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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

A Portuguesa Língua

Já é por demais sabido: adoro estas palavras que António Ferreira, poeta, dramaturgo, Sec. XVI, dirigira ao amigo Pêro d'Andrade Caminha e elas fazem-se presentes aqui no Xaile de Seda sempre que sinto a necessidade de relembrar o legado que nos foi confiado:

Floreça, fale, cante, ouça-se e viva
A Portuguesa língua, e já onde for
Senhora vá de si soberba, e altiva.
Se téqui esteve baixa e sem louvor,
Culpa é dos que a mal exercitaram:
Esquecimento nosso, e desamor.

Mas tu farás, que os que a mal julgaram,

E inda as estranhas línguas mais desejam,
Confessem cedo ant'ela quanto erraram.
E os que depois de nós vierem, vejam
Quanto se trabalhou por seu proveito,
Porque eles para os outros assi seja.

António Ferreira



Hoje, o motivo é outro, que é o de registar o reconhecimento da importância do nosso idioma, como desejava o grande António Ferreira, agora a nível mundial.

Pois bem, acordei com a bela notícia de que a UNESCO aprovou o dia 5 de Maio como Dia Internacional da LÍNGUA PORTUGUESA, dia que já tinha sido instituído pela CPLP, a 20 de Julho de 2009, e mais:

“É a primeira vez que a UNESCO toma uma decisão destas em relação a uma língua que não é uma das línguas oficiais da UNESCO. Por unanimidade, as pessoas reverem-se na ideia de que é importante um dia mundial da língua portuguesa é muito importante”, afirmou António Sampaio da Nóvoa em declarações à agência Lusa. aqui

Mas lembremo-nos de um dado muito importante: o Brasil já comemora o Dia da Língua Portuguesa desde 2006, Dia 5 de Novembro, assim:

No Brasil, o Dia Nacional da Língua Portuguesa foi criado a partir do decreto de lei nº 11.310, de 12 de junho de 2006, estipulando a celebração para o dia 5 de novembro.

A escolha desta data é uma homenagem ao escritor e político brasileiro Ruy Barbosa, que nasceu em 5 de novembro de 1849, e é considerado um grande estudioso da língua portuguesa.



E agora, tempo para ouvir MARIZA e TITO PARIS

Beijo de Saudade
(Título original)
"Onda Sagrada di Tejo"
Morna de B.Léza

E também VITORINO, 
seduzido pela toada desta Morna 


NOTA:

"ONDA SAGRADA DI TEJO" - Morna de B. Léza , Francisco Xavier da Cruz.

A mesma Morna, duas versões:

1- Mariza canta-a, com Tito Paris, dando-lhe um toque de Fado e mudando-lhe o título para "Beijo de Saudade".
Segundo Carlos Saura, está tudo ligado. Veja SOLTE-SE A VOZ, aqui, no Xaile.

2- VITORINO com uma interpretação mais próxima do original. O título, de "Onda Sagrada di Tejo", passa para "Ondas Sagradas do Tejo".

Mas, ouso ainda acrescentar a interpretação de TITINA, talvez a que B. Léza teria gostado de ouvir, ou ouviu, e mais coincidente com a versão original.


E que eu prefiro.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

SOBERBA E ALTIVA



No seu afã de defender a portuguesa língua de influências estranhas e incentivando a escrita em português, António Ferreira escreve uma carta apaixonada a Pêro Andrade de Caminha. E dessa carta, não há dúvida, este excerto é deveras empolgante. Mal sabia ele que ao longo dos tempos esta língua iria ter experiências jamais sonhadas. Acompanhara os navegadores, estabelecera-se além-mar e quando voltou vinha cheia de requebros, dengosa, macia, tropicalíssima. E agora, tal como a cantiga da rua, ela não é de ninguém é de toda a gente. Parafraseando Chico Buarque, ela ainda vai cumprir seu ideal.


Floreça, fale, cante, ouça-se e viva

A Portuguesa língua, e já onde for

Senhora vá de si soberba, e altiva.

Se téqui esteve baixa e sem louvor,

Culpa é dos que a mal exercitaram:

Esquecimento nosso, e desamor.

Mas tu farás, que os que a mal julgaram,

E inda as estranhas línguas mais desejam,

Confessem cedo ant'ela quanto erraram.

E os que depois de nós vierem, vejam

Quanto se trabalhou por seu proveito,

Porque eles para os outros assi seja.


                                                                                                                                 António Ferreira -Sec.XVI


Excerto da carta de António Fereira retirado de:

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Se eu soubesse a palavra, a única, a última...





A PALAVRA

Se eu soubesse a palavra,

a que subjaz aos milhões das que já disse,

a que às vezes se me anuncia num súbito silêncio interior,

a que se inscreve entre as estrelas contempladas pela noite,

a que estremece no fundo de uma angústia sem razão,

a que sinto na presença oblíqua de alguém que não está,

a que assoma ao olhar de uma criança que pela primeira vez interrogou,

a que inaudível se entreouve numa praia deserta no começo do Outono,

a que está antes de uma grande Lua nascer,

a que está atrás de uma porta entreaberta onde não há ninguém,

a que está no olhar de um cão que nos fita a compreender,

a que está numa erva de um caminho onde ninguém passa,

a que está num astro morto onde ninguém foi,

a que está numa pedra quando a olho a sós,

a que está numa cisterna quando me debruço à sua borda,

a que está numa manhã quando ainda nem as aves acordaram,

a que está entre as palavras e não foi nunca uma palavra,

a que está no último olhar de um moribundo, e a vida e o que nela foi fica a uma distância infinita,

a que está no olhar de um cego quando nos fita e resvala por nós,

-se eu soubesse a palavra,

a única, a última,

e pudesse depois ficar em silêncio para sempre…

Vergílio Ferreira

     (1916-1996)


Ainda e sempre a Palavra, ferramenta indispensável à comunicação e quando ela nos falha tudo se desmorona. Procurar a Palavra certa com o mesmo afã com que Diógenes de Sinope procurava um homem honesto, virtuoso, com uma lanterna em plena luz do dia... 

Não sei se Vergílio Ferreira a terá encontrado.

Contudo, registo aqui o seu desideratum, o qual chega até nós 

através deste belo poema.




Vergílio António Ferreira, foi um escritor e professor portuguêsA sua vasta obra, geralmente dividida em ficção (romanceconto), ensaio e diário, costuma ser agrupada em dois períodos literários: o Neo-Realismo e o Existencialismo. Considera-se que Mudança é a obra que marca a transição entre os dois períodos

.O seu nome continua actualmente associado à literatura através da atribuição do Prémio Vergílio Ferreira. Em 1992, foi galardoado com o Prémio Camões. Veja mais, aqui


Nota:

Veja, aqui, texto sobre a obra Mudança.

(Mudança de Vergílio Ferreira: a Guinada Subjectiva,

de Madalena Vaz Pinto)


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Poema - aqui

video - aqui

domingo, 23 de fevereiro de 2020

A Fonte


                      I 
Eis-me perto da Fonte, muito perto.
Vejo brotar a água,
Uma água clara e límpida,
Boa, amável!

Eis a Fonte:
Fica perto de Badiopor. 
Junto dela nasci:
Eis a Fonte da minha infância.

Sim, eu amo essa Fonte,
Admiro-a,
Brinco,
Eu e meus irmãos, à sua beira.

Fica, fica perto de Badiopor, 
Desse lugar quase sagrado, 
Desse lugar ensombrado;
Badiopor, fonte de nossas almas.

A sua água nos atrai, 
E acarinha-nos. 
Vemo-la noite e dia;

E a Fonte que está mais perto.

Olha: a água a brotar da nascente, 
Como de fonte, 
Como um regato!

(Sim, parece-se mais com um regato.)

                         II

Mais pequena ainda que a Fonte, 
É a nascente onde tudo vem beber. 
A nascente, nossos pais, amamo-la. 
Nossa.

A nascente é fonte das árvores e das folhas.
Olhamos a nascente, o ribeiro,
Manancial de nossos pais.

É verdade:

Esta Fonte é mui antiga,

Nascente da Tradição, 
Fonte da Historia; eis 
O manancial do Reino, 
Tão perto de Badiopor!

Bem me lembro:
Há muito que ela se conserva no mesmo lugar, 
Manando água cristalina. 
Eis, eis a Fonte do Reino.

Ela protege-nos, 
Ela é a alma das crianças;
Fonte do Reino, força nossa, 
Ela é a nossa protectora.

As chaves do Reino onde estão?

Nessa Fonte,
Onde meus irmãos e eu vemos às vezes monstros
E trememos então de medo,
Ou choramos.

(Nós, filhos do Reino, 

Nos, príncipes desse seu Reino.)


                          III

É verdade, como príncipes, 
De tudo cantamos,

Nos, príncipes de Baboque 
Bem amados, 
Pelo sangue 
Oriundos daquele Rei,

Daquele que é Rei dos Reis;
Nos que vimos do seu Reino,
De todos o mais poderoso e vasto,
Como o Reino de Baçarel.

(E Baçarel é um grande Reino, 
Onde príncipes vêm a luz;
Baçarel, terra bem nobre, 
Seu lugar de nascimento.)


(Publicado: in Poesia & ficção, 1972)


Publicar ou não o poema na íntegra? Como vêem, optei por publicá-lo na totalidade. Se o não fizesse não conseguiríamos ver tudo o que autor pretende dizer, tanto no seu regresso às raízes como na importância que a sua cultura concede à parte telúrica da vida. Além do mais, este poeta insere-se na fase denominada de "Poesia de Combate", de 1945 a 1970, que referi num post mais atrás. Uma forma de combater: lembrando o quanto perdemos quando se esquecem os valores que enformam as nossas tradições mais caras, e das quais depende a sobrevivência de um povo.





Nota biográfica:

António Baticã Ferreira nasceu em Canchungo, em 1939. Filho de um soba (chefe de tribo em África, também denominado régulo), estudou em vários países, formando-se em medicina e tendo exercido a profissão no Hospital Santa Maria, em Lisboa. Não publicou nenhum livro, mas, segundo a sua família, tem muitos poemas inéditos. Os “Cadernos da Sociedade de Língua Portuguesa - Poesia e ficção I”, de 1972, pp. 15-21, publicaram sete poemas seus, seis deles reproduzidos em “No reino de Caliban” (1989) e também já tinha aparecido em “Poilão - Caderno de Poesias” (1973). Segundo Secco (1999: 214), «por ter vivido fora da Guiné, passa em seus versos a angústia do exílio. Canta a saudade da infância na Guiné e o mar, ...., apesar de pouco recorrente» (Couto e Embaló, 2010:108). aqui


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Daqui vos saúdo, regressando à actividade do blog na companhia de mais um poeta guineense.

Mas voltarei com outros apontamentos.

Bom domingo.

Abraços.


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Poema: in No Reino do Caliban, Manuel Ferreira - pg 324/325
Nota: Quando me refiro à Literatura guineense, leia-se p.f., Literatura da Guiné Bissau.

sábado, 20 de novembro de 2021

Ignição - António Osório




Meus versos, desejo-vos na rua,
nas padiolas, pelo chão, encardidos
como quem ganha com eles a vida,
e o papel vá escurecendo ao sol,
a chuva o manche, a capa
ganhe dedadas, a companhia
aderente de um insecto,
as palavras se humildem mais
e chegue a sua vez de comoverem alguém
que compre, um faminto ajudando.

Meus versos, desejo-vos nas bibliotecas
itinerantes, gostaríeis de viajar
por aldeias, praias, escolas primárias,
despertar o rápido olhar das crianças,
estar nas suas mãos
completamente indefeso
e, sobretudo, que não vos compreendam.
Oxalá escrevam, risquem, atirem no recreio
umas às outras como pélas os livros
e sonhem, se possível, com algum verso
que súbito se esgueire pela sua alma.

António Osório
(1933 - 2021)


Qual o maior desejo de um poeta senão ver os seus versos lidos, relidos, apreciados, interpretados nas escolas, andando pelas ruas de braço dado com o vulgo, numa familiaridade apenas concebida por quem ama? 

António Osório faz-nos saber dessa necessidade sem rebuço, com toda a simplicidade, ele, o autor ...

Várias vezes premiado, com obra traduzida e publicada em Espanha, França e Itália, mas também no Brasil, elogiada por críticos tão diferentes como João Gaspar Simões, David Mourão-Ferreira, Eugénio Lisboa, Joaquim Manuel Magalhães, Vasco Graça Moura, Eduardo Lourenço, Fernando J.B. Martinho, João Bigotte Chorão, Eduardo Prado Coelho, Carlos Reis, Fernando Pinto do Amaral, Diogo Pires Aurélio, Pedro Mexia, António Carlos Cortez...


Queira ler o artigo sobre o poeta em Da Literatura, blog de Eduardo Pitta.


Bom fim de semana, meus amigos.

Abraços.



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Poema - O Citador
Referências trazidas do blog "Da Literatura"
Imagem pixabay


sábado, 1 de julho de 2023

O tempo que nos cabe (ainda)

 


É dentro da cabeça,

lá dentro,

que o tempo nos consome

e nos faz falta.

Não há chuva morna

nem sol

que nos aqueça, quando

nos falta o sopro,

a luz, a cega fé que nos mantém

despertos, quando

por fora, o corpo

já anuncia a noite

mais profunda.

Por isso,

é dentro da cabeça,

cá dentro,

para lá dos céus,

antes que o mar termine,

nesta imensa confusão

de meridianos

que nos dói e nos deslumbra,

que se aloja o segredo

indecifrável:

a cor, o som, a luz

que nos conforta,

neste intensamente breve

instante

que é o tempo que nos cabe.




(1949-2022)


Escritor, gestor e jornalista, António Mega Ferreira nasceu em Lisboa em 1949, fez o curso de Direito na Universidade Clássica de Lisboa e estudou Comunicação Social na Universidade de Manchester, Inglaterra.

Tem mais de vinte títulos publicados, entre ficção, poesia e ensaio.
O seu livro de estreia como ficcionista, O heliventilador de Resende (1986).

Em 2002, foi-lhe atribuído o Prémio Camilo Castelo Branco da APE para o melhor livro de contos publicado no ano anterior, A expressão dos afectos.
Ver mais aqui



Feliz mês de Julho, meus amigos.

Abraços

Olinda


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sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Se não estivesses

 

 


Se não estivesses,
se a concha dos teus dedos
não fizesse vibrar em mim,
gota a gota,
a tua voz,
se não esticasses os braços
sobre um qualquer
espaço
que nunca será nosso,
se o teu sorriso
agora distendido
não se mostrasse todo
nos gestos do amor,
se a tua mão não procurasse
a minha, ou os meus dedos
não pudessem, ainda
que ao de leve,
tocar a ponta frágil dos teus cabelos
escuros,
se eu não encontrasse
em ti o meu olhar,
às vezes,
quando finjo que não vejo
o teu olhar
em mim,
se os dias não fossem
confortados
com a ideia de que existes
sensivelmente existes,
e que, por isso, de alguma
forma, eu sou em ti
a minha forma de existir
– estas palavras, as frases
que as expõem, o poema
em que tudo se articula, no íntimo
sentido que só existe
dentro do poema, tudo o que
é
e, ainda,
o que possa caber em nós, secretamente,
seria uma triste passagem
pelo que resta
e nem os meus olhos, e nem as minhas
lágrimas
diriam o que dizem;
porque a mão que escreve, o seu último
argumento, está
na concha dos teus dedos
e no gemido que atraiçoa
a tua voz.

António Mega Ferreira
     (1949-2022)


António Mega FerreiraRomancista, ensaísta, poeta e jornalista, licenciado em Direito. "O fervilhante fazedor que sonhou e realizou", como li algures, faz lembrar, mutatis mutandis, o primeiro verso do poema "O Infante" de Pessoa, em Mensagem, Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.  Tido como o mentor da Lisboa contemporânea, é visto como um vibrante realizador de tudo quanto a que metia ombros.

De entre as mais de três dezenas de obras publicadas só constam dois livros de poemas. Para ele a Poesia:

"É a arte da decantação. Digamos que em relação à poesia o meu grau de exigência é obsessivo, quase patológico. Não estou em paz com a minha poesia, e não estando em paz, o melhor é não publicar porque já sei o que me vai acontecer (...). A poesia é, de facto, a disciplina suprema (...). É conseguir chegar abaixo do osso de qualquer coisa que não é osso", disse quando lhe perguntaram da exigência da escrita." 
Ver mais aqui




Et si tu n'existais pas



Bom fim de semana, amigos.

Abraços
Olinda


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Poema: daqui

quarta-feira, 20 de abril de 2011

TROIKA? o que é?


De repente, a portuguesa língua apresenta-se pobre e sem palavras. Sem palavras para designar coisas à primeira vista inomináveis. Todos os dias, às mais variadas horas somos torpedeados pela Comunicação Social e também já na rua por palavras que parecem ter um mundo de significados: Troika; Os homens da Troika. Para lá disto, é deixado ao nosso livre arbítrio a procura de uma explicação para o que quer dizer Os homens da Troika que, pelos vistos, são os Papões da nova Era ou então O Homem do saco. Mas vamos de evolução em evolução e há-de ficar na história linguística e na nossa História comum esta nova realidade que havemos de contar aos nossos netos.
Sinto saudades de António Ferreira que, dos confins do século XVI, nos exorta:


Floreça, fale, cante, ouça-se e viva

A Portuguesa língua, e já onde for

Senhora vá de si soberba, e altiva.


Este pecado de lesa-língua pátria será desamor? Venham, perfilem-se, Camões, Almeida Garrett, Herculano, Pessoa e todos os ilustres homens que ajudaram a construir a mais linda história em torno de uma Língua que tem percorrido os quatro cantos do mundo e que conta com mais de 240 milhões de falantes.

Assim é e assim seja... (Caeiro)


 

Imagem:Google 

sábado, 5 de maio de 2012

Quanto mais eu sinta como várias pessoas


Hoje, Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLP, transcrevo aqui esta passagem do poema Afinal, de Álvaro de Campos, em que celebra a multiplicidade, a pluralidade, qualidades intrínsecas do seu criador, Fernando Pessoa. Numa interpretação livre, poderia adaptar as suas palavras à diversidade cultural e, ao mesmo tempo, à desejada unidade destes países, transmitida através da mesma língua: 




Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
   
Quanto mais personalidade eu tiver,
   
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,

   
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,

  
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,

   
Estiver, sentir, viver, for,

   
Mais possuirei a existência total do universo,

   
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.

   
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,

   
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,

   
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

Poderia também, citando Bernardo Soares, apossar-me da expressão, constante do seu Livro do Desassossego, 'a minha pátria é a língua portuguesa' tantas vezes arrancada do contexto do próprio livro e interpretada de conformidade com os nossos anseios, mas sempre carregada de grande simbolismo.

De um escritor e humanista do Sec. XVI que já citei, talvez por duas vezes, neste blog, António Ferreira, a carta ao amigo Pêro Andrade de Caminha, incitando-o a escrever em língua portuguesa; eis uma passagem que nos vem sempre ao pensamento quando se trata de nos orgulhamos do nosso idioma:


Floreça, fale, cante, ouça-se e viva
A Portuguesa língua, e já onde for

Senhora vá de si soberba, e altiva.

Se téqui esteve baixa e sem louvor,

Culpa é dos que a mal exercitaram:

Esquecimento nosso, e desamor.





Estarei aqui a esquecer-me do grande Luís de Camões? Impossível. Os Lusíadas na vertente épica e a sua Lírica são as expressões maiores da nossa língua. Quem é que se esqueceria deste dito do Gama: 'esta é a ditosa pátria  minha amada' ou, por exemplo, do início deste soneto 'naquela triste e leda madrugada'?



Mas não nos faltam exemplos de grandes autores nesta língua declarada  língua oficial em oito países (CPLP) e cujos vestígios se encontram nos quatro cantos do mundo.



Voltarei com algumas postagens, homenageando alguns dos autores dos países que compoem a CPLP.

Tenham um excelente sábado... :)




Imagens:Internet

domingo, 5 de novembro de 2017

Da morabeza



A conquista da poesia     

Era um castelo erguido na montanha
da paisagem deserta submarina
tinha muros altamente inacessíveis
ao salto imaginário do meu pensamento

Minha musa você diga-me
onde mora a poesia
quero ir deitar-me com ela
quero amá-la toda a noite

Fiquei parado à porta do castelo
os muros tolhiam meus passos
mas de dentro vinhas gritos de alegria
de meninos correndo numa cerca

Minha musa você conte-me
a história da bela adormecida
que quando eu era menino
Manhanha gostava de me contar

No alto do castelo tinha um vulto
tinha uma mulher vestida de vermelho
lembrando-me todas as princesas encantadas
dos sonhos inocentes de minha infância

 (1925-2015)

Arnaldo Carlos de Vasconcelos França nasceu na cidade da Praia, Cabo Verde, em 1925. Graduado em Ciências Sociais e Políticas pela Universidade Técnica de Lisboa, diz-nos António Miranda no seu site, donde trouxe este poema.


Ao jornal "A Semana" fui buscar estes elementos:

"Ensaísta de craveira, Arnaldo França escreveu numerosos ensaios literários dos quais se destacam os dedicados à obra de António Aurélio Gonçalves, Guilherme Dantas e Jorge Barbosa. Como poeta, também participou, ainda enquanto estudante do Liceu Gil Eanes, na revista Certeza, e mais tarde, graduou-se em Ciências e Políticas pela Universidade Técnica de Lisboa. Foi um exímio crítico e estudioso da literatura cabo-verdiana", escreve a página do Governo.
"França destaca-se, igualmente pelo seu enorme contributo para a valorização da língua cabo-verdiana, tendo ao longo da sua vida, traduzido para o “crioulo” alguns imortais da literatura de língua portuguesa como Camões e Fernando Pessoa. Da sua obra fazem parte ainda várias colaborações com nomes como Félix Monteiro António Carreira, Jaime Figueiredo, ainda às vésperas da Independência, quando integrou o Centro de Estudos de Cabo Verde. Animou a Revista Raízes, um marco fundamental no pós-independência".

Muito mais há para saber sobre este grande Senhor. 
Quanto a mim, para além de ter ficado presa na riqueza dos seus poemas fiquei embasbacada com as traduções para o crioulo de poemas de David Mourão-Ferreira, de Fernando Pessoa, ortónimo, e de três dos seus heterónimos mais conhecidos, aqui, na Esquina do Tempo. Qualquer coisa de sublime.
Em sua honra foi criado pelas imprensas nacionais de Portugal e de Cabo Verde o Prémio literário Arnaldo França, que irá distinguir, anualmente, escritores cabo-verdianos. O prémio foi anunciado no Festival literário Morabeza que decorre desde 30 de Outubro e terá o seu término hoje, dia 5 de Novembro.
É a primeira edição desse Festival literário que promete vir a transformar-se num grande festival lusófono. 

Desejo-vos um bom domingo.

Abraço.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Libertação

E porque o teu coração encerra
a saudade do mar e a saudade da terra
-tua ilha é grande.
E porque teus sentidos traçam norte e sul
e traçam leste e oeste norte e sul
-tua ilha é grande.
E porque tens os olhos virados para o azul
para lá do azul e para cá do azul
-tua ilha é grande
e porque o teu sangue vive o destino de tantas raças
no mesmo latejar de ansiedades e resignações dores alegrias e
desgraças
- tua ilha é grande
  
Manuel Lopes  

Poeta sensível e ensaísta perspicaz, é no entanto na ficção que Manuel Lopes mais se irá distinguir, retratando com particular empatia humana e mestria artística, através das personagens que cria, a tragédia das estiagens de Cabo Verde.
Os seus romances Chuva Braba (1956) e Os Flagelados do Vento Leste (1960), bem como o livro de contos O Galo Cantou na Baía (1959), foram alvo de tradução para várias línguas e agraciados com os prémios literários Fernão Mendes Pinto (Chuva Braba e O Galo Cantou na Baía) e Meio Milénio do Achamento das Ilhas de Cabo Verde (Os Flagelados do Vento Leste). aqui  




Mar di Tarrafal

Fonte de agua
Boca de espuma
Ronco acordado
Ferbura frio
Corpo esculpido
Ancas de moças
Ossos de bedjo
Paraiso vira-lata
Mar di Tarrafal

Ceu di palbessa
Voo rastero
Renda branca
Saiona azul
Spanto de menino
Concha de quidja
Modjado eterno
Paraíso vira-lata

Mar di Tarrafal
Conforme maré
Conforme maré
...
Ceu di palbessa
Ronco acordado
Renda branca
Saiona azul
Spanto de menino
Concha de quidja
Modjado eterno
Paraíso vira-lata

Mar di Tarrafal
Conforme maré
Conforme maré
...
Nota:

Hoje, 05/05, Dia Mundial da Língua Portuguesa, idioma que neste Xaile de Seda tem lugar de destaque, procurando-se evidenciar a sua viagem pelo mundo e as alterações e evolução por que tem passado ao longo dos tempos.

… Floreça, fale, cante, ouça-se e viva
A portuguesa língua, e já, onde for,
Senhora vá de si, soberba e altiva.
Se tèqui esteve baixa e sem louvor,
Culpa é dos que a mal exercitaram,
Esquecimento nosso e desamor.
...
António Ferreira
Sec. XVI 


Leia mais aqui no Xaile de Seda.


====
Poema - in: Crioulo e outros, 1964 

Ver aqui - MÁRIO LÚCIO
"Biografia do Língua" - aqui no Xaile

Letra da música: aqui
Música cantada em crioulo de Santiago. 
"Letra" transcrita num quase português.