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sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Sem raça nem credo/Sien raça nien credo




Sem raça nem credo

A primeira vez que de ti me abeirei
todas as sedes me tomaram. Sem raça nem credo.
Cruzei-te num primeiro abraço, mar sonhando, desejado
e finalmente sentido. Quando a coragem permitiu
o primeiro mergulho, até a areia me bordou o corpo,
ponto por ponto. As cores brincavam e eram tantas
que despertavam e refletiam a luz que queria minha.

Nos meus olhos de céu e mar
cruzavam-se correntes loucas,
e eu, já sem roupa, fiquei à tona e deixei-me prender
nas mais belas cores. Fiz-me laço,
palmarés de glorioso arco-íris.
Sei, sei que te dei versos sem palavras e,
num silêncio prometedor,
até as czardas se ouviram.
As czardas que bailaria com paixão.
As czardas que, para ti, escreveria com emoção.




Sien raça nien credo

La purmeira beç que a ti me cheguei
todas las sedes me tomórum. Sien raça nien credo
Cruzei-te nun purmeiro abraço, mar sonhado, deseado
i al fin sentido. Quando la coraige permetiu
l purmeiro maegulho, até l'arena me bordou l cuorpo,
punto por punto. Las quelores brincában i éran tantas
que spertában i debuolbien la lhuç que querie mie.

Ne ls mius uolhos de cielo i mar
cruzában-se corrientes boubas,
i you, yá sien benairos, quedei anriba i deixei-me prender
nas mais guapas quelores. Fiç-me lhaço,
ramo de guapa cinta de la raposa.
Sei, sei que te dei bersos sien palabras i,
nun siléncio pormetedor,
até as "czardas" se scuitórum.
Las "czardas" que beilarie cun paixon.
Las "czardas" que, para ti, screberie cun eimoçon.

Teresa Almeida Subtil





Peço emprestado à querida amiga Teresa Almeida Subtil este belíssimo poema bilingue para enfeitar o Xaile de Seda, que hoje completa dez anos. E a Schubert esta Avé Maria que adoro, aqui nas vozes de dois grandes intérpretes, Andrea Bocelli e Luciano Pavarotti.



Também esta Czarda a fazer jus ao poema e em agradecimento à sua autora.

A todos agradeço a presença e comentários com que têm distinguido este blog.

Abraços.

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Poema bilingue:
in Rio de Infinitos
Riu d'Anfenitos
pgs 154, 155

Ver Teresa A. Subtil no Xaile, aqui


sexta-feira, 20 de março de 2020

Vão de infinitos/Preça d'anfenitos

E as varandas, que nos abrem uma 
fresta para a vida, requerem aqui a palavra poética de 
Teresa Subtil


Vão de infinitos

É a varanda de grades da cor do tempo
que me leva em breve enleio e receio de entardecer.
É na varanda solta no descampado do olhar
que me debruço e me encontro na árvore onde me fiz

É o toque na parreira de pele retesada
e rasgada que me diz da erupção que sentia
e das escadas que subia e descia,
querendo entender-me no emaranhado da vida.

Era em vão de infinitos que a varanda se espraiava.
E eu, debruçada, a sentir-me nada, não cabia em mim.
E eu, num chão de inquietudes a agigantar-me
para as dúvidas que nunca resolvi.

Aninhada em ti,
parecia que a aldeia ao longe era igual à minha,
embora a raia nos falasse de outra língua
e de outro país. Na minha varanda percebia a raia
e adivinhava que nem a vinha, nem a aldeia que avistava,
encobriam o reboliço do rio
que bem fundo cavava o fragaredo.
Nem eu nem o rio conhecíamos limites
e apesar do aperto e da inquietude,
saltávamos e corríamos
na pressa dum tempo a descobrir.





E também na doce língua mirandesa. Debrucemo-nos e, juntamente com o rio, saltemos e corramos na pressa de um tempo a descobrir, através da nossa imaginação


Preça d'anfenitos

Ye la baranda de grades de la quedor de l tiempo
que me lhieba an brebe anleio i arrecelo d'entardecer.
Ye na baranda suolta ne l çcampado de l mirar
que m'astribo i m'antronco n'arble adonde me fiç.

Y l toque na parreia de piel retesada
i resgada que me diç de l manantial que sentie
i de las scaleiras que chubie i abaixaba,
querendo antender-me ne l eimaranhado de la bida.

Era an preça d'anfenitos que la baranda se spraiaba.
I you, debruçada, a sentir-me nada, num cabie an mi.
I you, nun suolo d'anquietudes a agigantar-me
pa las dúbedas que nunca resolbi.

Arrimada a ti,
parecie que l'aldé al loinge era eigual a la mie,
anque la raia mos falasse d'outra lhéngua
e d'outro paiç. Na mie baranda percebie la raia
i çcunfiaba que nien la binha, nien l'aldé q'abistaba,
tapában l reboliço de l riu
que bien fondo scababa l fragaredo.
Nien you nien l riu coinciemos lhemites
i indas que l aperto i l'anquietude,
saltábamos i corríemos
na priessa d'un tiempo a çcubrir.








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Poema: Teresa Subtil - Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos - pgs 14/15
Post anterior:
As varandas - nossas aliadas
Imagem: pixabay

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Nun sei... se l tiempo trairá de buolta la poesie, se inda bestirei de spráncia


...talvez o tempo seja amigo e traga 
vestes floridas de esperança. 



CHOVE NA PRAÇA

Não sei se chove na praça, meu amor,
se o vento desnuda as árvores da confiança
que nos fustigam o caminho
e nos atiram cascalhos de mudança.
Uma a uma vão caindo as certezas.
os cabelos branqueando
e o sorriso amarelecendo.
As horas arrastam-se lentas e tardias
sem nos devolverem o tempo das cerejas
e as rosas que no peito me trazias.
Não sei se chove na praça, meu amor,
não sei se logo veremos as estrelas
e se o nosso olhar se cruzará entre elas.
Não sei se chove na praça, meu amor,
se o tempo trará de volta a poesia,
se ainda me vestirei de esperança
e se encontrarei
a melodia que a aurora em nós escrevia.
pg 110


CHUOBE NA PRAÇA

Nun sei se chuobe na praça, miu amor,
se l aire znuda las arbles de la cunfiança
que mos fustígan l camino
i mos atíran chinicas de mudança.
Ua a ua ban caendo las certezas,
ls pelos branquiando
i l sonriso amarelhecendo.
Las horas arrástran-se debagarosas e tardies
sien mos debolbéren l tiempo de las cereijas
e las rosas que ne l peito me trazies.
Nun sei se chuobe na praça, miu amor,
nun sei se lhougo beremos las streilhas
i se l nuosso mirar se cruzará antre eilhas.
Nun sei se chuobe na praça, miu amor,
se l tiempo trairá de buolta la poesie,
se inda bestirei de spráncia
i s'ancuntrarei
la melodie que l'ourora an nós screbie.
pg 111

Teresa Almeida Subtil
in: Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos
Livro em português e mirandês

Teresa Almeida Subtil, (Miranda do Douro, Trás-os-Montes, Portugal) - através das palavras desafia o tempo, solidifica o tempo, apura a sensibilidade e revive os estados de alma que na sua vida foram chama, luz e caminho. A poesia, a pintura e a dança são actividades que a apaixonam.





Sobre o Mirandês, Teresa diz-nos, entre outras considerações
Sempre senti a sonoridade e o encanto desta língua. Ser raiano no planalto mirandês é andar abraçado a três línguas: o Português, o Castelhano e o Mirandês. A mistura é quase inevitável. Diversos fatores se conjugaram para que o mirandês mantivesse a sua autenticidade e em 1998 a Língua Mirandesa (património linguístico notável) foi oficializada na Assembleia da República. 

Veja mais nesta entrevista em: Memórias...e outras coisas

Blog da autora: O perfume do verso

Nota:
Não me tendo sido possível encontrar listagem da sua bibliografia,
remeto-vos para o seu blog, onde encontrareis referências preciosas.

In Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos:

Teresa Almeida Subtil escreve em tom de desafio, movimento e emoção. Inseriada no sacrário da língua mirandesa, deixa-se seduzir pela sonoridade e riqueza vocabular desta língua, soltando na palavra o seu jeito de raiana, como se cantasse e dançasse os sons da terra. Apelidada de "filha de Torga" (Conceição Lima), a sua geografia é de amor (Amadeu Ferreira) e a poesia é o seu traje de madrugar (Alfredo Cameirão). 

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Poema :in Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos pgs 110 e 111
Imagem : pixabay

Quinzena do amor
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Não deixes nada por dizer / Nun deixes nada por dezir


Diz-me tudo

Diz-me dos silêncios inquietos que cantam no teu olhar
do rio de palavras selvagens preso em ti
das melodias vadias que escreves ao luar,

diz ao desassossego que ateias em mim
o poema que quero entender

e quando a minha pele começar a enrubescer
diz-me tudo.
Não deixes nada por dizer.





Diç-me todo

Diç-me ls siléncios zanquietos que cantán ne l tou mirar
de l riu de palabras salbaiges preso an ti
de las melodies bagamundas que scribes a la lhuna

diç al zassossego que chiçcas an mi
l poema que quiero antender

i quando la mie piel ampeçar a aburmelhar
diç-me todo.
Nun deixes nada por dezir.

TERESA ALMEIDA SUBTIL

In:
Rio de Infinitos
Riu d'Anfenitos
Pgs 58 e 59
Obra escrita em Português e em Mirandês

Querida Teresa, mais uma vez a invadir as páginas deste seu livro. A minha dificuldade esteve na escolha, e quem já teve a oportunidade de o folhear percebe logo o que quero dizer.
O tango chegou agora ao "Xaile", não numa interpretação dita clássica mas a convidar a uma boa milonga.


Apreciemos este Silêncio da Orquestra Negracha




Sobre a autora. 
Atentemos nestas suas palavras:
O meu voo nas palavras começou muito cedo através da leitura. A leitura foi, de facto, a grande motivação. Pela leitura rasguei caminhos, abri horizontes, viajei por espaços de enorme encantamento. O mundo abria-se para mim de maneira surpreendente e percebi que a vida é a ideia que dela fazemos. Penso que quem tem o prazer intenso de ler, acaba por sentir necessidade de comunicar as suas próprias emoções, acaba por descobrir o prazer de escrever. O que seria a vida sem emoção?
E mais...Aqui

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Título do post: o último verso do poema, em português e em mirandês.
Imagem: daqui
Excerto sobre a autora - Blog Memórias... e outras coisas... Bragança

sábado, 29 de dezembro de 2018

Estou aqui por pouco tempo, mas é sempre tempo de sermos gente...






Tempo de mim

Deslizam nuvens nos lenços do meu vestido,
folhos rubros em dia pardacento.
É um dia gigantesco este em que se desfolham folhas de vida
nos versos que pela noite se vão erguer
e renascer fervilhando em tertúlias de poesia,
cantando um Porto cinzento sim, mas poético e glamoroso.
E é nesta alegria que me encanto e desço
e troco cumplicidades com a vizinha que afinal mal conheço.
Os rostos agarram a frieza do betão e a pressa
não se compadece nem espera que a vida
se solte desinibida, confiante em desabafos
esparsos e breves sentires.
O sol começa a aquecer e a assomar-se no olhar
e como um cálice de vinho fino que partilhássemos juntas,
os olhos brindaram a alegria deste encontro,
o primeiro na escada derradeira,
e perdi a pressa, deixei-me estar.
Estou aqui por pouco tempo, mas é sempre tempo
de sermos gente, de nos olharmos e vermos
que afinal abrandar o passo pode ser um passo em frente.
E eu, que hoje tenho pressa, demoro mais um pouco
porque tenho sempre tempo para mim
e é quando me dou que eu me pertenço





Tiempo de mi

Zlízan nubres ne ls lhenços de l miu bestido,
fuolhos burmeilhos an die quelor de cinza.
Ye un die sien fin este an que se çfólhan fuolhas de bida
ne ls bersos que pula nuite s'alhebántan
i tórnan ferbendo an tertúlias de poesie,
cantando un Porto anque cinza, poético i galano.
I ye nesta alegrie que m'ancanto i abaixo
i troco segredos cula bezina q'afinal mal conheço.
Ls rostros agárran la frialdade de l cimento i la priessa
nun ten pena nien spera que la bida
se solte zabergonhada, cunfiante an zabafos
ralos i brebes sentires
l sol ampeça a calcer i a assomar-se ne l mirar
i cumo un cáleç de bino fino que buíssemos juntas,
ls uolhos brindórun l'alegrie deste ancuontro
l purmeiro na scaleira derradeira
i perdi la priessa, deixei-me star,
stou eiqui por pouco tiempo, mas ye siempre tiempo
de sermos gente, de mos mirarmos i bermos
q'afinal abrandar l passo puode ser un passo adelantre
i you hoije que tengo priessa tardo mais un chiç-niç
porque tengo siempre tiempo para mi
i ye quando me dou que you me pertenço

Pgs 72/73

Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos



Nota: Obra escrita em português e mirandês.
O título do post pertence a versos do poema
Os meus agradecimentos à Autora.

E, com um bino fino, brindemos à Vida e ao Ano que se avizinha.



BOAS FESTAS!!!

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2ª e 3ª imagens - pixabay