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domingo, 6 de novembro de 2022

Sobre um desenho de Graça Morais




Nítido e leve ramo de oliveira:

Rijeza firme do tronco

As pálidas folhas como ponta de lança

E o pequeno fruto negro

Compacto e brilhante


in: Musa - 1994



Será esse o desenho de que fala Sophia? O que sei dizer é que com este poema homenageia a grande artista Graça Morais, a artista rural.

As origens e as tradições populares de uma artista nascida numa aldeia do distrito de Bragança, em Trás-os-Montes, e que viveu parte da sua infância (entre 1957 e 1958), em Moçambique, tornam-se a fonte de inspiração e temática privilegiada que, ao longo de mais 5 décadas, anima e acompanha o seu percurso artístico. Através da representação das gentes, sobretudo mulheres, das paisagens áridas e rurais, dos animais selvagens e domésticos, da flora autóctone, a artista explora nas suas obras cores quentes, texturas intensas e traços marcantes, que figuram uma visão muito própria do mundo que a sensibiliza. Veja mais aqui E pesquise sobre a sua obra aqui, por exemplo.



Transfere a arte do Paleolítico para a sua pintura


Graça Morais conclui, em 1971, o curso de Pintura da Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Entre 1976 e 1979 foi bolseira em Paris da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 1984 representou Portugal na XVII Bienal de São Paulo, Brasil. Em 1997 foi agraciada pelo Presidente da República Jorge Sampaio com o Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. O Centro de Arte Contemporânea Graça Morais (CACGM) foi inaugurado em 2008 em Bragança. Em 2019 a Ministra da Cultura Graça Fonseca entregou-lhe a Medalha de Mérito Cultural em nome do Governo Português.



Madredeus
Grupo musical de excelência
E a voz de Teresa Salgueiro, incomparável!


Hoje, dia 6, data do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, faço aqui o encontro destas duas grandes Mulheres.



Pintura de Graça Morais
Guerra, Verão de 2008

Capa da Revista Seara Nova
Edição Primavera 2020
Nº 1750


Nota: Quanto a esta obra ver, p.f., o comentário de Manuel Veiga.

Continuação de boa semana.




(Post actualizado em 9/11.)

Abraços
Olinda


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Veja de Sophia, aqui, no "Xaile de Seda"

"Sobre um desenho de Graça Morais" é o titulo do poema.

Flores - daqui

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A menina dança?


Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.

in Coral, 1950






MAP Desde quando este interesse pela dança e como?

Desde sempre. A dança é um elemento dionisíaco ligado ao ritmo e à despersonalizacão. No poema sobre Bakkhos também se fala de uma consciência múltipla...


MAP Chegou a dançar, a aprender bailado?

Eu vivia no Porto quando era pequena e não havia nenhuma escola de ballet. Inventava danças sozinha. Anos depois não perdia os bailados que apareciam. Mas era tarde para aprender. Dançava muito sozinha e, quando os meus filhos eram pequenos, dançava para eles.


MAP Às vezes ainda dança, Sophia?

…Muitas vezes imagino bailados e argumentos para bailados.

E quando eu era ainda muito pequena, quando estava em Lisboa, logo de manhã ia para o escritório do meu avô – que eram três grandes salas seguidas, cheias de livros, de quadros, de retratos, de mapas e de mil coisas misteriosas – um lugar onde eu entrava em bicos de pés – e o meu avô punha sempre a tocar um disco de Bach – talvez por isso a música de Bach foi sempre a que melhor entendi. E na Granja, à tarde, o José Ribeiro tocava violoncelo, nuns outonos de tardes oblíquas. E quando estava no Porto ia para Matosinhos para casa do Eduardo e do Ernesto Veiga de Oliveira e ouvíamos Das Lied von der Erde do Mahler, que nesse tempo ainda não estava na moda. E em casa do António Calém a música estava sempre no centro de cada encontro. Resposta a EPC






Não poucas vezes tenho-me valido do talento de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), para abrilhantar este pequeno espaço. Em 2014, logo no mês de Janeiro, publiquei, durante alguns dias, poesia e prosa da sua autoria, excertos de entrevistas, pormenores da sua vida e obra. Além disso, em anos e dias esparsos a autora tem sido, aqui, uma presença muito querida.

Hoje, o "Xaile de Seda" faz oito anos. Para assinalar este dia fui buscar um poema e passagem de uma entrevista que nos trazem fragmentos do seu interesse por mais duas áreas artísticas: a música e a dança.

Tenham uma boa terça-feira.

Abraço 



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Poema e excerto de entrevista daqui (BN)

Imagens: daqui

No blogue da Majo, "A vivenciar a vida", encontrareis referências às comemorações do Centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen. 

O título do post: Lembrei-me do romance de Rita Ferro: "A menina dança?"


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

-Pedra rio vento casa// Pranto dia canto alento// Espaço raiz e água// Ó minha pátria e meu centro

Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras... 
* Sophia






Pátria

Por um país de pedra e vento duro 
Por um país de luz perfeita e clara 
Pelo negro da terra e pelo branco do muro 

Pelos rostos de silêncio e de paciência 
Que a miséria longamente desenhou 
Rente aos ossos com toda a exactidão 
Dum longo relatório irrecusável 

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento 

E pela limpidez das tão amadas 
Palavras sempre ditas com paixão 
Pela cor e pelo peso das palavras 
Pelo concreto silêncio limpo das palavras 
Donde se erguem as coisas nomeadas 
Pela nudez das palavras deslumbradas 

- Pedra  rio  vento  casa 
Pranto  dia  canto  alento 
Espaço  raiz  e água 
Ó minha pátria** e meu centro 

Me dói a lua me soluça o mar 
E o exílio se inscreve em pleno tempo 


In Livro VI-III-As Grades

Sophia de Mello Breyner Andresen
            (1919-2004)

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Uma leitura de Grades - Helena Conceição Langrouva


...Grades, de Sophia de Mello Breyner Andresen, uma breve antologia publicada em 1971 (1) , numa fase de pleno esgotamento do povo Português, em Portugal e na guerra colonial de África. Sophia exprime, sobretudo, o tempo de opressão, agonia, morte, alienação, renúncia e exílio, as formas de injustiça, a marginalidade, a sua busca de Justiça e de Verdade. Alguns poemas exprimem também a tomada de consciência da crise da sociedade contemporânea em geral...ler mais   


*Citação-aqui
** Em 'Uma leitura de Grades-Helena Conceição Langrouva', este verso apresenta-se assim: Ó meu país e meu centro.

Ver Análise Obra Poética da autora
Imagem - Internet



sábado, 4 de janeiro de 2014

Quando à noite desfolho e trinco as rosas és tu a Primavera que eu esperava

Sabe, se quer que lhe diga, do eu que me lembro bem, e para mim o que é importante, é os sítios onde eu escrevi. Há um poema que diz «Quando à noite desfolho e trinco as rosas». Isto é absolutamente verdade: eu ia para o jardim da minha avó colher rosas, a minha avó já tinha morrido e era um jardim semi-abandonado, colhia camélias no Inverno e rosas na Primavera. Trazia imensas rosas para casa, havia sempre uma grande jarra cheia delas em frente da janela, no meu quarto. E depois eu desfolhava e comia as rosas, mastigava-as... No fundo era a tentativa de captar alguma coisa a que só posso chamar a alegria do universo, qualquer coisa que floresce. * Sophia






AS ROSAS

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes
Todo o fulgor das tardes luminosas

O vento bailador das Primaveras
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas

Quando à noite desfolho e trinco as rosas

És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
És tu a Primavera que eu esperava


Sophia de Melo Breyner Andresen
          1919-2004

****

Precioso contributo da M.

Sophia de Mello Breyner era, de facto, uma mulher inspirada e inspiradora! E tinha um cenário inspirador também, penso que hoje esse jardim é o Jardim Botânico do Porto.

A Casa dos Andresen 

"...A verdura das árvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava...

Jardim Perdido
Sophia de Mello Breyner Andresen"

*****
Leiam, meus amigos, tudo sobre o Jardim Botânico do Porto, aqui

Muito Obrigada, M.

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*Sophia - Citação aqui
Ver Análise Obra Poética da autora
Imagem:internet

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Poema de Amor de António e Cleópatra

De: Teresa Dias
Blogue: Rol de Leituras







Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.

Sophia de Mello Breyner Andresen,  
(1919-2004), 
 "Obra poética I", 
Círculo de Leitores, 1992

Palavras de Teresa Dias:

Estou encantada com os poemas da "quinzena do amor".
Aqui lhe mando a minha escolha. Um pequenino mas belo poema da ENORME Sophia,


Obrigada, amiga.




Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu a 6 de novembro 1919 no Porto, onde passou a infância. Em 1939-1940 estudou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa. Publicou os primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia. Foi mãe de cinco filhos, para quem começou a escrever contos infantis. Além da literatura infantil, Sophia escreveu também contos, artigos, ensaios e teatro. Traduziu Eurípedes, Shakespeare, Claudel, Dante e, para o francês, alguns poetas portugueses. Ler mais aqui


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Quinzena do Amor



terça-feira, 7 de novembro de 2023

A Paz sem Vencedores e sem Vencidos





Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andresen, 
        (1919-2004)


"A poesia de 'Sophia de Mello Breyner Andresen é (…) uma das vozes mais nobres da poesia portuguesa do nosso tempo. Entendamos, por sob a música dos seus versos, um apelo generoso, uma comunhão humana, um calor de vida, uma franqueza rude no amor, um clamor irredutível de liberdade – aos quais, como o poeta ensina, devemos erguer-nos sem compromissos nem vacilações." (Jorge de Sena, "Alguns Poetas de 1938" in Colóquio: Revista de Artes e Letras, nº 1, Janeiro de 1959)








De regresso.
Tenham boa semana, amigos.
Abraços
Olinda

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Poema: citador

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Para ti criarei um dia puro


Escuta a linguagem da vida na sua profundeza e em
cada uma sentirás na diferença, a sua beleza.






Terror de te Amar


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.


Que nenhuma estrela queime o teu perfil

Que nenhum deus se lembre do teu nome

Que nem o vento passe onde tu passas.


Para ti eu criarei um dia puro

Livre como o vento e repetido

Como o florir das ondas ordenadas.


in “Obra Poética”


***



O mundo, um sítio frágil, 

"Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa"
 
Urgente a criação de um 
Dia Puro




Mariza
Melhor de Mim




Nota: O título do post foi retirado de um dos versos do Poema.



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Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. O seu corpo está no Panteão Nacional desde 2014 e tem uma biblioteca com o seu nome em Loulé. aqui

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen

Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.


in No Tempo Dividido, 1954






Façamos de conta que este poema é uma carta de amor, obedecendo ao tema proposto. Penso reconhecer-lhe juras e propósitos afins. 

Não resisto e transcrevo mais este poema:

Assim o amor
Espantando meu olhar com teus cabelos
Espantando meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilavam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa


in Geografia, 1967





Sobre a autora, Sophia de Mello Breyner Andresen, li hoje a notícia de que está a circular por aí um poema apócrifo, de nome O Mar dos meus olhos. Não o transcrevo para não aumentar a proliferação, se for o caso. Consta que a filha tem procurado desfazer o equivoco, mas é uma luta desigual.


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Poema transcritos - daqui (BN)
Imagem daqui
Video youtube
Notícia aqui

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Eu queria ser Poeta



Para fazer um mar de Poesia

E comparar tua beleza 

com a natureza

Nem mar nem lua cheia

nem sol brilhante 

nem noite serena

se comparam 

à formosura 

do teu corpo
...


Paulino Vieira diz-nos isto, e muito mais, 
nesta linda Morna. 
Desejo-vos um ANO NOVO,
pleno de esperança.



BOM ANO DE 2021

Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Meus amigos, como vêem, os que já aqui estiveram, acrescentei um belo Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, autora que todos nós admiramos.

Muito grata pela companhia e belos comentários, aqui, no Xaile de Seda.

Abraços.


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Imagem: daqui

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

AQUI






Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Sophia de Mello Breyner Andresen, 
in 'Dia do Mar'



Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. Ler mais






Boa sexta-feira, meus amigos.
Abraços
Olinda



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Poema - citador
Veja esta autora, aqui, no Xaile de Seda

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O hábito e o prazer da leitura desde pequenos

A dois deste mês comemorou-se o Dia do Livro Infantil. A Majo lembrou esse dia com livros infantis de Sophia de Mello Breyner Andresen e eu, num comentário, disse-lhe que ao arrumar a minha estante tinha encontrado alguns que costumava ler à minha filha o que me fez saudades desses tempos. Na verdade, os contos infantis não têm idade, comprazemo-nos nessas leituras e a cumplicidade criada com os nossos filhos não se esquece.

Vem isto a propósito de um artigo que li na revista Maxi, da semana passada, que conta a história de uma avó que lia para a neta em pequenina. Com seis anos ela e a avó divertiam-se a escrever un petit livret com base nas histórias que a menina inventava nos seus passeios ao jardim ou ao campo. Com a idade de 10 anos, resolveram escrever um livro de aventuras, de 190 páginas, tendo como protagonista um coelhinho, o qual tomou o título de "Les aventures de Rouki". Agora a menina pensa continuar a escrever e a avó sente-se feliz por lhe ter transmitido esse gosto pela leitura levando-a a construir histórias. 

Transcrevo uma passagem do artigo:

Or, une étude a démontré que les enfants à qui on avait lu des histoires pendant leurs cinq premières anneés avaient un avantage majeur dans l'acquisition de la langue.*
En effet, cela permet d'acquérir très jeune un vocabulaire riche et donne aux enfants moyens d'apprendre plus facilement à lire. De plus, entendre de belles histoires développe l'imagination.


Ontem, nas minhas visitas a alguns blogs que frequento, li um post do Horas Extraordinárias, intitulado, Obrigado a ler, em que nos dá conta de que, em França, uma escola adoptou uma medida extraordinária para combater os baixos índices de leitura:

Excerto:

Depois do toque do fim do recreio da hora de almoço, exactamente às 13h25, estejam em que lugar estiverem dentro da escola, todos têm de pegar num livro e ler durante um quarto de hora (e atenção: até podem já estar sentados na sala de aula!). E não são apenas os alunos que têm esta obrigação, mas todo o pessoal da escola, incluindo auxiliares e professores. A escolha do livro é à vontade do freguês: aconselha-se o aluno a continuar o livro que já começou, mas não há restrições a temas, géneros ou autores, e isso torna o momento especial, porque é leitura obrigatória sem livro obrigatório.

E a autora conclui:

Muitos deles passaram então a comprar mais livros e ir à biblioteca com mais regularidade. Não seria de aplicar isto por cá?


Recuando um pouco no tempo, também li por estes dias na Revista LER, de finais de 2017 princípios de 2018, um texto, cujo excerto abaixo transcrevo, relacionado com a leitura nas escolas secundárias. Continuamos em França.

O prémio Goncourt des Lycéens (...) é um prémio literário organizado em França por uma cadeia de livrarias e pelo Ministério da Educação, criado em 1988 pelo liceu de Rennes e com o selo da Academia de Goncourt. O que significa que, desde essa data, cerca de 18 mil estudantes do secundário, entre os 15 e os 18 anos, apoiados por uma associação de professores (...) leram (e votaram) 220 livros (já agora, isso corresponde a cerca de 40 mil exemplares distribuídos pelas escolas e efetivamente lidos).

Segue-se a indicação dos laureados e o autor termina com duas perguntas:

Portanto, eu perguntava-me: quantos livros leem os jovens nas escolas secundárias portuguesas por ano? Quantos livros leem os professores de Português por ano? FJV

Exemplos a seguir? Talvez, se bem que adaptados às necessidades do ensino e a alguma reforma curricular, não esquecendo os clássicos, os nossos e os da cultura greco-latina que nos serve de modelo e, já agora, autores de outras latitudes que nos enriquecem.

Mas, aqui para nós, tenho reparado que nem sempre os nossos rebentos seguem pela vida exultando-se na presença de um livro. Por vezes, colocamos alguma pressão, querendo impor os nossos gostos o que faz com que achemos que eles não lêem o que deveriam ler. Eu já aprendi a relativizar e a aceitar que cada um lê de conformidade com os seus interesses e que todas as leituras são leituras. Esquisito isto? É a vida! :)


===

*l'étude - Université de Stavanger en Norvège, octobre 2015 
dans Maxi - Nº 1692 du 1er au 7 avril 2019 ( Article pg.34 "Tout le monde aime des histoires - Comment partager votre passion avec les enfants?")

Revista LER ( inverno 2017-2018)- Carta do editor - pg 3

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Olhem, o sangue deles é exactamente da mesma cor!

Mas o negro sacudiu a cabeça e recuou um passo. Vendo-o retrair-se o português, para voltar a estabelecer a confiança, começou a cantar e a dançar. O outro, com grandes saltos, cantos e risos, seguiu o seu exemplo. Em frente um do outro bailaram algum tempo. Mas no ardor do baile e da mímica Pero Dias, ergueu no ar a sua espada, que faiscou ao sol. O brilho assustou o nativo, que deu um pulo para trás e estremeceu. Pero fez um gesto para o sossegar. Mas o outro começou a fugir, e o navegador precipitou-se no seu encalce e agarrou-o por um braço. Vendo-se preso, o negro principiou a debater-se, primeiro com susto, depois com fúria. Com gritos roucos e sílabas guturais respondia às palavras e aos gestos que o tentavam apaziguar. Ao longe, no mar, os companheiros de Pero Dias avistaram a luta e principiaram a remar para a praia.

O negro viu-os aproximarem-se, julgou-se cercado e perdido e apontou a sua lança. Pero Dias com a espada tentou aparar o golpe mas ambos caíram trespassados. Os portugueses saltaram do batel e correram para os corpos estendidos. Do peito do negro e do branco corriam dois fios de sangue.

Olhem - disse um moço -, o sangue deles é exactamente da mesma cor.

De bordo veio o capitão com mais gente e todos durante uma hora choraram o triste combate. *

SOPHIA, também contista, autora de livros infantis...



Mãe, de que cor é o sangue deles? - perguntou-me a pequenina, curiosa nos seus quatro aninhos, apontando para dois jovens negros, entregues à conversa, no seu idioma natal. Estávamos completamente comprimidas na parte da frente do autocarro, de tão cheio, e, para a proteger dos apertos das pessoas que iam entrando tinha-a colocado na parte destinada aos volumes, que estava livre (não sei se os autocarros, actualmente, ainda têm essa parte). Procurando não elevar a voz respondi-lhe: É como o de toda a gente. Ela, para ter a certeza: Vermelho?

Dela herdei  "O Cavaleiro da Dinamarca", cuja leitura lhe fora indicada na escola. Hoje** peguei nele e abri-o precisamente na página que acabo de transcrever, donde sobressai a importância dos usos e costumes para cada um de nós, do nosso espaço vital, da realidade nossa e a do outro, independentemente do nosso aspecto exterior. Também relevante o facto de que nem tudo poderá ser percebido correctamente se não dominarmos a mesma língua ou linguagem e, mesmo tendo essa raiz, o que dizemos poderá não chegar ao nosso interlocutor com a clareza desejada.

Daí que, seja em que contexto for, a palavra bem falada, bem escrita, bem explicada, bem transmitida, é fundamental. Há que distinguir dessa abordagem clean a linguagem poética, a qual convoca universos diferentes dos do nosso quotidiano. E ainda que nos transmita realidades com as quais nos identificamos, ela encontra-se num nível em que são permitidas figuras de estilo e estas poderão conduzir-nos a uma interpretação mais de conformidade com as nossas próprias vivências.

E os gestos? Temos um ditado que diz: O gesto é tudo! Mas nem sempre. Vimos a sua trágica insuficiência bem representada no texto acima...

Por outro lado, há o gesto em sentido figurado, estilizado, o de boa vontade, o de boa-fé, que poderá desimpedir um mundo imenso de desconfianças e mal-entendidos, tanto socialmente como no complicado mundo da política, sem esquecer a diplomacia. Um bom diplomata pode evitar uma guerra. Importância nem sempre conhecida ou reconhecida.


Voltaremos aos gestos e a outras línguas e linguagens, 
numa dinâmica surpreendente, 
mas que são do conhecimento de todos nós. 
Brevemente. 






Eugénio Tavares, Sãozinha Fonseca, 
a Ilha da Brava



Boa quinta-feira, meus amigos.

Abraço

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** Há três dias.
*Excerto:
Sophia de Mello Breyner Andresen
in: O Cavaleiro da Dinamarca - páginas 55/56

Obra incluída no Plano Nacional de Leitura
Sinopse
No regresso de uma longa peregrinação à Palestina, o Cavaleiro tem apenas um desejo: voltar a casa a tempo de celebrar o Natal com a sua família. Nessa viagem, maravilha-se com as cidades de Veneza e Florença, e ouve histórias espantosas sobre pintores, poetas e navegadores. São muitas as dificuldades com que se depara, mas uma força inabalável parece ajudá-lo a passar essa noite tão especial com aqueles que mais ama…


Leia, em texto integral:
O cavaleiro da Dinamarca - aqui