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quarta-feira, 25 de setembro de 2024

A "Ramalhal figura"



Ramalho Ortigão era tratado carinhosamente por "Ramalhal figura" pelos intelectuais seus contemporâneos. A seu respeito, Guilherme d'Oliveira Martins, jurista e político dos nossos dias, produziu uma belíssima nota biográfica que termina desta forma: Ao lado de Guilherme de Azevedo (João Rialto), sente-se a presença de João Ribaixo, que é naturalmente a inconfundível Ramalhal figura. aqui  

João Rialto, nos anos oitenta do século XIX dizia isto sobre Ramalho Ortigão, com aquele travo bem-humorado adoptado pelo autores do Álbum das Glórias:

Ramalho Ortigão possui todas as qualidades do homem honesto e varonil, servidas pelo estilo mais vigoroso e mais nítido do nosso tempo. A sua escrita larga e serena, em que há todos os clangores guerreiros e todos os arrulhos pacíficos, parece traçada com uma pena de águia...arrancada da asa duma pomba. Sobretudo, já o disse uma vez Eça de Queiroz, tem o génio decorativo. O programa das festas do Centenário de Camões é principalmente dele, e é a obra talvez de que ele mais se orgulha. Este programa que primeiro despertou um riso de desdém levou depois atrás de si as corporações, depois as escolas, depois as instituições, depois as famílias, depois a própria Carta!

Deve-se a ele definitivamente o último triunfo alcançado pelo Lusíadas das populações, e por aqui se prevê que o seu génio decorativo, animado pelo êxito, depois de vencer a teimosia mais rebelde na pessoa da rotina nacional, há-de animar-se decerto a cometimentos mais largos.

E adivinha-se que a glória suprema de Ramalho Ortigão seria que o Padre Eterno, para fazer um espectáculo assombroso, se lembrasse um dia de o encarregar do programa do Juízo Final!...

 In Álbum das Glórias*, referido no Diário da Liberdade, de Aniceto Afonso, pgs 321/322


.


Efectivamente:

Por iniciativa da corporação da imprensa jornalística de Lisboa, constituiu-se, em março de 1880, uma Comissão Executiva para a celebração do Terceiro Centenário da Morte de Camões, presidida por Ramalho Ortigão, e de que faziam parte, Teófilo Braga, Eduardo Coelho, Luciano Cordeiro, Rodrigues da Costa, Pinheiro Chagas, Jaime Batalha Reis, Magalhães Lima e Rodrigues Pequito, que esteve na origem e foi o verdadeiro motor de arranque da ideia. Esta Comissão que obteve, desde o início, o apoio da Sociedade de Geografia e da Academia das Ciências, colheu, também, de imediato, a adesão ao Município lisbonense, a que presidia, na altura, José Gregório de Rosa Araújo, e das mais variadas corporações, associações, estabelecimentos de ensino, casas de espetáculo, etc., da capital. aqui


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Em relação ao Álbum das Glórias, acima referido, trata-se do título de uma colecção de folhas volantes publicadas em duas séries (1880–1883 e 1902), com caricaturas de políticos, intelectuais, artistas, jornalistas e outras figuras públicas portuguesas da época.
 



*Album das Glorias

1880-1883, 1885, 1902, Lisboa

Ilustrações: Rafael Bordalo Pinheiro

Textos: Barbosa Cohen (“Ri-bomba”), Guilherme de Azevedo (“João Rialto” e “Ripouco”), João Chagas (“João Rimanso”), D. João da Câmara (“João Evangelista”) e Júlio Dantas (“Rufo”), Ramalho Ortigão (“João Ribaixo”) e Rafael Bordalo Pinheiro (“Rimuito”)


***

Lembremos que José Duarte Ramalho Ortigão, (1836-1915), escritor português que nasceu no Porto na Casa de Germalde, fundou os "Vencidos da Vida", grupo que assumia o carácter de uma sociedade exclusivista, congregando vultos da literatura, da política e frequentadores das rodas mundanas e aristocráticas. Também tomou parte activa na "Questão Coimbrã", célebre polémica literária que marcou a visão da literatura em Portugal na segunda metade do século XIX.

Foi um tempo efervescente em termos intelectuais e de posicionamento político, sendo de assinalar ainda as "Conferências do Casino" e a "Geração de 70", nas quais a nossa Ramalhal figura marcou presença.




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Imagens: Net



terça-feira, 28 de maio de 2024

O nome sepultado nas águas (7)

Apesar de todas as incertezas, qualquer especialista concorda, hoje, que Dinamene foi a grande referência na construção do ideal camoniano do amor. A sua serenidade, a sua calma, o seu jeito solene e angélico de se mover e falar, a sua compreensão infinda, a paz enorme, um ser mais perene pelo carácter do que pela beleza física.

A juntar à sua formação humanista, às referências das figuras de Beatriz e Laura, em Dante e Petrarca, aperfeiçoou Camões o ideal da mulher amada: doce, paciente, branda e humilde, de um sofrimento obediente e um medo sem culpa, pura nos sentimentos, espalhando o bem em sua volta - como Dinamene -, o acontecimento mais suave da vida de Luís, um apontamento de mansidão na sua existência de tempestade.

Até 1567, ficou preso em Goa; no regresso a Portugal, é abandonado na costa de Moçambique por motivos pouco claros; aí, passados dois anos, o amigo e historiador Diogo de Couto encontra-o e fá-lo, por fim, embarcar de regresso à Pátria, dezassete anos depois de ter sido forçado a deixá-la e já sem os originais do seu Parnaso.



Em 71, obteve a licença da Inquisição de publicação para Os Lusíadas, o que viria a suceder no ano seguinte. Oito anos volvidos, pobre e abandonado, calculada a sua idade em cinquenta e seis anos, viria a morrer Luís Vaz de Camões, sem a certeza de ter salvo todas as páginas do manuscrito nem voltado a encontrar outro verdadeiro amor.

Excerto: 10 histórias de amor em Portugal, de Alexandre Borges, pgs.40/41.


Uma história de amor que põe frente a frente dois amores:
 Dinamene e a obra épica de Camões..

Quem venceu este duelo? Aparentemente, 
o manuscrito, ou seja, Os Lusíadas, 
dedicado a D.Sebastião.

Em vida, Luís Vaz de Camões não provou o 
sabor desta fama...


Abraço
Olinda


Último post.



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.Título da história: Dinamene e Luís de Camões
.Subtítulo: O nome sepultado nas águas (usei-o como título do post)
.Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões

segunda-feira, 27 de maio de 2024

O nome sepultado nas águas (6)

O náufrago que nada por entre a exaltação das ondas, erguendo centenas de papéis manuscritos, movendo-se lento à força de um só braço, não é, neste cenário, um herói; o homem que salva a sua obra e alcança a terra, tombando, inanimado, sobrevivente único daquele naufrágio, reparemos bem, não alcança tranquilidade de alma, não se realiza, não fica feliz. Porquê?

Porque, em nome da acção aparentemente heróica, poderá ter deixado morrer o seu amor. É, antes, um ser humano destroçado, arrependido, assombrado pela memória de um rosto angélico, sonho em vida e em morte, que nunca mais o abandonará.

Aquele que se levanta, na manhã seguinte, e caminha trôpego padece de uma mágoa, de um remorso sem remédio, uma saudade que mesmo a sincera esperança de um reencontro espiritual no paraíso não consegue anular.

Arrastar os pés sangrentos, durante vinte anos, até ao dia 10 de Junho de 1580, escrevendo sonetos úteis aos séculos vindouros, mas incapazes de, por um segundo, devolver ao seu autor a verdade de um abraço, a paz de chegar a ser feliz ao lado de alguém - está é, com certeza, uma das mais bonitas e dolorosas formas tomadas pelo amor, um amor eternizado pela morte.



Mas quem era, afinal, Dinamene? Para muitos, tratar-se-ia de uma cativa chinesa, o amor oriental de Camões que adaptou, literariamente, o seu nome: Tim-Nam-Mem ou Din-Nam-Mem. Contudo, o professor José Hermano Saraiva tem outra versão, segundo a qual Camões se havia apaixonado, sim, pela filha de D. Violante, D. Joana, tese que, de facto, um soneto seu parece confirmar:

"A violeta mais bela amanhece/ no vale, por esmalte de verdura/ com seu palácio lustre e formosura/ por mais bela, Violante, te obedece";

outros textos falam de Anha, antropónimo que significava Joana; outros ainda chamam D.Violante de fera, mulher vingativa e cheia de ciúme.

Sendo sabido que D.Joana foi mandada para a Índia e que terá falecido numa viagem e que, segundo o Livro V das Ordenações Manuelinas, o amor entre um servo e a filha de um amo seriam punidos com pena de morte, o poeta terá ocultado a verdade da amada sob um nome codificado.

"Dina" seria afinal uma sigla a que corresponderia: Dona Ioana Noronha de Andrade; a totalidade do nome - Dinamene - significa "poderosa do mar" (marca irónica do seu destino) e correspondia à figura de uma ninfa, tanto em Homero como em Hesíodo (...)

Excerto: 10 histórias de amor em Portugal, de Alexandre Borges, pg 37/38/39.


Meu Deus! 

Depois de nos termos focado, aqui, em Camões e Dinamene, descobrimos que há outras nuances? 

Em todo o caso, ainda que não existam certezas sobre os amores do poeta, parece-me que foram amores muito infelizes, que nunca tiveram a concretização que ele teria desejado.


Abraços 

Olinda



Último excerto, a seguir...


Post 1,Post 2,Post 3,Post 4,Post 5

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.Título da história: Dinamene e Luís de Camões

.Subtítulo: O nome sepultado nas águas (usei-o como título do post)

.Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões


domingo, 26 de maio de 2024

O nome sepultado nas águas (5)

 Se de um lugar alto, muito  para além da Terra, Camões pudesse presenciar o tempo que se lhe seguiu até àquele que hoje passa, talvez se alegrasse de ver que Portugal jamais seria o mesmo sem o seu poema, que a nossa História teria seguido um destino bem diferente se, naquele momento decisivo, não tivesse optado pelo simbolismo das palavras e se lançasse à amada.

Quinhentos anos depois, é de bom senso acreditar que tomou a decisão correcta, mas ele próprio, o Luís de Camões para além do poeta, o homem, esse que dor não infligiu a si mesmo?

Talvez a sabedoria comum se incline a pensar que não se trataria de um amor suficientemente grande, que Dinamene poderia não passar de uma amante como as outras de que os livros nem sempre registaram o nome, mas não é isso que a própria letra do poeta escreveu e deixou, em herança, à humanidade.

Ah! Minha Dinamene! Assim deixaste, Aquela Cativa que me Tem cativo, Alma Minha Gentil, que te Partiste e um Mover de Olhos Brando e Piedoso,

entre outros sonetos, demonstram a preponderância desta mulher na sua vida, antes e depois de morta.



O episódio que narramos nas primeiras páginas deste relato contém um paradoxo: trata-se do mais célebre da biografia camoniana e, ao mesmo tempo, permanece mergulhado em dúvidas, contradições e especulações, quase nada de preciso se sabendo acerca dele.

Camões havia sido chamado de Macau a Goa, a fim de ser julgado por acusações de apropriação de dinheiros alheios, feitas por compatriotas.
É, presumivelmente, na viagem de regresso que, na foz do rio Mecom, junto à margem do Camboja, uma tempestade leva o navio em que viaja a naufragar.

Dinamene acompanha-o na deslocação, o que, só por si, revela a sua importância junto do poeta; nessa altura, Camões tem já escrita, ao que se julga saber, grande parte do poema épico.

É deste acontecimento que retiramos a matriz nevrálgica da fotografia que guardámos para a memória colectiva do nosso autor maior: a de um homem infeliz, castigado pela vida, abandonado pelos deuses, sofredor e mártir em nome de um país inteiro; um homem que não se livra, no entanto, de um estigma de culpa, de imperfeição e de pecado.

Excerto: 10 histórias de amor em Portugal, de Alexandre Borges, pgs 35,36, 37.


Seria o amor de Camões por Dinamene tão grande 
como o demonstram os seus sonetos?

O que se sabe realmente da mente humana?

Julgá-lo com a nossa mentalidade de agora é,
na verdade, anacrónico, 
como em tudo o que a História nos narra.


Abraços

Olinda




Penúltimo excerto, a seguir...






NOTA:

Assinalou-se ontem, 25 de Maio, o Dia de África.
Em Julho dedicar-me-ei a este assunto.

Abraços


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.Título da história: Dinamene e Luís de Camões
.Subtítulo: O nome sepultado nas águas (usei-o como título dos posts)
.Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões.



sábado, 25 de maio de 2024

O nome sepultado nas águas (4)

 Adormeceu

Quando despertou na manhã seguinte, deu por si estendido no interior de uma gruta. Conta, então, a lenda que terá continuado a escrever, acrescentando ao poema os últimos acontecimentos daquela madrugada, trabalhados metaforicamente e assumidos na identidade de todo um povo.

Outra versão, contudo, afirma que terá acordado numa praia, desolado, sem ninguém em torno que lhe confirmasse que ainda que ainda habitava este mundo, recapitulando, lenta e mentalmente, cada minuto de angústia. em qualquer dos casos, terá dado por si num lugar deserto, sozinho, vendo passar diante de si imagens que confundiam ainda sonho e realidade, conflitos e cenas ternas da infância.

Esta é, na verdade, somente uma das encruzilhadas conhecidas na história de amor de Luís Vaz de Camões e Dinamene. 

Afinal, nada aparece, aos dias de hoje, como certo e fidedigno. Que ela tenha sido um grande amor na sua vida, não restam dúvidas, assim como é conhecida a vida boémia do poeta, plena de romances e penas sofridas em consequência dos mesmos; de resto, quando Camões é enviado para Macau como provedor dos bens dos defuntos e ausentes na China, é, precisamente, como um castigo pelo seu envolvimento amoroso com damas da corte.



O que torna, então, especial a relação com Dinamene? Porque deve ser contada e recordada em detrimento de outras? Por duas razões fundamentais: pela essência trágica do seu corolário e pelo dramatismo que subjaz à presumível escolha que estaria implicada na morte da mulher amada: Dinamene perece no naufrágio em que Camões salva o manuscrito d'Os Lusíadas, erguendo-o das ondas com uma mão e nadando apenas com a outra.

E se Luís tivesse abandonado o poema? Se tivesse empregue todas as forças que sobravam em resgatar Dinamene? Terá ele amado mais a sua obra do que a mulher que via sepultada nas águas, mesmo à sua frente? Não nos parece uma hipótese muito válida - Dinamene fez dele seu escravo, tornou-se o maior fantasma da vida daquele homem que morreria miseravelmente em Lisboa, oito anos depois de publicar a epopeia.

Excerto: 10 histórias de amor em Portugal, de Alexandre Borges, pg.34/35.


O que pensais vós, meus queridos leitores? 

Terá Camões preterido, conscientemente, 

Dinamene a favor do manuscrito?


Abraços

Olinda


Continua...

Post 1,Post 2,Post 3


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.Título da história: Dinamene e Luís de Camões

.Subtítulo:O nome sepultado nas águas (usei-o como título dos posts)

.Comemora-se os 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões

.Imagem: Livro de Maicon Tenfen, escritor brasileiro

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

De quantas graças tinha, a Natureza...




De quantas graças tinha, a Natureza
Fez um belo e riquíssimo tesouro,
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.

Pôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a alma tenho acesa.

Mas nos olhos mostrou quanto podia,
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.

Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.


***



Ouro, rosas, rubis, neve e luz pura...os enfeites do amor. 
Pródiga a Natureza...






Carolina Deslandes
Canção de amor




Nota: Comemora-se neste ano os 500 anos do nascimento de Camões.

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Luís Vaz de Camões (1524-1579 ou 1580) foi um poeta nacional de Portugal, considerado uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas da tradição ocidental. aqui

terça-feira, 14 de julho de 2020

Para tão longo amor tão curta a vida

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo:-Mais servira, se não fora
pera tão longo amor tão curta a vida.









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in Líricas - pg 53

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Que Voz!






A Voz de todas as nossas referências.
Aqui, Camões /Amália /Alain Oulman, conjunção perfeita.

E importa dizer algumas palavras sobre este homem que tanto fez  pelo Fado. Um compositor  que musica Poemas de grandes autores de língua portuguesa e que Amália eterniza na sua bela Voz.

Lê-se aqui:

Foi ele quem levou os poetas portugueses, como Luís de Camões, David Mourão-Ferreira, Alexandre O'Neill ou Manuel Alegre, para dentro de casa de Amália. Alain Oulman é também considerado o principal responsável por uma profunda alteração na música que a acompanhava.


No disco Com Que Voz, gravado em 1969 mas editado apenas no ano seguinte, Amália canta nomes como Cecília Meireles, Alexandre O'Neill, David Mourão-Ferreira, Manuel Alegre, Camões, Ary dos Santos e Pedro Homem de Mello. O disco receberá o IX Prémio da Crítica Discográfica Italiana (1971), o Grande Prémio da Cidade de Paris e o Grande Prémio do Disco de Paris (1975).

Oulman, pessoa de esquerda, é perseguido e preso pela PIDE.
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sábado, 3 de fevereiro de 2018

Alma minha gentil que te partiste

Da: Majo
Blogue: A Vivenciar a Vida





Alma minha gentil, que te partiste 
Tão cedo desta vida, descontente, 
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste. 

Se lá no assento etéreo, onde subiste, 
Memória desta vida se consente, 
Não te esqueças daquele amor ardente, 
Que já nos olhos meus tão puro viste. 

E se vires que pode merecer-te 
Algũa cousa a dor que me ficou 
Da mágoa sem remédio de perder-te, 


Roga a Deus, que teus anos encurtou, 
Que tão cedo de cá me leve a ver-te 
Quão cedo de meus olhos te levou. 


Luís Vaz de Camões, 
in Líricas, pg 53

Um soneto que soa sempre a coisa nova pois fala de amor, da dor de amar, da saudade.

Encontrei esta notícia no site do Instituto Camões e aproveito para partilhá-la convosco: 






Durante o ano de 2018, o Camões, I.P. irá promover um conjunto de conversas denominadas “Camões dá que falar” com personalidades das mais diversas áreas.
Com um orador convidado por mês, o Camões abre as suas portas à sociedade civil e pretende tornar-se palco de discussões e debates, num registo informal e inclusivo, de modo a estimular a troca de ideias com a participação ativa da audiência.
Depois de Luís Amado, o próximo orador, é Mia Couto.
Reserve a data de 8 de fevereiro, às 18h00, e assista ao “Camões dá que falar”. A entrada é livre.
Local: Auditório Camões, Rua Rodrigues Sampaio, 113, Lisboa.


Vamos lá ouvir falar de Camões!

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Quinzena do Amor - De 31/01  14/02

Post 7 - Do inquieto oceano da multidão
Post 6 - Amar teus olhos

Posta 5 - Conheço esse sentimento
Post 4 - Éramos tu e eu
Post 3 - Saudades não as quero
Post 2 -Não é por acaso
Post 1 - É daqui a pouco



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Imagem: Net

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

É daqui a pouco...

Declaro aberta a Época do Amor. Tal como em duas outras edições, durante quinze dias publicarei aqui no Xaile de Seda poemas ou prosas de amor, pesquisados por mim ou trazidos pelos meus queridos amigos. Uma maratona.



Por minha conta tenho, para já, este pequeno-grande texto de Isabel Mendes Ferreira, publicado hoje*, com a certeza de que procurarei o trabalho desta Autora muitas mais vezes:

Sei que me habitas

sei que me habitas agora mais longe. tão longe que o perto é uma espada. missa de cúpulas irreal submissão à fímbria das pálpebras. sei que me entendes. debaixo da terra onde me cravas.
lá.
onde se desventram segredos fiéis à dor que se estende como o mar dentro da areia. não ao lado fundo bem dentro. catedral agora de tempestades. mansas. imperdoáveis porém. que o tempo é dorso de pedra.



Voltando ao que dizia mais acima, o nosso tema é o Amor - amor amor, amor-amizade, amor aos nossos familiares, amor aos nossos semelhantes. Amores com desfechos lendários de "felizes para sempre" ou amores infelizes como os de Pedro e Inês, de Romeu e Julieta, de Abelardo e Eloísa e de tantos outros.




E como tenho aqui à mão a obra épica de Camões, Os Lusíadas, aproveito para deixar aqui duas das estrofes que ele dedica a Inês de Castro, no Canto III:


Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam, 
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria. 

Eram tudo memórias de alegria. E sabemos como  terminou. Mas nem tudo são tristezas no Amor e o meu primeiro post desta série vai demonstrá-lo. Nele veremos o milagre que é a força de um abraço.

Até já.


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*Retirado: daqui
Peço à autora me perdoe esta ousadia.

Os Lusíadas (excerto canto III) - Luís Vaz de Camões


Imagem:Pixabay

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A vós que me visitais

Chegados ao dia de hoje*, impunha-se um balanço do que fiz e do que deixei para trás. Houve situações sobre as quais eu deveria ter-me debruçado. Depois via que já estavam a ser tratadas, vistas e revistas e comentadas, não indo eu acrescentar nada de relevante. Outras houve em que, impulsivamente, lá dizia da minha justiça. Mas, o que na verdade acontece é que por aqui as coisas vão acontecendo sem prazos nem periodicidades. Penso que poderia ser de outro modo, mas ainda bem que apareceis apesar destas minhas falhas.



Hoje gostaria de produzir um grande texto se a isso me assistissem o engenho e a arte. Em vez disso prefiro recorrer às interrogações sobre o desconcerto do mundo do grande Luís Vaz de Camões nestes versos em oitava. Eis as três primeiras:

O desconcerto do mundo**

Quem pode ser no mundo tão quieto,
ou quem terá tão livre o pensamento,
quem tão exp'rimentado e tão discreto,
tão fora, enfim, de humano entendimento
que, ou com público efeito, ou com secreto,
lhe não revolva e espante o sentimento,
deixando-lhe o juízo quase incerto,
ver e notar do mundo o desconcerto?


Quem há que veja aquele que vivia
de latrocínios, mortes e adultérios,
que ao juízo das gentes merecia
perpétua pena, imensos vitupérios,
se a Fortuna em contrário o leva e guia,
mostrando, enfim, que tudo são mistérios,
em alteza de estados triunfante,
que, por livre que seja, não se espante?


Quem há que veja aquele que tão clara
teve a vida que em tudo por perfeito
o próprio Momo às gentes o julgara,
ainda que lhe vira aberto o peito,
se a má Fortuna, ao bem somente avara,
o reprime e lhe nega seu direito,
que lhe não fique o peito congelado,
por mais e mais que seja exp'rimentado?

.... (excerto)

Luís Vaz de Camões
in:Líricas - pg 85





Neste oitavo ano que agora começa aqui no Xaile de Seda, comunico-vos a intenção de reeditar a Quinzena do Amor, que irá de 31 de Janeiro a 14 Fevereiro. Por isso, peço o vosso contributo, como das outras vezes, trazendo-me poemas de amor, vossos ou de quem admirais, os quais publicarei durante esses quinze dias. Podereis deixá-los no espaço dos comentários. Para já, os meus agradecimentos.

Um grande abraço.


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* 7º aniversário do Xaile de Seda

** Nota de rodapé, do livro:
Esta célebre poesia moral foi endereçada ao seu amigo D. António de Noronha, filho do Conde de Linhares, companheiro e talvez discípulo algum tempo. Alude ao desconcerto, à má organização em que andam as coisas neste mundo: os bons por baixo, os maus no galarim

Imagens: Pixabay


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Busque Amor novas artes, novo engenho




Busque amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.




Ai, o mal de amor. Quem melhor que Camões o descreve?

A propósito, vá ao blogue Horas extraordinárias onde encontrará notícias recentes deste nosso Poeta maior, mais precisamente, sobre "Os Lusíadas" ou a sua autoria.

=====
Poema: Lírica camoniana

sábado, 6 de junho de 2015

O desconcerto do mundo



Uma passadinha por aqui apenas para vos desejar um bom fim de semana e, de caminho, referir o que das minhas leituras de ontem mais me chamou a atenção:

5 de Junho - Dia Mundial do Meio ambiente, instituído na Conferência das Nações em Junho em 1972. Um tema que, pela sua importância na nossa vida, merece toda a nossa atenção. Vide aqui a Declaração sobre o meio humano produzida na altura;

A A.D.S.E. foi transferida para o Ministério da Saúde. Como sabem pertencia ao Ministério das Finanças. O futuro dirá se os beneficiários sairão beneficiados com esta mudança;

Entra-nos, todos os dias, pela casa dentro a novela sobre o futebol nacional e não só. Apesar de todos os pesares conservo intacta a capacidade de me espantar. Daí o meu espanto por tudo o que oiço e leio e vejo.

Do grande Camões estas palavras dedicadas ao desconcerto do mundo:

Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;

e, para mais m´espantar,

os maus vi sempre nadar

em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim

o bem tão mal ordenado,

fui mau, mas fui castigado:

Assi que, só para mim

anda o mundo concertado.



Reitero os meus votos de um bom fim de semana.

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Poema trazido de aqui
Imagem de aqui