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quinta-feira, 4 de março de 2021

Luz di prata

 

B.Léza

Intérprete - Titina

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Um raio di lua, entrâ divagarinho Na quarto di nha cretchêu Na sê rostinho, el poisâ tudo mansinho Feliz el dâ'l beijo tchêu Essa luz di prata Spalhâ sereno Na rosto moreno Di nha mulata Lua sorrî pá mô nha cretchêu Sima um anjo di céu El ficâ ta dormi Dja'm sintî ciúme di lua, dja'm sinti Cond el beijâ nha Oriuntina Oriuntina di meu, só di meu Feliz el dâ'l beijo tchêu!

(Oriuntina/B.Léza)


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Nota: Leia mais sobre B.Léza, aqui, no Xaile de Seda

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

A Portuguesa Língua

Já é por demais sabido: adoro estas palavras que António Ferreira, poeta, dramaturgo, Sec. XVI, dirigira ao amigo Pêro d'Andrade Caminha e elas fazem-se presentes aqui no Xaile de Seda sempre que sinto a necessidade de relembrar o legado que nos foi confiado:

Floreça, fale, cante, ouça-se e viva
A Portuguesa língua, e já onde for
Senhora vá de si soberba, e altiva.
Se téqui esteve baixa e sem louvor,
Culpa é dos que a mal exercitaram:
Esquecimento nosso, e desamor.

Mas tu farás, que os que a mal julgaram,

E inda as estranhas línguas mais desejam,
Confessem cedo ant'ela quanto erraram.
E os que depois de nós vierem, vejam
Quanto se trabalhou por seu proveito,
Porque eles para os outros assi seja.

António Ferreira



Hoje, o motivo é outro, que é o de registar o reconhecimento da importância do nosso idioma, como desejava o grande António Ferreira, agora a nível mundial.

Pois bem, acordei com a bela notícia de que a UNESCO aprovou o dia 5 de Maio como Dia Internacional da LÍNGUA PORTUGUESA, dia que já tinha sido instituído pela CPLP, a 20 de Julho de 2009, e mais:

“É a primeira vez que a UNESCO toma uma decisão destas em relação a uma língua que não é uma das línguas oficiais da UNESCO. Por unanimidade, as pessoas reverem-se na ideia de que é importante um dia mundial da língua portuguesa é muito importante”, afirmou António Sampaio da Nóvoa em declarações à agência Lusa. aqui

Mas lembremo-nos de um dado muito importante: o Brasil já comemora o Dia da Língua Portuguesa desde 2006, Dia 5 de Novembro, assim:

No Brasil, o Dia Nacional da Língua Portuguesa foi criado a partir do decreto de lei nº 11.310, de 12 de junho de 2006, estipulando a celebração para o dia 5 de novembro.

A escolha desta data é uma homenagem ao escritor e político brasileiro Ruy Barbosa, que nasceu em 5 de novembro de 1849, e é considerado um grande estudioso da língua portuguesa.



E agora, tempo para ouvir MARIZA e TITO PARIS

Beijo de Saudade
(Título original)
"Onda Sagrada di Tejo"
Morna de B.Léza

E também VITORINO, 
seduzido pela toada desta Morna 


NOTA:

"ONDA SAGRADA DI TEJO" - Morna de B. Léza , Francisco Xavier da Cruz.

A mesma Morna, duas versões:

1- Mariza canta-a, com Tito Paris, dando-lhe um toque de Fado e mudando-lhe o título para "Beijo de Saudade".
Segundo Carlos Saura, está tudo ligado. Veja SOLTE-SE A VOZ, aqui, no Xaile.

2- VITORINO com uma interpretação mais próxima do original. O título, de "Onda Sagrada di Tejo", passa para "Ondas Sagradas do Tejo".

Mas, ouso ainda acrescentar a interpretação de TITINA, talvez a que B. Léza teria gostado de ouvir, ou ouviu, e mais coincidente com a versão original.


E que eu prefiro.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

PENSAMENTO - B.LÉZA




MORNA

PATRIMÓNIO IMATERIAL DA HUMANIDADE

UNESCO

2019-12-11

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Francisco Xavier da Cruz (B.Leza ou Beléza) foi um músico de Cabo Verde.

Natural do Mindelo, B.Leza inovou a morna ao utilizar frequentemente os acordes de passagem, (chamados de meio-tom brasileiro na gíria dos músicos cabo-verdianos), antes pouco usados nesse género musical.

O seu estilo e a sua obra, que começaram a ter sucesso na década de 1950, marcaram a música de Cabo Verde nos vinte anos seguintes. Compôs dezenas de mornas, entre as quais se destacam Eclipse, Miss Perfumado, Resposta de Segredo Cu Mar e Lua Nha Testemunha, que, diz a lenda, foi composta no leito do hospital, dias antes da sua morte a 14 de Junho de 1958.
Diz também a lenda que muitas pessoas iam ter com o mestre B.Leza para lhe pedir uma morna para a pessoa amada, para uma serenata ou para assinalar um acontecimento. Em questão de dias, B.Leza tinha a obra feita. Moacyr Rodrigues escreve que “influenciado pela música brasileira e argentina – B.Leza – vai enriquecer não só a música com a introdução do meio-tom mas também a letra pelo desenvolvimento de ideias”. aqui


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sexta-feira, 5 de julho de 2019

Guilherme de Almeida - o "Príncipe dos Poetas" - II

IDÍLIO SUAVE






Chegas. Vens tão ligeira
e és tão ansiosamente esperada, que enfim,
nem te sentindo o passo e já te tendo inteira,
completamente em mim,
quando, toda Watteau, silenciosa, apareces,
é como se não viesses.

Vens... E ficas tão perto
de mim, e tão diluída em minha solidão,
que eu me sinto sozinho e acho imenso e deserto
e vazio o salão...
E, sem te ouvir nem ver, arde-me em febre a face,
como se eu te esperasse!

Partes. Mas é tão pouco
o que de ti se vai que ainda te vejo o arfar
do seio, e o teu cabelo, e o teu vestido louco,
e a carícia do olhar,
e a tua boca em flor a dizer-me doidices,
como se não partisses!


      (1890-1969)


Foi o primeiro modernista a entrar para a Academia Brasileira de Letras (1930). Em 1958, foi coroado o quarto "Príncipe dos Poetas Brasileiros" (depois de BilacAlberto de Oliveira e Olegário Mariano). 
A essência de sua poesia é o ritmo “no sentir, no pensar, no dizer”. Dominou amplamente os processos rímicos, rítmicos e verbais, bem como o verso livre, explorando os recursos da língua, a onomatopeia, as assonâncias e aliterações. aqui

Ver:
Post I



Antoine Watteau


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Poema - daqui
Agradecimentos ao "Nothingandall..."
Imagem:Campinas: Paisagem Urbana 
daqui




Video: Morna "Saudades", de B.Léza (Francisco Xavier da Cruz)
 Intérprete: Maria da Luz Souza

sexta-feira, 29 de março de 2024

Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável, ó homens





E então subimos aquele grande rio

e as portas do Ródão, chamadas. Era em abril,

dois dias depois da neve

e da cidade dos nevões, na serra.

E olhámos para os penhascos da beira-rio,

as oliveiras, o xisto, a cevada

as ervas de termo e as colinas.

E, junto da via férrea, os homens do país

miravam-nos como se fôssemos nós

e não eles os mortos desta terra,

homens do medo e do tempo da discórdia

que trazem para o cimo das estradas

a malícia que vai apodrecendo

seus pés neste mundo e em terras de outrem.

Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável, ó homens,

perdidos que estais, hoje como ontem,

entre a casa e o limiar?

E evocámos, mais uma vez, esse provérbio sessouto.

E, na verdade, porque regressaremos,

após tantos anos, a este tema?

Será que a morte nos ensinou

a olhar para o homem com pavoroso êxtase?

JOÃO VÁRIO


Excerto de :
"Exemplo Relativo", 1968


***


Poeta denso e intenso, de difícil interpretação. Muito se tem falado dele mas não o suficiente porquanto é tido como pouco lido. Fala muito da morte, diz-se, e há quem diga que com razão. Quando pela primeira vez publiquei um excerto de um dos seus "exemplos", limitei-me a interrogá-lo, propondo percorrer o caminho por ele percorrido para o compreender. Mas para isso seria necessário ter o seu engenho e arte...


Ele é João Manuel Varela, de seu nome, mas também João Vário, Timóteo Tio Tiofe e Geuzim Té Didial. Foi um escritor, neurocientista, cientista e 
professor cabo-verdiano.

Estudou medicina nas universidades de Coimbra e de Lisboa e doutorou-se na universidade de Antuérpia, na Bélgica, onde foi investigador e professor de neuropatologia e neurobiologia. Ao jubilar-se, regressou à sua Mindelo natal.

Estreou-se com o livro “Horas sem carne” (1958), depois renegado. Participou em “Êxodo-fascículo de poesia” (Coimbra, 1961) e publicou “Exemplo geral” (1966) e “Exemplo relativo” (1968). Seguir-se-iam outros “exemplos” e a reunião na obra monumental “Exemplos- Livros 1-9” (2000).


***


TITINA




Noite de Mindelo - B.Léza




Bom fim-de-semana, meus amigos.
Abraços
Olinda



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João Vário, aqui, no Xaile de Seda

Leiam:

João Vário- Todo o homem é Babel aqui (a questão da heteronímia)

Antologia do Esquecimento - "Exemplos" - aqui

sábado, 22 de janeiro de 2022

Vai um cafezinho?





Ou um brunch. Já lá vamos... :)

Pouco tenho falado de Cesária Évora, grande intérprete cabo-verdiana. Quando canta o seu rosto quase que não mostra emoções. Talvez se veja nele a concentração do grande sentimento que a música e as palavras transmitem. Mas é na sua voz que se encontram todas as modulações, com uma simplicidade e intensidade que desarmam.

Hoje peço-lhe a sua companhia e a vossa para festejar o 11º aniversário do Xaile de Seda, blog criado sem pretensões, apenas com o intuito de nele inserir autores que admiro, com algumas palavras minhas de apreço, à mistura.

De quando em vez faço uma ou outra derivação e expresso opiniões sobre o que se passa na nossa sociedade. Ou do que vem de trás e que poderá influenciar-nos no presente. Mas não demasiadas. Muito se ouve e se lê por aí e nem sempre as pessoas têm tempo para se dedicarem a muitas leituras.

Com efeito, nunca se escreveu tanto ou se disse tanto. Penso que já expressei algures o meu espanto por tanto comentário na comunicação social, a tal ponto que, quando um ou outro assunto chega até nós estamos já completamente obliterados e sem capacidade para pensar ou optar. Os comentadores fazem as notícias, as fundamentações e as conclusões. E acabamos por, inconscientemente, aceitar aquele brouhaha todo...

O que acontece é que vêm aí as Eleições Legislativas. A nossa responsabilidade é enorme. Teremos de votar em consciência e escolher com quem vamos assinar o nosso pacto social.
Possamos nós separar o trigo do joio
Tudo dependerá das nossas escolhas.




LUA NHA TESTEMUNHA

Bô ka ta pensâ
Nha kretxeu
Nen bô ka t'imajinâ
O k'lonj di bó m ten sofridu

Preguntâ
Lua na séu
Lua nha kompanhêira
Di solidão

Lua vagabundo di ispasu
Ki ta konxê tud d'nha vida
Nha disventura
El ê k' ta konta-bu
Nha kretxeu
Tud k'um ten sofridu
Na ausênsia
Y na distânsia

Mundu, bô ten roladu ku mi
Num jogu di kabra-séga
Sempri ta persigi-m
Pa kada volta ki mundu da
El ta traze-m un dor
Pa m txiga más pa Déuz

Autoria: B.Léza (Francisco Xavier da Cruz), 
um dos melhores compositores cabo-verdianos. Veja aqui




Bom fim de semana, meus amigos.

Abraços
Olinda

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Crioulo cabo-verdiano grafado segundo o Alupec, ao que parece.
Imagens - Net

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Sinto o Amor florir




Visto-me floridamente...
Serei outra flor? Hein?
Ponho melhor perfume,
Ou absorvo o odor delas?

Visto-me com veste colorida...
Serei mais animada! Ah!
Ponho rosas no cabelo,
Ou sintonizo com a cor delas?

Visto-me brilhantemente...
Serei revestida de luz! Oh!
Ponho brilho no olhar,
Ou assimilo a claridade delas?

Roselia Bezerra



Poema airoso e belo. 
Sente-se no ar o perfume das flores e a luminosidade da Primavera.
 
Serei outra flor? 
Serei revestida de luz?
Ponho brilho no olhar,
Ou assimilo a claridade

Tudo isso, sim, amiga Rosélia e muito mais. De louvar a inspiração ao produzir este poema harmonioso, e o conjunto da publicação onde se encontra inserido, pleno de luz, com apelo ao amor em todos os quadrantes da vida, nos tempos difíceis que vivemos. 




MORNAS DO B.LÉZA - COMPOSITOR

-Bela Rapsódia-



-Pôr-do-Sol da Rosélia-


Boa semana a todos.


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Rosélia Bezerra 

sábado, 14 de dezembro de 2019

Residência





Guardas as estações do sol e as harpas.
Os perfumados símbolos da terra cantam
no primeiro verão do olhar.
As mãos levam-te a vasos de margaridas brancas,
sinuosos e claros oceanos.
Sentas-te à mesa da tribo e repartes o pão.
Um homem que ama nas sombras o fulgor e as essências,
nunca chega tarde aos degraus da alegria, dizes,
o cheiro do vento e do trigo entre os dedos.

Não podes morrer contra o sonho contando as lágrimas,
a face reflectida nos espelhos da alma.

Nunca partas dessa casa onde cresce agora
a voz das crianças, os templos da sua inocência,
as mais bravas e fragrantes ervas do amor.
Queres, eu sei, esse mar, a breve cama dos pombos
quando se abrigam nos rumores.

Não há maior orfandade que chegar à ternura
sem palavras.

Eduardo Bettencourt Pinto


Nasceu em Gabela, Sul de Angola, em 1954. Residiu temporariamente na Rodésia e viveu sete anos em Ponta Delgada, Açores, onde iniciou a sua actividade literária. Reside no Canadá desde 1983. Além de vários livros publicados nos géneros de poesia e ficção, tem colaboração dispersa por jornais e revistas da diáspora norte-americana e europeia.
Ler mais em Correntes d'Escrita - aqui


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LURA


Eclipse - B.Léza


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Poema in "um dia qualquer em junho", pg 31
Ed. Instituto Camões
Imagem - daqui

domingo, 21 de março de 2021

Quem somos?

O mar chama por nós, somos ilhéus!
Trazemos nas mãos sal e espuma
cantamos nas canoas
dançamos na bruma

somos pescadores-marinheiros
de marés vivas onde se escondeu
a nossa alma ignota
o nosso povo ilhéu

a nossa ilha balouça ao sabor das vagas
e traz a espraiar-se no areal da História
a voz do gandu
na nossa memória...

Somos a mestiçagem de um deus que quis mostrar
ao universo a nossa cor tisnada
resistimos à voragem do tempo
aos apelos do nada

continuaremos a plantar café cacau
e a comer por gosto fruta-pão
filhos do sol e do mato
arrancados à dor da escravidão

Olinda Beja


Flor de São Tomé e Príncipe


Maria Olinda Beja Martins Assunção é uma escritora lusófona. Nasceu em São Tomé e Príncipe, em 1946. Veio para Portugal, trazida pelo pai, aos três anos. Quando em 1985, ao regressar a São Tomé e Príncipe, se depara com a paisagem luxuriante e paradisíaca, um povo tão alegre e acolhedor e a família materna à sua espera, Olinda Beja decidiu, através dos livros que vai escrevendo, divulgar o seu país e o seu povo – o seu povo materno. Foi ali que nasceram e viveram os avós dos seus avós. É ali a sua mátria. Ali estão as suas raízes, a sua placenta.
Hoje Olinda Beja divide o seu tempo entre os dois países e continua a preservar a casa materna, em Batepá, onde se inspira sempre que está sentada na varanda de onde um dia partiu…
Ver mais aqui




MORNA
Autoria de B.Léza

"Lua nha testemunha"
Ana Moura e António Zambujo
LINDOS!

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Bô ka ta pensâ
Nha kretxeu
Nen bô ka t'imajinâ,
O k'lonj di bó m ten sofridu.

Perguntâ
Lua na céu
Lua nha kompanhêra
Di solidão.

Lua vagabunda di ispasu
Ki ta konxê tud d'nha vida,
Nha disventura,
El ê k' ta konta-bu
Nha kretxeu
Tud k'um ten sofridu
Na ausênsia
Y na distância.

Mundu, bô ten roladu ku mi
Num jogu di kabra-céga,
Sempri ta persigi-m,
Pa kada volta ki mundu da
El ta traze-m un dor
Pa m txiga más pa Déus

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Desejo-vos uma boa semana, meus amigos.

Abraços.


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sexta-feira, 5 de julho de 2024

A Última Lua de Homem Grande

 Onde é que eu estou?,

pergunta à Lua.

O simples pronunciar já lhe dói impiedosamente. Está coberto de uma coagulação arrefecida e pastosa, sente uma pérola de suor a escorrer-lhe sob a gola direita, e seu fígado late como um vulcãozinho de estimação. A custo golfa um soluço de dor, tosse partindo todas as costelas, tendões e músculos, e resmunga com dificuldade:

_Deram-me um tiro

Pg 181





Ele, Amílcar, Homem Grande, como lhe chamavam, sabe que depois da sua morte persistiria a pergunta sem resposta cabal:

Quem matou Amílcar Cabral?

E Mãe Iva, no funeral, apenas o espírito. Não o corpo.
Pariu um filho para servir o mundo.

Líder do Partido denominado PAIGC, para a independência da Guiné e Cabo Verde não chegou a tomar o gosto a essa liberdade. Depois da sua morte a Guiné declarou unilateralmente a independência e Cabo Verde ascendeu a ela depois da Revolução de Abril de 1974, mais precisamente no dia 5 de Julho de 1975. Portanto, há 49 anos e lá festeja-se esta data.

Político, agrónomo, teórico marxista, chamado de "fazedor de utopias", mas também poeta.

Eis um dos seus poemas:


Quem é que não se lembra
Daquele grito que parecia trovão?!
– É que ontem
Soltei meu grito de revolta.
Meu grito de revolta ecoou pelos vales mais 
longínquos da Terra,
Atravessou os mares e os oceanos,
Transpôs os Himalaias de todo o Mundo,
Não respeitou fronteiras
E fez vibrar meu peito…

Meu grito de revolta fez vibrar os peitos de 
todos os Homens,
Confraternizou todos os Homens
E transformou a Vida…

… Ah! O meu grito de revolta que percorreu 
o Mundo,
Que não transpôs o Mundo,
O Mundo que sou eu!

Ah! O meu grito de revolta que feneceu 
lá longe,
Muito longe,
Na minha garganta!

Na garganta de todos os Homens





Cabo Verde - Mornas

Cerca de 19 minutos de música belíssima. 
Compositor: o grande B.Léza, Francisco Xavier da Cruz.

***

NOTA:

No dia 25 de Maio passado comemorou-se o Dia de África.
Durante o mês de Julho trarei alguns temas relacionados com 
o continente africano, como referi ainda no mês de Maio,
antes de ir de férias.

Abraços
Olinda

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"A última Lua de Homem Grande"
de Mário Lúcio Sousa.

Poema - “Emergência da poesia em Amílcar Cabral” (30 poemas)..
 [recolhidos e organizados por Oswaldo Osório]. Colecção Dragoeiro. 
Praia: Edição Grafedito, 1983. daqui