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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Victoria




Não tenho na ponta da língua o vocabulário
avulso da insubmissão ou da revolta,
mas queria dispor de palavras certeiras
para exprimir o meu protesto:
considero absurdo que me venham falar
de amor e desdenhem dos sonhos (tantos)
com que me assombro.

Não quero para mim aquela história
igual a tantas outras: "casaram
e foram felizes para sempre".

São vozes que desabam sobre a agudeza
do recato e desfazem o casulo da puríssima
seda que ao instinto pertence.

Um eco de sinais antigos como salmos
envolve meus lábios, tão trementes agora.

Graça Pires
In:Fui quase todas
as mulheres de Modigliani (clic)
Pag.44


Figura austera a Victoria. Mas, faria minhas as suas palavras. Os contos de fadas e da carochinha já não pegam. Numa relação há altos e baixos o sempre é muito relativo.




Graça Pires (1946) Poetisa portuguesa.É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro Poemas. Ler mais aqui


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Quinzena do Amor
Post 20 - Carta (Esboço), Post 19 - Morena, Post 18 - Diz o meu nome, Post 17 - Canção do africano, Post 16 - Os cinco sentidosPost 15 - Amor a amor nos convidaPost 14 - E Serei VeleiroPost 13 - Poema de Amor de António e CleópatraPost 12 - Que era é esta?Post 11  - A noite abre meus olhosPost 10 - sim.foi por um beijo em simples vendaval que morriPost 9 - Ó MãePost 8 - Alma minha gentil que te partistePost 7 - Do inquieto oceano da multidão,Post 6 - Amar teus olhosPosta 5 - Conheço esse sentimentoPost 4 - Éramos tu e euPost 3 - Saudades não as queroPost 2 -Não é por acasoPost 1 - É daqui a pouco 
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1ª Imagem: Pintura de Modigliani - Victoria 1916
2ª Imagem: Graça Pires - aqui

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

As palavras pesam




Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas,
Do quotidiano entrincheirado entre compromissos,
Das tramas afectivas, do exílio anunciado
No andar inquieto das mulheres.

De rosto em rosto, a caligrafia do amor
implorou a memória das palavras encantadas
e, como se houvesse uma linguagem
de atravessar o tempo, acenderam,
sobre os dias, constelações sonoras.
Mas eu, que não adiro aos calendários
nem acredito em vogais prometidas,
eu parti, de punhos febris,
enlaçando nos braços
um futuro marginal, a qualquer lógica.

A posse da noite, onde me quero lua em todas as fases,
leva-me a glosar os medos num novelo de rimas imperfeitas.
A cidade tem pombas que me perseguem sem eu dar por isso.
Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito.

Graça Pires



O peso das palavras, aqui, neste belo poema, com o talento e elegância a que nos habituou a querida amiga Graça Pires. Há o quotidiano com as suas pequenas coisas que nos envolvem e fazem condicionar praticamente tudo o resto. E esse resto que é quase tudo leva-nos em viagens de descoberta em descoberta e nos faz sentir e dizer:

Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito. 




Graça Pires editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro "Poemas". Depois disso publicou mais de uma dúzia de livros de poesia, muitos dos quais premiados. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Veja mais aqui


Blog da Autora:






Bom fim de semana, amigos.
Abraços 
Olinda


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Poemas Escolhidos 1990-2011
daqui

Imagem - pixabay



quinta-feira, 25 de abril de 2024

Dia da Liberdade

E são passados 50 anos.

Foram precisos muitos anos para que renascêssemos numa liberdade que considerávamos perdida, aliás, muitos de nós nem a considerávamos possível ou mesmo que existisse. 

Os que nasceram nessa altura ou já eram nascidos, mas ainda crianças, e os que vieram a seguir, não conseguirão compreender na sua justa medida essa riqueza incomparável que é viver em liberdade, porque já faz parte do seu universo mental.

Por isso, é nosso dever procurar trazer, sempre que possível, a essência e as ideias que enformam este conceito que um dia se tornou realidade, para não a deixarem escapar. Lembrarmo-nos disso é preciso, e também homenagear os que lutaram para que este dia acontecesse. 


REVOLUÇÃO

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação



Um habitação caiada, livre de mofo, onde a brisa fresca circule. Com as mentes abertas à inovação, às ideias positivas. Precisamos urgentemente de inventar o amor, como dizia o poeta, se é que não o inventámos já, e aplicá-lo em coisas que interessem. Pensemos que todos os homens são iguais, que o racismo e a xenofobia não devem ter lugar no nosso seio.

As revoluções exigem mudanças. E aquela que aconteceu em 25 de Abril de 1974 e que encantou quem dela ouviu falar, pela forma pacífica como decorrera, veio realmente abalar o status quo que existia.*

O caso fortuito dos cravos que uma mulher, Celeste Caeiro, ofereceu aos militares e que foi seguida por outras e que se transformou num mar de flores vermelhas, veio dar um toque romântico a esse dia, com as espingardas transformadas em floreiras. Um Símbolo que ficará para sempre.

Razão tem a nossa grande Graça Pires neste belo poema, que a seguir transcrevo, quando diz que o mundo ficou maravilhado e que parecia coisa inventada:

O mundo inteiro falava
de Portugal onde se fazia
uma revolução com cravos.
Parecia uma ideia inventada.
Houve quem viesse ver se era verdade.
E deixaram-se maravilhar
com o pulsar colectivo da alegria.
Que enigmático espaço de aventura
desafiando interdições e costumes,
exclamavam admirados.



E aqui temos Georges Moustaki que, com esta versão do Fado Tropical, de Chico Buarque, quis homenagear esta festa e vem corroborar a excelência desse dia.



Georges Moustaki
Portugal



***

FELIZ

Dia da Liberdade

ABRAÇOS

Olinda




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Poemas:

- In: O nome das Coisas, 1977 (BN) (Sophia Andresesn)

- Graça Pires - "Era madrugada em Lisboa - Um dia com muitos dias dentro" - Livro lançado                 recentemente. pg 30

*a reacção do regime: registaram-se quatro civis mortos e quarenta e cinco feridos em Lisboa, atingidos pelas balas da DGS.(Polícia do Estado que substituiu a PIDE)




sexta-feira, 1 de maio de 2020

GRAÇA PIRES - "A solidão é como o vento"



Leu a notícia no jornal:

"Menina de nove anos agredida pela mãe".
Sabia que era dela que falavam
e escreveu no seu diário:
mãe, o que é que aconteceu?
O sorriso que começava inteiro nos teus olhos
tornou-se estrangeiro em tua boca.
Lembro-me do instante
em que começaste a fitar-me obliquamente,
como se um cerco de amordaçasse o olhar.
Depois, sem suspeitares,
tinhas as mãos vulneráveis à violência.
O que é que nos aconteceu, mãe?
Como dizer o teu andar inquieto, ou calar
o teu rosto cavado por uma qualquer angústia?
O que é que te aconteceu, mãe?
De hoje em diante usarei no tornozelo
uma pulseira negra, em sinal de protesto,
por me teres privado tão cedo da tua alegria.
Pg.46

Poemas que falam bem do estilo da Autora, da sua prodigiosa propensão em ir ao fundo das emoções e sentimentos humanos.

Parabéns, Graça Pires.






Encontrou-o à entrada do deserto

absorto, como se conhecesse
todas as invocações do silêncio.
Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento,
pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão.
Ela saía do deserto. O mesmo deserto.
Trazia um cacto murcho em cada mão
e um rio seco a escamar-lhe a pele.
Olharam-se. E ela contou-lhe.
Contou-lhe das vezes que se afogou no chão
pensando que era água;
como rebentaram seus lábios pela sede interminável.
Disse-lhe que quase morreu com saudades do mar;
que bebeu o próprio sangue
para curar a febre e o delírio.
Falou-lhe do medo e do cansaço
que venceu cambaleando, rastejando,
dormindo agarrada à noite.
Ele hesitou.
Depois, com uma quietude
que só nos prodígios acontece,
pegou-lhe na mão e foi com ela até ao mar.
Pg. 61







Hoje, lançamento no Facebook - Poética Edições.
(01/05)


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BREVE RESENHA SOBRE O LIVRO DE GRAÇA PIRES, "A SOLIDÃO É COMO O VENTO" - AQUI


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Fui quase todas as mulheres de Modigliani

Em tempos, ilustrei dois poemas sobre a mulher* com uma pintura de Modigliani. Por isso, o  título do livro de poemas de Graça Pires chamou-me logo a atenção. Isso e os belos poemas que a autora nos tem oferecido no seu blogue, retirados do mesmo. Daí a minha vontade de o adquirir e tê-lo aproveitado como uma parte da primeira experiência que apresentei à minha filha.

Resolvi publicar um dos seus poemas e quem já tiver lido o livro ou lido os poemas de que falei acima concordará que a dificuldade está na escolha. Mas até nisso tive sorte, porque no livro está contido um poema, adivinhem lá o tema. Nem será preciso grande esforço porque vou apresentá-lo a seguir:




Mulher com xaile vermelho

Uma brisa fria vem roçar-me a cara
nesta primavera desabrigada,
onde os pássaros rodopiam
uma valsa estremecida,
como se temessem o vento.

Falo pouco nestes dias,
em que me cobre
uma luz lívida e muda.

Cubro os pulsos com os folhos da blusa
para jurar silêncio, quando a mancha
do luar atingir o peitoril da janela.

Na borda da cadeira em que me sento
poiso, ao de leve, as minhas mãos
frias, quase de pedra.

Tenho a cingir-me o peito
um xaile de merino para abafar
as batidas desoladas do coração. 

in: Fui quase todas as mulheres de Modigliani
pg 43


No início, página 6, encontramos estas palavras de Maria Teresa Horta:



  
Voamos a lua,
menstruadas
Os homens gritam:
     - são as bruxas
As mulheres pensam:
     - são os anjos
  As crianças dizem:
     - são as fadas

Maria Teresa Horta
              Os Anjos





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Obra referenciada:
Fui quase todas as mulheres de Modigliani
Poesia - Graça Pires, Ed. Poética Edições
Maio 2017

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quarta-feira, 1 de maio de 2024

Dia do Trabalhador

É a primeira vez que assinalo, aqui, o 1º de Maio. Nestes 50 anos da Revolução achei por bem mencioná-lo. Foi graças a esse acontecimento, que nos trouxe a liberdade de expressão e de estar, que se tem podido festejar o Dia do Trabalhador, como é designado.

Hoje há que festejar o Dia e relembrar uma vez mais o país que tínhamos. E nada melhor do que Ary dos Santos, com a sua verve poética e declamação inspiradora para nos transmitir todos os detalhes.


Era uma vez um País
....onde entre o mar e a guerra,
 vivia o mais infeliz 
dos povos à beira-terra...



Ary dos Santos 
As Portas que Abril Abriu

***



***

E Graça Pires, neste belo poema, fala na mudança operada nas gentes depois da Revolução de Abril de 1974:


O país não parecia o mesmo,

Antes tinha um povo tristonho,

cabisbaixo, desacertado com a esperança.

Agora dava gosto ver e ouvir as pessoas,

mais leves, mais jovens, com braçadas

de flores a intuir alegrias futuras.

Não havia mágoas neste dia prodigioso

em que tudo era novo outra vez.

Alta noite iriam todos para casa

porque a febre dos corpos lhes apetecia.

in: Era madrugada em Lisboa
pg 31


***

Fernando Tordo


-Adeus Tristeza-


***



Esta data tem origem na primeira manifestação de 500 mil trabalhadores nas ruas de Chicago, e numa greve geral em todos os Estados Unidos, em 1886.

Três anos depois, em 1891, o Congresso Operário Internacional convocou, em França, uma manifestação anual, em homenagem às lutas sindicais de Chicago. A primeira acabou com 10 mortos, em consequência da intervenção policial.

Foram os factos históricos que transformaram o 1 de maio no Dia do Trabalhador. Até 1886, os trabalhadores jamais pensaram exigir os seus direitos, apenas trabalhavam.  (
Veja mais aqui)


***



Os meus agradecimentos a todos quantos me acompanharam durante o último mês, em que se versou, aqui, sobre a Liberdade.

Abraços

Olinda 

***

Querida Olinda,

Fica-me um sorriso nos lábios
Nem sei se sobe ou desce
Digo que me inunda
Somos povo liberto e libertário
Cravos rubros e abertos
Como abraços fraternos
E quando a inquietação nos dominar
Lembremos que somos "filhos da madrugada"
Felizes por vivermos uma revolução
Perfumada de sentimentos de união
E acreditarmos que viver é lutar
Por um poema maior
Feito de vida, sangue e lágrimas
Lágrimas que vertem a comoção
De dignificar o mundo do trabalho
E honrar o campo, a enxada, o arado
A caneta, o papel e o livro
Saído das mãos do trabalhador.

Um abraço imenso.

***

Querida Teresa

Emocionada com o seu gesto tão lindo.
Um poema que nos toca o coração.
Uma homenagem ao 25 de Abril e ao
Dia do Trabalhador. 
Uma surpresa muito muito agradável. 
:)
Beijinhos
Olinda


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José Carlos Pereira Ary dos Santos
(Lisboa, São Sebastião da Pedreira, 7 de Dezembro de 1937– Lisboa, Santiago, 18 de Janeiro de 1984) foi um poeta e declamador português.

Graça Pires - Do seu Livro mais recente:
 "Era madrugada em Lisboa - Louvor a um dia com tantos dias dentro"


domingo, 29 de setembro de 2019

Para a Beatriz





A Bailarina

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.


Cecília Meireles








Hoje é dia do primeiro aniversário da netinha da Emília, a Beatriz

Sem querer preconizar o seu futuro como bailarina trago-lhe um poema mavioso, com esse título, de Cecília Meireles.

E, assim, daqui do Xaile de Seda envio à pequenina Beatriz muitos beijinhos de Parabéns e, também, umas cantiguinhas. Espero que goste da toada e comece desde já a marcar o ritmo... A música já nasce connosco e, como coisa inata que é, convida-nos a dançar desde o berço.

Querida Emília, também para ti e para os pais da querida menininha vai um grande abraço, com votos de Felicidades.

Olinda

=

Da nossa querida Amiga Graça Pires, num lindo comentário:

Por associação de ideias lembrei-me de um poema do meu primeiro livro:

"Esta noite voltei à minha infância.
Menina rosada de sonhos nos bolsos.
Bailarina de corda na caixinha de som"


Graça Pires 
30/09/2019


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Um aparte:
Aproveito para referir que esta autora já visitou o Xaile de Seda com dois outros poemas: A velhice pede desculpa e Retrato de Mulher Triste. Como se vê não tantas vezes como o seu talento merece. Mas voltaremos, noutra altura, a esta querida poetisa brasileira.

Imagem: daqui

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Vem, amor


Nada sabemos das mãos gretadas pela acidez das resinas e do pó,
pela dureza da enxada e do arado.
E é mister que o saibamos.



Vem, amor
Não tarda aí o fim do dia
e ainda não plantámos as avencas
junto do ribeiro para que o rosto
da terra resplandeça nos prados.
Repara: já há amoras no muro de pedra 
onde prendemos as raízes da sede.
pg 51

E mais:

Desconhecemos as cicatrizes das mãos
que manejaram a mó dos moinhos
e a fadiga das que mondaram a terra,
num ritual repetido infindavelmente.
Nada sabemos das mãos gretadas
pela acidez das resinas e do pó,
pela dureza da enxada e do arado.
Abandonadas há muito tempo,
as alfaias antigas ainda rangem
nas mãos dos que pisam os trilhos
das cabras em lugares desamparados.
São mãos onde se lê a escassez
do amor e do pão de cada dia

pg 35
Graça Pires
in Uma vara de medir o Sol

Graça Pires, portuguesa, editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro "Poemas". Depois disso publicou mais de uma dúzia de livros de poesia, muitos dos quais premiados. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.




Obras publicadas
Poemas. Lisboa: Vega, 1990; Outono: lugar frágil. Fânzeres: Junta de Freguesia da Vila de Fânzeres, 1993 ; Ortografia do olhar. Lisboa: Éter, 1996; Conjugar afectos. Lisboa:Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, 1997; Labirintos. Murça: Câmara Municipal de Murça, 1997; Reino da Lua. Lisboa: Escritor, 2002; Uma certa forma de errância. Vila Nova de Gaia: Ausência, 2003; Quando as estevas entraram no poema. Sintra: Câmara Municipal, 2005; Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos. Ed. autor, 2007; Uma extensa mancha de sonhos. Fafe: Labirinto, 2008; O silêncio: lugar habitado. Fafe: Labirinto, 2009; A incidência da luz. Fafe: Labirinto, 2011; Uma vara de medir o sol. São Paulo: Intermeios, 2012; Poemas escolhidos: 1990-2011. Ed. Autor, 2012; Caderno de significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2013 - aqui

Blog da autora: Ortografia do olhar

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2 Poemas: in Uma vara de medir o Sol
pgs 51 e 35
Imagem: pixabay

Quinzena do amor
Post 1 ; Post 2 ; Post 3 ; Post 4; Post 5

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Como nos Prodígios


Sou-te presente mulher e chama,
ímpeto fremente de lua abandonada.
aberta do calor na turbulência da noite,
ignota fonte de ternura derramada.



Encontrou-o à entrada do deserto,

absorto, como se conhecesse

todas as invocações do silêncio.

Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento,

pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão.

Ela saía do deserto. O mesmo deserto.

Trazia um cacto murcho em cada mão

e um rio seco a escamar-lhe a pele.

Olharam-se. Ela contou-lhe.

Contou-lhe das vezes que se afogou no chão

pensando que era água;

como rebentaram seus lábios pela sede interminável.

Disse-lhe que quase morreu com saudades do mar;

que bebeu o próprio sangue

para curar a febre e o delírio.

Falou-lhe do medo e do cansaço

que venceu cambaleando, rastejando,

dormindo agarrada à noite.

Ele hesitou.

Depois, com uma quietude

que nos prodígios acontece,

pegou-lhe na mão e foi com ela até ao mar.

Graça Pires



Como nos prodígios apreende-se o mistério
que envolve este belo poema.
As palavras envolvem-nos e fazem-nos pressentir um
certo sofrimento e dedicação aproximado ao amor.



Paganini



O blog: Ortografiadoolhar


Quinzena do Amor

Post 1-Só o amor; Post 2-Alastrar Paz e Amor; Post 3-Ouça as vozesPost 4-Estética da Vida; Post 5-Quando o Amor chora de sede; Post 6-Um gosto antigo de alfazema


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In: A solidão é como o vento, de Graça Pires

pg.61

Citação: Rio de Infinitos, pg162

segunda-feira, 8 de março de 2021

Contra a Fome

Hoje, Dia da Mulher. Dizemos todos os anos que o dia da mulher é todos os dias. Uma verdade inquestionável, se atentarmos na sua posição na sociedade e em todos os momentos da nossa existência. Contudo, este dia pode e deve ser aproveitado para falarmos dos problemas que continuam a massacrar a condição feminina. Ou então para assinalar o papel de mulheres que souberam ganhar o seu espaço e fazer da sua passagem por este mundo algo de positivo, para o bem de todos.

Fiz uma pequena pesquisa e de entre vinte e cinco mulheres portuguesas da actualidade escolhi falar de uma delas, nesta publicação, tendo em vista o tema em presença e pela sua dedicação a esta causa: a luta contra a fome. E assim, aqui me têm a homenagear: 


Maria Isabel Torres Baptista Parreira Jonet  (1960)

Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome (BA) de Lisboa e da Federação que reúne todos os bancos alimentares existentes no país. Foi fundadora da Bolsa de Voluntariado, da Entreajuda, do Banco dos Bens Doados e, mais recentemente, do projeto Tempo Extra, que está a mobilizar cada vez mais voluntários na idade da reforma. É a cadeia logística formada pelos 21 bancos alimentares que permite que 2400 recebam os produtos que alimentam quase 400 mil pessoas. (Dados de 2019) aqui

Estruturou e lançou em 2005, proclamado pelo Conselho da Europa como o Ano Europeu da Cidadania através da Educação, o programa Educar para a Cidadania dirigido a crianças e jovens, o qual, através do caso prático do Banco Alimentar, mostra a importância dos valores na formação e na educação.

Foi Presidente do Conselho de Administração da Federação Europeia dos Bancos Alimentares entre Abril de 2012 e Dezembro 2017

Em novembro de 2012, foi criada uma Petição Pública para que abandonasse o cargo de presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, devido a declarações polémicas proferidas em época de austeridade, entre as quais "Vamos ter de reaprender a viver mais pobres" e "Se não temos dinheiro para comer bifes todos os dias, não podemos comer bifes todos os dias".  No entanto, como resposta a esta petição, várias outras petições públicas, com muito mais assinaturas, surgiram em defesa da Isabel Jonet, pedindo-lhe que continuasse por muitos anos à frente dos destinos do Banco Alimentar Contra a Fome. aqui


É que a Fome anda aí...

Sempre soubemos da pobreza e das desigualdades que assolam algumas faixas da sociedade. Tudo um tanto longe, algo difuso, quase não nos tocando. Com a pandemia que se abateu sobre nós tomámos a dolorosa consciência de novo tipo de pobres a somar ao que já existia.

Trata-se de pessoas que tinham a vida organizada nos seus pequenos negócios e viram-se de uma hora para a outra privadas do seu ganha-pão. Não será preciso fazer uma lista do descalabro que vigora nos nossos dias, pois todos nós conhecemos a situação.

Com efeito, muitos têm sido os pedidos de ajuda para aquilo que há de mais básico: o pão para boca. E Instituições, como o Banco Alimentar Contra a Fome (BA) de Lisboa, que no passado recente faziam disso uma missão em relação a grupos sociais mais desfavorecidos , têm agora a atenção também centrada nessa grande fusão social que se tem verificado.

Daí a homenagem que ora presto a Isabel Jonet, bem como a todos os voluntários que labutam para fazer chegar aos que mais precisam essa preciosa ajuda.



 Saudosa Maria Guinot!

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Momento de Poesia, com Graça Pires, do seu último livro, "Jogo Sensual no Chão do Peito", dedicado à vida da extraordinária bailarina e coreógrafa, Isadora Duncan:


O meu tempo vivi.
Tive amigos.
Eram actores, músicos,
bailarinos, boémios.
Escreviam o meu nome
nos jornais e em cartazes.

Em berlim chamavam-me deusa
Na grécia quis ser ninfa, calipso,
nausícaa, ou mesmo ulisses.
No egipto deixei que o deserto
e a vale dos mortos me fascinassem.

Por todos os lugares conheci
o esmorecimento ou a ânsia da perfeição.

Como contar aqui todos os tropeços,
todos os despojos, todas as solidões?

Teimei incansavelmente na mais cúmplice
presença do silêncio.

in Jogo sensual
no chão do peito
pg.42

Leia mais sobre a Autora, aqui, no Xaile de Seda







Saibamos fazer a vida acontecer.

FELIZ DIA DA MULHER!


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Veja mais sobre a Mulher
aqui e aqui, no Xaile de Seda