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quinta-feira, 7 de março de 2024

Dia da Mulher



Todos os dias é a luta pela sobrevivência, a fuga aos maus tratos, à violência, às violações e, muitas vezes, à morte. Fuga nem sempre conseguida. Umas sem recursos, sem-abrigo, outras empregadas domésticas, empregadas fabris, empregadas de escritório, seja qual for a ocupação, o mesmo descaso, quase desprezo, o assédio, parece que ainda não encontrámos o nosso lugar no mundo. Em todo lado é a mesma coisa, com mais ou menos sofisticação, pois existe o tormento moral de mulheres que, mesmo com posses, continuam a ser vítimas.

Não desdenho deste dia 8 de Março, que nos é dedicado. Digamos que é um dia em que talvez tenhamos a oportunidade de todos falarmos do mesmo, embora saibamos que essa comemoração poderá ser vazia de conteúdo. Sabemos que a História da Mulher é prenhe em martírios e desconsiderações, mas também sabemos que muita coisa mudou com o passar dos tempos. 





Mulher

A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher»






Na realidade, há uma maior visibilidade em relação à situação das mulheres. Aquando da Implantação da República as mulheres poucos ou nenhuns direitos detinham. De referir, por exemplo, o sufrágio feminino alvo de muitos debates e restrições, sendo o analfabetismo um óbice. As mulheres com curso superior e chefes de família foram consideradas aptas. Carolina Beatriz Ângelo estava nessas condições e foi a primeira mulher a votar em Portugal, mas teve de reclamar para o conseguir. 

A Revolução de Abril de 1974 veio abrir as portas à Mulher como Cidadã de pleno direito, abolindo através de legislação um sem-número de proibições descabidas, nomeadamente, a dependência total da autoridade do marido em todas as circunstâncias, até de não ter o direito de os seus bens estarem em seu nome (o caso da minha mãe, por exemplo). Veja aqui, aqui, aqui algumas dessas bizarrias.

Mas não há legislação que suporte a mudança de mentalidade. Esta não muda por decreto. Por isso, continuamos a assistir a esse sofrimento de que falo no primeiro parágrafo. O feminicídio, em contexto de violência doméstica, é um facto em Portugal.

Há ainda muito caminho para palmilhar.




***

Feliz Dia da Mulher.


Abraços

Olinda




====


Veja mais sobre a Mulher

aquiaqui, aqui, no Xaile de Seda.

Talvez apareçam repetidos alguns

posts ou faltem alguns nesta

pesquisa.

Poema: daqui

domingo, 11 de março de 2012

Mulher


Um poema que a Lili Laranjo postou no seu blog no dia 8 e que teve a amabilidade de trazer até ao XailedeSeda:

Dia da Mulher

Mulher que foi criança...
Mulher que foi menina...
E que rápidamente cresceu...
E quando cresceu...
Tornou-se mulher...
E aí o ser que é...
Mulher... Mulher...
Mulher... Mãe...
Mulher... Avó...
Mulher... Gente...
Porque ser Mulher...
É canalizar tudo...
Tudo e todos...
E tudo gira em seu redor
E quase sempre...
Julga-se insubstituível...
No trabalho... na organização...
Na estrutura do lar...
E a Mulher... esquece-se tantas vezes...
Que também é gente...
Que precisa de ser ela própria...
De viver...
De gostar de si...
E quando consegue...
Que isto aconteça...
Ela é verdadeiramente... Mulher!...

Lili Laranjo
Stuart Carvalhais - mulher à chuva

Imagem:Google

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A Lenda do homem chamado Namarasotha - Moçambique


Havia um homem que se chamava Namarasotha. Era pobre e andava sempre vestido com farrapos. Um dia foi à caça. Ao chegar ao mato, encontrou uma impala morta. Quando se preparava para assar a carne do animal apareceu um passarinho que lhe disse:
- Namarasotha, não se deve comer essa carne. Continua até mais adiante que o que é bom estará lá.
O homem deixou a carne e continuou a caminhar. Um pouco mais adiante encontrou uma gazela morta. Tentava, novamente, assar a carne quando surgiu um outro passarinho que lhe disse:
- Namarasotha, não se deve comer essa carne. Vai sempre andando que encontrarás coisa melhor do que isso.
Ele obedeceu e continuou a andar até que viu uma casa junto ao caminho. Parou e uma mulher que estava junto da casa chamou-o, mas ele teve medo de se aproximar pois estava muito esfarrapado.
- Chega aqui!, insistiu a mulher.
Namarasotha aproximou-se então.
- Entra, disse ela.
Ele não queria entrar porque era pobre. Mas a mulher insistiu e Namarasotha entrou, finalmente.
- Vai te lavar e veste estas roupas, disse a mulher.
E ele lavou-se e vestiu as calças novas. Em seguida, a mulher declarou:
- A partir deste momento esta casa é tua. Tu és o meu marido e passas a ser tu a mandar.
E Namarasotha ficou, deixando de ser pobre.
Um certo dia havia uma festa a que tinham de ir. Antes de partirem para a festa, a mulher disse a Namarasotha:
- Na festa a que vamos quando dançares não deverás virar-te para trás.
Namarasotha concordou e lá foram os dois. Na festa bebeu muita cerveja de farinha de mandioca e embriagou-se. Começou a dançar ao ritmo do batuque. A certa altura a música tornou-se tão animada que ele acabou por se virar.
E no momento em que se virou, ficou como estava antes de chegar à casa da mulher: pobre e esfarrapado.
NOTA:
Todo o homem adulto deve casar-se com uma mulher de outra linhagem. Só assim é respeitado como homem e tido como «bem vestido». O adulto sem mulher é «esfarrapado e pobre». A verdadeira riqueza para um homem é a esposa, os filhos e o lar. Os animais que Namarasotha encontrou mortos simbolizam mulheres casadas e se comesse dessa carne estaria a cometer adultério. Os passarinhos representam os mais velhos, que o aconselham a casar com uma mulher livre. Nas sociedades matrilineares do Norte de Moçambique (donde provém este conto), são os homens que se integram nos espaços familiares das esposas. Nestas sociedades, o chefe de cada um destes espaços é o tio materno da esposa. O homem casado tem de sujeitar-se às normas e regras que este traça. Se se revolta e impõe as suas, perde o seu estatuto de marido e é expulso, ficando cada cônjuge com o que levou para o lar. Cumprindo sempre o que os passarinhos lhe iam dizendo durante a sua viagem em busca de «riqueza», Namarasotha acabou por encontrá-la: casou com uma mulher livre e obteve um lar. Mas por não ter seguido o conselho da mulher, perdeu o estatuto dignificante de homem adulto e casado.
Texto retirado de
AQUI


Imagem:Internet

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Dos Direitos da Mulher e da Cidadã

Os jovens do baby boom, a explosão demográfica que se seguiu à segunda grande guerra, são os velhos de hoje*. Passaram por grandes mudanças culturais e sociais. Foram eles que, no nosso caso, andaram na guerra colonial e que, também, fizeram acontecer a Revolução de Abril. A eles devemos o dia que hoje vivemos, com a possibilidade de nos expressarmos livremente e de tomarmos decisões importantes para as nossas vidas. Contudo, há que ter em conta que a nossa liberdade termina onde começa a liberdade do outro. Isto já é quase um lugar-comum, muitas vezes só de boca, como diz o povo.

Hoje, pretendo apenas referir a situação da Mulher neste mundo que consideramos livre. Há uma violência contra ela que não abranda, chegando a extremos irreversíveis. E enquanto não lançarmos campanhas de mudança de mentalidade não vamos lá com decretos. Há uma falha civilizacional que persiste e não tem sido por falta de referências e de entrega em relação a pessoas que até com a própria vida têm tentado ao longo da História fazer valer princípios que deveriam ser ingénitos.  




Dito isto, chego ao que aqui me traz hoje. Neste dia de comemorações, Dia da Liberdade, assinalo uma voz que emerge do Sec. XVIII. Uma voz de mulher que em plena Revolução Francesa, 1789, pugna pelos direitos da Mulher. Nada de admirar, dir-se-á. Não se trata da revolução que nos conduz à divisa Liberté, Égalite, Fraternité? Com efeito, uma revolução que, logo nos primeiros dias, produzira a Declaração tida como das mais inspiradoras no que aos direitos do homem diz respeito. Mas é precisamente nesse aspecto que falha: deixa de fora a Mulher que continuava sem direito ao voto, de acesso a instituições públicas, liberdade profissional, sem direitos de propriedade, entre outros. 

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, tantas vezes citada e louvada, é, assim,  posta em causa por Olympe de Gouges, nascida Marie Gouze. Sobre o modelo da referida Declaração produzira uma outra a que dera o nome de Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, de 1791, dirigida à Rainha, Maria Antonieta, com o objectivo de que fosse aceite e aprovada pela Convenção Nacional, com as alterações devidas, frisando que a "Mulher nasce livre e permanece igual ao homem em direitos".

Olympe de Gouges fora ostracizada, guilhotinada e esquecida pela gerações seguintes até que em 1986 a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, 1791, foi publicada por Benoîte Groult e:

Em 6 de março de 2004, em Paris, uma praça foi denominada como Place Olympe de Gouges. (...)Em 2007, a candidata presidencial francesa, Ségolène Royal expressou o desejo de que os restos mortais de Gouges fossem movidos para o Panteão. No entanto, seus restos, como os das outras vítimas do regime de terror, foram perdidos através do sepultamento em covas comuns.


HOJE E SEMPRE, HONREMOS OS NOSSOS MORTOS E SEJAMOS DIGNOS DO SEU LEGADO.

ABRAÇO.

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Veja este post, de 29/04/2018, do blog Entre as Brumas da Memórias:




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*em grande parte.

Leia:
A declaração e contrato social

Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã

Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A mulher em Portugal



Segundo consta, hoje é o dia das donas de casa. Não vou tecer quaisquer considerações sobre esta condição da mulher porquanto todos nós sabemos o que tem sido ao longo dos tempos. Mas, não resisto: depois da mulher lutar pela sua liberdade no trabalho, por um salário compatível e outros direitos vê-se que, ao fim e ao cabo, apesar de ter alcançado algumas vitórias ela, a mulher, vê essas conquistas virarem-se um pouco contra si própria. Trabalha fora para acorrer às despesas conjuntas e trabalha em casa, com todos os seus deveres, e nem sempre lhe é permitido ter uma carreira de sucesso. Não só a própria sociedade a policia como em termos domésticos raramente lhe é reconhecido esse direito.



Trago-vos o resultado de uma pesquisa muito interessante que tem em vista a situação da mulher vertida em legislação, que foi sendo produzida ao longo dos tempos. Trata-se de 2 volumes datados, do Sec. XII ao Sec. XXI (1112 a 2014), com este título e subtítulo: A mulher em Portugal - Alguns aspetos do evoluir da situação feminina na legislação nacional e comunitária.* A apresentação, logo no seu início, presenteia-nos com esta citação:

"Quando os Direitos Humanos das Mulheres são violados
e a sua participação na sociedade limitada,
é a humanidade no seu conjunto que é questionada,
é o tecido social que é destruído”.

Denise Fuchs, Presidente do 

Façam esta viagem. Passem os olhos pelos elementos compilados e vejam como de 1112 a 1499 só vemos referências ao papel desempenhado por rainhas e princesas. A partir de 1518 vemos alargar-se esse universo quando num mesmo documento lemos: "princesas, damas da corte e molheres de condição inferior". Em 1521 nas Ordenações Manuelinas, aparecem a "molher" e as "molheres" em vários pontos, para o bem ou para o mal. E assim por diante, passando pelas grandes transformações a partir de 1910 (implantação da República) que o Estado Novo volta a menorizar. Da Revolução de Abril de 1974 renasce para a mulher portuguesa o sentido de dignidade e reclama para si o direito à autodeterminação. A viagem não termina aqui, continua ainda.  

Este é um documento que é uma ferramenta de trabalho inestimável. Quem quiser pegar num ou outro ponto poderá partir para grandes descobertas.

Boa leitura!

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*A mulher em Portugal - Alguns aspetos do evoluir da situação feminina na legislação nacional e comunitária. Volume I e Volume II
Direcção-Geral da Segurança Social - Núcleo de Documentação e Divulgação

Imagens: Pixabay

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Trapos (ii)

(...)
O velho da hemorragia baixou a cabeça. Na posição em que se encontrava, o sangue que escorria do nariz entrava directamente entre a camisa e a pele, descia pelo peito e começava a alojar-se na parte posterior das calças, tingindo de vermelho o assento do banco. Voltou a procurar o lenço no bolso, limpou-se e ficou com ele a pressionar o local da ferida. Ao ver que o olhavam fixamente, disse, sem que lhe tivessem perguntado nada:

— Caí!
Ninguém respondeu.



— Podias ter-te sentado — disse o outro homem à esposa. — Ainda vamos ter muito que esperar.

A mulher, alta, esguia, evidenciando traços que permitiam avaliar ter sido na juventude muito bonita, vestia apenas uma bata sem mangas, com minúsculas florinhas estampadas, e calçava umas sandálias baixas de palha entrançada.

Aproximou-se mais do marido e falou-lhe baixo, perto do ouvido:
— Vê se te calas. Esse homem está pior que eu.
— Aqui ninguém está pior — resmungou o marido.
— Cala-te, homem, que Deus pode-te castigar.
— Deus?! Ora!, Deus...

A mulher deitou-lhe um olhar frio e o homem ficou calado durante uns segundos. Depois, voltou a resmungar alguma coisa imperceptível e saiu de ao pé dela para se encostar à parede branca, do outro lado do corredor, exactamente entre o fim do banco ocupadíssimo e a porta fechada de um dos gabinetes.
De vez em quando uma das portas abria-se, dando passagem a pessoal médico que transitava apressado no corredor, deixando atrás de si o chiar abafado das solas dos sapatos no piso sintético, para entrar noutras portas que se fechavam de seguida.
Uma enfermeira de meia-idade saiu do elevador e, saltitando, dirigiu-se à porta junto da qual o homem se encontrava.

— É uma vergonha — disse-lhe o homem, como se se dirigisse a um holograma.
— O quê?! — perguntou a enfermeira, apanhada de surpresa.
— Que estejamos todos aqui a morrer, e ninguém nos atenda!

A enfermeira não lhe respondeu; já estava habituada às reclamações. Abriu a porta com a sua mãozinha branca e pequena, entrou, vestida de anjo imaculado, e voltou a fechá-la. Quando o estalido da língua a correr na fechadura deixou de se escutar no silêncio quase absoluto do corredor, a mulher foi colocar-se ao pé dele e voltou a repreendê-lo em voz baixa:

— Não tinhas o direito. A senhora está a entrar ao serviço e nem sequer sabe o que se passa...
— Ora — disse o homem, gesticulando. — Estamos para aqui a morrer e ninguém nos atende...
— Como!? — exclamou a mulher, embora tivesse escutado perfeitamente as palavras do marido.
— Disse que estamos todos para aqui a morrer e que ninguém nos dá atenção...

A princípio, a mulher ficou calada. Depois, num ímpeto, respondeu-lhe com rispidez:
— Para o caso de tu ainda o não saberes, a doente, aqui, sou eu. E não me ouves lastimar.
— Não se falando, está-se aqui todo o dia. Morre-se para aí a um canto, como um desgraçado dum cão.
— Se alguém aqui está a morrer, não és tu— disse-lhe a mulher já visivelmente alterada com a impaciência do marido.

O homem respondeu-lhe nos mesmos modos:
— Aos oitenta anos, não são só os doentes que morrem. Cada minuto que aqui passo, à espera que te atendam, é um pedaço de vida que me tiram. Achas que isso não é morrer?!...
A mulher escolheu calar-se.

"Trapos" - Conto de José Abílio Coelho

Continua...

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Imagem: daqui


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Trapos (iv)

Do fundo do corredor chegou outra maca, empurrada por dois bombeiros. Atrás dela, uma mulher ainda jovem chorava num aflitivo silêncio. A esposa do homem desviou-se ligeiramente do local onde se encontrava para deixar passar a maca.

— É uma criança — disse ao marido quando regressou ao lugar.
— E isto não anda nem desanda — respondeu-lhe o homem.
— Sossega, por favor.
— Olha-me as horas que são!
A mulher fez um sorriso triste.
— As horas são uma invenção dos homens.
— E o deixa-andar é a desculpa dos tolos.

Calou-se, arrependido do que dissera. Observou a criança, serenamente acomodada na maca desproporcional ao seu tamanho, e pensou que nunca puderam ter filhos. «Se os tivéssemos, tudo era diferente. Mas agora não vale a pena pensar nisso. Podia era ter trazido um jornal...»

O doente que estava sentado na ponta do banco, ao pé do homem, levantou-se e perguntou:

— Onde será a casa de banho?
— Ao fundo do corredor, à direita — responderam.
O homem sentou-se no lugar deixado vago. Era gordo, e quase não cabia no espaço. Nessa altura, a porta de um dos gabinetes abriu-se e a voz da enfermeira chamou alto:
— Alexandre José.

Quando o doente que acabara de ser chamado se levantou, levando nas mãos a ficha amarela, o homem aproveitou o espaço e, deixando de sentir resistência da senhora que estava a seu lado, puxou a esposa por um braço e obrigou-a a sentar-se. Falou-lhe de passagem na mulher doente que estava na sala de nebulizações, mas nada lhe disse sobre o pedido que esta lhe fizera.
Uma das portas do corredor, que não aquela por onde já haviam entrado três doentes, abriu-se e os bombeiros empurraram a maca que tinha chegado há pouco, com a criança. Doentes de outras macas que já ali se encontravam quando chegaram, mantinham-se estranhamente calados.


— Nunca mais chega a nossa vez — voltou a resmungar o homem.
— Tem calma — disse-lhe a esposa. — Há pessoas mais necessitadas de assistência do que eu.
— Estamos aqui a sofrer e isto não anda. Um pobre muito sofre!
— Aqui somos todos pobres.
— Parece-te, mas não somos. Alguns têm mais sorte.
— Todos pobres — repetiu a mulher. — Os ricos não vêm aqui e, mesmo que viessem, sem saúde, eram iguais a nós. Quem está doente é pobre.
— Os que já entraram são ricos...

O rosto da mulher apresentava agora um estranho cansaço, estava pálido e baço.

Estou doente e muito cansada. E essa tua insatisfação ainda me está a pôr pior. Vê se te calas!


"Trapos" - Conto de José Abílio Coelho
Continua...

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Meus amigos

Surgiram-me alguns compromissos inadiáveis que me fizeram abrandar a leitura, aqui, deste Conto.

Desde o início que a figura da mulher me chamou a atenção. Sempre pronta a desculpar os outros, procurando compreender a situação, esquecendo-se até de si própria. Até parece que parte dos seus males advém da maneira de ser do marido.

Ela faz-me lembrar alguém que eu conheço e por isso mesmo questiono-me: Tratar-se-á de uma bondade intrínseca que põe acima dos seus interesses os dos outros? Será receio de encarar os problemas de frente? Ou uma maneira de contrabalançar, quase inconscientemente, a verborreia do marido, adoptando uma atitude cordata e apagada?

Ciente de que na vida tudo tem de ser bem doseado, reconheço também a nossa complexidade como seres humanos.

Aguardando as vossas palavras, desejo a todos uma óptima sexta-feira.

Abraço.
:)

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Imagem: daqui


sábado, 30 de outubro de 2021

Paulina Chiziane - Prémio Camões 2021

Congratulei-me com a escolha de Paulina Chiziane para a atribuição do Prémio Camões deste ano. Em 2019 publicara no Xaile de Seda excertos de Balada de amor ao Vento. Vejo com agrado que foi uma das obras apontadas, para além de "Niketche" que também referi na altura.

Aproveito para transcrever o teor do texto que então produzi, sendo o título retirado de uma das passagens do livro, assinalando precisamente a poligamia, e com isso a humilhação da mulher no contexto africano. Há quem aceite com uma certa bonomia essa condição em determinados espaços, como sendo cultural. Não há dúvida de que há quem não concorde com isso. 

E a autora, Paulina Chiziane, demonstra-o não só na sua obra como também no Testemunho: "Eu Mulher...por uma nova visão do mundo", cujo link indico abaixo.


Recordemos, pois, a minha publicação de 11/04/2019, sobre Paulina Chiziane e Balada de amor ao Vento:


 

"...agora somos sete...


PAULINA CHIZIANE, escritora moçambicana, diz-se contadora de histórias e não romancista: Escrevo livros com muitas estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte.Essas suas palavras fazem-me lembrar a arte de contar a vida passada, os mitos e as lendas, que os mais velhos (os griots) transmitiam ou transmitem, ainda, aos jovens. A oratura - outra designação que tem vindo a fazer escola.

Balada de amor ao Vento é o primeiro livro de Paulina Chiziane, publicado em 1990 e, tal como o nome indica, trata-se de uma história de amor, antes de mais. O primeiro capítulo começa já numa toada lírica envolvente, em que a saudade, as recordações num tom sofrido nos dão a medida do valor sentimental desta narrativa. Ali, toda a natureza é chamada: as árvores, as ervas, as plantas, as flores, os bichos e, especificamente, o Save. Este atravessa o livro, quase testemunhando as ilusões e desilusões de Sarnau no seu amor por Mwando.

Tenho saudades do meu Save, das águas azul-esverdeadas do seu rio. Tenho saudades do verde canavial balançando ao vento, dos campos de mil cores em harmonia, das mangueiras, dos cajueiros e palmares sem fim. Quem me dera voltar aos matagais da minha infância, galgar as árvores centenárias como os gala-galas e comer frutas silvestres na frescura e na liberdade da planície verde. Estou envelhecida e sinto a aproximação do fim da minha jornada,(...)

Essa caminhada inicia-se quando Sarnau avista Mwando e sente-se presa àquele amor, irremediavelmente. Dá-se o encontro: as mãos encontram-se, veio o abraço tímido. Trocámos odores, trocámos sabores, empreendemos a primeira viagem celestial nas asas das borboletas. Mas cedo, vem a desilusão. Mwando casa-se com outra mulher por imposição familiar, diz ele.

E ela, Sarnau, descoroçoada, aceita casar com o filho do rei, recebendo a família o lobolo de 36 vacas. Depressa constata que existem mais seis mulheres além dela: agora somos sete...

Abri com violência a porta do meu quarto. Meu marido está ao lado de outra mulher mesmo na minha cama, sorriem, suspiram envoltos nas minhas capulanas novas, meu Deus, eu sou cadáver, abre-te terra, engole-me num só trago. Caminhei vencida para a fogueira e aqueci o banho deles...

Capulanas - património cultural moçambicano

Paulina Chiziane, denuncia, neste seu primeiro romance, a poligamia e a condição de subalternidade e humilhação da mulher. Fá-lo-á também em "Niketche - uma história de poligamia", publicado em 2002.

Queira ler, aqui, fazendo download, o seu Testemunho - EU, MULHER...POR UMA NOVA VISÃO DO MUNDO.

Um texto inspirador."


(Publicado no Xaile de Seda a 11/04/2019 - aqui )


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Leia sobre Paulina Chiziane e o Prémio Camões aqui
Foto - de aqui
Imagem: capulanas

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

CANDELABRO DE ESTRELAS



Quantas saudades eu tenho

daquele teu olhar criança

que passava as noites

a olhar pela janela

buscando o brilho do amor

no universo da solidão


Saudades da mulher criança

que sorria com anseio quase infantil

tentando colher estrelas

no manto negro da amplidão


Lembro-me da mulher criança

que hoje não existe mais

Lembro da mulher criança

que em ti via escondida

e de mim sempre fugia

como a onda que volta pro mar

 

Lembro do seu sorriso doce

enfeitado de cor e perfume

parecia-se com a rubra pétala

da mais bela e exuberante flor

 

Hoje está mais madura

uma deslumbrante mulher

somente as pegadas na areia

esqueceste de apagar

quando por lá estiveste

a brincar com as espumas da ilusão

 

Hoje caminha altiva e soberana

coberta pelo manto negro da escuridão

a mulher criança se foi

 acolhida pela espuma brilhante da solidão


Sigo suas pegadas inocentes

acolho-te junto ao meu coração

e sob o véu escuro da noite

estendo as mãos para o firmamento

acendo o candelabro de estrelas

que ilumina nossos corpos maduros

sedentos de amor e paixão

 

O olhar da mulher criança

renasce como a fênix

para uma nova etapa da vida

Sem medos ou receios

abandonamos a espuma da solidão

e nos entregamos à doce paixão

cobertos pelo manto de estrelas

a grande testemunha do nosso

voraz encontro de amor

Gracita

Qual Fénix renascida pelo fogo do amor, para uma nova etapa da vida, sem receios ou medos, abandonando a espuma da solidão.
E Jorge Vercillo também nos encaminha na descoberta dessa constelação, desse radiante "Candelabro de Estrelas":

Céus, conheci os céus 
pelos olhos seus...
 


Centelha divina
Renasceu das Cinzas
Onde foi ruína
Pássaro ferido
Hoje é Paraíso
Luz da minha vida
Pedra de alquimia
Tudo o que eu queria
...

Blog da Autora - Sonhos e poesia

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Quinzena do Amor
Post 1 - Doe seu Tudo; Post 2 - Sobre o Amor;
Post 3 - Areais de Além-Mar; Post 4 - Meu Amor
Post 5 - Para ti; Post 6 - Como invenção minha
Post 7 - Amor grande; Post 8 - Certezas;
Post 9 - Poema para a Amada; Post 10 - Preciosas Pérolas;
Post 11 - Ainda te Lembras?; Post 12 - Velejei em ti
Post 13 - Espera Amorosa

Imagem: Pixabay