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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura

Comecei a tentar escrever com 12 anos. Depois aos 14 escrevi mais e a partir daí fui sempre escrevendo. Aí entre os 16 e os 23 escrevi mais do que em todo o resto da minha vida. Tenho imensa coisa por publicar dessa época. Sophia




Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.


Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

In Poesia, 1944

=====

JCV Os poemas mais antigos são...De quando tinha para aí 14 anos. Logo do princípio.

JVC Os primeiros versos incluídos na «Poesia» escreveu-os apenas com 14 anos!?
Sim, alguns, só dois ou três. Às vezes eram poemas muito mais compridos e que eu cortava, cortava, até ficarem três ou quatro versos. Mesmo no «Dia do Mar» há um poema que era muito longo e que ficou reduzido a dois versos. Chama-se «Evohé Bakhos».

MAP Há dois dos seus primeiros poemas intitulados, um, «Homens à beira-mar», outro, «Mulheres à beira-mar». As mulheres «têm o corpo feliz de ser tão seu» e «a boca colada ao horizonte». Os homens «nada trazem consigo» e os horizontes são-lhes longínquos e o seu corpo «é só um nó de frio»...Esses poemas têm a ver com as manhãs da Granja, com as manhãs da praia. E também com um quadro de Picasso. Há um quadro de Picasso chamado «Mulheres à beira-mar». Ninguém dirá que a pintura do Picasso e a poesia de Lorca tenham tido uma enorme influência na minha poesia, sobretudo na época do Coral... E uma das influências do Picasso em mim foi levar-me a deslocar as imagens. Quanto ao mais, eu penso que há uma diferença entre o homem e a mulher, e os feminismos não podem... Para mim o machismo não é considerar que há uma diferença entre o homem e a mulher, o machismo é tentar fazer um negócio dessa diferença...


                      1919-2004


Excertos de entrevistas:
Aqui: Biblioteca Nacional

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Não sei rezar. Nunca gostei de repetir fórmulas...Às vezes, ao tentar dormir, digo coisas a Deus.


A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por já não ser minha

Último poema de Ilhas, 1989








JO Se tivesse a força para mudar qualquer coisa, o que mudaria?
A diferença entre ricos e pobres

JO De que tem medo nesta vida?
Tenho medo de viver ainda muitos anos. Viver pode ser muito agradável até aos 60, 65 anos. Depois, começa a ser complicado.

JO Já disse que estar feliz é fundamental para escrever bem. Tem uma obra muito extensa, isto significa que foi muito feliz?
Talvez. Hoje escrevo pouco, falta-me aquela felicidade que eu tinha. A relação com a natureza, com o mar, com a terra.

JO O que gostaria de ver realizado em Portugal neste novo século?
Gostaria que se realizasse a justiça social, a diminuição das diferenças entre ricos e pobres. Mais justiça para os pobres e menos ambições para os ricos. O resto é-me indiferente.

JO O que considera mais importante na sua vida?
Foi importantíssimo o nascimentos dos meus filhos.

...Nunca consegui escrever quando estava a sofrer ou com qualquer dor. Fluía melhor quando me encontrava feliz.


Sophia de Mello Breyner Andresen
           1919-2004


Excerto de entrevista: Joaci Oliveira
Aqui:Biblioteca Nacional de Portugal

Ver também Ciclo Sophia, aqui ao lado,
nas etiquetas.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

-Pedra rio vento casa// Pranto dia canto alento// Espaço raiz e água// Ó minha pátria e meu centro

Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras... 
* Sophia






Pátria

Por um país de pedra e vento duro 
Por um país de luz perfeita e clara 
Pelo negro da terra e pelo branco do muro 

Pelos rostos de silêncio e de paciência 
Que a miséria longamente desenhou 
Rente aos ossos com toda a exactidão 
Dum longo relatório irrecusável 

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento 

E pela limpidez das tão amadas 
Palavras sempre ditas com paixão 
Pela cor e pelo peso das palavras 
Pelo concreto silêncio limpo das palavras 
Donde se erguem as coisas nomeadas 
Pela nudez das palavras deslumbradas 

- Pedra  rio  vento  casa 
Pranto  dia  canto  alento 
Espaço  raiz  e água 
Ó minha pátria** e meu centro 

Me dói a lua me soluça o mar 
E o exílio se inscreve em pleno tempo 


In Livro VI-III-As Grades

Sophia de Mello Breyner Andresen
            (1919-2004)

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Uma leitura de Grades - Helena Conceição Langrouva


...Grades, de Sophia de Mello Breyner Andresen, uma breve antologia publicada em 1971 (1) , numa fase de pleno esgotamento do povo Português, em Portugal e na guerra colonial de África. Sophia exprime, sobretudo, o tempo de opressão, agonia, morte, alienação, renúncia e exílio, as formas de injustiça, a marginalidade, a sua busca de Justiça e de Verdade. Alguns poemas exprimem também a tomada de consciência da crise da sociedade contemporânea em geral...ler mais   


*Citação-aqui
** Em 'Uma leitura de Grades-Helena Conceição Langrouva', este verso apresenta-se assim: Ó meu país e meu centro.

Ver Análise Obra Poética da autora
Imagem - Internet



sábado, 11 de janeiro de 2014

Navegavam sem o mapa que faziam

A única vez que uma viagem de avião me deu a sensação de navegação foi quando fui a Macau. No avião uma pessoa é empacotada de um lado para o outro. Mas nessa viagem muito comprida eu lembro-me de, depois de passarmos o deserto e vermos aqueles poços de petróleo a arder, descermos na Arábia com imenso calor,-especialmente para mim que vinha de Londres...-de repente ter a sensação de "navegação".
E escrevi as Navegações por causa disso e um pouco porque quando eu ia no avião e ouvi aquelas vozes celestiais que há nos aviões dizerem: "Estamos a sobrevoar a costa do Vietname". E eu fui para o andar de cima (o avião tinha dois andares), espreitei e estava uma manhã radiosa: era a entrada na Ásia! Um céu azul com umas nuvens que depois aparecem no poema como as "garças", eram nuvens esgarçadas. Via-se a costa do Vietname, uma costa de verdura espessa com uma longa praia a bordar a verdura, e depois no mar havia três ilhas de coral azul. O azul das ilhas, quase roxo, depois a laguna azul mais claro, depois o azul do mar e o azul do céu; tinha-se a impressão de que as ilhas eram os olhos azuis do mar. Era uma beleza inacreditável e eu pensei "O que terá sido chegar aqui desprevenido?"- quer dizer dobrar um cabo, e não se sabe se do outro lado está um abismo, um deserto ou uma ilha paradisíaca. *Sophia








                     VI

Navegavam sem o mapa que faziam
(Atrás deixando conluios e conversas)

Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o calor de um sol inabitável

Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula a bússola tacteava espaços

Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente

In: Navegações,1983

Sophia de Mello Breyner Andresen
           (1919-2004)

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*Sophia -Citação aqui
Ver Análise Obra Poética da autora
Imagem - Internet

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Não quero possuir ou dominar porque quero ser: esta é a necessidade






Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
 
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.


Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. 


Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida. 

                                                                                                                                            Inédito sem data

A Casa

A casa que eu amei foi destroçada
A morte caminha no sossego do jardim
A vida sussurrada na folhagem
Subitamente quebrou-se não é minha

In Dual - 1972


Sophia de Mello Breyner Andresen
           (1919-2004)

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Recolha textos: aqui
Ver Análise Obra Poética da autora
Imagem: Internet

sábado, 4 de janeiro de 2014

Quando à noite desfolho e trinco as rosas és tu a Primavera que eu esperava

Sabe, se quer que lhe diga, do eu que me lembro bem, e para mim o que é importante, é os sítios onde eu escrevi. Há um poema que diz «Quando à noite desfolho e trinco as rosas». Isto é absolutamente verdade: eu ia para o jardim da minha avó colher rosas, a minha avó já tinha morrido e era um jardim semi-abandonado, colhia camélias no Inverno e rosas na Primavera. Trazia imensas rosas para casa, havia sempre uma grande jarra cheia delas em frente da janela, no meu quarto. E depois eu desfolhava e comia as rosas, mastigava-as... No fundo era a tentativa de captar alguma coisa a que só posso chamar a alegria do universo, qualquer coisa que floresce. * Sophia






AS ROSAS

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes
Todo o fulgor das tardes luminosas

O vento bailador das Primaveras
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas

Quando à noite desfolho e trinco as rosas

És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
És tu a Primavera que eu esperava


Sophia de Melo Breyner Andresen
          1919-2004

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Precioso contributo da M.

Sophia de Mello Breyner era, de facto, uma mulher inspirada e inspiradora! E tinha um cenário inspirador também, penso que hoje esse jardim é o Jardim Botânico do Porto.

A Casa dos Andresen 

"...A verdura das árvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava...

Jardim Perdido
Sophia de Mello Breyner Andresen"

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Leiam, meus amigos, tudo sobre o Jardim Botânico do Porto, aqui

Muito Obrigada, M.

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*Sophia - Citação aqui
Ver Análise Obra Poética da autora
Imagem:internet

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Cidade dos outros




Uma terrível atroz imensa
Desonestidade
Cobre a cidade


Há um murmúrio de combinações
Uma telegrafia
Sem gestos sem sinais sem fios


O mal procura o mal e ambos se entendem
Compram e vendem


E com um sabor a coisa morta
A cidade dos outros
Bate à nossa porta


Sophia de Mello Breyner Andresen
          1919-2004


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Comecei a escrever numa noite de Primavera, uma incrível noite de vento leste e Junho. Nela o fervor do universo transbordava e eu não podia reter, cercar, conter - nem podia conter-me em noite, fundir-me na noite (...) Sophia
Citação aqui

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Poema - Banco de Poesia Fernando Pessoa

Ver Análise Obra Poética da autora
Imagem: Sophia fotografada por Fernando Lemos,
anos 50.