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sábado, 9 de maio de 2020

Europa - o rapto ou o repto?

A bela Europa era filha do rei da Fenícia, Agenor. Foi raptada por Zeus que se disfarçou de touro para que sua ciumenta mulher, Hera, não percebesse. Ele levou Europa para a ilha de Creta, o que levou Cadmo, seu irmão, a procurá-la e, na jornada, fundar a cidade de Tebas. Em Creta, Europa teve três filhos: Minos, Radamanto e Sarpedão.



Mitologias à parte, há referências pré-históricas da sua existência desde os primeiros humanos. Os relatos mais antigos colocam o Homo sapiens no continente em 35000 anos a.C. Mas muito antes já andavam por cá o Homo erectus e o Neanderthalis. Por aqui se vê que a sua evolução até aos dias de hoje é de monta. 

Tenho especial predilecção académica pela Formação da Europa Medieval, depois da Queda do Império romano, por aquela condição de dependência de homem a homem, escravidão quase. Por aquela divisão de trabalhos e de classe - nobreza, clero, povo. Claro que não se pode falar de classe, nessa altura. E povo? Também não. Só depois da Revolução Francesa se poderá empregar tal palavra com propriedade.

Da Europa Medieval, de mil anos, ao Renascimento um salto qualitativo.


Europa, desenhada pelo cartógrafo antuérpio Abraham Ortelius em 1595


Tanto caminho percorrido, não? Penso que é onde se poderá ir buscar os fundamentos da Europa de hoje, com todas as alterações de mentalidade, com a novidade do Renascimento que coloca no homem a medida de todas as coisas, tendo como pilar a recuperação da cultura clássica, que em muito devemos à preocupação árabe de a trazer para a Peninsula, transcrevendo-a e comentando-a. Um exemplo, Averróis, (Córdova), "O Comentador". 

Toda a produção de pensamento do período que ficou conhecido como Iluminismo, é onde vamos sempre beber ideias. E na própria asserção de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, tão boa para citar, de que a Europa tanto se orgulha. 

Voltando um pouco atrás, o século XVII também me atrai. É donde sai toda aquela gente de alta estirpe nas areas filosófica e científica. E desembocará no século XVIII, como bem sabemos, e no século XIX com revoluções políticas de renome e com todas as invenções que vêm alterar para sempre a nossa vida.

Trazemos no nosso íntimo a perturbar-nos as duas grandes guerras, do século XX. A segunda guerra mundial mais perto de nós. Da devastação da Europa surgiriam homens com visão e dinamismo. Jean Monet, um dos da ideia, posta em prática, da União Europeia. Marshall e Shuman e muitos outros, com planos económicos e solidários que deram os seus frutos. Durante mais de 70 anos, exceptuando-se a Guerra Fria,(EUA vs. URSS) viveu-se, de um modo geral, em paz e desenvolvimento social e económico, com altos e baixos como é natural.




Hoje, aqui estamos. Dia da Europa, diz-se. Repetindo-se as mesmas palavras gastas. Ansiando-se por um golpe de asa de algum ser iluminado. Mas não há. O tempo dos heróis passou. Somos só nós. A Europa não será raptada indo reafirmar-se num outro lado. Agora só temos um repto que lançamos a nós próprios. É agir ou soçobrar.


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Orquestra Geração- Hino da Alegria
A Orquestra Geração é um projeto de intervenção social através da prática orquestral. Foi criada em 2007 na Escola Básica Miguel Torga no Casal de S. Brás na Amadora e encontra-se actualmente instalada em 22 escolas básicas e secundárias nos municípios de Almada, Amadora, Lisboa, Loures, Oeiras, Sesimbra, Vila Franca de Xira (Orquestra de Vialonga) e em Coimbra.
Imagens: Net
excerto transcrito em itálico - aqui

Leia no Xaile alguns posts sobre a União Europeia

domingo, 21 de junho de 2015

Europa, ó mundo a criar!




Europa, ó sonho por vir
enquanto à terra não desçam
as vozes que já moldaram
tua figura ideal,
Europa, sonho incriado,
até ao dia em que desça
teu espírito sobre as águas!

Europa sem misérias arrastando seus andrajos,
virás um dia? virá o dia
em que renasças purificada?
Serás um dia o lar comum dos que nasceram
no teu solo devastado?
Saberás renascer, Fénix, das cinzas
do teu corpo dividido?

Europa, tu virás só quando entre as nações
o ódio não tiver a última palavra,
ao ódio não guiar a mão avara,
à mão não der alento o cavo som de enterro
— e do rebanho morto, enfim, à luz do dia,

o homem que sonhaste, Europa, seja vida!

        1908-1972


Este é um excerto de "Europa", poema que poderá ler, na íntegra, aqui. Escrito no contexto da 2ª guerra mundial, o texto mostra o desespero do autor perante os acontecimentos de então. Lembra-nos quão frágil é, muitas vezes, o equilíbrio entre as nações e que uma pequena faísca poderá atear um grande incêndio.

Hoje vivemos tempos diferentes. Temos uma União com 28 Estados-membros, sendo que 19 desses países constituem a zona euro. É a União Europeia, fruto de um sonho de homens de boa vontade com o fito de promover a paz e a solidariedade. Não nos desviemos desse caminho. Que a questão da Grécia sirva para cimentar esse desejo e sejamos dignos do sonho europeu.

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Imagem:daqui

sábado, 25 de julho de 2026

Sem fim à vista?

 



Tenho, algumas vezes, abordado o tema Europa neste Xaile de Seda, com algum romantismo, focando as acções levadas a efeito no pós-guerra, dando forma às ideias Jean Monet, com a criação da União Europeia que, nas suas palavras, seria antes de mais uma união de homens de boa vontade e não de estados.

À medida que o tempo vai passando a decepção se instalou, de modo que vou assinalando as suas fragilidades e pusilanimidade das suas decisões ou falta delas. No tempo da Troika, por exemplo, dos ajustamentos tendo como alvo os salários dos mais pequenos, sem um golpe de asa que mostrasse que havia quem nos pudesse proteger da tirania dos mercados.

Acabávamos de sair de uma pandemia eis que surge a guerra da Ucrânia, o que nos veio fragilizar ainda mais, à vista de toda a tragédia dos nacionais que fugiam, que procuravam protecção em outros países, sem meios, com as crianças nos braços e os mais velhos, trôpegos, por essa Europa fora.

Outros conflitos nos batem à porta, com o sofrimento de crianças, doentes, velhos, em Gaza, e agora no Médio Oriente, guerras insanas em que a via diplomática parece letra morta, com interesses económicos instalados e outras intenções que nem sabemos muito bem atingir. 

A Europa, a velha Europa, fraca, parece assistir de camarote a toda essa movimentação e desmandos dos senhores da guerra, ainda que alguns países tenham fincado o pé ao pedido de apoio dos EUA, no âmbito da Nato, em relação ao Estreito de Ormuz.

Em tempos de crise, como foi na pandemia, verificou-se que por cá não se produzia uma simples aspirina, luvas, aparelhos para suporte de vida e, nós, espantados com tudo isso. Cheguei a fazer um post sobre essa situação bizarra, desejando que se passasse a pensar em produções regionais para não se chegar a situações como essa.

Enfim, todos sabemos o que se passa.

De um poema de Adolfo Casais Monteiro, extensíssimo, que publiquei em tempos, extraio esta passagem:

"Europa sem misérias arrastando seus andrajos,
virás um dia? virá o dia
em que renasças purificada?
Serás um dia o lar comum dos que nasceram
no teu solo devastado?
Saberás renascer, Fénix, das cinzas
em que arda enfim, falsa grandeza,
a glória que teus povos se sonharam
— cada um para si te querendo toda?
..."

Ainda tenho a esperança de que, do segredo dos gabinetes, saiam ideias brilhantes que nos ajudem a suprir com denodo a tanta miséria e que possamos um dia responder com coragem às exigências destes tempos que parecem regressar à idade das trevas, embora não me refira à Idade Média que foi uma época injustamente tratada como tal. Teve os seus Pensadores, ainda que num ambiente religioso.



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Chão Nosso
Trovante



Bom fim de semana, amigos.
Abraços
Olinda

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Europa, aqui, no Xaile de Seda

sábado, 9 de maio de 2026

Quem é que cuida da mãe?

Carolina Deslandes fez uma canção para o Dia da Mãe. Ainda não tem título. Aceitam-se sugestões.

Ora, oiçam:



 Se atentarmos nas palavras veremos que grandes verdades são ditas nesta canção, na voz maviosa da autora. O mistério da maternidade na sua imensa magnitude. Quem que é que cuida da mãe depois da parto, do aleitamento, das noites mal dormidas, de toda a infância com as quedas, as birras, as idas ao medico. 

E há uma outra circunstância: é que a mãe quase nunca aparece nas fotos, pois é ela que guarda os momentos para a posteridade.

E hoje é Dia da Europa, a velha Europa, fraca e pusilânime na sua postura a precisar de homens e mulheres com acções felizes, funcionais e operacionais, de modo a despachar umas quantas ideias feitas e a recuperar a sua antiga glória. Não aquela glória de explorações, de escravatura de má memória, mas aquela que Jean Monet preconizou e que chegou a concretizar-se. 

Temos vinte e sete estados-membros a compôr a União Europeia, é hora de fazerem alguma coisa no sentido de cuidarem desta mãe que já deu mostras de cuidar de todos.

Oiçamos de novo as belas palavras e a música de Carolina Deslandes.

Cuidemos de todos sem excepção e tenhamos a esperança de que num dia qualquer, de um ano qualquer possamos festejar com pompa e circunstância, com foguetes e alegria este Dia da Europa.

Bom fim-de-semana, amigos.

Abraços
Olinda


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Europa, aqui, no Xaile de Seda

quinta-feira, 14 de julho de 2022

A Sul. O Sombreiro

O rei começou a criar cobiça suplementar. Tinha ouro, prata, cobre, vindos das Índias e das Américas. Muitas outras riquezas. Mas queria mais. Insaciável. Como se pudesse engolir os metais e os diamantes e os rubis e as esmeraldas. Uma fome desesperada se apossara da Europa e a Espanha, ingerido Portugal, era a encruzilhada de todos os caminhos brilhantes da riqueza. No meio da encruzilhada estava ele, o trono de Filipe, de ouro e marfim sobre pernas de ébano, refulgindo com diamantes e esmeraldas. Junto ao chão, nas pernas, estava o ébano. Esse até chicote merecia, por ter cor de carvão, e grilhetas nos pés.

Todos os reis se pareciam, este não seria pois indiferente às miragens agitadas à frente dos cornos, como aos toiros o pano vermelho. Cerveira Pereira soube brandir muito bem o cobre, o marfim e os escravos de Benguela para o tourear. E o rei ficou fascinado por esse homem de aspecto ascético, magro e sempre de negro, uma barba afilada já com cãs e voz de flauta sonhando e fazendo sonhar com paraísos desconhecidos, cursos de água torrenciais, levando não só lama mas também brilhantes, florestas maiores e muito mais altas que as da Península Ibérica de árvores de madeira preciosa cheirando a sândalo alfazema manjerico canela e todos os perfumes inventados pelo homem madeiras dignas dos móveis mais magnificentes e das esculturas de fino talhe e climas benignos todo o ano em que não eram necessárias roupas e só por pudor cristão as usavam e a terra tão nutrida que semente aí caída germinava mais depressa e alcançava produções nunca vistas e o mar oh o que dizer do mar onde abundavam peixes do tamanho de baleias mas saborosíssimos mansos de apanhar quase pedindo licença para serem pescados e logo assados que morriam de prazer de ser devorados pelos novos deuses vindos da desgastada Europa sem falar nas pessoas estúpidas ignorantes ingénuas se deixando kanzar com a maior facilidade e incapazes de combater dóceis crianças competentes no entanto de trabalhar em todas as tarefas pesadas sem se queixarem sem se rebelarem aceitando de boa mente o destino que os padres lhes indicavam como sendo o da salvação.

O espanto é o rei, farto de discursos semelhantes, ter acreditado nele e na flauta da sua música.

Sempre há reis incautos.

Em 1612 estava tomada a decisão de enviar Manuel Cerveira Pereira conquistar o território ao sul do Kuanza, explorar o cobre, sem esquecer o melhor produto, o escravo.

Pepetela, in: A Sul. O Sombreiro - pgs 164/165

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Pepetela surpreendeu-me com este livro. Muito diferente de "Yaka" de que apresentei aqui excertos, parafraseando-os. E de outros que já li. É que neste romance histórico ele vai buscar assunto a fontes escritas, adoptando o raciocínio dos personagens, a forma como se movimentam, como lêem o ambiente do seu tempo. 

E para mais aparecem individualidades reais, como Manuel Cerveira Pereira, que fazem por sobreviver, manejando o poder, manipulando para alcançar os seus objectivos. Ouvimos falar de Luanda, do reino de Benguela que urge conquistar, dos jagas, dos reis, dos sobas, dos enviados do Reino, dos conquistadores, dos jesuitas, dos franciscanos, com papéis muito importantes nesse palco onde se desenrola a implantação de Portugal bem como interesses de outros países da Europa. E onde tudo é permitido.

Com poucos recursos e poucos homens. Estamos no século XVII, no tempo dos Filipes. O fito é trazer o que houver, para aumentar o pecúlio dos que governam, desfiando cordelinhos e intrigas.


Pepetela (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos) nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Frequentou o Ensino Superior em Lisboa mas acabou por licenciar-se em Sociologia, em Argel, durante o exílio. Iniciou a sua atividade literária e política na Casa dos Estudantes do Império. Como membro do MPLA, participou ativamente na governação de Angola, após o 25 de Abril.
A partir de 1984, foi professor na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, e tem sido dirigente de associações culturais, com destaque para a União de Escritores Angolanos e a Associação Cultural Recreativa Chá de Caxinde.
A atribuição do Prémio Camões (1997) confirmou o seu lugar de destaque na literatura lusófona. aqui



Tenham um dia bom, meus amigos.

Abraços

Olinda

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Kanzar - a partir do kimbundu ku-kanza= saquear

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Terramoto de 1755 - 270 anos

 Em 1755, Lisboa seria a quarta maior cidade da Europa e a sua escala era acompanhada por uma ostentação ímpar. Os viajantes costumavam elencar o cortejo das raridades: a Igreja Patriarcal, com a sua legião de músicos e cantores, as joias da Igreja de S. Roque, o faiscar dos diamantes encrustados em toalhas, cortinas e paramentos, as alfaias forjadas em metais preciosos. No Paço da Ribeira - habitação do rei - havia tapeçarias da Flandres, tetos pintados por mestres italianos, porcelanas chinesas e uma biblioteca vastíssima. (...)

 As famílias enriquecidas pelo comércio imperial compravam artigos de luxo às melhores lojas da Europa, relógios e baixelas de prata, bordados e porcelanas, não esquecendo a roupa das mulheres ricas, vestidas à francesa, com os seus caríssimos xailes e luvas de tecido oriental. 

 Era sobretudo o ouro do Brasil, chegado a Lisboa, o que permitia comprar os distintos casacos, as meias de seda e as cabeleiras de fabrico francês, os ricos móveis do Oriente, e o que permitia alimentar festas e sumptuosos fogos-de-artifício, para além dos monumentos majestosos, como a famosa e gigantesca Ópera, onde havia camarotes luxuosos e até uma porta para introduzir cavalos no palco. (...)

André Canhoto Costa, Recordar 1755, pgs 40,41 



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 Faltavam apenas dois meses para o ano seguinte. Mas, como diz o ditado, o homem põe e Deus dispõe. O terramoto viria abalar irremediavelmente o status quo em vigor. Acontecera o impensável, o que abalaria a Europa nos seus fundamentos societais e, inclusivamente, no aspecto das crenças das pessoas que viram nisso o castigo de Deus.

 O autor, neste seu livro, começa por falar da Lisboa antiga com todos os seus privilégios que viria a ser destruída, literalmente, pelo abalo sísmico de 1755. Uma obra que toca nos pontos nevrálgicos do Império e que traz muitos Code QR para nos informar sobre os documentos a que faz referência.

 O homem que se distinguiu nesse trágico acontecimento, como sabemos, foi o Marquês de Pombal e Conde de Oeiras, Sebastião Jose de Carvalho e Melo, Secretário de Estado do Reino, de 1750 a 1777, durante o reinado de D José.  Além da sua acção no terramoto de 1755, com a consequente reconstrução da cidade de Lisboa, protagonizou o processo dos Távoras e a expulsão dos Jesuítas de Portugal e colónias. 

Representante do despotismo esclarecido em Portugal, que defendia a exaltação do Estado e o poder do soberano, incorporada por ideias iluministas, várias foram as reformas administrativas, sociais e económicas que levou a efeito. Entre elas assinala-se a criação da Real Mesa Censória em 1768, com o objetivo de transferir, na totalidade, para o Estado a fiscalização das obras que se pretendessem publicar ou divulgar no Reino, o que até então estava a cargo do Tribunal do Santo Ofício aqui

 Na sequência do terramoto, vemos intelectuais da época analisar e opinar sobre o que acontecera como, por exemplo, M. de Voltaire, de seu nome, François-Marie Arouet. Ele produz, sobre o assunto, um extenso poema. 

Eis um excerto:

"Ó infelizes mortais! Ó terra lastimável!

Ai da horrível comunhão de todos os mortais!
Exercício eterno que inúteis dores mantém!
Filósofos iludidos que gritam: “tudo está bem”,
Vinde depressa e contemplai as horrendas ruínas
Esses destroços, esses farrapos, essas cinzas desgraçadas,
Essas mulheres e crianças, umas amontoadas sobre as outras;

..."

 Na gestão desta calamidade, foi atribuída ao Marquês de Pombal esta frase: Enterrar os mortos e cuidar dos vivos. Contudo, a mesma terá sido da autoria de Pedro de Almeida, 1º Marquês de Alorna.

Voltarei com mais um apontamento. 

Abraços, meus amigos

Olinda


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Recordar 1755 - De André Canhoto Costa, 1ª edição Outubro de 2025

imagem: net

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Lá vai o português

Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa. 

Lá vai o português, lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos. No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma podia ele ter depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu com muita honra. E nisso não é como o coral que faz pé-firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo, que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. (De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda).

 Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História. 

Chega-se a perguntar: está vivo? É claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado. 

Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar. 

É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos. Assim, como? 

José Cardoso Pires, E agora, José? Moraes Editores, 1977




Texto saboroso de José Cardoso Pires, que traça o retrato do português ajoujado sob o peso de oito séculos de História. Lembra-me, nas devidas proporções, Bocage que ri de si próprio na descrição bem-humorada da sua pessoa, em "Magro, de olhos azuis, carão moreno".

Hoje, 5 de Maio, comemora-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa, instituído pela CPLP em 2009, corroborado pela UNESCO em 2019.

A CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, terá perdido algum do seu prestígio, a meu ver, pelo facto de ter acedido à integração da Guiné Equatorial por motivos políticos, sabendo nós que esse país não preenchia os requisitos exigidos. Confesso que lavrava em mim a noção romântica dos oito unidos pelo idioma. Desde essa altura minguou-se a minha admiração por essa entidade.
 
De referir que o Brasil já tinha criado o Dia Nacional da Língua Portuguesa a partir do decreto de lei nº 11.310, de 12 de junho de 2006, estipulando a celebração para o dia 5 de novembro. 

Um pouco à sorte fui à procura de algum hino à ou da CPLP. 
E não é que encontrei?! 

Intitula-se "A Lusófona"
Ei-lo:



Luanda é a Capital da Cultura da CPLP, em 2022.


Boa quinta-feira meus amigos.

Abraços
Olinda


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Os países da CPLP: Angola, Brasil, Cabo Verde,Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste

Veja:
Textos jornalísticos
25 de Abril- Uma aventura para a democracia - aqui

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Ser livre

Saída de uma guerra que a deixara de rastos, a hora era de recuperação, de juntar os cacos e projectar presente e futuro. E conseguiu-o em todas as áreas permitindo assim uma era de paz. 
Em 1948 publicou a Declaração Universal dos Direitos do Homem, cujos princípios se basearam na Revolução Americana, 1776, e na Revolução Francesa, 1789, tendo o homem como a medida de todas as coisas e tendo, também, em vista a sua Felicidade. Na verdade, a base de tudo residia no ideário iluminista, uma revolução do pensamento em que se envolveram homens de todas as vertentes científicas e culturais.
Esta é a Europa que se impôs pela sua larga visão no pós-guerra, que procurou não deixar pontas soltas idealizando para isso uma Europa unida, de livre trânsito e de interesses comuns. Em que altura deste percurso é que as coisas falharam? Ficámo-nos apenas pelo idealismo descurando o lado pragmático? 
Hoje, comemora-se o Dia Mundial da Liberdade. Que seja um pretexto para uma reflexão e tomada de decisões conducentes à sua e nossa libertação das amarras que nos prendem neste turbilhão em que ninguém se entende.




Música extraída da 9ª Sinfonia de Ludwig Van Beethoven, 
composta em 1823


sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

A União Europeia, o Brexit e nós...

Vinte e três horas, hora de Greenwich, também hora nossa, e meia-noite em Bruxelas. É quando o Reino Unido sai da União Europeia. Um parto muito difícil que nós, cidadãos europeus, acompanhámos perplexos perante a ausência de visão, de diálogo, de tacto. Como não estar prevista a saída de um membro de uma associação de forma lisa e escorreita? Tratar-se-ia de uma prisão? Depois desta saída é bom que legisladores e quem de direito se debrucem sobre a necessidade de se criarem estruturas de modo a permitir que os estados-membros que queiram sair saiam sem tanto stress.

E agora? Estarão acautelados os interesses dos cidadãos imigrantes que se encontram no Reino Unido e de cidadãos seus nos restantes 27 países da União? É bom que tenham pensado em tudo, pois más consequências por incúria já cansam.

Tivemos aqui no Xaile de Seda momentos de empolgamento em relação à União Europeia, instituída em 1993, pelo Tratado de Maastricht, indo buscar as suas origens ao pós-guerra, na luz que surgia da boa vontade de homens que pretendiam reconstruir a Europa. Começa com a criação, em 1951, da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, e da Comunidade Económica Europeia, 1957, que reúnem à volta dos mesmos interesses a chamada Europa dos seis, Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos. A partir de então sempre a crescer em tratados, em instituições, em legislação, em adesões.

Depois o marasmo, na minha óptica. Na altura da crise económica, na acção da Troika, uma certa pusilanimidade. Se não existiu de facto essa fraqueza, o certo é que nos sentimos órfãos e desprotegidos perante a omnipotência dos mercados e decisões políticas draconianas.

Mas não quero alongar-me com este tema. Muitas análises, presumivelmente especializadas, estarão a ser feitas ou hão-de ser feitas.

Neste espaço, apenas quero registar o momento.

E esperar pelo que aí vem.


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Alguns posts aqui no Xaile
mais este e este e este, talvez


segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Sorte ou Benção?



Na "XIII Interação Fraterna", promovida pela amiga Rosélia, em celebração do 13º Aniversário do seu Blogue Espiritual-Idade, foi-nos proposto, pela autora, o "Tema: Sorte ou Benção?", no sentido de o tratarmos segundo o estilo que cada um cultiva no respectivo espaço.

O blogue foi criado na altura do falecimento do seu querido pai, há treze anos. E no Dia dos Pais, no Brasil, homenageou-o com um belo poema do qual extraio os seguintes versos:

Meu pai amado se foi no tempo,
é atemporal em meu coração...

Tem ainda cheiro de humildade no ar
quando se fala dele
ou se pensa nele...


Devo dizer que aceitei com muito prazer o Convite e a minha participação se consubstancia no texto que se encontra abaixo, no qual assinalo momentos da minha vida pessoal. 

Um acontecimento aflitivo que, segundo creio, se insere no referido tema:



O imprevisível, o imponderável ... o susto

Tarde calma, uma revista sobre os joelhos ... em conversa com a irmã.

Lá longe notícias arrepiantes da guerra e da fome, na Europa, no Médio Oriente, em África, nas Américas, coisas que nos assombram. No Mediterrâneo, pessoas em fuga que tentam alcançar o El Dorado, a Europa, a nova terra prometida. 

E em nossos corações sentimos a dor das gentes que procuram encontrar paz e melhores condições de vida. Na medida do possível tenta-se ajudar, com palavras de ânimo, com bens materiais. Mas essa compaixão, na maior parte das vezes, não sai do conforto do sofá. Sabemos que existe sofrimento atroz lá fora. E compadecemo-nos. 

Contudo, isso vai entrando aos poucos na ordem do dia. Os nossos ouvidos habituam-se aos ruídos das notícias, ao palavreado de certos comentadores. E a habituação, esse mal silencioso, instala-se...

...

De repente, toca o telefone. Um grito desgarrado vindo das profundezas do ser desestabiliza tudo, abalando as estruturas das convicções e do deixa andar:

-MÃE!!!

Vai lá a casa com o pai. Os armários da cozinha desabaram da parede, a todo o comprimento. 

-E o bebé?!!!

-Não sei, não sei. Vai depressa...

O mundo desabou naquele momento. O espanto, a dor da perda, do imprevisível, do imponderável, numa amálgama. Num instante vê-se tudo de pernas para o ar. E a visão horrível do acidente, perante os olhos.

Numa correria, sem fôlego, subo os dois andares, o pai do pequenino à nossa espera, e ele sentado na cadeirinha com os olhos muito abertos...Tinham estado na cozinha a preparar o lanche momentos antes. E a família em choque, não refeita do susto do que podia ter acontecido. 

Pelo chão jazia o monstro que deixava entrever louças partidas, vidros espalhados, micro-ondas retorcido, e tudo o que se possa imaginar, enfim, bens materiais, nada importante. 

O bem mais precioso estava são e salvo!

Foi há seis dias.



SORTE OU BÊNÇÃO?

Um MILAGRE, sem dúvida!

 



Querida Amiga Rosélia

Os meus Parabéns pelo 13º Aniversário do seu Blogue Espiritual-IdadeQue continue a oferecer-nos as suas belas palavras em verso e em prosa.

Beijinhos
Olinda



RESSONÂNCIAS DA XIII INTERAÇÃO FRATERNA

OBRIGADA, ROSÉLIA


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Imagem - pixabay

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

JANGADA

Tive uma colega que me falava sempre de quanto o pai apreciava José Saramago.Tanto que ele tinha todos os seus livros. As pessoas da família e amigos também contribuíam para isso pois presenteavam-no com livros do escritor em dia de aniversário e outras datas. No entanto, nessa altura, nunca tive a curiosidade de o ler. 

Quando, em 1998, Saramago ganhou o prémio Nobel de Literatura entrei em pânico, e agora como é que eu faço tenho de ler alguma coisa dele, que barraca se tiver que dizer alguma coisa sobre ele...Então, levada por essa necessidade li o primeiro que encontrei: Levantado do chão. Logo nas primeiras páginas senti o impacte daquela escrita: compacta e onde a pontuação não abundava. Mas aos poucos fui ficando envolvida de tal modo que acabei por ler o livro em dois tempos. E assim li alguns outros de uma assentada sempre com o mesmo interesse. Um desses livros é a Jangada de Pedra que me impressionou pela sua originalidade, pelo inusitado da situação, a fina ironia, os acontecimentos estranhos que se multiplicavam, a península ibérica a cortar-se da Europa, navegando à deriva...  

Esta alegoria produzida numa altura em que Saramago pretendia questionar a unificação da Europa faz-nos pensar nas bases pouco firmes em que essa união assenta, denunciadas agora pela crise económica que nos fustiga. Aliada a isso, a crise de valores que põe a nu toda essa fragilidade, apelando à urgente revisão dos acordos que suportam a vida de 27 países, com a clara predominância dos mais fortes economicamente.    

domingo, 9 de maio de 2021

A Língua Portuguesa - um idioma trajado de arco-íris

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) estabeleceu, em 2009, o dia 5 de Maio como sendo o dia da Língua Portuguesa, reconhecido pela UNESCO, para ser falada, lida, escrita, homenageada, em suma. Que me tenha apercebido, não me parece que a data tenha sido assinalada, por cá, com a grandeza merecida.

O Brasil já antes designara, desde 2006, o dia 5 de Novembro para celebração desta nossa Língua comum. E mais, tem um Museu da Língua Portuguesa* o primeiro museu totalmente dedicado a um idioma. Celebra a língua como elemento fundador e fundamental da cultura de todos os países que adotam um idioma de forma oficial. Neste caso, experiências interativas, conteúdo audiovisual e ambientação conduzem os visitantes a um “mergulho” na história da língua portuguesa.


Museu da Língua Portuguesa - São Paulo

E que história! Língua sumamente viajada e quando regressa vem trajada de doces requebros e mágicas significações. Por África andou tempo suficiente para que depois nascesse uma disciplina nomeada Literaturas Africanas de Língua Portuguesa que engloba, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, isto é, os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa - os PALOP. 

Pelo Xaile de Seda têm passado nomes de grandes vultos africanos que honram a Língua Portuguesa, que escrevem em prosa e em verso, contribuindo para o seu enriquecimento. De tantos e tão excelentes autores e estudiosos, quem trarei para ilustrar agora esta minha publicação? Muitos deles, mas ainda poucos, fazem parte dos cadilhos deste Xaile. 

Vejamos, então... 

Pois, poderia falar um pouco de Inocência Mata, mulher africana, de São Tomé e Príncipe, investigadora, autora de várias obras, definindo-se ela própria como fruto de várias culturas e, precisamente, Professora na Faculdade de Letras de Lisboa da disciplina que refiro acima: Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.


Maquêquê - São Tomé e Principe

E não só. Vejamos um pouco do seu currículo:

Inocência Mata Doutora em Letras pela Universidade de Lisboa e pós-doutora em Estudos Pós-coloniais pela Universidade de Califórnia, Berkeley; é professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, na área de Literaturas, Artes e Culturas, e investigadora do Centro de Estudos Comparatistas (CEC). Foi, de 2014 a 2018, professora na Universidade de Macau, onde exerceu com uma licença especial do Reitor da ULisboa, tendo sido vice-diretora do Departamento de Português da Universidade de Macau, coordenadora do Programa de doutoramento, PhD in Literary and Intercultural Studies (Portuguese), e diretora do Centro de Investigação de Estudos Luso-Asiáticos (CIELA). 
Mais aqui 






Hoje festeja-se uma data importante - O Dia da Europa. 
Além disso, neste ano assinala-se o 36º aniversário da assinatura do Tratado de Adesão de Portugal ao projecto europeu, o qual entraria em vigor a 01 de Janeiro de 1986.

E porque o tema desta publicação é sobre a Língua Portuguesa, penso ser de referir o lugar que o nosso idioma ocupa no mundo: 

É uma das línguas oficiais da União Europeia, do Mercosul, da União de Nações Sul-Americanas, da Organização dos Estados Americanos, da União Africana e dos Países Lusófonos. Com aproximadamente 280 milhões de falantes, o português é a 5.ª língua mais falada no mundo, a 3.ª mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul do planeta. aqui

Uma língua continua viva se for falada, escrita, amada e bem tratada.
Façamos por isso.


Bom fim de semana, meus amigos.

Abraços


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*Fechado desde 2015 após incêndio de grandes proporções, a sua reabertura está prevista para a segunda metade deste ano de 2021.

Inocência Mata, especialista em Literatura da Lusofonia - aqui

Encontrará aqui e aqui, no Xaile de Seda, alguns posts sobre a "Lingua Portuguesa" e "Europa"

quinta-feira, 3 de março de 2022

Ucrânia - um pouco da sua história


KIEV

A Resistência de um Povo

A história política depende dos acontecimentos e das suas circunstâncias. O momento de guerra na Europa que vivemos deve ser visto a essa luz. Longe de se saber qual o desenlace, temos de compreender a essência da situação. Ao falarmos da Ucrânia estamos perante um caso especialmente difícil, longe do que quer a narrativa de Putin, porque a história envolve, como habitualmente, um conjunto vasto de razões. Kiev está na origem da civilização russa. Segundo a tradição, no século VI, aí se reuniram 13 tribos eslavas orientais voluntariosas e determinadas, que fizeram prosperar a região do Dniepre. 

Se o primeiro Estado russo nasceu em Novgorod, quando o príncipe Riurik, um normando, não eslavo, foi convidado a assumir o poder, foi o seu irmão Oleg que transferiu para Kiev a capital da Rus. Iniciaram-se então as relações com Bizâncio e geraram-se as raízes dos povos russo, ucraniano e bielorrusso. Kiev tornou-se o coração da Santa Rússia, herdeira da segunda Roma (Constantinopla). 

Contudo, no ocidente da Ucrânia, em Lviv, cidade fundada pelo grão-duque da Ruténia, em 1256, encontramos, de certo modo, uma outra história. A cidade passou sucessivamente da soberania polaca, em 1340, para a austríaca em 1772, integrando o Império Austro-Húngaro. Depois, a cidade foi polaca, em 1919, no fim da Grande Guerra, e tornou-se ucraniana em 1939. Em 1945, nas partilhas territoriais do fim da Segunda Guerra, a região foi integrada na República Soviética da Ucrânia, que viria a ser fundadora das Nações Unidas, ao lado da URSS e da Bielorrússia. A soberania de Direito da Ucrânia é assim inequívoca e antiga. A libertação de 1991 e tudo o que se seguiu merecem especial atenção, no âmbito da aplicação da Carta das Nações Unidas.

 A Ucrânia é um Estado soberano, com raízes históricas complexas e claras, a partir de influências que se completam - eslava e europeia central. Kiev é uma das cidades mais antigas da Europa e uma referência matricial da rica cultura eslava. Fundada no século V é um centro da economia e da cultura. E o cristianismo ortodoxo, de bases profundas, teve Kiev como matriz. A própria língua ucraniana tem raízes próprias, próximas da língua russa, do servo-croata e do polaco.

 A palavra ukraina significa zona fronteiriça, onde o domínio cossaco se distinguia dos principados eslavos do norte e oeste e das hordas turcas do sul. Em 1240, a cidade foi ocupada e destruída pelo Império Tártaro-Mongol, na conquista iniciada por Gengis Khan. Kiev perdeu influência, mas manteve autonomia, no âmbito do Canato da Horda do Ouro. Em 1321, a cidade seria conquistada pelo grão-duque da Lituânia, passando ao domínio polaco-lituano até ao final do século XVII, quando Kiev passou para a esfera do Império Russo, tornando-se o mais importante centro cristão ortodoxo, antes da transição para Moscovo. 

Nos séculos XVIII e XIX a vida da cidade foi dominada pelas autoridades militares e eclesiásticas, em 1834 foi criada a Universidade de S. Vladimir e em 1846 constituiu-se a proibida Irmandade de S. Cirilo e S. Metódio, defensora de uma federação eslava de povos livres, animada por Nikolay Kostomarov. Kiev foi a terceira cidade do império, importante centro de comércio, beneficiando do rio Dniepre. Deste modo, as lágrimas e a vontade de um povo resistente reforçam a história, a herança e a memória de um dos fundamentos da civilização europeia, que a cegueira bárbara de um ditador será incapaz de destruir.

Guilherme de Oliveira Martins

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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Transcrevo este texto de 01/03, da autoria de Guilherme de Oliveira Martins, mais para informação minha do que para a vossa, pois deverão já conhecer a realidade histórica da Ucrânia. Nestes dias em que o centro de gravidade ali se situa, termos consciência disso parece-me importante.

Abraços
Olinda

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Texto: daqui
imagem: wiki

segunda-feira, 9 de maio de 2011

EUROPA


Mais do que coligar Estados, importa unir os homens, frase de Jean Monet um dos obreiros da integração europeia, integração pensada ainda no rescaldo da II guerra mundial e visando o aspecto económico, cultural e educativo. É assim que, passo a passo, vão surgindo as ferramentas necessárias para a concretização deste ideal de cooperação, primeiro pela criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, seguida pela Comunidade Económica Europeia fundada pelo Tratado de Roma, em 1957, sucessivamente alterado e adaptado. Ao mesmo tempo aumenta o número de membros e também a sua designação inicial, que cristaliza em União Europeia, pelo Tratado de Maastricht em 1992, com personalidade jurídica a partir do Tratado de Lisboa, em 2007. Sabemos como a evolução se tem feito, tanto no que diz respeito à legislação comunitária, e subsequente transposição interna, como nas decisões  de cada país no que toca à sua economia, culminando com aquilo que mais directamente nos afecta como cidadãos: a unificação da moeda. Presentemente, trata-se de uma União Europeia com um alargamento a 27 membros, um tanto periclitante e titubeante sem saber bem que rumo seguir, talvez com um deficit pronunciado em termos de ideias e ideais
No que se refere a Portugal, depois dos QCA* (I,II,III...) e do crédito externo recorrente que lhe tem dado a sensação de viver num El Dorado, importa acordar e encarar as suas responsabilidades.

E fica a pergunta:Que Europa queremos?  




*QCA - Quadro Comunitário de Apoio
Se interessar, vide:Portal da União Europeia
aqui, link no lado direito deste blog.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Impõe-se um novo conceito de Mare Nostrum

Espaço privilegiado de contactos culturais, intensas relações comerciais e de confrontos políticos, desde a antiguidade, o mar mediterrâneo vira florescer e desaparecer diversas civilizações. Vários foram os povos que habitaram e habitam as suas margens.

A queda de Constantinopla, em 1453, que ditara o início da idade moderna para a Europa, também dera azo, por outro lado, ao encerramento do lado oriental desse mar à penetração europeia, pelos otomanos. (Oportunidade para os portugueses ousarem o Atlântico em busca do caminho marítimo para a Índia).

Muitas veredas foram percorridas a partir dessa altura. Com a gradual decadência do império otomano a Europa e os Estados Unidos ganharam influência sobre a região na sequência das duas grandes guerras, da guerra fria, da criação da Nato, sem contar com os conflitos israelo-árabes. Parece, assim, afirmar-se o nome que lhe foi dado pelo romanos, Mare Nostrum, e nem sempre pelos melhores motivos.



Hoje, mais do que nunca, impõe-se que recuperemos esse conceito ou arranjemos um novo, que o aperfeiçoemos e adoptemos medidas de ajuda aos refugiados que tentam alcançar terra firme, em fuga pela vida e que acabam por morrer afogados à vista daquilo que eles consideram o eldorado, perseguidos pela fome, pelos horrores da guerra e por tudo o que no dia a dia lhes faz a vida insuportável.

O que fazer? Um trabalho aturado no terreno, procurando prevenir o que é imprevisível, inverosímil, e que acaba por nos dar a sensação de que nos ultrapassa a todos?Alargar o estatuto de refugiado político, abrangendo todos os que procuram protecção nessas circunstâncias?  Não há dúvida que o assunto terá de ser discutido por quem de direito, pelas instituições internacionais que têm poder de intervenção diplomática, de modo a minimizar o sofrimento desses povos martirizados.

E não esquecer que a Itália faz parte da União Europeia. Não é justo que esteja sozinha a braços com uma situação desta magnitude. É tempo desta entidade, a UE, assumir a sua responsabilidade neste contexto de tragédia humanitária. Mas, quem sabe se não accionou já as ferramentas necessárias nesse sentido. Esperemos que sim.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Quase Memórias: Esta é a minha Verdade!

Hoje mais do que nunca o trabalho do historiador se mostra exigente. Com a sua capacidade de lançar olhares de conjunto, privilegiando o todo para o decompor em partes, é nessa tarefa que se deverá concentrar. Qualquer que seja o género de História que pretenda desenvolver, regional ou geral, é sua obrigação deixar portas abertas, pistas que outros possam seguir no sentido de se tentar compreender e completar ciclos que parecem isolados mas que na realidade se interpenetram.


Isto para dizer que todos os dados, todas as memórias, todos os documentos são imprescindíveis como material de análise histórica. Esta obra de António de Almeida SantosQuase Memórias, é um instrumento importante, aliado a tantos outros, para se compreender uma época que continua a causar-nos perplexidade.

Trata-se de um trabalho minucioso baseado na documentação produzida em todo o processo de independência das ex-colónias, conversações, tratados e também na sua visão pessoal, introduzindo a sua própria interpretação, as suas vivências e experiências.

    

"Longa como as estradas da Galileia foi esta digressão pelo estertor do colonialismo e pelo dossier da descolonização. A partir de agora, este livro deixa de ser meu. Não faço a menor ideia de como possa ser acolhido pela opinião pública portuguesa. Talvez agrade a alguns. Desagradará necessariamente a muitos, tão amargas são algumas das recordações que evoca. Mas, quem se põe a remexer na história, não pode satisfazer-se só com uma parte dela. Não pode deixar de tentar ser exaustivo, objectivo e verdadeiro. Esta é a minha verdade sobre o estertor do colonialismo e sobre o dossier da descolonização; sobre os mais salientes acidentes do processo revolucionário posterior a Abril que lhe determinaram o tempo, o modo e o resultado final. Deixo ligados a tudo isso inolvidáveis momentos da minha vida. Nem todos agradáveis. Apesar disso, foi reconfortante recordá-los."


Esta é a mensagem impressa na contra-capa da referida obra, composta de dois volumes, editada em Setembro de 2006. Normalmente, escrevo a lápis a data em que adquiro os livros e neste consta 2006/10/27, o que demonstra o meu interesse por esta matéria. É um livro que não se consegue ler de uma assentada. É para ser lido com tempo e, assim sendo, levei o meu tempo a fazê-lo. O 1º Volume traz o subtítulo: Do Colonialismo e da Descolonização. E o 2º : Da Descolonização de cada Território em Particular.

Estamos, de novo, a atravessar tempos que exigem de nós reflexão e grande sentido de responsabilidade. Isso, tanto no que diz respeito aos problemas nacionais como em relação a Europa, espaço onde nos encontramos inseridos. E, não há dúvida, esta Europa necessita urgentemente de ser repensada, regressando ao momento em que foi idealizada e reavaliando os seus objectivos.

Quanto ao panorama nacional, passa-se uma situação bastante interessante. No que se refere às eleições europeias de há três dias, os resultados por cá, no chão nacional, estão completamente obliterados. Já não se sabe bem quem as ganhou e quem as perdeu... Já não se sabe se houve uma vitória histórica... ou uma derrota histórica. E na liça temos mais um lidador. Que os mais altos interesses da pátria se alevantem.   


Nota: Por motivos vários, só hoje me foi possível fazer este post referente a esta obra de Almeida Santos, prometido há já um mêsAs duas imagens são do 1º e 2º volumes. 

NOTA EM 19/01/2016: 
NA DATA DA MORTE DE ALMEIDA SANTOS, FAÇO A REEDIÇÃO DESTE TEXTO QUE PRODUZI E PUBLIQUEI EM 28 DE MAIO DE 2014.