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domingo, 25 de agosto de 2019

Liberdade é esta chama...





Benignos os deuses que derramam
Sua majestade no coração dos homens
E dulcificam tempestades
No fogo dos poetas.

Néscios os homens que caminham rente
Aos pés e de olhar perdido:
Receiam a nuvem
E gota de luz.

E gemem as dores
E funestas danças no corpo interdito
De auroras negras.

Liberdade é esta chama. Que almeja
A inquietação dos anjos
E o seio do barro redentor.

E se glorifica eterna
Na fusão do sonho
E mágoa.

Manuel Veiga

in Perfil dos Dias
pg.100


Ler Perfil dos Dias, o mais recente livro de Poesia de Manuel Veiga, é deveras um exercício de pertença. Nesse percurso, assinalam-se os poemas nossos preferidos para, a seguir, voltar ao princípio porque afinal são esses e mais outros e assim sucessivamente acabando, nós, por perfilhá-los a todos.

Então, porquê a escolha de "Liberdade é esta chama..." e não outro, nesta nossa publicação de hoje?

Estes versos: Liberdade é esta chama.Que almeja/A inquietação dos anjos/E o seio do barro redentor, e todos os outros que compõem o poemanão poderiam, quanto a nós, definir com maior acuidade esse valor por que todos ansiamos, aflorando o fogo interior que nos anima e a nossa condição humana. E nesse lume redentor marcamos encontro esconjurando as nossas fraquezas e fantasmas.


Conhecendo um pouco da obra de Manuel Veiga, julgamos ver neste livro uma deliciosa contenção, quiçá, uma bem alojada maturação de ideias e de sentires. 

Os poemas grandiloquentes, que amamos, de palavras que desafiam os deuses, cantam Helenas e Lydias, louvam  montanhas e declives, água e febre, em que, por vezes, o Poeta (perdoe-nos esta interpretação), ombreando com essa força divina lança raios e coriscos, em rasgos de puro talento,- dão lugar no presente livro a um olhar mais intimista e humanizado

Com efeito, surgem os chamados Poemas Mínimos dos quais colhemos mensagens inteiras e também aqueles em que o Poeta se recolhe e mostra mais de si, como em Inamovível Pedra, Sou Pedra Rústica, Sei que passo, Fio de prumo e outros, não deixando de lado Regresso(s), poema de uma doçura imensa.

Perfil dos DiasManuel Veiga
Modocromia Edições, Lda
2019




Do Autor, assinalamos ainda:

"Do Amor e da Guerra - Fragmentos", editora Modocromia, 2018. 
"Caligrafia Íntima", Poética Edições, 2017
"Do Esplendor das Coisas Possíveis", Poética Edições, 2016
"Notícias de Babilónia e Outras Metáforas",  editora Modocromia, 2015.
"Poemas Cativos", Poética Editora, 2014.

O Blog: Relógio de Pêndulo
.
NOTA: 
Num próximo post apresentaremos um Apontamento sobre o "Do Amor e da Guerra - Fragmentos". 

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1ª imagem:
Pixabay


terça-feira, 20 de agosto de 2019

Hoje não dançaremos a noite

Ela pega no livro de poemas e começa a ler. Entrementes, distrai-se e inconscientemente o seu pensamento voa para longe e ensaia palavras quase sem nexo: "A outra parte de mim gerada num dia de graça no cimo de alta montanha, enfeitada de coroa de louros, lira pura não dedilhada: Onde estará? Ansiará por mim?"

Recolhe-se por momentos. Lá fora os sons da noite, ténues, num rumorejar fazem dançar o silêncio. Com as mãos cheias de nada agarra a viola e toca a misteriosa música que os búzios transportam desde a noite dos tempos. 

O livro abandonado ganha vida, de novo.





ENTRE CADÊNCIAS

Adormeço entre a bigorna e a cadência
dos relâmpagos. Escavo o minério
por entre os ramos despenhados da ausência

O ritmo partiu-se no ar
e levanto o rosto de encontro ao fogo
quebrado e cego

Hoje não dançaremos a noite
Sou um barco melancólico
entre as dunas do silêncio



ÚLTIMO SILÊNCIO

Queria morrer numa praia desassombradamente livre
morrer sentindo morrer o grito da gaivota -
a pele da areia iluminada como a pele
em torrão da minha pele
como rúbia acendalha do templo, do vidro negro

beber das faúlhas do regaço infindo, 
entrar por todas as aberturas
do último silêncio.

Se gritarem o meu nome
do limiar onde os demónios se amam em loucura -
digam que engoli um astro vivo comprimido
que afogarei num leito de pérolas suavíssimas
com as mãos cheias de noite e de nada
numa praia desassombradamente livre



Ana Pinto é artista plástica, abrangendo as áreas de pintura sobre tela, ilustração e cerâmica.Como tal está representada em várias colecções particulares em Portugal e no estrangeiro.
Escreve poesia desde muito jovem. Em 2004 foi galardoada com o prémio Revelação em Poesia, pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) e pelo Instituto Português do livro (IPLB), com o livro “ O pólen do silêncio”.
A sua escrita, de diversas temáticas, incide também em temas clássicos e mitológicos.


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Poemas e biografia de Ana Pinto: daqui
Imagem: Acrílico sobre papel - Ana Pinto Arte
Título do post: Verso do poema "Entre Cadências"





sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Literatura eterna ou temporal

O ser humano busca nas artes a forma de exprimir os seus sentimentos, sonhos, anseios, desejos. Vemos isso na pintura, na escultura, na música, na dança, no teatro e em tantas outras actividades. 

Assim a Literatura, essa manifestação artística maior que, através do verso e da prosa, procura explicar o nosso mundo, o mundo das sensações, das emoções. É o sítio onde marcamos encontro, tomando contacto com a nossa condição humana, um lugar onde autores e leitores comungam do poder das palavras, a matéria prima moldada, cinzelada pelo talento e prenhe de significações. Cada um de nós aproveitará esse manancial, representado pelos textos literários, de conformidade com a sua sensibilidade e as suas necessidades. 

Tem sido colocada a questão sobre a responsabilidade dos obreiros da Literatura de produzir textos que respondam ou não a questões da sua época ou, ainda com um sentido lato, que atravessem o próprio tempo tornando-se quase eternos



Vejamos o que tem a dizer José Régio sobre o assunto, na sua qualidade de historiador da Literatura:

Penso eu que a literatura pode responder a interrogações, pode tentar responder-lhes, pode simplesmente pô-las e pode nem sequer pô-las. Há a contar com a variedade dos temperamentos literários. Coisa difícil, sei-o por experiência própria, embora deva estar na base de qualquer atitude crítica. Aceitemos, porém, que toda a grande literatura põe interrogações, e lhes procura resposta. Pergunto: Não poderá admitir-se que seja antes às interrogações eternas do homem eterno que a literatura procura responder? Não envelhecerá uma obra de arte precisamente na medida em que só responde às inquietações de uma época? E não perdurará na medida em que, através, ou não, de respostas provisórias a interrogações provisórias, sugere uma resposta eterna a interrogações eternas, exprime inquietações eternas embora de forma pessoal?

Entendamo-nos: Há quem, no homem, antes considere o homem eterno, e quem antes considere o homem temporal. O leitor compreende que chamo homem eterno ao que, no homem, permanece através da diversidade das épocas, dos meios, das circunstâncias históricas, das modalidades individuais; e que chamo homem temporal ao que nele depende destas coisas. Evidentemente, o homem que através da literatura se nos revela é, ao mesmo tempo, um e outro: o temporal e o eterno. Mas a questão é esta: Será antes pelo que nos revela do homem temporal que uma obra dura por humana - ou antes pelo que nos revela do homem eterno? Duram as tragédias de Shakespeare, ou as comédias de Molière, antes pelo que nos mostram do homem do tempo de Shakespeare e Molière, ou antes pelo que nos mostram do homem de sempre?

Diz Rodrigues Miguéis: «Uma literatura que não responde às interrogações da sua época - pelo menos - está condenada ao esquecimento.» Ora aquele importante "pelo menos" ao mesmo tempo salva e embrulha tudo nesta frase dúbia. Tal como está expresso, o pensamento de Rodrigues Miguéis é o seguinte: uma literatura, para viver, deve responder às interrogações que o homem se põe. Em primeiro lugar (parece) às eternas interrogações do homem de sempre; pois em não respondendo a estas, deverá responder, pelo menos, às da sua época.




Ecce Homo:

José Régio (1901-1969), ou José Maria dos Reis Pereira, o autor do Cântico Negropoema lapidar de que apenas retemos, por vezes, os versos considerados mais emblemáticos:

"Ninguém me diga: vem por aqui"!
...Não sei para onde vou 
 Sei que não vou por aí!",

poema esse incluído em Poemas de Deus e do Diabo. Na sua escrita as Palavras parecem ganhar força anímica, a marca desse grande
    escritorpoetadramaturgoromancistanovelistacontistaensaístacronistacríticoautor de diáriomemorialistaepistológrafo e historiador da literatura. aqui

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Andrea Bocelli e Mateo Bocelli


Texto Citador:
José Régio -  in 'Presença, Folha de Arte e Crítica, 1927-1940'
Literatura - aqui
Imagem: Pixabay


terça-feira, 2 de julho de 2019

Oceano Nox







Junto do mar, que erguia gravemente 
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...

Antero de Quental, 

in "Sonetos"




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Poema: Citador
Imagem: daqui
Video: 
Mar ê morada de sodade - Bana

sábado, 19 de maio de 2018

andam gastas e inúteis as palavras

andam gastas e inúteis as palavras. andam acesas as "interioridades" e parcas as sedas e raras as casas da generosidade e enigmáticas as douradas vaidades. temporariamente frágil como uma grinalda em fim de tempo ou um anjo orgânico sucedem-se as línguas as águas o turvo o rubro dos contrários e o negro da fadiga. os olhos mutantes e o coração de um cello impaciente revoltam-se na cauda bífida da mais pobre geometria do casulo das abelhas. o dizer lamentativo é uma dor expulsável e uma faca como chicote. andam gastas as mãos de tanta colheita em vão._______lucidíssimo o vário dizer que amanhã não estaremos cá para cerzir o mapa da lucidez. a consciência é uma clara face a banhar-se no lago dos bárbaros.

(texto publicado pela autora, em 16/05/2018)

Isabel Mendes Ferreira - in Palavra




Anda a lucidez arredada dos nossos dias. Parece que as boas palavras já perderam o sentido. É bom que o silêncio se imponha, se levante e requeira para as almas ansiosas que pululam por aí uns minutos de reflexão.

Vamos pensar todos juntos. Há situações que não têm solução, isto é, aquelas que não dependem de nós e sabemos bem quais são (por exemplo: a morte, doenças incuráveis...). Mas a gestão do nosso quotidiano, das nossas querenças ou malquerenças, preferências por isto ou por aquilo são coisas a que podemos dar o rumo que quisermos. 

A tendência para reacções acerbas pode ser condicionada e, estando nós de posse de todas as nossas faculdades mentais, isso é possível.

Bom fim-de-semana.

Abraço

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Imagem: daqui


terça-feira, 1 de maio de 2018

É preciso avisar...

É preciso avisar toda a gente
dar notícia informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir

É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha

É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta

É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores
É preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores


João Apolinário
  (1924-1988)

Poeta e jornalista.
Combateu o fascismo tanto em sua terra natal, quanto em seus anos de exílio no Brasil. Colaborou em inúmeras publicações importantes nos dois países. É, no entanto, mais conhecido por seus poemas, musicados pelo filho João Ricardo e apresentados pelo conjunto Secos e Molhados. aqui




Desejo a todos um bom 1º de Maio.

Abraço.

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Poema: daqui

Video: Youtube

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Mil sóis, mil sorrisos

Os olhos rasos de mar
sobre imagens transidas
de fome e sede e frio e medo.
E o medo, raízes.
Zinco ferro vidro,
a lâmina, a dor, o sangue,
e tudo o que em silêncio, dizes.

A noite em que envelheço
apertando nos braços as sombras
que reconheço
de crianças noutrora felizes.

Encher cada lágrima imensa
de sementes de trigo e de paz.
E na terra árida da indiferença
ver nascer sentença assaz
que conceda aos campos lisos
abertos, outra vez,
mil sóis
mil sorrisos.

LÍDIA BORGES

In: Cinco Lágrimas por Alepo
pg. 14





Pela Síria, por um mundo melhor, por todos nós.

Abraço.

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Imagem: daqui


quarta-feira, 21 de março de 2018

Tabacaria

Não sou nada.



Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. 


Janelas do meu quarto, 
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é 
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), 
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, 
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. 


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. 
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, 
E não tivesse mais irmandade com as coisas 
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua 
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada 
De dentro da minha cabeça, 
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. 


Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. 
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. 


Falhei em tudo. 
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. 
A aprendizagem que me deram, 
Desci dela pela janela das traseiras da casa, 
Fui até ao campo com grandes propósitos. 
Mas lá encontrei só ervas e árvores, 
E quando havia gente era igual à outra. 
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?



 Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? 
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! 
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! 
Génio? Neste momento 
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, 
E a história não marcará, quem sabe?, nem um, 
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. 
Não, não creio em mim. 
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! 
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? 
Não, nem em mim... 
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo 
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando? 
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - 
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, 
E quem sabe se realizáveis, 
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? 
O mundo é para quem nasce para o conquistar 
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. 
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. 
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, 
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. 
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, 
Ainda que não more nela; 
Serei sempre o que não nasceu para isso; 
Serei sempre só o que tinha qualidades; 
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta 
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, 
E ouviu a voz de Deus num poço tapado. 
Crer em mim? Não, nem em nada. 
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, 
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. 
Escravos cardíacos das estrelas, 
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama; 
Mas acordámos e ele é opaco, 
Levantámo-nos e ele é alheio, 
Saímos de casa e ele é a terra inteira, 
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. 





(Come chocolates, pequena; 
Come chocolates! 
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. 
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. 
Come, pequena suja, come! 
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! 
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, 
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) 


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 
A caligrafia rápida destes versos, 
Pórtico partido para o Impossível. 
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, 
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro 
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas, 
E fico em casa sem camisa. 


(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas, 
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, 
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, 
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, 
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, 
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, 
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -, 
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! 
Meu coração é um balde despejado. 
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco 
A mim mesmo e não encontro nada. 
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. 
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, 
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, 
Vejo os cães que também existem, 
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, 
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.) 


Vivi, estudei, amei, e até cri, 
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. 
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, 
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses 
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); 
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo 
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente. 


Fiz de mim o que não soube, 
E o que podia fazer de mim não o fiz. 
O dominó que vesti era errado. 
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara, 
Estava pegada à cara. 
Quando a tirei e me vi ao espelho, 
Já tinha envelhecido. 
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário 
Como um cão tolerado pela gerência 
Por ser inofensivo 
E vou escrever esta história para provar que sou sublime. 


Essência musical dos meus versos inúteis, 
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse, 
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, 
Calcando aos pés a consciência de estar existindo, 
Como um tapete em que um bêbado tropeça 
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada. 




Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. 
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada 
E com o desconforto da alma mal-entendendo. 
Ele morrerá e eu morrerei. 
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos. 
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. 
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, 
E a língua em que foram escritos os versos. 
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. 
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente 
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, 
Sempre uma coisa defronte da outra, 
Sempre uma coisa tão inútil como a outra, 
Sempre o impossível tão estúpido como o real, 
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, 
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. 


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), 
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 
Semiergo-me enérgico, convencido, humano, 
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. 

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los 
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. 
Sigo o fumo como uma rota própria, 
E gozo, num momento sensitivo e competente, 
A libertação de todas as especulações 
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto. 


Depois deito-me para trás na cadeira 
E continuo fumando. 
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. 


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira 
Talvez fosse feliz.) 
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. 



O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). 
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. 
(O dono da Tabacaria chegou à porta.) 
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu. 





Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


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Poema: Citador
Imagens: Pixabay 

quinta-feira, 15 de março de 2018

No fundo aberto

Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge
e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso
como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha.
Chegaste comigo ao fundo aberto sob um céu marinho, 
sobre o qual se desenham as nuvens e as árvores.
Estamos na aurícula do coração do mundo.
O que perdemos ganhamo-lo na ondulação da terra.
Tudo o que queremos dizer sai dos lábios do ar
e é a felicidade da língua vegetal
ou a cabeça leve que se inclina para o oriente.
Ali tocamos um nó, uma sílaba verde, uma pedra de sangue
e um harmonioso astro se eleva como uma espádua fulgurante
enquanto um sopro fresco passa sobre as luzes e os lábios.

António Ramos Rosa
   (1924-2013)

in: Facilidade do Ar
pg
. 53





(...)


Tudo isso desencadeia um efeito de evidência muito próprio desta poesia que, na minha opinião, tem vindo a evoluir na direcção de uma transparência que a tem feito ultrapassar o que seria uma dimensão meramente descritiva, para mergulhar numa dimensão de conhecimento do mundo.
(...)

Fernando Pinto do Amaral


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Imagem: Desenho de António Ramos Rosa - aqui

sexta-feira, 9 de março de 2018

Momento

Em repouso, em ensimesmada indolência
cai a folha. A mão nupcial
desliza no ócio azul em ágeis graças
ou lentas cortesias. Um desenlace de matizes
no fundo da água e no fundo da retina.
Tantos tesouros líquidos, tanta minúcia imensa!
Tudo aqui nega o caos desde as raízes à cúpula
em transparência de clara primavera.
O ar é a ligeireza de um animal
que refresca os mais íntimos bosques
com a diafaneidade alegre das suas veias.

António Ramos Rosa
   (1924-2013)

in: Facilidade do Ar
pg
.42




(...)

Estamos, portanto, em presença de um autor que persegue palavras sempre ditas pela primeira vez, palavras inaugurais, que nos são oferecidas como uma espécie de promessa que permanece suspensa no limiar de si mesma e no horizonte de sentido que nos comunica. (...)

Fernando Pinto do Amaral


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Imagem: Desenho de António Ramos - aqui 

terça-feira, 6 de março de 2018

A fusão libertadora

Que doce e profunda é a água
quando
a luz e a sombra se reúnem.
Uma serena alegria
levanta o corpo em redonda doação.
Chegámos a este oiro incandescente,
deus e demónio em interna unidade,
que já não lutam e se abraçam
no círculo da vida libertada.
Todos os astros numa só constelação
tanta melodia e ritmo e graça
nas palavras, nos corpos e nas ondas
e todas as flores em fruto
e todo o corpo no seu livre dinamismo.

António Ramos Rosa
   (1924-2013)

in: Facilidade do Ar
pg.14







(...)


Esse o permanente enigma desta escrita, essa a permanente interrogação que se ergue na soberania tão luminosa dos seus "acordes". Ao tentar responder-lhe, poderíamos falar no amor, no desejo ou simplesmente nessa divindade  obscura e imediata que se confunde com a matéria e com a energia que a sustenta. Mas o essencial será mantermo-nos atentos ao sábio ardor da sua voz, a essa verdade tão sua mas tão ao nosso alcance, sempre condensada em cada uma das suas muitas "lições materiais".

Fernando Pinto do Amaral

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Imagem: Desenho de António Ramos Rosa : aqui

segunda-feira, 5 de março de 2018

Passagem

Será uma breve passagem entre a cinza e o vento.
Uma suave tentativa, um ligeiro sopro
às portas do silêncio. Uma perda
de tudo, do próprio sentido e do desejo.
Ser nada mas habitar o instante e os seus murmúrios
na infinita dispersão. Entre ruínas,
nos confins de uma terra acinzentada
em que as nuvens e as árvores se confundem,
tudo tem sabor a destino e a princípio,
a plenitude ou nada. E a palavra vibra
silenciosa, unânime, quase ébria
de um deus vegetal entre cigarras.
O mar cintila já. O exílio quase cessa.
O que é breve perdura em grávida leveza.

António Ramos Rosa
   (1924-2013)

in: Facilidade do Ar
pg.8





(...)
O que mais nos toca nesta belíssima poesia não ocorre, assim, ao nível de qualquer pendor confessional, mas sim graças à sua ideia de atingir um conhecimento ignorante: condenado à imanência (e à iminência) de uma fala que detém o poder de nomear, mas que se sabe efêmera, o poeta procura ligar o "deserto" ao "oásis", difundindo  a sua subjectividade por cada ínfima partilha do real, já que o sentido do mundo se encontra em todos os lugares e em lugar nenhum. (...)

Fernando Pinto do Amaral

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Imagem: Desenho de António Ramos Rosa - aqui

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Ser poeta


Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior 
Do que os homens! Morder como quem beija! 
É ser mendigo e dar como quem seja 
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! 


É ter de mil desejos o esplendor 
E não saber sequer que se deseja! 
É ter cá dentro um astro que flameja, 
É ter garras e asas de condor! 

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito! 

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente! 
in "Charneca em Flor" 

=====
Poema: Citador

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Fado Português




O Fado nasceu um dia, 
quando o vento mal bulia 

e o céu o mar prolongava, 
na amurada dum veleiro, 
no peito dum marinheiro 
que, estando triste, cantava, 
que, estando triste, cantava. 

Ai, que lindeza tamanha, 
meu chão , meu monte, meu vale, 
de folhas, flores, frutas de oiro, 
vê se vês terras de Espanha, 
areias de Portugal, 
olhar ceguinho de choro. 

Na boca dum marinheiro 
do frágil barco veleiro, 
morrendo a canção magoada, 
diz o pungir dos desejos 
do lábio a queimar de beijos 
que beija o ar, e mais nada, 
que beija o ar, e mais nada. 

Mãe, adeus. Adeus, Maria. 
Guarda bem no teu sentido 
que aqui te faço uma jura: 
que ou te levo à sacristia, 
ou foi Deus que foi servido 
dar-me no mar sepultura. 

Ora eis que embora outro dia, 
quando o vento nem bulia 
e o céu o mar prolongava, 
à proa de outro veleiro 
velava outro marinheiro 
que, estando triste, cantava, 
que, estando triste, cantava. 

in 'Poemas de Deus e do Diabo' 

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Poema: Citador