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quarta-feira, 18 de abril de 2018

Testamento para o dia claro






Quando do fundo da noite vier o eco da última palavra submissa
         E a patina do tempo cobrir a moldura do herói derradeiro,

         Quando o fumo do último ovo de cianeto
         Se dissipar na atmosfera de gases rarefeitos
         E a chama da vela da esperança
         Se acender em sol na madrugada do novo dia

         Quando só restar na franja da memória
         Lapidada pelo buril dos tempos ácidos
         A estria da amargura inconseqüente
         E a palavra da boca dos profetas
         Não ricochetear no muro do concreto
         Da negrura sem fundo de um poço submerso

         Sejais vós ao menos infância renovada da minha vida
         A colher uma a uma as pétalas dispersas
         Da grinalda dos sonhos interditos.
          
          ARNALDO FRANÇA

Arnaldo Carlos de Vasconcelos França nasceu na cidade da Praia, Cabo Verde, em 1925. Graduado em Ciências Sociais e Políticas pela Universidade Técnica de Lisboa.

Queira ler mais sobre este autor, aqui, no Xaile de Seda.



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Poema:Do site de António Miranda
e Blog Esquina do Tempo de Brito-Semedo
Imagem: daqui

domingo, 5 de novembro de 2017

Da morabeza



A conquista da poesia     

Era um castelo erguido na montanha
da paisagem deserta submarina
tinha muros altamente inacessíveis
ao salto imaginário do meu pensamento

Minha musa você diga-me
onde mora a poesia
quero ir deitar-me com ela
quero amá-la toda a noite

Fiquei parado à porta do castelo
os muros tolhiam meus passos
mas de dentro vinhas gritos de alegria
de meninos correndo numa cerca

Minha musa você conte-me
a história da bela adormecida
que quando eu era menino
Manhanha gostava de me contar

No alto do castelo tinha um vulto
tinha uma mulher vestida de vermelho
lembrando-me todas as princesas encantadas
dos sonhos inocentes de minha infância

 (1925-2015)

Arnaldo Carlos de Vasconcelos França nasceu na cidade da Praia, Cabo Verde, em 1925. Graduado em Ciências Sociais e Políticas pela Universidade Técnica de Lisboa, diz-nos António Miranda no seu site, donde trouxe este poema.


Ao jornal "A Semana" fui buscar estes elementos:

"Ensaísta de craveira, Arnaldo França escreveu numerosos ensaios literários dos quais se destacam os dedicados à obra de António Aurélio Gonçalves, Guilherme Dantas e Jorge Barbosa. Como poeta, também participou, ainda enquanto estudante do Liceu Gil Eanes, na revista Certeza, e mais tarde, graduou-se em Ciências e Políticas pela Universidade Técnica de Lisboa. Foi um exímio crítico e estudioso da literatura cabo-verdiana", escreve a página do Governo.
"França destaca-se, igualmente pelo seu enorme contributo para a valorização da língua cabo-verdiana, tendo ao longo da sua vida, traduzido para o “crioulo” alguns imortais da literatura de língua portuguesa como Camões e Fernando Pessoa. Da sua obra fazem parte ainda várias colaborações com nomes como Félix Monteiro António Carreira, Jaime Figueiredo, ainda às vésperas da Independência, quando integrou o Centro de Estudos de Cabo Verde. Animou a Revista Raízes, um marco fundamental no pós-independência".

Muito mais há para saber sobre este grande Senhor. 
Quanto a mim, para além de ter ficado presa na riqueza dos seus poemas fiquei embasbacada com as traduções para o crioulo de poemas de David Mourão-Ferreira, de Fernando Pessoa, ortónimo, e de três dos seus heterónimos mais conhecidos, aqui, na Esquina do Tempo. Qualquer coisa de sublime.
Em sua honra foi criado pelas imprensas nacionais de Portugal e de Cabo Verde o Prémio literário Arnaldo França, que irá distinguir, anualmente, escritores cabo-verdianos. O prémio foi anunciado no Festival literário Morabeza que decorre desde 30 de Outubro e terá o seu término hoje, dia 5 de Novembro.
É a primeira edição desse Festival literário que promete vir a transformar-se num grande festival lusófono. 

Desejo-vos um bom domingo.

Abraço.