-me, eu te amo…



Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (Cidade de Goiás, 20 de agosto de 1889 — Goiânia, 10 de abril de 1985), foi uma poetisa e contista brasileira. Considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras, ela teve seu primeiro livro publicado em junho de 1965 (Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais), quando já tinha quase 76 anos de idade, apesar de escrever seus versos desde a adolescência.

Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás.





Poeminha gostoso, não é? Un peu naïf como convém aos poemas de amor romântico... Veremos em breve esta Mulher, no Xaile de Seda, em poemas fortes de crítica social, crítica aos costumes...

Boa terça-feira, meus amigos.


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Imagem:Pixabay

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Ao encontro de "A Palavra Mágica"

Todos os anos dedico a primeira quinzena de Fevereiro a poemas que falem de Amor nas suas múltiplas facetas. Ao longo do tempo tenho-o anunciado e lançado desafios no sentido de virem nela participar não só lendo como trazendo textos da própria autoria como dos autores preferidos. Desta vez não tive oportunidade de o fazer, por motivos vários, mas a denominada, por mim, de Quinzena do Amor não passou despercebida à nossa querida Emília que me deixou este encantador comentário, no post A Demora.  



 
Sabia, querida Olinda, que ias começar a tua " quinzena do amor", como de costume e apesar de vir aqui sempre ( imperdoável...saio sem nada dizer), só hoje reparei que já começaste a brindar os teus amigos com poemas amorosos. Gostei muito da rosa, essa flor linda que, segundo o autor, sempre buscamos; estamos sempre inquietos, procurando alguma coisa e muitas vezes é tão simples o que desejamos, que poderemos encontrá-lo numa rosa, num girassol, numas florzinhas campestres, olhando o mar, pensando nos amigos , dizendo mais vezes, aos que estão perto de nós que os amamos. Não podemos visitar os amigos, abraçar os que estão doentes ( há-os sempre, infelizmente ) mas podemos telefonar e mostrar-lhes o quanto são importantes na nossa vida o quanto pensamos neles. Há dias de tudo, Amiga....há dias em que faço isso e a conversa fica muito interessante e benéfica para os dois lados, mas há outros em que penso neles, mas fico por aí. Esta situação desanima toda a gente, mas não podemos deixar que ele nos tolha e nos impeça de dar algum alento aos outros e, com isso, a nós mesmos também. Carlos Drummond de Andrade tem um poema onde ele fala da Palavra Mágica, palavra que ele busca todos os dias e que continuará a procurar até a encontrar. Há tantas palavras mágicas, Olinda!!!! Precisamos encontrar a nossa! Para muitos é o Amor e, concordo...sendo sincero, opera verdadeiros milagres e é essencial à nossa vida, ao nosso equilíbrio emocional; mas há outra...que não deixando de ser uma forma de amar, para mim também é mágica, a Amizade , esse sentimento lindo que, juntamente com o amor, faz a vida valer a pena. Obrigada, querida Amiga, pela quinzena do amor, uma oportunidade de conhecermos, com toda a certeza, belos poemas. Que te sintas sempre rodeada de muito amor e que não te faltem também os bons Amigos. Um abraço enorme, carregadinho de amizade
Emilia 🌷 🌻 🙏

Eis pois Drummond de Andrade, o homem do pluriamar, aqui, no Poema em boa hora citado pela querida Emília:

A Palavra Mágica

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

Carlos Drummond de Andrade,
in 'Discurso da Primavera'





A minha resposta ao comentário:


Querida Emília

Devia ter anunciado a "Quinzena do Amor", como faço todos os anos. Não pude fazê-lo a tempo e horas, deixando para a rematar, no final, com algumas palavras.
E foi muito prazeroso para mim que te tenhas lembrado deste ciclo que nos tem acompanhado no "Xaile de Seda", desde o princípio.
A situação que estamos a atravessar é terrível, mas há sempre espaço, mais do que nunca, para o Amor. E para a Amizade, esse sentimento belíssimo que nos faz irmanar na vida e encontrar pessoas belíssimas,
como tu, querida Amiga.
E se não te importasses gostaria de passar algumas passagens deste teu comentário para o post. Ou na íntegra :)
Desejo-te muita Saúde ao lado dos teus.
Beijinhos
Olinda





Blogue da Emília: Começar de Novo sob a égide de "COMEÇAR DE NOVO", da autoria de Ivan Lins e Vitor Martins, canção interpretada por Simone.

Veja Drummond de Andrade, aqui, no Xaile de Seda.

E continua a Quinzena do Amor...
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Poema:Citador

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Ama-me

Espero-te antes de haver vida
És tu quem faz nascer os  dias
Mia Couto



Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.

Hilda Hilst


Hilda de Almeida Prado Hilst, mais conhecida como Hilda Hilst, (Jaú, 21 de abril de 1930 — Campinas, 4 de fevereiro de 2004) foi uma poeta, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. É considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX. Seu trabalho aborda temas como misticismo, insanidade, erotismo e libertação sexual feminina. Hilst foi fortemente influenciada por James Joyce e Samuel Beckett, e essa influência aparece em temas e técnicas recorrentes em seus trabalhos como o fluxo de consciência e realidade fraturada.








Veja Hilda Hilst, aqui, no Xaile de Seda.


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in 'Preludios-Intensos para os Desmemoriados do Amor'
Poema - Citador

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Quando eu não te tinha




Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo...
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima…
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor—
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as coisas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.



Alberto Caeiro da Silva foi um heterónimo criado por Fernando Pessoa, sendo considerado o Mestre Ingénuo dos heterónimos Álvaro de Campos e Ricardo Reis e também de seu próprio autor, Fernando Pessoa, apesar de apenas ter feito apenas a instrução primária....
É um poeta de completa simplicidade, e considera que a sensação é a única realidade. Suas principais obras são O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos.




Veja Alberto Caeiro, aqui, no Xaile de Seda.

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6-7-1914

“O Pastor Amoroso”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).

  - 89. aqui

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

VOAR

Ocorre-me agora
a pupila minúscula de uma criança.
A sua engenharia
desde o corpo na guerreira pequenez
ao dedo provador da boca.

Ocorre-me esta criança
este monge da franqueza em seu templo de inocência.
Amo-a. Vivo-a.

Voar é poder amar uma criança
Sonhar-lhe o peso no colo, as mãos acariciantes
sobre a palma da alma.

Voar é tardar a boca
na rosa do rosto de uma criança.
Pronunciar-lhe a ternura,
a seda fresca e pura
da sua infância.

Voar é adormecer o homem
na mão sonhadora
de uma criança.




Eduardo Costley-White (1963 - 2014) foi um poeta moçambicano.
Autor de vários livros de poesia como: Amar sobre o Índico (1984), Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave (Caminho, 1992), Janela para Oriente (Caminho, 1999) ou O Manual das Mãos (Campo das Letras, 2004).
Além de poesia, publicou também novelas, como As Falas do Escorpião (2002), e outros textos em prosa. Mais aqui




Eduardo White, aqui, no Xaile de Seda

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Poema - daqui

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

A Demora

O amor nos condena: 

demoras 
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.
 

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.
 

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.
 

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.
 

Envelhecida a palavra, 
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.
 

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

in " idades cidades divindades" 



Mia Couto, pseudónimo de António Emílio Leite Couto (n. 1955), é um escritor e biólogo moçambicano, conhecido de todos e figura assídua neste 
"Xaile de Seda".
Veja aqui alguns dos posts a ele dedicados.





Ary dos Santos/Fernando Tordo


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Poema: Citador

domingo, 31 de janeiro de 2021

Rosa (in)Fixa

não há quem não persiga uma rosa
nos escassos dias da mortal residência na terra

não há quem não a busque
mística ideal solitária carnal geográfica ou comunal
inseparável de longas veias e bandeiras

nunca houve quem não a desejasse colhida nas mãos em concha
como água purificadora desses escassos dias de residência

volátil volúvel sublima-se e desespera ao mínimo gesto
do toque e do encantamento o achador

qual a tua rosa?

temos cada um de nós a rosa eletiva e nunca idêntica
por mais próxima mística ideal ou comunal à do outro

a rosa (in)fixa só aparentemente se movimenta
somos nós atrás dela velozes e perdidos
ansiosos de busca do que não temos ou temos imperfeitamente

cada um quer a sua rosa
clandestina mas rosa
apaixonada mas rosa

solitária — todas as rosas são solitárias — mas ainda assim rosa
comunal porém de todos rosa
carnal ou mística sempre e ainda rosa rosa mesmo que conspurcada
e rosa da rosa-dos-ventos rosa é
desabrochada sobre o mundo
de ilha a continente
de mar a mar
de pólo a pólo
levada pelos ventos

ó rosa que nos diversificas no âmago de ti própria!
qual a tua rosa?

rosa de ninguém porque minha e eletiva
não há quem não persiga a sua rosa
inagarrável estrela que adia a mortal residência
e nos sobra no leito ao acordarmos
nem sabemos em que horizontes de outras rosas.

Oswaldo Osório

Rosa (in)fixa. 
Todos procuram a sua de modo a fixá-la nas suas vidas. 
É a procura da Felicidade, talvez...
"cada um quer a sua rosa
clandestina mas rosa
apaixonada mas rosa"




Oswaldo Osório, do seu nome próprio Osvaldo Alcântara Medina Custódio é uma referência na literatura cabo-verdiana; nasceu em Mindelo a 25 de Novembro de 1937. Terminou o liceu e ingressou no Seminário Nazareno, tendo exercido várias funções profissionais, como trabalhador de rádio, funcionário público, empregado de comércio, presidente da União dos Sindicatos e jornalista no semanário Voz di Povo



Leia também:

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Soneto do Amor Total



Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, como grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.


Vinicius de Moraes, 

in 'O Operário em Construção'







Chegamos ao fim da Quinzena do Amor, deste ano. 
Em jeito de despedida desta série, trouxe o soneto de Vinicius de Moraes intitulado, Soneto do Amor Total, como que a reafirmar todos os poemas e textos que publicámos.

Que o amor seja vivido como uma festa entre risos, harmonia e cumplicidade.

Agradeço a todos os que por aqui passaram.

Bom fim de semana.

Abraços.

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Entretanto, meus amigos, estarei ausente por alguns dias.
Desejo-vos dias felizes.

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Poema: Citador
Imagem: aqui

Quinzena do amor


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Vieira da Silva e Arpad Szenes - uma história de amor





Ele nascido na Hungria, descobre muito cedo a sua aptidão para o desenho. Estabelece-se em Paris depois de ter percorrido todas as capitais artísticas europeias. Ela nascida em Portugal, desde criança interessada pela magia das artes. Viajaria para Paris para estudar escultura e pintura.

Maria Helena saía todas as tardes, em longos passeios pela cidade, em busca dos pintores antigos, dos modernos, pelas galerias  e pelos museus, de Cézanne e de novas formas de configurar o mundo. Descobre que só naquele conjunto de luz e sombras encontraria a inspiração que procurava.




Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva encontram-se na bela Paris em 1928, quando ainda procuravam desvendar as linhas da pintura e da escultura da Academia Ranson. Ele em guaches e têmperas, exploração de ambientes e sensações de luz. Ela, urbana, explorando a profundidade do espaço e a angústia da guerra.

Casam-se em 1929. Arpad abdicaria das suas próprias ambições para se dedicar a Helena, à mulher vulnerável e melancólica, a precisar de apoio e de certezas para a confiança no seu génio, como ele chegaria a dizer. Ela retribuiria pintando retratos que encheriam as paredes de casa. Leva-a a viajar, para espaços inspiradores aos seus olhos de artista, revela-lhe os mistérios da Hungria e Pensilvânia. Ela, recordando Sintra na assimetria das suas duas colinas.

Em Paris trabalhavam, incansáveis e apaixonados, deixando que o espírito lhes guiasse as mãos e os pincéis. Em 1933 acontece a primeira exposição de pintura de Vieira da Silva. A vida continua a mesma, com os dois a abraçar-se e a pintar-se no silêncio da sua casa feita atelier, e a frequentar as reuniões no Café Raspail, do pequeno mundo intelectual "Amis du Monde".




O eclodir da guerra, 1939, veio alterar as suas vidas. Arpad era judeu húngaro e apátrida. Aceita de Maria Helena a ideia de um refúgio em Lisboa. Maria Helena tenta recuperar a nacionalidade portuguesa, perdida aquando do seu casamento. Chantageada pelo regime, só lha dariam se se divorciasse de Arpad tido como um perigoso comunista.

Les deux amoureux, artistas pintores sem nacionalidade, partem para o Brasil, onde estiveram exilados durante sete anos. Solidão, sentimento de orfandade e condições precárias. Arpad cedo apercebe-se de que não conseguiriam sobreviver somente com a venda dos quadros. E ele começa a aceitar pintura de retratos e a dar aulas. Ela dedica-se à pintura decorativa de objectos.

Em 1947, dois anos depois do fim da guerra regressam a Paris onde vivem até ao fim da vida: assim, o trabalho, os passeios, a luz, a calma, a casa, o atelier, as mãos e a tela, o ritmo dos respirares nem mais lento nem acelerado.

As obras de ambos começaram a ser exibidas regularmente nas prestigiosas galerias de Jeanne Bucher e Pierre Loeb. Até 1990, a consagração internacional se afirmou. Já não se preocupavam com as coisas do dia-a-dia - viviam apenas um para o outro e para a sua pintura, privando com um pequeno grupo de pintores, escritores e poetas.




Arpad tornar-se-ia um dos melhores representantes da Escola de Paris dos anos 40. A importância de Vieira da Silva no panorama da arte internacional seria reconhecida unanimemente.

Mas Arpad e Vieira da Silva permaneceriam, na mudez segredada por detrás dos seus quadros, uma história de amor irredutível a galardões e comentários críticos. Viveram lado a lado durante cinquenta e cinco anos.






Meus amigos:

Hoje, Dia dos Namorados, trago a história de amor de Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes. Sempre quis falar de Vieira da Silva aqui no Xaile. O texto que produzi, a partir do livro abaixo indicado, é apenas um pequeníssimo resumo sobre estes dois artistas. Muito há ainda a dizer sobre a sua vida, o seu desempenho na arte da pintura e inúmeras peripécias por que passaram. Mas com o Amor, sentimento sublime, a acompanhá-los.

Excelente dia de São Valentim vos desejo.



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Texto a partir de "10 histórias de amor em Portugal", de Alexandre Borges
Pags. 76 a 88
Ver: Fundação Arpad-Szenes-Vieira da Silva
Imagem 1 - daqui
Imagem 2 - pintura de Arpad Szenes
Imagem 3 - pintura de Vieira da Silva

Quinzena do amor