Escuto na palavra a festa do silêncio. Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.
Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, o ar prolonga. A brancura é o caminho. Surpresa e não surpresa: a simples respiração. Relações, variações, nada mais. Nada se cria. Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.
Nada é inacessível no silêncio ou no poema. É aqui a abóbada transparente, o vento principia. No centro do dia há uma fonte de água clara. Se digo árvore a árvore em mim respira. Vivo na delícia nua da inocência aberta.
António Vítor Ramos Rosa, (1924-2013) foi um poeta, tradutor e
desenhista português.
...trabalhador das palavras a tempo inteiro. Límpidas, meticulosas, depuradas, "com uma certa força nua", dizia. António Ramos Rosa encontrou na poesia a sua matéria vital, espaço de resistência e sobrevivência que o definia e fixava a um tempo de encantamento e contemplação. Refletir sobre a essência, regressar à natureza e aos elementos mais simples - o ar, a terra, a luz e a água -, fazer do poema uma viagem cósmica, é a marca poética que nos deixou.
A primeira celebração do Natal! Sabemos que a origem do primeiro presépio se deve a São Francisco de Assis, em 1223, na pequena aldeia de Greccio, na Itália, com o intuito de que as pessoas pudessem visualizar e compreender o milagre do nascimento de Jesus. Para isso, arranjou uma manjedoura com palha, um boi e um burro, numa cena que mostrava a simplicidade e a humildade do acontecimento.
Em Greccio
Mas a celebração do Natal já vem dos tempos dos primeiros cristãos. Em 25 de Dezembro de 336, aconteceu a primeira celebração do Natal. Os cristãos já celebravam o Natal abertamente desde 313 possibilitada pelo Édito de Milão. O Papa Júlio I (pontificado de 337 a 352) viria a formalizar a data de 25 de Dezembro como sendo a data do nascimento de Jesus, tendo em conta que a data do seu nascimento é desconhecida.
Inicialmente restrito aos cristãos de Roma, com a oficialização do Cristianismo. Em 529 o imperador Justiniano, do Império Romano do Oriente, declarou a data feriado oficial do império. (Lembremo-nos que o Imperador Constantino converteu-se ao cristianismo em 312 d.C.).
A hipótese que subjaz à adopção do dia 25 de Dezembro como data do nascimento de Jesus apoiara-se em duas razões:
A intenção de substituir o culto do Sol Invictus e as festas da Saturnália por uma festa cristã. Essa cristianização de uma festa pagã, algumas vezes entendida como uma apropriação ilegítima por parte da Igreja Cristã, teria ocorrido no bojo de outras assimilações como os termos e conceitos de “templo”, “basílica”, “pontífice”, “auréola” etc.
Por seu valor metafórico e bíblico que permite reconhecer Jesus como o Messias das Profecias e associá-lo à ideia de "luz do mundo".
Visita ao Sagrado:
Local do nascimento de Jesus
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Juntemo-nos ao silêncio através da palavra, que António Ramos Rosa nos propõe.
Sequências de convergências e divergências, ordem e dispersões, transparência de estruturas, pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
Geometria que respira errante e ritmada, varandas verdes, direcções de primavera, ramos em que se regressa ao espaço azul, curvas vagarosas, pulsações de uma ordem composta pelo vento em sinuosas palmas.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio. Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena. Sou uma pequena folha na felicidade do ar. Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis. É aqui, é aqui que se renova a luz.
Dia dos Namorados ou Valentine's Day como já é conhecido, seguindo a aculturação anglo-saxónica.
E este é o mote que dá valor a esta maratona anual, de 15 dias, pelo que amanhã ainda diremos algumas palavras para encerrar esta torrente...por agora.
Agradeço aos leitores que aqui vieram, ajudando assim a manter viva esta espécie de tradição do "Xaile de Seda".
António Vítor Ramos Rosa (1924-2013), foi um poeta, tradutor e desenhistaportuguês.
A 10 de Junho de 1992 foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada e a 9 de Junho de 1997 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Em 2003, a Universidade do Algarve, atribui-lhe o grau de DoutorHonoris Causa.aqui
Não posso adiar o amor para outro século não posso ainda que o grito sufoque na garganta ainda que o ódio estale e crepite e arda sob montanhas cinzentas e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar ainda que a noite pese séculos sobre as costas e a aurora indecisa demore não posso adiar para outro século a minha vida nem o meu amor nem o meu grito de libertação
A atitude crítica que permanentemente exercitou sobre a sua própria palavra como sobre a palavra alheia faz de A.R.R. um dos mais esclarecidos críticos portugueses contemporâneos (...)enquanto poeta faz da ignorância e da radical suspensão de todos os saberes e hábitos adquiridos o único método para a eclosão da sua palavra poética. Na verdade, a procura da palavra justa para dizer as «coisas nuas» e a reflexão sobre a realidade e a possibilidade dessa palavra é, talvez, o único tema desta poesia, na qual é, no entanto, possível assinalar diferentes fases: recortando-se duma problemática neo-realista de solidariedade para com o destino dos homens e do mundo, O Grito Claro (1958) e Viagem Através de Uma Nebulosa (1960) utilizam uma linguagem e uma vivência ainda devedoras dessa estética, combinadas com uma imagética herdada do surrealismo. Mais aqui
António Vítor Ramos Rosa, (1924-2013), foi um poeta, tradutor e desenhador português.
Desenvolvendo uma importante atividade nos domínios da teorização e da criação poética, o nome de António Ramos Rosa surge ligado a publicações literárias dos anos 50, como Árvore, Cassiopeia ou Cadernos do Meio-Dia, que primaram não só por uma postura de isenção relativamente aos diversos feixes estéticos que atravessam a década de 50 (legado surrealista; evolução da poesia neorrealista, entre outros), como por um critério de respeito pela qualidade estética dos trabalhos literários publicados.
Ela veio passar a Páscoa connosco e resolveu ficar mais uns dias dizendo-me: Como amanhã é feriado vou na sexta-feira à tarde, descanso no fim-de-semana e na segunda-feira vou ao hospital saber dos meus exames. Assim foi. Nesses dias demos pequenos passeios, devagar, conversando e chegou a dizer-me: Ultimamente tenho-me cansado ao fazer pequenas caminhadas. Mas aqui não me tem acontecido. Nas nossas conversas íamos recordando o seu/nosso percurso e dizia-me: Acompanhaste-me toda a vida. E eu a ela: Ou foste tu que me acompanhaste toda a vida.Lembras-te de quando mudámos de casa e vieste connosco?Claro, como havia de me esquecer? Sempre tomaste conta de mim. Tenho marido (o teu irmão), tenho filhos, tenho muitos irmãos, mas tu é que carregaste comigo ao colo, passaste horas e horas nos hospitais enquanto eu era submetida a inúmeras intervenções cirúrgicas, enfim, estiveste sempre presente. Ela expressava a dor quando a sentia, mas tinha um espírito alegre que quem a visse não diria que padecia de uma doença auto-imune, altamente incapacitante em termos vasculares. Há oito dias não me passaria pela cabeça estar a fazer este post, embora já o pudesse ter feito, para falar um pouco da Arterite de Takayasu. Mas a vida é tão frágil, não sabemos o momento em que ela se escoa, deixando-nos impotentes. E isso aconteceu. Assim, sem mais.
Teve dois filhos quando lhe diziam que não podia tê-los.
Dedico-lhe o poema que se segue, homenageando a mãe incansável e amorosa que foi:
Mãe
Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade. Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital. Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos. Vejo-te menina e noiva, vejo-te mãe mulher de trabalho Sempre frágil e forte. Quantos problemas enfrentaste, Quantas aflições! Sempre uma força te erguia vertical, sempre o alento da tua fé, o prodigioso alento a que se chama Deus. Que existe porque tu o amas, tu o desejas. Deus alimenta-te e inunda a tua fragilidade. E assim estás no meio do amor como o centro da rosa. Essa ânsia de amor de toda a tua vida é uma onda incandescente. Com o teu amor humano e divino quero fundir o diamante do fogo universal.
Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade. Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital. Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos. Vejo-te menina e noiva, vejo-te mãe mulher de trabalho Sempre frágil e forte. Quantos problemas enfrentaste, Quantas aflições! Sempre uma força te erguia vertical, sempre o alento da tua fé, o prodigioso alento a que se chama Deus. Que existe porque tu o amas, tu o desejas. Deus alimenta-te e inunda a tua fragilidade. E assim estás no meio do amor como o centro da rosa. Essa ânsia de amor de toda a tua vida é uma onda incandescente. Com o teu amor humano e divino quero fundir o diamante do fogo universal. António Ramos Rosa, (1924-2013)
Benditas as Mães que cumprem até ao fim a sua missão - cuidar, proteger, amar.
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Poema - Citador
Imagem - daqui
video - youtube - Rick e Renner - Mãe
Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha. Chegaste comigo ao fundo aberto sob um céu marinho, sobre o qual se desenham as nuvens e as árvores. Estamos na aurícula do coração do mundo. O que perdemos ganhamo-lo na ondulação da terra. Tudo o que queremos dizer sai dos lábios do ar e é a felicidade da língua vegetal ou a cabeça leve que se inclina para o oriente. Ali tocamos um nó, uma sílaba verde, uma pedra de sangue e um harmonioso astro se eleva como uma espádua fulgurante enquanto um sopro fresco passa sobre as luzes e os lábios. António Ramos Rosa (1924-2013) in: Facilidade do Ar pg. 53
(...)
Tudo isso desencadeia um efeito de evidência muito próprio desta poesia que, na minha opinião, tem vindo a evoluir na direcção de uma transparência que a tem feito ultrapassar o que seria uma dimensão meramente descritiva, para mergulhar numa dimensão de conhecimento do mundo.
Em repouso, em ensimesmada indolência cai a folha. A mão nupcial desliza no ócio azul em ágeis graças ou lentas cortesias. Um desenlace de matizes no fundo da água e no fundo da retina. Tantos tesouros líquidos, tanta minúcia imensa! Tudo aqui nega o caos desde as raízes à cúpula em transparência de clara primavera. O ar é a ligeireza de um animal que refresca os mais íntimos bosques com a diafaneidade alegre das suas veias. António Ramos Rosa (1924-2013) in: Facilidade do Ar pg.42
(...) Estamos, portanto, em presença de um autor que persegue palavras sempre ditas pela primeira vez, palavras inaugurais, que nos são oferecidas como uma espécie de promessa que permanece suspensa no limiar de si mesma e no horizonte de sentido que nos comunica. (...) Fernando Pinto do Amaral ==== Imagem: Desenho de António Ramos - aqui
Que doce e profunda é a água quando a luz e a sombra se reúnem. Uma serena alegria levanta o corpo em redonda doação. Chegámos a este oiro incandescente, deus e demónio em interna unidade, que já não lutam e se abraçam no círculo da vida libertada. Todos os astros numa só constelação tanta melodia e ritmo e graça nas palavras, nos corpos e nas ondas e todas as flores em fruto e todo o corpo no seu livre dinamismo. António Ramos Rosa (1924-2013) in: Facilidade do Ar pg.14
(...)
Esse o permanente enigma desta escrita, essa a permanente interrogação que se ergue na soberania tão luminosa dos seus "acordes". Ao tentar responder-lhe, poderíamos falar no amor, no desejo ou simplesmente nessa divindade obscura e imediata que se confunde com a matéria e com a energia que a sustenta. Mas o essencial será mantermo-nos atentos ao sábio ardor da sua voz, a essa verdade tão sua mas tão ao nosso alcance, sempre condensada em cada uma das suas muitas "lições materiais".
Será uma breve passagem entre a cinza e o vento. Uma suave tentativa, um ligeiro sopro às portas do silêncio. Uma perda de tudo, do próprio sentido e do desejo. Ser nada mas habitar o instante e os seus murmúrios na infinita dispersão. Entre ruínas, nos confins de uma terra acinzentada em que as nuvens e as árvores se confundem, tudo tem sabor a destino e a princípio, a plenitude ou nada. E a palavra vibra silenciosa, unânime, quase ébria de um deus vegetal entre cigarras. O mar cintila já. O exílio quase cessa. O que é breve perdura em grávida leveza. António Ramos Rosa (1924-2013) in: Facilidade do Ar pg.8
(...)
O que mais nos toca nesta belíssima poesia não ocorre, assim, ao nível de qualquer pendor confessional, mas sim graças à sua ideia de atingir um conhecimento ignorante: condenado à imanência (e à iminência) de uma fala que detém o poder de nomear, mas que se sabe efêmera, o poeta procura ligar o "deserto" ao "oásis", difundindo a sua subjectividade por cada ínfima partilha do real, já que o sentido do mundo se encontra em todos os lugares e em lugar nenhum. (...)
Fernando Pinto do Amaral ==== Imagem: Desenho de António Ramos Rosa - aqui
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo