Começo com esta pergunta colocada por Mia Couto, sobre a questão dos mitos e dos heróis:
Que nação no mundo não mitificou pelo menos uma parte da sua História? As nações precisam destas grandes mentiras. E, aqui, é quase cruel: cada vez que se gera um herói em Moçambique, ele está muito próximo de quem o criou. Um herói não pode ter essa proximidade.*
Isto para dizer que é preciso haver distanciamento para que os factos históricos sejam analisados, comparados, e lhes seja dado o cunho científico que se pretende nesta disciplina, muito embora ciência humana. E assim, a criação de mitos. Tratando-se de ferramentas importantes para determinada visão do mundo pátrio, é um elo que se quer forte na construção da identidade nacional.
E é na procura dessa identidade que Moçambique tem envidado esforços no sentido de marcar a sua moçambicanidade, focando a diversidade da sua cultura que se espraia nas muitas línguas nacionais e na sua relação com a língua portuguesa, cabendo aos intelectuais a maior parte dessa tarefa, com a utilização de uma língua que não é a sua, mas o veículo necessário para a transmissão das suas ideias.
Continuando com o tema proposto no titulo, depois de Ualalapi/As Mulheres do Imperador, de Ungulani Ba Ka Khosa, Mia Couto brinda-nos com uma trilogia sobre Ngungunyane, Gungunhana para os portugueses, (o último dos imperadores que governou toda a metade sul de Moçambique), quanto à sua acção, o seu tempo e son entourage: As areias do Imperador.**
Nela, o autor prefere seguir um caminho diverso, uma estrada epistolar a par da oralidade (forma de transmissão dos ancestrais) afastando-se um pouco do conceito de romance histórico tradicional para se situar no campo de uma recriação quase poética ou recreação ficcional e também tendo em conta o maravilhoso, sem descurar, obviamente, os dados históricos em si.
Mia Couto considera-se um poeta, e a partir desse dado constrói a trama dos seus livros, assinalando que a sua história não será menos verdadeira que as histórias oficiais tanto de Portugal como de Moçambique, sobre o assunto. Realmente, em toda a História do Homem, para cada momento há histórias e realidades que se sobrepõem. Uma visão unívoca pecará por insuficiente, creio eu.
No caso desta trilogia, a acção se passa entre dois territórios: o dos documentos escritos e o da oralidade, como referi acima. Dois personagens contam a história: Um deles é o sargento Germano de Melo. Mia Couto coloca-o num posto no meio do nada e pô-lo a contactar os seus superiores através de cartas, nas quais lhes dá conta das dificuldades, da falta de recursos e em especial da falta de homens. É logo na primeira carta que diz isto, ele que participara na revolta de 31 de Janeiro e estava em Moçambique na condição de deportado:
...os nossos domínios, que tão pomposamente chamamos de "Terras da Coroa", encontram-se votados ao desgoverno e à imoralidade. Na maior parte desses territórios nunca nos fizemos realmente presentes durante séculos. E nas terras onde marcámos presença foi ainda mais grave, pois quase sempre nos fizemos representar por degredados e criminosos. Não existe, entre os nossos oficiais, nenhuma crença de que sejamos capazes de derrotar Gungunhane e o seu Estado de Gaza.***
Falta de homens e de recursos. E mais ainda: falta de organização dificultando a boa gestão dos poucos meios. Eis um dado histórico perfeitamente comprovado em todas as ex-colónias, um império demasiado vasto para um tão pequeno país. Esta acção decorre no último quartel do Século XIX, relativamente pouco tempo após a Conferência de Berlim de 1884/85 que retalha África e obriga os intervenientes a uma ocupação efectiva dos territórios. Então, um Ah! de espanto se evola dos nossos lábios perante as campanhas de pacificação e quejandos!
Imani, menina de quinze anos, é o personagem que contará o outro lado da história, ela que pertence à tribo dos VaChopi uma das poucas que ousou opor-se à invasão de Ngungunyane. Tornar-se-à intérprete de Germano de Melo e apesar das diferenças entre os seus mundos há um envolvimento entre os dois que aumenta com o tempo, como se verá. A última carta do sargento, no primeiro volume, datada de 26 de Agosto de 1895, é escrita por Imani, que entretanto aprendeu a ler, porque segundo o próprio ficou sem mãos: ambas voaram como asas de anjo, rasgadas por uma bala desfechada à queima roupa. Assim também as cartas que se seguirão.
Termino esta exposição que já vai longa, transcrevendo ainda um pequeno texto que inicia o livro Um:
A estrada é uma espada. A sua lâmina rasga o corpo da terra. Não tarda que a nossa nação seja um emaranhado de cicatrizes, um mapa feito de tantos golpes que nos orgulharemos mais das feridas que o intacto corpo que ainda conseguirmos salvar.
=====




