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sábado, 30 de novembro de 2019

Sons da vida


Oiço-o. Trauteia algo. É o canto do corvo. Nunca canta. Assobia. Das poucas vezes que resolve cantar vem-me aos lábios um sorriso divertido. Nunca vi ninguém tão musical, ouvido muito apurado, arrancando sons divinos da sua viola de doze cordas, com voz desafinada de tal calibre. E digo-lhe, eu não sei afinar o meu violão (seis cordas) e ele responde é fácil, basta seguires o canto do corvo, começa na quarta corda (ou quinta?) e vai descendo até ao mi, depois sintoniza o mi agudo com o mi grave e afina a corda de baixo pelo seu som. Simples. E mais, ainda podes fazer mais e melhor: esticando a prima e passando daqui para ali podes afiná-lo ficando com os sons de uma guitarra.  Assim fazia ele. Os acordes doces e afinadíssimos começam a soar, fazendo gala dos bemóis e sustenidos misturados com notas simples que, no seu conjunto, fazem a vida mais bela.

E dedilhador como só ele, aparecem logo as mazurkas de sempre que, quase automaticamente, me fazem marcar o ritmo. Aproveitando a última nota da mazurka surge a valsa que me faz rodopiar a saia curta e pondo-me na ponta dos pés finjo apoiar-me no meu par. E assim por diante, uma rapsódia cada vez mais inspiradora faz nascer a dançarina em mim, de pés alados. Sinto e ouço, os sons vão baixando... Ali está ele. Adormece com os dedos na primeira posição do dó maior. É sempre assim. Deixa-se embalar pela própria música. 



Dezembro é o nosso mês. Meu, dele e do António. E mesmo não estando por cá todos tenho a certeza de que faremos uma festa. O João e o Elísio com pretensões a Paganinis. A Inês com a sua voz maviosa e a Maria alcançando tons de soprano. E o António, Ah, o António! Belo, com os seus ares de cientista louco comandará os passos da contra-dança, en avant! en avant quatre! deixem a dama brincar agora! 

Da Bela, belíssima, recordaremos as canções que ouvimos tantas vezes, tantas que as sabemos de cor, as suas leituras, o dizer das palavras, os livros que adorava ler, e que depois li. Dela ficou-me também isto de Lamartine, em Regina e Graziela: Para quê recordar os dias do passado? Pranteiam o vento e o mar a triste sorte não chores coração amargurado, medita nesta morte.

Mas é de vida que se trata aqui. Dos sons da vida. 
     E debaixo da Figueira mansa faremos a nossa festa.





e qual a diferença entre a valsa e a mazurka? Aqui ficamos a saber...

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sábado, 16 de novembro de 2019

Liberdade


Voar como um pássaro, livre de qualquer amarra e reencontrar o momento, o lapso de tempo exacto em que perdi o meu norte. 
Refazer tudo, os nós e os laços, vestir nova roupagem, reviver, para outro destino, outra meta, e entre o céu e a terra, enfim pousar!




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terça-feira, 20 de agosto de 2019

Hoje não dançaremos a noite

Ela pega no livro de poemas e começa a ler. Entrementes, distrai-se e inconscientemente o seu pensamento voa para longe e ensaia palavras quase sem nexo: "A outra parte de mim gerada num dia de graça no cimo de alta montanha, enfeitada de coroa de louros, lira pura não dedilhada: Onde estará? Ansiará por mim?"

Recolhe-se por momentos. Lá fora os sons da noite, ténues, num rumorejar fazem dançar o silêncio. Com as mãos cheias de nada agarra a viola e toca a misteriosa música que os búzios transportam desde a noite dos tempos. 

O livro abandonado ganha vida, de novo.





ENTRE CADÊNCIAS

Adormeço entre a bigorna e a cadência
dos relâmpagos. Escavo o minério
por entre os ramos despenhados da ausência

O ritmo partiu-se no ar
e levanto o rosto de encontro ao fogo
quebrado e cego

Hoje não dançaremos a noite
Sou um barco melancólico
entre as dunas do silêncio



ÚLTIMO SILÊNCIO

Queria morrer numa praia desassombradamente livre
morrer sentindo morrer o grito da gaivota -
a pele da areia iluminada como a pele
em torrão da minha pele
como rúbia acendalha do templo, do vidro negro

beber das faúlhas do regaço infindo, 
entrar por todas as aberturas
do último silêncio.

Se gritarem o meu nome
do limiar onde os demónios se amam em loucura -
digam que engoli um astro vivo comprimido
que afogarei num leito de pérolas suavíssimas
com as mãos cheias de noite e de nada
numa praia desassombradamente livre



Ana Pinto é artista plástica, abrangendo as áreas de pintura sobre tela, ilustração e cerâmica.Como tal está representada em várias colecções particulares em Portugal e no estrangeiro.
Escreve poesia desde muito jovem. Em 2004 foi galardoada com o prémio Revelação em Poesia, pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) e pelo Instituto Português do livro (IPLB), com o livro “ O pólen do silêncio”.
A sua escrita, de diversas temáticas, incide também em temas clássicos e mitológicos.


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Poemas e biografia de Ana Pinto: daqui
Imagem: Acrílico sobre papel - Ana Pinto Arte
Título do post: Verso do poema "Entre Cadências"





quarta-feira, 3 de julho de 2019

Sabores




Aconchega-te aqui, no âmago do meu ser. Imprime-te em mim em espírito e essência. Não nos percamos de vista. Se outra vida houver, unamos as nossas forças para nos reconhecermos e reviver. Provam os nossos desencontros que este tempo não é o nosso. Tempo virá em que saberemos saborear o pouco ou o muito que soubermos ganhar.



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Foto - minha
Video - Jorge Palma
"Encosta-te a mim"


domingo, 30 de junho de 2019

Presença





Em passo leve e estugado percorro o empedrado em direcção à praça estrela, hoje muito descaracterizada. Passo-lhe ao lado rumo ao mar. Livro-me de um passeio bizarro que acaba abruptamente a um bom metro de altura, desemboco na rua do plurim de peixe, já fechado. Rapazes, cá fora, oferecem ainda pratos cheios de peixe: freguesa, seis é só cem escudos. Mulheres de cócoras, de saias entaladas entre as pernas, pesam a olho o conteúdo dos cestos e fazem o preço: é banana, é feijão, é peixe fresco que não pode ficar para amanhã. Pequenos tomates sopesados na palma da mão, é cinquenta. Grupinhos aqui e ali sem pressas, tagarelando.

Não paro mas reduzo o passo, fujo de umas quantas pedras soltas da calçada que um vereador distraído há muito esqueceu. Passo pelo velho cais bem guardado pela águia, testemunha estática de tantos desembarques enjoados ainda na minha impúbere idade. Vou pela marginal e uma aragem oferece-me resistência, ajeito a camisola à volta das ancas, pois não está frio. Já regressam pessoas em traje de desporto da sua caminhada à beira-mar.

Chego à lajinha e descubro o banco de pedra à minha espera. Coloco as mãos na nuca, espreguiço-me interiormente. A brisa brinca com os meus cabelos, embora presos. Chega até mim o som de vozes de jovens na praia jogando à bola e atirando-se à água, num mar um tanto revolto. 

Abstraio-me concentrada em mim e então sinto o toque quase físico, vivo, real, mas contraditoriamente etéreo, coisa sublime, vivida noutro plano, sinto o coração estalar em ondas de alvoroço e oiço joe dassin na sua canção eterna ...il y un an, il y un siècle, il y une eternité ...

fragmentos desencontrados trespassam-me, já não oiço o mar nem os miúdos, a brisa aquieta-se, sinto aquele arquétipo de antanho que se dilui ...
deixando acesa a fogueira do mundo das emoções.









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imagem -foto minha

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Planuras





E então a noite se fez dia em dádivas de alvoradas boreais. Um deus criador de bonanças me aspergia de doçuras que inundavam o meu âmago. E eu procurava-o no seu génio de artista, inventor de palavras que transformavam o meu mundo. Nasciam rios,  afirmavam-se planícies. E eu, ingrata, alegremente inconsciente, aceitava como se tudo me fora devido. Agora, começa a despontar-se a íngreme montanha 
que terei de galgar.


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sábado, 22 de junho de 2019

Na vacuidade dos dias






Por vezes esvazio-me de tudo: Dos sucessos e insucessos, das alegrias e tristezas, das ilusões e desilusões, das frustrações, das decepções. Então enovelo-me em mim, embrulho-me na teoria da tábua rasa e espero. Pouco a pouco reconstruo-me a partir do vácuo. Chamo a mim os meus átomos que, cuidadosamente, se encaixam no meu ser - matéria e espírito. Livre de todo o peso, subo facilmente ao monte mais alto e grito a plenos pulmões. A minha voz ecoa nos lugares mais recônditos. E danço e danço e danço. Rodopio até ver as estrelas a sorrir. Tonta, deixo-me levar e rolo ribanceira abaixo. O cheiro a terra molhada e a musgo envolvem-me e sinto que somos um só. Dedilho a música mais linda e oiço o som do silêncio da eternidade.


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sexta-feira, 21 de junho de 2019

...e a montanha pariu um rato...




Num mundo encantado feito de belas sinfonias, cresciam flores de todas as cores. Todos os perfumes, fragrâncias nunca sentidas envolviam o ar em revoadas de azul e ouro. Miríades de miríades de estrelas cintilavam para além do imaginável. E a estrada de Santiago, dos caminhos da sua infância, indicava-lhe que a chuva ansiada e prometida não tardaria, fecundando a terra sedenta donde nasceriam belos frutos. Na regência desse mundo idílico existia um ser dotado de qualidades raras. Tocava alaúde, cantava belas trovas de que lhe fazia preito em meio a juras de grande estima. O seu jogral. Nesse embalo tudo lhe parecia, a ela, simples, bonito, possível... Em sonhos, estende a mão para alcançar o seu belo rosto. Este vai se distanciando mais e mais, incomensuravelmente, tornando-se difuso até se transformar numa mancha. 

Afinal, nem mancha era, mas apenas...um rato.


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O Fortuna - Carl Orff (Carmina Burana)




Imagem: daqui
Video: Youtube

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Tentações

Vejo Odisseu atarefado, procurando equilibrar o barco por entre tempestades alterosas, contornando mil e um perigos. Tanto tempo se passara já, e lá longe na Ítaca amada a sua Penélope fugindo, sabe-se lá com que estratagemas, aos vários pretendentes que já o terão dado como morto. A ele, ardiloso guerreiro, nada nem ninguém o fará desistir, nem ciclopes, nem Posídon na sua fúria insana. Contudo, sinto que há ali um receio, quase irracional, contra todas as expectativas, posto que se vive num tempo em que tudo faz parte do maravilhoso. Nada do que venha será impossível aos deuses do Olimpo que velam pelos escolhidos. E se ele, Odisseu, por motivos que não consegue vislumbrar, tiver caído em desgraça? Dúvidas terríveis. Só assim se explica essa premonição paralisante à medida que o barco avança. Aproximam-se perigos maiores, sente-o, perigos que o farão praticamente esquecer a pátria e a sua amada. Atentai agora: Cânticos maviosos de belas sereias ressoam. E tão cativantes que os levariam, a si e aos seus homens, a atirarem-se ao mar e para ali ficar, nas profundezas, para sempre. Seguindo conselhos avisados, medidas drásticas se impunham: taparam os ouvidos com cera e amarraram-se aos mastros com nós indestrutíveis. Eu, enroscada num canto, atónita, tomando para mim, inexplicavelmente e de forma excruciante, as divinais promessas, tapei os ouvidos com as mãos, atei-me o mais que pude, mas as vozes das sereias ressoavam-se-me no cérebro, músicas que me prometiam paraísos alteavam-se inundando céus e terra em tentações incontornáveis. Seguindo o exemplo de Odisseu reuni forças e declarei: Agora é a hora, soçobrar ou vencer. Adiantando-me no tempo, desliguei tudo... Enfim, o Silêncio. Porém, pobre de mim, as promessas, os cânticos das sereias, as músicas, haviam lançado raízes bem fundas no meu coração.





Meus amigos,

Desejo-vos um bom fim-de-semana.

Olinda

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Video - Youtube

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Dª Celeste

Ia a passar, hoje, por volta do meio-dia, vi a Dª Celeste à varanda do seu primeiro andar. Fiz-lhe adeus e ela disse: Dª Olinda quer vir cá a casa um bocadinho? -Sim, e quando lhe dá jeito? -Pode ser à tarde? Sim, com certeza. Continuei o meu caminho para casa e às tantas senti um baque dentro de mim... e comecei a repreender-me intimamente. Então, não era para já lá ter ido? Todos os dias digo, Tenho de ir à Dª Celeste; Tenho de ir à Dª Celeste...E todos os dias é porque isto, porque aquilo, e os dias vão passando. Ela não é uma pessoa qualquer, de se cumprimentar na rua com um bom dia e pronto. É a pessoa que, a pedido de outra pessoa sua amiga, também minha amiga, me ajudou imenso com a miúda quando vinham trazê-la do colégio, que não tinha na altura sistema de prolongamentos, e ficava com ela até eu chegar. Seriam uns quinze, vinte minutos, mas os suficientes para me deixar aflita caso os transportes se  atrasassem.

Cheguei à casa da Dª Celeste por volta das 17h30. Previa que a conversa ia ser um tanto dolorosa e já verão porquê. Veio abrir-me a porta, a coxear um pouco, um tanto curvada, e levou-me para a varanda de trás onde ela costumava costurar. Mostrou-me três pares calças de uma vizinha às quais ia levantar as bainhas.- Ainda costura, Dª Celeste? - Ai filha, isto ainda faço. Sabe? Tenho os braços fortes. As dores nas pernas é que não me deixam. Tenho ido a uma rapariga aqui em frente que é fisioterapeuta, mas agora já me custa descer as escadas. Mas ela já me disse para não me preocupar, ela vem à noitinha cá a casa e faz-me os exercícios e as massagens.

Ia falando do seu dia-a-dia com vivacidade mas, na realidade, o que ela queria era falar da amiga que refiro acima. Ela faz-me muita falta, sabe? Ela vinha de manhã, tinha a chave, dizia: "Ó Celeste já está acordada, menina? O João fez café, venha daí. Tenho umas torradinhas quentes, com manteiguinha, uma delícia!" E lá íamos para o segundo andar, para a casa dela...E era assim, muito minha amiga. E muito amiga das filhas, dos netos, estava sempre disponível... Quando me queixava das minhas mazelas dizia-me: "O que quer, já não é uma menina, tem uma bonita idade, 93 anos. E está muito bem." E quem havia de dizer que ela iria antes de mim. Tão nova...

Uma quebra na voz. Tossica um pouco. Diz que, naqueles dias, a princípio a voz não lhe saía da garganta, que se sentia e sente muito enervada e que tem caído bastante dentro de casa. E eu conforto-a, sentindo e comungando da sua solidão. E é tanta que quando lhe disse que vou passar a visitá-la mais amiúde ela ficou contente e disse que, realmente, precisa de companhia. Devo dizer que tem filhos e netos amorosos que lhe dão muito apoio, mas ela própria reconhece que eles têm a sua própria vida e que não podem estar sempre ao pé dela, em todos as horas do dia.

A vida a cumprir o seu ciclo.


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quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Primeiras notinhas do ano


Hoje de manhã estava um frio de rachar. Aqui na minha aldeia estavam 3° e, já se sabe, se noutros países até pode ser uma temperatura suportável, por cá, sem aquecimento, já é de tiritar. Um dos meus irmãos que vive em Amsterdam, quando cá vem diz sempre: epá, nunca tive tanto frio na vida!!! Pudera! Lá, com aquecimento em casa que até estão de manga cava, aquecimento no carro e no trabalho, quem é que tem frio?

Por estas bandas, no tempo frio, ouvem-se e leem-se notícias de pessoas, por vezes famílias inteiras que, no afã de se protegerem do frio, morrem durante a noite por via de lareiras, braseiras, fogareiros e quejandos, que produzem o terrível e fatal monóxido de carbono, agente de tanta tragédia. Aliás, muitos dos nossos edifícios pecam por falta do isolamento necessário, deixando passar o ar gelado e a humidade sem falar na falta de dinheiro para instalação de um sistema de aquecimento condigno ou, apenas, para compra de aquecedores seguros e eficientes e, mais ainda, para pagar a luz. Tudo numa correlação imparável.


Como ia dizendo mais acima, estava muito frio de manhã, às 7h, e então achei que devia proteger-me com luvas e gorro antes de ir para a paragem do autocarro. Abri uma das gavetas da cómoda e, realmente, encontrei três luvas, cada uma da sua cor. Lá revolvi a dita, abri outras e nada. O tempo urgia e resolvi pôr uma de cada cor, pensando para mim, com este frio e nevoeiro, todos encolhidinhos, ninguém vai notar, vou passar despercebida. Por azar ou sina, fui abordada na rua por quatro pessoas: Olá, bom dia, como está? Já reparou que leva uma luva de cada cor?



Votos de continuação de Bom Ano aos que me visitam e deixam palavras de simpatia e também para aqueles que passam por aqui, simplesmente. Sei que a Seda nesta altura do ano não aquece nada, mas valha-nos o calor que vem do coração.


Abraço.

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Imagens: pixabay

quinta-feira, 8 de março de 2018

Percepções





Viu o castelo desmoronar-se à sua frente. Ouviu e sentiu tremer as fundações. O estrondo foi imenso restando apenas pó e pedras sobre pedras. Estas, ganhando vida gemiam desorientadas e procuravam maneira de se porem de pé. Com dificuldade, atarantadas ainda pelo baque, foram galgando a pulso e desafiando a gravidade. Com esforço, inventaram o barro necessário para se fixarem umas em cima das outras, desalinhadas embora. Faltava o fio de prumo. Ou já não se usa?-perguntaram-se. Talvez um nível laser, mas difícil ou talvez impossível arranjar um, assim do pé para a mão. Sentiu que aquilo lhe dizia respeito. Não podia deixar as coisas ao acaso. Tinha de fazer algo, tinha de se decidir. Estava na hora de resolver e afugentar tal fardo. Aquele edifício rombo, à mercê de intempéries, ao sabor do que viesse, atingia-a sobremaneira. Reunindo as últimas forças, chamou a si a sua própria verticalidade. Do fundo do seu ser, faria surgir energia suficiente para se reconstruir a si mesma e ao seu mundo. 
Desafiou-se: 
Basta de incertezas e dependências. Agora é o momento. 
Agora é o presente e o futuro. 
E sorriu, confiante.

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O dia cobre-se de pássaros
que sobrevoam quotidianas ficções.
No meu país, as mulheres têm a cor
da sede nos seus olhos, ávidos de milagres.
É por isso que as mãos lhes estremecem de prazer.


GRAÇA PIRES


Um belo poema que a Querida Graça me trouxe hoje.

Muito obrigada

Bj
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Do blogue: Um Farol chamado Amizade



Dia da Mulher 2018


M adre, hija, hermana eres todo en la vida...
U nica como ninguna!
J oya entre las joyas más preciosa!
E norme eres por todo lo que haces por amor.
R eaccionas siempre por lo mejor contra las injusticias.



M ulher, filha, mãe, és tudo na vida...
U nica como nenhuma!
L uz entre as luzes mais brilhantes!
H armoniosa!
E norme és por tudo o que fazes por amor.

R eagindo sempre da melhor forma contra as injustiças da vida.



Obrigada, Tétis, Poseidón e Argos.

Abraços

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Imagem: daqui

quinta-feira, 1 de março de 2018

bordando os dias (VI)






Terminei a minha obra. Gosto dela. Embora não seja uma especialista em bordados tudo nela faz sentido e o mais importante é que traduz um pouco o que sentia quando a fiz. Agora vou fazer-lhe um picô. Confesso que não sei muitos pontos de picô. Assim, vou fazer o mesmo de sempre com pequenas alterações. Penso sempre em aprender mais alguma coisa mas deixo para depois. Algum dia há-de ser. Quanto ao crochet propriamente dito sei fazer alguns pontos mas não vario muito. A minha mãe é que tinha umas mãos de fada. Houve uma altura em que me fez alguns jogos de renda para o meu enxoval. Trabalho de minúcia, com linha finíssima. Eu, na minha inconsciência de pessoa jovem, resolvi ofertar com eles a algumas pessoas, num Natal, inclusivamente à minha madrinha de baptismo. Nunca lhe ouvi uma palavra de reprimenda. Durante muitos anos não achei falta de amor e ingratidão o que fiz. Mas com o tempo comecei a sentir-me mal com isso. 
Oh!Vem aí a minha amiga:
-Bom dia, vizinha. Vejo que já acabou o paninho.
-É verdade, Dª Maria, estou a acabá-lo. 
-E que bonito que está! Olhe, passei pela Caixa, trago-lhe a reforma. 
-Ah, muito obrigada. Sempre muito prestável. 
-Não me custa nada. A vizinha, com esse joelho assim, não tem saído muito, não é? O que tem feito para se entreter?
- Vou bordando os dias, Dª Maria. Bordando os dias.

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Imagem: daqui

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

bordando os dias (V)





Dos pontos que eu faço o que me parece mais sofisticado é o matiz. Aprendi a bordá-lo no Liceu com a minha professora de lavores, a Dª Angélica. E faço-o muito bem, o resultado parece uma pintura, passe a imodéstia. A minha irmã mais velha sabe todos os pontos dos mais simples aos mais complicados. Um que mais atraía a minha atenção era o crivo, talvez pela dificuldade que eu lhe adivinhava. Ela tinha uma saia branca toda bordada à volta. Bordava e cantava, nas horas vagas. E ainda canta, mas não tanto. Tem uma voz maviosa. Aprendi com ela "As saudades que eu já tinha da minha linda casinha" e muitas outras canções que ela aprendera com a nossa mãe, entre elas, muitos fados da Amália. E ela, com o seu ouvido apurado ensinou-me, a mim e ao Manel, irmão mais novo, a mudar as posições das notas da viola, conforme os tons, enquanto fazia sair das suas mãos autênticas obras de arte. Voltando ao meu pano, e partindo do crisântemo, resolvi bordar as outras flores percorrendo as cores do arco-íris. Os ramos, nos mais variados tons de verde. E apesar de gostar de estar aqui sentada à porta a apanhar o ar da manhã, hoje vou entrar mais cedo. O tempo promete chuva, graças a Deus. Venha ela mansa e benfazeja. 

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Imagem: daqui

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

bordando os dias (IV)




Vejo que os animais de estimação da vizinhança também gostam desta sombra, embora o Sol esteja, agora, um pouco fugidio. No outro dia foi o tal cão que no fim até me falou, agora é um gato com um amarelo torrado muito bonito. Tem o pêlo lustroso, vê-se que é muito bem tratado. Ele costuma estar no parapeito de uma janela no outro quarteirão. Nunca me ligou nenhuma, muito senhor do seu nariz. Hoje aqui está ele como se nos conhecêssemos de longa data. Em sua honra escolho uma linha do seu tom para bordar uma florzinha que me parece um crisântemo. Tenho uma concunhada que se chama Crisanta. Ou Crisântema? Nunca vi o nome dela escrito. Pronto, acabei a flor. Fiz ponto de cadeia. Geralmente só faço pontos de fantasia. Alisei-a, mirei-a e gostei. O gato, num pulo, saltou-me para o regaço. Deixei cair a agulha e ainda bem. Aninhou-se. Veio-me à lembrança um outro, dos dias da minha juventude. Acordara assustada com ele a passar-me pelo rosto. Deixara-me uma arranhadela entre as sobrancelhas que ainda se nota. Olhando para este que ronronava no meu colo, senti os meus lábios distenderem-se num sorriso ternurento. Momento azado para fazer as pazes com estes felinos. 

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Imagem: daqui

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

bordando os dias (III)





Descobri hoje que bordar é como fazer nascer algo de muito especial. Realmente é muito agradável ver como as flores, as folhas e os ramos vão surgindo à medida que bordo. Mal comparando, é como se fosse a tela de um pintor que, com a sua arte, faz aparecer vida e movimento. Sei que o dia está um pouco frio mas mesmo assim sinto-me reconfortada. O dedal não me assenta bem no dedo, parece-me um pouco largo e também curto, já lhe meti um pouco de tecido, continua a querer sair. É melhor tirá-lo. Com o polegar e o indicador seguro a agulha procurando não fazer muita pressão no médio para não me magoar. Isto para dizer que quero ver o resultado deste raminho, tal o entusiasmo. Ai, o tempo passa tão depressa. 
-Olhó viziiinho! :)
-Ó vizinha, bom dia, como vão esses bordados?
-Ah, os olhos já não ajudam muito. E as suas couves? O seu quintal está viçoso.
-Ia agora colher umas couvinhas para a minha mulher. Também quer? 
-Sim, muito obrigada. Aproveito e faço um caldinho verde para o almoço. Olhe, está na minha hora. Tenha um muito bom dia. 

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Imagem:daqui

domingo, 25 de fevereiro de 2018

bordando os dias (II)




Concentrando-me, enfiei a linha na agulha. O fio não podia ser nem curto nem comprido. Curto, acabaria num instante forçando-me a remates desnecessários que depois podia pôr em causa a boa apresentação do avesso. Muito comprido, havia o perigo de acontecerem os temidos nós que fariam com que eu tivesse de cortar a linha e reiniciar o trabalho. E mais remates. Entregue a esses detalhes notei que a sombra da casa que, em colaboração com o Sol, me servia de relógio já vinha avançando em direcção ao meu banco, sinal de que estava na hora de ir tratar do almoço. Pelo rabo do olho notei mais uma sombra, uma sombra diferente. Levantei os olhos e deparei-me com o cão do Mar Arável, impávido e sereno. 
Olá! estás aqui? Por onde tens andado? 
Não me respondeu como é natural: ele é de barro ou de louça, já não sei bem. Também não me lembro do seu nome. Peguei na bengala para subir os dois degraus, resolvendo-me a entrar. E disse-lhe: 
Vai para casa! 
E ele respondeu-me muito depressa: 
- Estou muito bem aqui. 


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Imagem: daqui
Mar Arável - blogue

sábado, 24 de fevereiro de 2018

bordando os dias (I)




Sentei-me no banco à porta de casa, como de costume. O cestinho, com o pano e as linhas, pu-lo no chão do meu lado direito. Pus as lunetas, peguei no pano que queria transformar num pano de chá. Já tinha feito o debuxo com todo o cuidado. Não tendo papel químico, que já vai rareando, fi-lo à moda antiga. A minha provecta idade permite-me conhecer esses truques. Uma toalhinha já muito usada a precisar de ser substituída foi donde tirei as flores e ramos. Estendi-a em cima da mesa e, por cima, coloquei muito bem esticadinho o pano por bordar. Passei, suavemente, a colher que reservo para esse efeito nos meus cabelos mais ao nível do couro cabeludo. A seguir fiz pressão com ela sobre o bordado, tantas vezes foram precisas. Aos poucos foram aparecendo os desenhos. No fim, passei com um lápis os bordos dos ditos flores e ramos. E, pronto. Agora vou escolher as linhas ou então o melhor é seguir a inspiração, de acordo com os sentimentos e a disposição de espírito. Ouvi dizer que cada cor tem o seu significado. Mas não vou por aí. Não irei à procura de definições consagradas. Mais vale olhar com olhos de ver e seguir o coração. 

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imagem: daqui

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

aguenta, santa bárbara!




Fevereiro soalheiro. Faz-me lembrar um outro, por oposição a este:
Chovia a potes. Não fazíamos ideia donde vinha tanta água, tanta trovoada. Elas ribombavam de tal modo que sentíamos a trepidação dentro do nosso próprio corpo. Escureceu, estava um nevoeiro inconcebível que só deixava adivinhar e mal as poderosas e altíssimas rochas do Tabuleirinho. Os relâmpagos cruzavam os céus sem cerimónia. Diz-se que eles vêm antes dos trovões mas nós, dentro da casa quase suspensa, não tínhamos noção da ordem das coisas. Sabíamos que lá em baixo, no vale, era a casa e a propriedade da nossa tia e que corríamos o risco de ir lá parar e da pior maneira. Por isso, só podíamos gritar por Santa Bárbara, a padroeira dessas horas de aflição. António, o meu irmão mais velho, pouco dado a essas crenças fez um riso de escárnio. Nisto, ouve-se um barulho que não augurava nada de bom. E percebemos do que se tratava: um pouco acima ficava uma grande ladeira e aquilo era uma quebrada, isto é, pedregulhos, pedras e pedrinhas, terra e lama, troncos e ramos de árvores vinham por aí abaixo em nossa direcção numa velocidade louca. E o António, no auge do desespero, espavorido, gritou: Agueeeenta, Santa Bárbara!

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Imagem: daqui

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A vós que me visitais

Chegados ao dia de hoje*, impunha-se um balanço do que fiz e do que deixei para trás. Houve situações sobre as quais eu deveria ter-me debruçado. Depois via que já estavam a ser tratadas, vistas e revistas e comentadas, não indo eu acrescentar nada de relevante. Outras houve em que, impulsivamente, lá dizia da minha justiça. Mas, o que na verdade acontece é que por aqui as coisas vão acontecendo sem prazos nem periodicidades. Penso que poderia ser de outro modo, mas ainda bem que apareceis apesar destas minhas falhas.



Hoje gostaria de produzir um grande texto se a isso me assistissem o engenho e a arte. Em vez disso prefiro recorrer às interrogações sobre o desconcerto do mundo do grande Luís Vaz de Camões nestes versos em oitava. Eis as três primeiras:

O desconcerto do mundo**

Quem pode ser no mundo tão quieto,
ou quem terá tão livre o pensamento,
quem tão exp'rimentado e tão discreto,
tão fora, enfim, de humano entendimento
que, ou com público efeito, ou com secreto,
lhe não revolva e espante o sentimento,
deixando-lhe o juízo quase incerto,
ver e notar do mundo o desconcerto?


Quem há que veja aquele que vivia
de latrocínios, mortes e adultérios,
que ao juízo das gentes merecia
perpétua pena, imensos vitupérios,
se a Fortuna em contrário o leva e guia,
mostrando, enfim, que tudo são mistérios,
em alteza de estados triunfante,
que, por livre que seja, não se espante?


Quem há que veja aquele que tão clara
teve a vida que em tudo por perfeito
o próprio Momo às gentes o julgara,
ainda que lhe vira aberto o peito,
se a má Fortuna, ao bem somente avara,
o reprime e lhe nega seu direito,
que lhe não fique o peito congelado,
por mais e mais que seja exp'rimentado?

.... (excerto)

Luís Vaz de Camões
in:Líricas - pg 85





Neste oitavo ano que agora começa aqui no Xaile de Seda, comunico-vos a intenção de reeditar a Quinzena do Amor, que irá de 31 de Janeiro a 14 Fevereiro. Por isso, peço o vosso contributo, como das outras vezes, trazendo-me poemas de amor, vossos ou de quem admirais, os quais publicarei durante esses quinze dias. Podereis deixá-los no espaço dos comentários. Para já, os meus agradecimentos.

Um grande abraço.


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* 7º aniversário do Xaile de Seda

** Nota de rodapé, do livro:
Esta célebre poesia moral foi endereçada ao seu amigo D. António de Noronha, filho do Conde de Linhares, companheiro e talvez discípulo algum tempo. Alude ao desconcerto, à má organização em que andam as coisas neste mundo: os bons por baixo, os maus no galarim

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