Mostrar mensagens com a etiqueta Vergílio Ferreira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vergílio Ferreira. Mostrar todas as mensagens

domingo, 14 de setembro de 2025

Vive o instante que passa




Vive o instante que passa. Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele será o mesmo nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti. Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és. Assim o dom estúpido e miraculoso da vida não será a estupidez maior de o não teres cumprido integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terá fim.

Vergílio Ferreira
, in 'Conta-Corrente IV'



***




Aldeia de Melo - a aldeia eterna, no dizer de Vergílio Ferreira. É lá que está a decorrer o Festival Literário designado "Em nome da Terra", de 11 a 15 do corrente mês de Setembro, celebração das palavras e da memória. 
Inspirado no legado literário e na dimensão interartística da escrita de Vergílio Ferreira, o festival inclui propostas para públicos de todas as idades onde se incluem conversas com escritores, oficinas criativas, visitas às escolas, sessões de mediação de leitura, formação para docentes, apresentação de livros, música ao vivo, cinema documental, exposições e performances literárias.



Boa semana, amigos.
abraços
Olinda


===
Texto: incitador
1ª imagem: pixabay
Acima: casa onde Vergílio Ferreira cresceu, na aldeia de Melo.


sexta-feira, 1 de março de 2024

Vive o Dia de Hoje!

Não penses para amanhã. Não lembres o que foi de ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje é tão efémero. Mesmo o que se pensa para amanhã é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. É o tempo de Deus que não tem futuro nem passado. Foi o que dele nós escolhemos no sonho do nosso absoluto. Não penses para amanhã na urgência de seres agora. Mesmo logo à tarde é muito tarde. Tudo o que és em ti para seres, vê se o és neste instante. Porque antes e depois tudo é morte e insensatez. Não esperes, sê agora. Lê os jornais. O futuro é o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando não houver outro.

Vergílio Ferreira, in "Escrever"






Grata pela vossa companhia nesses dias de reflexão, privilegiando alguns temas que captaram a atenção de grandes autores de Língua Portuguesa

Dia bom, meus amigos.

Abraços
Olinda



===
Citador
imagem:pixabay

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Se eu soubesse a palavra, a única, a última...





A PALAVRA

Se eu soubesse a palavra,

a que subjaz aos milhões das que já disse,

a que às vezes se me anuncia num súbito silêncio interior,

a que se inscreve entre as estrelas contempladas pela noite,

a que estremece no fundo de uma angústia sem razão,

a que sinto na presença oblíqua de alguém que não está,

a que assoma ao olhar de uma criança que pela primeira vez interrogou,

a que inaudível se entreouve numa praia deserta no começo do Outono,

a que está antes de uma grande Lua nascer,

a que está atrás de uma porta entreaberta onde não há ninguém,

a que está no olhar de um cão que nos fita a compreender,

a que está numa erva de um caminho onde ninguém passa,

a que está num astro morto onde ninguém foi,

a que está numa pedra quando a olho a sós,

a que está numa cisterna quando me debruço à sua borda,

a que está numa manhã quando ainda nem as aves acordaram,

a que está entre as palavras e não foi nunca uma palavra,

a que está no último olhar de um moribundo, e a vida e o que nela foi fica a uma distância infinita,

a que está no olhar de um cego quando nos fita e resvala por nós,

-se eu soubesse a palavra,

a única, a última,

e pudesse depois ficar em silêncio para sempre…

Vergílio Ferreira

     (1916-1996)


Ainda e sempre a Palavra, ferramenta indispensável à comunicação e quando ela nos falha tudo se desmorona. Procurar a Palavra certa com o mesmo afã com que Diógenes de Sinope procurava um homem honesto, virtuoso, com uma lanterna em plena luz do dia... 

Não sei se Vergílio Ferreira a terá encontrado.

Contudo, registo aqui o seu desideratum, o qual chega até nós 

através deste belo poema.




Vergílio António Ferreira, foi um escritor e professor portuguêsA sua vasta obra, geralmente dividida em ficção (romanceconto), ensaio e diário, costuma ser agrupada em dois períodos literários: o Neo-Realismo e o Existencialismo. Considera-se que Mudança é a obra que marca a transição entre os dois períodos

.O seu nome continua actualmente associado à literatura através da atribuição do Prémio Vergílio Ferreira. Em 1992, foi galardoado com o Prémio Camões. Veja mais, aqui


Nota:

Veja, aqui, texto sobre a obra Mudança.

(Mudança de Vergílio Ferreira: a Guinada Subjectiva,

de Madalena Vaz Pinto)


====

Poema - aqui

video - aqui

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

...cada nossa faculdade, posta em desuso, chega ao desuso maior que é deixar de existir


15 - Porque é que a TV foi essa "caixinha que revolucionou o mundo"? Faço a pergunta e as respostas vêm em turbilhão. Fez de tudo um espectáculo, fez do longe o mais perto, promoveu o analfabetismo e o atraso mental. De um modo geral, desnaturou o homem. E sobretudo miniaturizou-o, fazendo de tudo um pormenor, misturado ao quotidiano doméstico. 




Porque mesmo um filme ou peça de teatro ou até um espectáculo desportivo perdeu a grandeza e metafísica de um largo espaço de uma comunidade humana. Já um acto religioso é muito diferente ao ar livre ou no interior de uma catedral. Mas a TV é algo de minúsculo e trivial como o sofá donde a presenciamos. Diremos assim e em resumo que a TV é um instrumento redutor. Porque tudo o que passa por lá chega até nós diminuído e desvalorizado no que lhe é essencial. E a maior razão disso não está nas reduzidas dimensões do ecrã, mas no facto de a "caixa revolucionadora" ser um objecto entre os objectos de uma sala. Mas por sobre todos os males que nos infligiu, ergue-se  o da promoção do analfabetismo. Ser é um acto difícil e olhar o boneco não dá trabalho nenhum. Ler exige colaboração da memória, do entendimento e da imaginação. A TV dispensa tudo. Uma simples frase como "o homem subiu a escada" exige a decifração de cada palavra, a relação das anteriores até se ler a última e a figuração do seu sentido e imagem correspondente. Mas na TV dá-se tudo de uma vez sem nós termos de trabalhar. Mas cada nossa faculdade, posta em desuso, chega ao desuso maior que é deixar de existir. (...)

Vergílio Ferreira - "escrever" pgs. 23/24 - edição de Helder Godinho, Bertrand Editora - Chiado, 2001

====
Imagem: daqui