Mostrar mensagens com a etiqueta Nuno Júdice. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nuno Júdice. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Carta (Esboço)





Lembro-me agora que tenho de marcar um 
encontro contigo, num sítio em que ambos 
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma 
das ocorrências da vida venha 
interferir no que temos para nos dizer. Muitas 
vezes me lembrei de que esse sítio podia 
ser, até, um lugar sem nada de especial, 
como um canto de café, em frente de um espelho 
que poderia servir de pretexto 
para reflectir a alma, a impressão da tarde, 
o último estertor do dia antes de nos despedirmos, 
quando é preciso encontrar uma fórmula que 
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É 
que o amor nem sempre é uma palavra de uso, 
aquela que permite a passagem à comunicação ; 
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale, 
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós 
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio 
ser, como se uma troca de almas fosse possível 
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e 
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas 
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde, 
isto é, a porta tinha-se fechado até outro 
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então 
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem 
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar 
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos 
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que 
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por 
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia 
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores 
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos 
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que 
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí 
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas, 
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo 
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros. 

Nuno Júdice, 

in “Poesia Reunida” 


Cartas de amor, quem as não tem? Actualmente, talvez já não se vejam cartas de papel escritas com caneta mas que as há, há. São mensagens aos milhares, em outros suportes. E as palavras? Penso que são as mesmas de sempre, com o colorido próprio dos tempos que correm.  






Nuno Manuel Gonçalves Júdice Glória (1949) é um ensaístapoeta, ficcionista e professor universitário português. A sua estreia literária deu-se com A Noção de Poema (1972). Em 1985 receberia o Prémio Pen Clube, o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus, em 1990. Em 1994 a Associação Portuguesa de Escritores, distinguiu-o pela publicação de Meditação sobre Ruínas, finalista do Prémio Europeu de Literatura Aristeion. Assinou ainda obras para teatro e traduziu autores como Corneille e Emily Dickinson. A sua obra inclui antologias, edições de crítica literária, estudos sobre Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa. Mantém uma colaboração regular na imprensa. Lançou, em 1993, a antologia sobre literatura portuguesa do século XX, Voyage dans un siècle de Littérature Portugaise. Ler mais aqui





====

Poema: Citador
1ª Imagem: daqui
2ª imagem: daqui

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Reencontro

Depois de tantos dias de ausência trago uma carta de Nuno Júdice para marcar um encontro convosco. Nas palavras do poeta um encontro poderá ser em qualquer sítio, a qualquer hora, talvez privilegiando o silêncio ou então dizendo alguma coisa mesmo que não se diga tudo, ou ainda apenas o gesto, a boa vontade, a disponibilidade, num nascer do nascer ou pôr-do-sol, à beira-mar,

Laginha - São Vicente

Carta (esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida” 

Estrada da Corda - Delgadim - Santo Antão

ou mesmo aqui tão perto do céu, na dobra do caminho em que a mão de Deus nos toca de perto e nos sentimos tão pequenos, em sentido, em estado de pura meditação despindo-nos de vaidades. E então reparo, também, que poderá ser nas dobras deste Xaile o nosso reencontro.

Desejo-vos uma boa quinta-feira. Está frio mas, em compensação, está Sol.

Abraço.

=====
Poema: retirado do Citador 
As fotos são do pessoal cá de casa, tiradas na nossa ida a Cabo Verde.

domingo, 23 de outubro de 2016

É isto o amor






Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

in 'Pedro, Lembrando Inês'

Assim falou o Poeta. E muito bem.

Votos de um dia agradável a todos os que por aqui passarem.

Abraço.

====

Poema:Citador
Imagem: Pixabay 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A origem do mundo

A primeira vez que li um poema de Nuno Júdice foi no blogue da minha amiga Isabel, Luz de África. Fiquei tão apaixonada pela sua maneira de escrever que o li várias vezes e trouxe-o comigo. O título do poema: Metamorfose. Tornei-me numa admiradora fervorosa do poeta.

O poema que hoje aqui trago, A origem do mundo, não poderia vir mais a propósito para o tema mundo, aqui em vigor por estes dias e, não há dúvida, Nuno Júdice sabe destas coisas. O nascer do dia, a alvorada e a estrela d' alva a anunciarem um novo dia, o cheirinho de ervas molhadas pelo orvalho, a terra macia a convidar-nos acordar para a vida, tornando-se as nossas raízes mais resistentes às intempéries que, porventura, nos balancem.

Tomemos uma chávena de café na companhia do poeta e apreciemos todo o manancial de luz que as suas palavras nos transmite: 


A origem do mundo

De manhã, apanho as ervas do quintal. A terra, 
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com 
a névoa da madrugada. O mundo, então, 
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está 
por baixo da terra; e as raízes sobem 
numa direcção invisível. De dentro 
de casa, porém, um cheiro a café chama 
por mim: como se alguém me dissesse 
que é preciso acordar, uma segunda vez, 
para que as raízes cresçam por dentro da 
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul.


Nuno Júdice, in Meditação sobre Ruínas


E eu que sou uma criatura matinal, vejo que o Sol entra pelas frinchas do estore da minha janela, avisando-me que se faz tarde, porque é que hoje me deixei ficar, que lá fora está estuante de vida, bora tomar o café,  o pequeno-almoço, o petit déjeuner, o mata-bicho, o breakfast, o café da manhã, onde quer que eu esteja agora, não interessa...  


Poema de Nuno Júdice retirado do Citador
Imagem da chávena de café retirada da Internet
Foto janela: minha