A apresentar mensagens correspondentes à consulta Mia Couto ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta Mia Couto ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 23 de abril de 2019

Vinte e zinco

20 de Abril

Ninguém nasce desta ou daquela raça. Só 
depois nos tornamos pretos, brancos ou
de outra qualquer raça

Extracto do diário de Irene, parafraseando
Simone de Beauvoir
...

23 de Abril

Deus fez a árvore para que o Homem não 
sentisse medo do tempo.

Dito do cego Andaré


24 de Abril

Já não carecemos da igreja: o mundo inteiro
se converteu numa imensa igreja.
De joelhos, arrebanhados até ao sonho, 
aceitamos a qualquer preço isso a que 
chamam de  redenção.

Dos cadernos de Irene


25 de Abril

"Toda a terra ficará branca com a luz das
estrelas e o céu será engolido pelas
andorinhas"

Shaka Zulu a Dingane, seu assassino


26 de Abril

Até que o leão aprenda a escrever, o
caçador será o único herói.

Nozipo Maraire, em Carta a Minha Filha

...
Vinte e Zinco é o título do livro que Mia Couto escreveu a convite da Editorial Caminho aquando do 25º aniversário da Revolução de Abril de 1974. É escrito em forma de diário, de 19 a 30 de Abril, e cada dia é iniciado com a citação de um dito dos personagens, exceptuando-se um ou outro.

Antes do primeiro dia, há uma página onde vem gravada esta fala da adivinhadora Jerussima, justificando-se o título do livro:

"Vinte e cinco é para vocês que vivem nos
bairros de cimento.
Para nós, negros pobres que vivemos na madeira 
e zinco, o nosso dia ainda está por vir"

A referida Editora convidou, na altura, outros escritores constituindo assim uma colecção fechada, Colecção Caminho de Abril. Passo a indicá-los:

Alexandre Pinheiro Torres - Amor, só Amor, Tudo Amor
Alice Vieira - Vinte e Cinco a Sete Vozes
Almeida Faria - A Reviravolta
Carlos Brito - Vale a Pena Ter Esperança
Germano Almeida - Dona Pura e os Camaradas de Abril
Manuel Alegre - Uma Carga de Cavalaria
Maria Isabel Barreno - As Vésperas Esquecidas
Mário de Carvalho - Apuros de Um Pessimista em Fuga
Mia Couto - Vinte e Zinco (citado acima)
Sebastião Salgado - Um Fotógrafo em Abril
Urbano Tavares Rodrigues - O Dia Último e o Primeiro

De referir que a indicação da Editora, destes autores e das suas obras é apenas por amor à arte, não obedecendo assim a nenhuma espécie de publicidade de que o Xaile de Seda se distancia sempre.

Neste Dia do Livro, proponho a leitura do livro de Mia Couto, que é o autor aqui homenageado, seguindo o meu propósito de, por estes dias, assinalar  escritores moçambicanos, mas também poderá ser de um dos autores acima mencionados ou então um autor e um livro à vossa escolha.

O importante é ler e, também, respeitar os direitos autorais.


====

Mia Couto, Vinte e Zinco - citações páginas: 11, 24, 59, 73, 90, 98
Leia, se interessar:
Uma análise: Mia Couto e a reescrita da história: o 25 de Abril em Vinte e Zinco
Flavia Renata Machado Paiani

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

o mar não se vê: nele nos vemos nós

 


   O navio faz-se ao mar e, por um momento, parece-me que quem se movimenta é o continente. Não será num barco que viajaremos. Navegaremos como sempre se viaja: através de lembranças e sonhos. Mas eu já não lembro nem sonho. Tenho quinze anos. Vou para longe de mim, sem bagagem e sem documentos. Mas levo comigo o meu filho, o princípio da minha eternidade.

   A meio da noite, Dabondi e eu somos chamadas ao camarote do comandante Jaime Leote do Rego. À entrada, Dabondi toma nas suas mãos os braços do militar. É raro uma das nossas mulheres dar-se a esses avanços. A rainha, porém, simpatizou com o branco de barba grisalha. A afeição é recíproca: o tenente fita a rainha como se lhe estudasse o rosto. Perfeito, é ela quem eu queria, confirma ele com entusiasmo.

   Ao fundo do camarote está uma tela suportada por um cavalete. Sobre uma cadeira estão pousados dois pincéis e uma paleta onde combinam diferentes tons de azul. Quero pintar o mar, confessa. Foi por isso que exigiu a presença de Dabondi. No cais, diz ele, escutei esta mulher. Diz-lhe que volte a cantar!

- Não sou eu que canto - argumenta Dabondi. Outros usam a minha voz.

- Diz a essa mulher que não estou habituado a pedir.

   A rainha sorri e responde: Pergunta a esse homem se recebe ordens para sonhar.

   Com a ponta dos dedos Dabondi afaga a tela com delicadeza. Acredita que está perante um tear e que o comandante é um tecelão. Com gestos redondos, como se falasse com os braços, o português apresenta a obra por começar: o mar não se vê: nele nos vemos nós. Depois acrescenta: Eu vi o oceano quando escutei  esta mulher a cantar no cais.

   Oferece um cálice de aguardente à rainha. Dabondi vaza o cálice de um trago. Acena o copo vazio reclamando por uma segunda dose. Se me escutou cantando, este branco não pode ser um inimigo, diz ela. E acrescenta: A bebida é boa, vou fazer-lhe a vontade. Depois a rainha solta a voz. O comandante cerra as pálpebras e, lentamente, as águas do mar inundam o seu camarote.

  Com o braço direito soerguido, os passos afinados com a canção da rainha, o comandante Jaime Leote do Rego avança na minha direcção e pergunta:

- Já alguma vez dançaste com um  homem branco?

Excerto, pgs. 106/107, O Bebedor de Horizontes, 3º volume da Trilogia, "As Areias do Imperador" - Mia Couto

=====

Fala de Imani que em conjunto com o Sargento Germano de Melo nos dão a conhecer esta parte da História de Moçambique, desenvolvendo uma narrativa epistolar. O sargento é uma personagem fictícia e em relação a Imani penso que se passa o mesmo. Não consegui encontrar qualquer referência como sendo real. 

Mas ambos no desenrolar dos três livros têm a sua própria história. Uma história de vida. Íntima. E trágica. Espelho de outras vidas, talvez.

Jaime Leote do Rego, militar e oficial da marinha portuguesa, é comandante do navio onde seguiam, para o exílio, Ngungunyane, as suas sete mulheres, o filho Godide, o tio Molungo, o rival Zixaxa e as suas três mulheres. Para além de outros presos.

Dabondi é uma das sete mulheres do imperador.


O mar, esse, é uma entidade temida pelos vátuas. 
Um pavor, quando tiveram de o enfrentar, embarcados 
para destino desconhecido.



Elma Uamusse
Uma voz poderosa


Ao escritor foi atribuído o Prémio Jan Michalski, pela edição francesa da obra. O júri reconheceu “a excecional qualidade da escrita” de Mia Couto, que conjuga, “subtilmente, oralidade e narração literária e epistolar, contos, fábulas, sonhos e crenças, no seio da realidade histórica de Moçambique, no final do século XIX, na luta contra a colonização portuguesa”.*

Já Carlos Maria Bobone diz, em relação à Trilogia, que a obra não faz jus ao tema. Segundo ele: Mia Couto não podia ter escolhido melhor tema para a sua trilogia; e pior do que não ter feito um bom romance é ter conseguido fazer de um bom tema um mau romance.**

Poderá ver no "Xaile", dois posts sobre o assunto, Ngungunyane I, Ngungunyane II. Neles faço referência a:

Ungulani Ba Ka Kosa, que escreveu dois livros, "Ualalapi" e "As mulheres do Imperador", condensando-os num só volume,

e a:

Mia Couto, sobre o primeiro volume desta Trilogia que contém os seguintes títulos: I Mulheres de Cinza; II A Espada e a Azagaia; III O Bebedor de Horizontes.

Cingindo-se aos factos históricos, Mia Couto apresenta-os imprimindo-lhes o seu cunho peculiar, inconfundível.

Boa quinta-feira, meus amigos.

Abraços
Olinda


===
Leia, se lhe interessar:
Prémio Jan Michalski*
Artigo de Carlos Maria Bobone**

Imagem: pixabay

sábado, 5 de julho de 2025

Terra sonâmbula

 Aos poucos, eu sentia a nossa família quebrar-se como um pote lanado no chão. Ali onde eu sempre tinha encontrado meu refúgio já não restava nada. Nós estávamos mais pobres que nunca. Junhito tinha os joelhos escapando das pernas, cansado só de respirar. Já nem podíamos machambar. Minha mãe saía com a enxada, manhã cedinho, mas não se encaminhava para parte nenhuma. Não passava das micaias que vedavam o quintal. Ficava a olhar o antigamente. Seu corpo emagrecia, sua sombra crescia. Em pouco tempo, aquela sombra se ia tornar do tamanho de toda a terra.

Mesmo para nós, que tínhamos bens, a vida poentava, miserenta. Todos nos afundávamos, menos meu pai. Ele saudava a nossa condição, dizendo:a pobreza é a nossa maior defesa. A miséria faz conta era o novo patrão para quem trabalhávamos. Em paga recebíamos protecção contra más intenções dos bandidos. O velho exclamava, em satisfação:

_É bom assim! Quem não tem nada não chama inveja de ninguém. Melhor sentinela é não ter portas.

Excerto: Terra Sonânbula, de Mia Couto - pg.15



Mia Couto, pseudônimo de Antônio Emílio Leite Couto, nasceu na cidade da Beira, em Moçambique, África, no dia 5 de julho de 1955. É filho de Fernando Couto, emigrante português, jornalista e poeta que pertencia aos círculos intelectuais de sua cidade. Ver mais aqui


===

Veja: Mia Couto aqui, no Xaile de Seda

Terra Sonâmbula é o primeiro romance publicado por Mia Couto (1992)
Nota do editor: Machambar - fazer machamba, cultivar um terreno agrícola

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Ngungunyane ou as Areias do Imperador - II

Nesta minha fase africanista muito severa, não que não tenha já passado por outras de igual cariz e com muito gosto, pretendo continuar a falar de Moçambique e da sua História, isto é, na óptica de alguns dos seus escritores. O tema em presença é o iniciado num post anterior intitulado: Ngungunyane ou as Areias do Imperador I.

Começo com esta pergunta colocada por Mia Couto, sobre a questão dos mitos e dos heróis:

Que nação no mundo não mitificou pelo menos uma parte da sua História? As nações precisam destas grandes mentiras. E, aqui, é quase cruel: cada vez que se gera um herói em Moçambique, ele está muito próximo de quem o criou. Um herói não pode ter essa proximidade.*

Na verdade e tendo em conta as experiências por que temos passado, verificamos que a História é uma construção humana. Documentos panegíricos é que o mais abunda. Por exemplo, na História de Portugal, bastaria lembrarmo-nos das crónicas de Fernão Lopes entre outros cronistas. E um dado interessante que agora me ocorre é que o que sabemos sobre os Gauleses foi-nos transmitido por Júlio César, em De Bello Gallico, onde narra a forma como venceu Vercingétorix (o verdadeiro Astérix da BD). Um simples apontamento.

Isto para dizer que é preciso haver distanciamento para que os factos históricos sejam analisados, comparados, e lhes seja dado o cunho científico que se pretende nesta disciplina, muito embora ciência humana. E assim, a criação de mitos. Tratando-se de ferramentas importantes para determinada visão do mundo pátrio, é um elo que se quer forte na construção da identidade nacional.


E é na procura dessa identidade que Moçambique tem envidado esforços no sentido de marcar a sua moçambicanidade, focando a diversidade da sua cultura que se espraia nas muitas línguas nacionais e na sua relação com a língua portuguesa, cabendo aos intelectuais a maior parte dessa tarefa, com a utilização de uma língua que não é a sua, mas o veículo necessário para a transmissão das suas ideias.

Continuando com o tema proposto no titulo, depois de Ualalapi/As Mulheres do Imperador, de Ungulani Ba Ka Khosa, Mia Couto brinda-nos com uma trilogia sobre Ngungunyane, Gungunhana para os portugueses, (o último dos imperadores que governou toda a metade sul de Moçambique),  quanto à sua acção, o seu tempo e son entourage: As areias do Imperador.** 

Nela, o autor prefere seguir um caminho diverso, uma estrada epistolar a par da oralidade (forma de transmissão dos ancestrais) afastando-se um pouco do conceito de romance histórico tradicional para se situar no campo de uma recriação quase poética ou recreação ficcional e também tendo em conta o maravilhoso, sem descurar, obviamente, os dados históricos em si. 

Mia Couto considera-se um poeta, e a partir desse dado constrói a trama dos seus livros, assinalando que a sua história não será menos verdadeira que as histórias oficiais tanto de Portugal como de Moçambique, sobre o assunto. Realmente, em toda a História do Homem, para cada momento há histórias e realidades que se sobrepõem. Uma visão unívoca pecará por insuficiente, creio eu.

No caso desta trilogia, a acção se passa entre dois territórios: o dos documentos escritos e o da oralidade, como referi acima. Dois personagens contam a história: Um deles é o sargento Germano de Melo. Mia Couto coloca-o num posto no meio do nada e pô-lo a contactar os seus superiores através de cartas, nas quais lhes dá conta das dificuldades, da falta de recursos e em especial da falta de homens. É logo na primeira carta que diz isto, ele que participara na revolta de 31 de Janeiro e estava em Moçambique na condição de deportado:

...os nossos domínios, que tão pomposamente chamamos de "Terras da Coroa", encontram-se votados ao desgoverno e à imoralidade. Na maior parte desses territórios nunca nos fizemos realmente presentes durante séculos. E nas terras onde marcámos presença foi ainda mais grave, pois quase sempre nos fizemos representar por degredados e criminosos. Não existe, entre os nossos oficiais, nenhuma crença de que sejamos capazes de derrotar Gungunhane e o seu Estado de Gaza.***

Falta de homens e de recursos. E mais ainda: falta de organização dificultando a boa gestão dos poucos meios. Eis um dado histórico perfeitamente comprovado em todas as ex-colónias, um império demasiado vasto para um tão pequeno país. Esta acção decorre no último quartel do Século XIX, relativamente pouco tempo após a Conferência de Berlim de 1884/85 que retalha África e obriga os intervenientes a uma ocupação efectiva dos territórios. Então, um Ah! de espanto se evola dos nossos lábios perante as campanhas de pacificação e quejandos!

Imani, menina de quinze anos, é o personagem que contará o outro lado da história, ela que pertence à tribo dos VaChopi uma das poucas que ousou opor-se à invasão de Ngungunyane. Tornar-se-à intérprete de Germano de Melo e apesar das diferenças entre os seus mundos há um envolvimento entre os dois que aumenta com o tempo, como se verá. A última carta do sargento, no primeiro volume, datada de 26 de Agosto de 1895, é escrita por Imani, que entretanto aprendeu a ler, porque segundo o próprio ficou sem mãos: ambas voaram como asas de anjo, rasgadas por uma bala desfechada à queima roupa. Assim também as cartas que se seguirão.

Termino esta exposição que já vai longa, transcrevendo ainda um pequeno texto que inicia o livro Um:

A estrada é uma espada. A sua lâmina rasga o corpo da terra. Não tarda que a nossa nação seja um emaranhado de cicatrizes, um mapa feito de tantos golpes que nos orgulharemos mais das feridas que o intacto corpo que ainda conseguirmos salvar.


===== 

O post que se seguirá está relacionado com: as línguas nacionais e a língua portuguesa - o último por agora :)

=====

*Entrevista a Mia Couto em Ler - Inverno 2017/2018
**As areias do Imperador: Mulheres de Cinza-I, 2015 ; A Espada e a Azagaia-II, 2016; O  Bebedor de Horizontes-III, 2017
** *Mulheres de Cinza - pg 41

As areias do imperador - um resumo

A Obra é baseada em extensa documentação produzida em Portugal e Moçambique e entrevistas efectuadas em Maputo e Inhambane.

domingo, 20 de junho de 2021

Sotaque da terra

Estas pedras
sonham ser casa

sei
porque falo
a língua do chão

nascida
na véspera de mim
minha voz
ficou cativa no mundo,
pegada nas areias do Índico

agora
ouço em mim
o sotaque da terra

e choro
como as pedras
a demora de subirem ao sol




Mia Couto (1955) é um escritor, poeta e jornalista moçambicano. Ganhador do Prêmio Camões de 2013. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras para a cadeira n.º 5.

Mia Couto, pseudônimo de Antônio Emílio Leite Couto, nasceu na cidade da Beira, em Moçambique, África, no dia 5 de julho de 1955. Filho de Fernando Couto, emigrante português, jornalista e poeta que pertencia aos círculos intelectuais de sua cidade. 
(...)

=====

Poema e biografia - daqui

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Amei-te sem saberes





No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos nocturnos lábios entreabertos

E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio

in 'Raiz de Orvalho'



E as timbilas obedeceram à voz de quem sabe das coisas.





Mia Couto e Joe Dassin iniciam esta Quinzena do Amor. Se tudo correr bem aqui para as minhas bandas, publicarei um poema ou dois todos os dias. O que quer dizer, meus queridos amigos: aprestem-se a ler, preparem os olhos, assestem os óculos ou monóculos que esta quinzena vai ser de muita leitura, e de que maneira!


Abraços

Olinda


****


===
Mia Couto, pseudónimo de António Emílio Leite Couto (Beira, 5 de julho de 1955), é um escritor e biólogo moçambicano. Dentre os muitos prémios literários com os quais foi galardoado está o Prémio Neustadt, tido como o Nobel Americano. Couto e João Cabral de Melo Neto são os únicos escritores de língua portuguesa que receberam esta honraria. daqui

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

A Demora



O amor nos condena: 
demoras mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

in " idades cidades divindades" 



Mia Couto (António Emílio Leite Couto) é um escritor moçambicano, nascido em 5 de julho de 1955, na cidade de Beira. Trabalhou como jornalista durante quase 10 anos, porém ingressou na Faculdade de Biologia e, posteriormente, tornou-se professor universitário, profissão que concilia com a sua carreira de escritor. Assim, em 1983, publicou seu primeiro livro de poesias — Raiz de orvalho.

Já seu primeiro romance — Terra sonâmbula — foi publicado, em 1992, com grande sucesso de público e crítica. Ganhador do Prémio Camões em 2013, Mia Couto é um autor da literatura contemporânea, e suas obras são caracterizadas, principalmente, pelo resgate da tradição cultural moçambicana por meio de uma linguagem marcada por neologismos. 
Ver mais aqui






Boa semana, meus amigos.

Abraços
Olinda



====
Poema: daqui

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Diz o meu nome






Diz o meu nome 
pronuncia-o 
como se as sílabas te queimassem 
                                  [os lábios 
sopra-o com a suavidade 
de uma confidência 
para que o escuro apeteça 
para que se desatem os teus cabelos 
para que aconteça 

Porque eu cresço para ti 
sou eu dentro de ti 
que bebe a última gota 
e te conduzo a um lugar 
sem tempo nem contorno 

Porque apenas para os teus olhos 
sou gesto e cor 
e dentro de ti 
me recolho ferido 
exausto dos combates 
em que a mim próprio me venci 

Porque a minha mão infatigável 
procura o interior e o avesso 
da aparência 
porque o tempo em que vivo 
morre de ser ontem 
e é urgente inventar 
outra maneira de navegar 
outro rumo outro pulsar 
para dar esperança aos portos 
que aguardam pensativos 

No húmido centro da noite 
diz o meu nome 
como se eu te fosse estranho 
como se fosse intruso 
para que eu mesmo me desconheça 
e me sobressalte 
quando suavemente 
pronunciares o meu nome 

in 'Raiz de Orvalho' 

Mia Couto ou António Emílio Leite Couto, escritor e biólogo. Poeta moçambicano. Raiz do Orvalho é o seu primeiro livro de Poesia. E digo-vos, a dificuldade está na escolha do poema.


Mia Couto é o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no exterior e um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal. Recebeu inúmeros prêmios nacionais e internacionais, por vários dos seus livros e pelo conjunto da obra literária, entre eles: Prêmio Vergílio Ferreira (1999), pelo conjunto da obra, Prêmio União Latina de Literaturas Românicas (2007) e Prêmio Camões (2013). Ler mais, aqui
====
Quinzena do Amor

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Pergunta-me


Pergunta-me qualquer coisa, uma tolice, um mistério indecifrável, simplesmente para que eu saiba que queres ainda saber. 

A incerteza bate à porta do coração? No amor há que desfazer todas as dúvidas.




Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos


Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer


Mia Couto

in 'Raiz de Orvalho'


Mia Couto,(5 de julho de 1955), é um escritor e biólogo moçambicano.
Estreou-se no prelo com um livro de poesia, Raiz de Orvalho, publicado em 1983.





Mia Couto tem uma obra literária extensa e diversificada, incluindo poesia, contos, romance e crónicas, e é considerado como um dos escritores mais importantes de Moçambique. As suas obras são publicados em mais de 22 países e traduzidas em alemão, francês, castelhano, catalão, inglês e italiano. Ver mais aqui


=====

Poema: de aqui
Imagem: de aqui

Quinzena do amor
Post 1

sábado, 28 de abril de 2012

Deus já foi mulher

Li algures que a primeira frase ou frases agarram o leitor levando-o a querer saber o que vem a seguir, num livro. É o que acontece com 'Deus já foi mulher' a primeiríssima frase, segundo penso, do último romance de Mia Couto, A Confissão da Leoa, cujos primeiros parágrafos o Bibliotecário de Babel publicou ontem. Um excelente incentivo para lermos o livro de uma assentada.

Primeiros parágrafos
«Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar.
Talvez por essa razão a minha mãe, Hanifa Assulua, não tenha parado de contemplar as nuvens durante o enterro da sua filha mais velha. A minha irmã, Silência, foi a última vítima dos leões que, desde há algumas semanas, atormentam a nossa povoação.
Porque morreu desfigurada, deitaram o que lhe sobrava do corpo sobre o lado esquerdo, com a cabeça virada para o Nascente e os pés virados para Sul. Durante a cerimónia, a mãe parecia dançar: vezes sem conta ela se inclinou sobre um cântaro feito por suas próprias mãos. Aspergiu água sobre a terra em volta que, depois, calcou com ambos os pés, com o mesmo embalo de quem semeia.»
[in A Confissão da Leoa, de Mia Couto, Caminho, 2012]
Boa leitura a quem se decidir a passar uns bons momentos na companhia de mais este romance de Mia Couto !  Quanto a mim vou fazer por isso.

Bom fim de semana.  :)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Nossa tristeza é a seguinte: ganhámos sem nunca chegarmos a ser vencedores - Voz de Marcelino, vinda do seu último chão


Li Vinte e Zinco, de Mia Couto, há mais ou menos três anos e agora volto a pegar nele. Ouvi (ou li?) há tempos alguém dizer que com tantos livros que existem reler é uma perda de tempo. Devo dizer que há certos livros que tenho prazer em reler, mesmo em detrimento de outros ainda não lidos e que talvez nunca chegarei a ler. 

Este livro surge na sequência de uma iniciativa da Editorial Caminho, no sentido de assinalar o 25º Aniversário da Revolução de Abril de 1974, da qual resultou a 'Colecção Caminho de Abril', com obras de onze autores. Como não podia deixar de ser, Mia Couto transferiu-se com o tema para o seu espaço de eleição, África, Moçambique, construindo uma história, em forma de diário, que decorre de 19 a 30 Abril.

A seguir, dou-vos conta de algumas passagens.




O dia 30 de Abril tem no seu início a fala que serve de título a este post.

E este dia (o último) tem o seguinte desenvolvimento:

Manhã cedo. O cego Andaré segue pelo carreirinho entre os coqueiros, em direcção à cadeia da PIDE. Leva na mão a chave da prisão. A alegria lhe abalroa o peito. Seus irmãos se libertariam de vez daquela grade. Seria aquilo coisa de acreditar?

Ele se vai guiando pelas sombras, ondulações de cinzento em fundo de cinza. O dia está claro, a luz tão límpida que seus olhos parecem enxergar mais longe. Passa pela margem dos pântanos e pressente as garças como lenços brancos, em drapejos de adeus. Pára, sacudido por miragem. Lhe parece, entre os caniçais, a figura de Irene. Vem acompanhada de Jessumina. As duas estão caminhando na lagoa, a água roça-lhes os joelhos. O cego grita:

-Irene! Menina!

As mulheres erguem o rosto, surpresas. Pareciam não esperar ninguém, manhã tão prematura. Irene ainda acena. O cego corresponde. E um aperto lhe retrai o gesto. Aquele aceno era o da despedida? Andaré esgueira o olhar para aperfeiçoar o horizonte. As mulheres caminham para o centro do lago. Quando a água lhes dá pelo peito, Jessumina pára e passa as duas mãos pela cabeça da branca. Depois, a adivinha lhe vira costas. Irene segue avançando, em demorado naufrágio, até submergir por completo na lagoa. O cego reza para que tudo aquilo não seja mais que desvisão. Dessas imprecisões que nascem de seus olhos adoecidos. Passa as mãos pelas pálpebras como se buscasse um mata-borrão para aquelas desfocadas imagens.

De repente, lhe chega aos ouvidos a algazarra de gente correndo. O clamor e a vozearia chegam no mesmo caminho, mas em oposta direcção. E começam a passar por ele homens correndo, cantando e gritando. São os presos que escapam da cadeira. Quem os soltara?

André apressa-se o quanto pode. Junto à prisão se aglomera gente, em confuso atribulício. O cego vai-se esgueirando e penetra nas entranhas do edifício. Não há lá ninguém. Seus passos ecoam no corredor. As portas gemem, ao sabor da brisa. Milhares de papéis se borboleteiam pelo chão.

-Inspector Castro!

Andaré chama, sem convicção. Sabe que não haverá resposta. Retarda o passo ao chegar à sala da tortura. Um corpo atrapalha o caminho, à entrada. É Chico Soco-Soco, o cipaio torturador. Tinha sido morto à pancada. Andaré dá graças de ver tão inexactamente. O homem tinha sido estrilhaçado por mil vinganças. O cego entra na sala Kula, o lugar das torturas. Se apercebe das manchas vermelhas na parede. E no chão, estendido, está Lourenço Castro.

O cego fica à porta como se lhe doesse entrar. Parece triste como a água num poço. Uma mão sobre o ombro o assusta. Reconhece o rosto. É um ex-preso que entende ver, em último relance, o lugar onde tanto sofrera.

-Mataram Lourenço?
-Nós matámos o pide preto.
-Então quem matou o branco?
-Cada qual mata a sua raça.

E o preso, sem mais, se extingue no escuro do corredor. O cego fica só, com essa dúvida roendo-lhe a mente. Quem matara Lourenço de Castro? Por momentos, naquele silêncio de tumba, lhe parece reconhecer um perfume familiar. É aroma de mulher. Num instante, as memórias se avalancham. Passam Custódio, Marcelino, Dona Graça, os idos e revindos, cores antigas que agora se convertiam em sons. Das lembranças emerge uma infindável voz que murmura o que ele, no momento, deve executar.

Andaré Tchuvisco vai à arrecadação da prisão, tira uma lata de tinta branca e um velho pincel. E com amplos gestos ele espalha largas demãos sobre a parede. A cada pincelada, a paisagem do quarto se lava. Não há sangue, não há desordem. Não é só o morto que se esvai: a própria morte desvanece. O cego sente que seus olhos se tornam inundáveis. Como se abrisse um imenso pátio onde toda a luz espraiasse. E sente que a prisão, a cada pincelada, se vai dissolvendo, a pontos de total inexistência. Como se o pincel que empunhasse fosse areia, na mão do vento, apagando pegadas no deserto.


In: Vinte e Zinco, pgs 136 a 139.

Incluo também esta fala que inicia o livro e que se refere expressamente ao seu título:

"Vinte e cinco é para vocês que vivem nos bairros de cimento.
Para nós, negros pobres que vivemos na madeira e zinco, o nosso dia está por vir" Fala da adivinhadora Jessumina

domingo, 24 de março de 2019

Companheiros

quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço
companheiros



Mia Couto, pseudónimo de António Emílio Leite Couto, escritor moçambicano internacionalmente conhecido, lido e traduzido, nasceu na Beira em 1955.

A cidade da Beira, por vezes em conversa, é confundida com as nossas Beiras. Mas a raiz é de cá e, depois da independência de Moçambique, conservou essa designação. Fora originalmente fundada pelos portugueses em 1887, sendo-lhe atribuído o nome de um rio local, Chiveve. Em 1907, recebera a visita do Príncipe da Beira, Dom Luís Filipe portador do decreto real que a elevava à categoria de cidade. Tradicionalmente, o príncipe herdeiro de Portugal detinha o título de Príncipe da Beiraprovíncia histórica de Portugal.
Nesse aspecto, rezam as crónicas:
Talvez por ser a maior província de Portugal, no século XVII, foi transformada num principado honorífico, cujo titular era, inicialmente, a filha mais velha do Monarca e, depois, o Príncipe herdeiro da coroa de Portugal.

=====
Poema: daqui
Beira - Moçambique
Beira - Portugal