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domingo, 13 de abril de 2025

Escrito no muro





Procura a maravilha.

Onde a luz coalha
e cessa o exílio.

Nos ombros, no dorso,
nos flancos suados.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

Ou a sombra espessa.

Na laranja aberta
à língua do vento.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.




Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas 
(1923-2005) foi um poeta português.
Mais aqui




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Poema daqui: De Rerum Natura
Do livro: Obscuro Domínio, pg 16 - Eugénio de Andrade

Nota: O poema aparece em muitos sites e blogs bastante simplificado.e com o título "Procura a maravilha"

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Rapsódia de Mornas


Hoje o dia está cinzento, molhado, chorando saudades. E resolvi seguir essa via e, para me ajudar, o choradinho do HUMBERTONA vem mesmo a calhar. Ele leva-nos por ruas, recantos e vários espaços a que não faltam rochas, areia e acima de tudo mar e céu. 



 Neste embalo, um poema de Eugénio de Andrade, um "Até amanhã", sinal de que a despedida não é definitiva: 

Até amanhã

Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.






***


Boa quarta-feira, meu amigos.
Abraços
Olinda


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Poema: daqui
Video, aqui, no Xaile de Seda

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Desde a Aurora




Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,

entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,
eu — a terra — que te procuro.

   (1923-2005)


José Fontinhas de seu nome, Eugénio de Andrade privou de perto e travou amizade com muitas personalidades da cultura portuguesa e estrangeira, como se lê na sua biografia. Sempre viveu distanciado da chamada vida social, literária ou mundana. De entre  as diversas distinções com que foi agraciado sobressai o Prémio Camões, em 2001.
Já estão a ser pensadas várias iniciativas para a 
comemoração do Centenário do seu nascimento, 
a 19 de Janeiro de 2023.



-Jon Batiste-



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Poema: in Citador
Imagem:pixabay

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Sei como nasceu a alegria





Até amanhã

Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.

Eugénio de Andrade,

in "Até amanhã" 


Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas (1923 - 2005) foi um poeta português. Tem uma biblioteca com o seu nome no Fundão.



Recebeu inúmeras distinções, entre as quais o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários (1986), Prémio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus (1988), Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989) e Prémio Camões (2001). A 8 de Julho de 1982 foi feito Grande-Oficial da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico e a 4 de Fevereiro de 1989 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito. aqui


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Poema de aqui
Imagem de aqui

Quinzena do amor
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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Procuro-te

Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer 
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu, 
o ar onde a respiração é doce, 
um pássaro no bosque 
com a forma de um grito de alegria. 

Oh, a carícia da terra, 
a juventude suspensa, 
a fugidia voz da água entre o azul 
do prado e de um corpo estendido.


Procuro-te: fruto ou nuvem ou música. 
Chamo por ti, e o teu nome ilumina 
as coisas mais simples: 
o pão e a água, 
a cama e a mesa, 
os pequenos e dóceis animais, 
onde também quero que chegue 
o meu canto e a manhã de maio. 

Um pássaro e um navio são a mesma coisa 
quando te procuro de rosto cravado na luz. 
Eu sei que há diferenças, 
mas não quando se ama, 
não quando apertamos contra o peito 
uma flor ávida de orvalho. 

Ter só dedos e dentes é muito triste: 
dedos para amortalhar crianças, 
dentes para roer a solidão, 
enquanto o verão pinta de azul o céu 
e o mar é devassado pelas estrelas. 

Porém eu procuro-te. 
Antes que a morte se aproxime, procuro-te. 
Nas ruas, nos barcos, na cama, 
com amor, com ódio, ao sol, à chuva, 
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te. 

in "As Palavras Interditas"

Encontrei, há dias, Eugénio de Andrade no blog Raraavisinterris. Lembrei-me que há já algum tempo que ele não visita o meu Xaile de Seda. Fui à procura de poemas seus e, claro, a dificuldade esteve na escolha. Acabei por optar por este: "Procuro-te". 

Há sempre algo que procuramos na vida e penso que as palavras deste magnífico Poeta traduzem na perfeição o que nos faz avançar estrada fora, aos mais profundos recantos ou dentro de nós próprios: a procura do sentido da Vida.

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Poema:  Citador
Imagem: Pixabay  

domingo, 20 de dezembro de 2015

Caros leitores, por onde andais? Alguns de vós...

Comunico-vos que ontem perdi 13 seguidores e hoje mais um, totalizando, portanto, 14 seguidores. Deduzo que seja uma partida do blogger, dada a rapidez com que a coisa se tem feito e, também, porque há um outro blogue que ontem também se queixou do mesmo. Penso que esta sangria não ficará por aqui. Poderá acontecer que, com estas eliminações, não me cheguem aqui ao Xaile as vossas actualizações. Mas, não há-de ser nada...




E porque estamos na época natalícia ofereço-vos estas palavras de dois grandes poetas, que temos a honra de conhecer:

Chove. É dia de Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.


Fernando Pessoa





Último Poema

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.


Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.


Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.


Eugénio de Andrade

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Pois, é verdade. Não neva nem é Natal, mas como disse outro grande poeta, Ary dos Santos, Natal é quando um homem quiser. Pode ser hoje, qualquer dia, todo o ano.


=====
Imagens:Internet

segunda-feira, 4 de maio de 2015

A "Larus dominicanus"




De asas mais escuras, patas esverdeadas e porte superior em relação às gaivotas comuns, esta gaivota-dominicana foi avistada e fotografada, por um jovem, na semana passada. 

Assim, biólogos e observadores de aves têm a atenção voltada para a praia de S. João da Caparica, dada a raridade dessa espécie por estas paragens. A sua proveniência situa-se no hemisfério sul, com colónias no Chile e na África do Sul. Vi aqui que o primeiro avistamento no território nacional ocorreu no ano passado.

Ficará por cá este gaivotão? Talvez se enamore dos céus de Lisboa e arredores ou mesmo de todo este jardim à beira-mar plantado, cruzando-se com  as autóctones e oferecendo-nos gaivotinhas pintalgadas. Não seria mau, não. Precisamos é de renovação. Renovação de ideias e de mentalidades.

Entretanto, deixemo-nos levar nas asas destes versos de Eugénio de Andrade, Com as Gaivotas:

Contente de me dar como as gaivotas
bebo o outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.

Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou de um céu que tem gaivotas,
leve o diabo esta morte dia a dia.

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Poema de aqui


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Agora as Palavras - Eugénio de Andrade

Obedecem-me agora muito menos
agora as palavras. A propósito
de nada resmungam, não fazem
caso do que lhes digo,
não respeitam a minha idade.
Provavelmente fartaram-se da rédea,
não me perdoam
a mão rigorosa, a indiferença
pelo fogo-de-artifício.
Eu gosto delas, nunca tive outra
paixão, e elas durante muitos anos
também gostaram de mim: dançavam
à minha roda quando as encontrava.
Com elas fazia o lume,
sustentava os meus dias, mas agora
estão ariscas, escapam-se por entre
as mãos, arreganham os dentes
se tento retê-las. Ou será que
já só procuro as mais encabritadas?

Eugénio de Andrade


***


Ah, paroles, paroles, paroles... caro Eugénio. Já nada é como dantes, quando as palavras queriam dizer aquilo que queríamos mesmo dizer, não é? Agora os que nos governam escondem-se atrás delas com mil intenções, algumas indizíveis, de tal modo que procuram construções esquisitas para nos baralharem. Sabe, meu caro, o que quer dizer condição de recursos? Pois. E pensava o meu amigo que tinha um problema... Pode crer que as suas Palavras são, e continuarão a ser, ouro do mais puro quilate.


Mas, ouçamos estes dois. Eles sabem bem o que dizem: coisas do coração, coisas que entendemos.





     

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Aproxima a boca da nascente


Aproxima a boca da nascente:

não te importes

se for silêncio só
o que te chega aos ouvidos:
é música
ainda. Tenta uma vez mais
levantar a mão até ao bafo
da primeira estrela,
a pupila atenta
ao rumor de cada sílaba:
não tens outro país, não tens
outro céu.
Com a boca, com os olhos,
com os dedos
procura tocar a terra cheia
do teu coração.
Outra vez.

Poema de:
Eugénio de Andrade
in O Sal da Língua


FELIZ NATAL MEUS AMIGOS



foto:minha